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AS COLÔNIAS DE FORMIGAS SÃO CONSCIENTES? 
MENTES COLETIVAS E IMPLICAÇÕES FILOSÓFICAS 
 
ARE ANT COLONIES CONSCIOUS?  
COLLECTIVE MINDS AND PHILOSOPHICAL IMPLICATIONS

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Comitê Editorial 
 
 
André Leclerc 
Universidade de Brasília 
 
 
Daniel De Luca Noronha 
Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia 
 
 
Eros Moreira de Carvalho 
Universidade Federal do Rio Grande do Sul e bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq 
 
 
Giovanni Rolla 
Universidade Federal da Bahia 
 
 
Gustavo Leal Toledo 
Universidade Federal de São João del-Rei 
 
 
Marco Aurélio Sousa Alves 
Universidade Federal de São João del-Rei 
 
 
Osvaldo Frota Pessoa Junior 
Universidade de São Paulo 
 
 
Raquel Albieri Krempel 
Universidade Federal do ABC 
 
 
Rodrigo Azevedo dos Santos Gouvêa 
Universidade Federal do Rio de Janeiro 
 
 
Sérgio Farias de Souza Filho 
Universidade Federal Rural de Pernambuco

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AS COLÔNIAS DE FORMIGAS SÃO CONSCIENTES? 
MENTES COLETIVAS E IMPLICAÇÕES FILOSÓFICAS 
 
ARE ANT COLONIES CONSCIOUS?  
COLLECTIVE MINDS AND PHILOSOPHICAL IMPLICATIONS 
 
 
 
Organizadores 
Anderson Fonseca 
Luiz Paulo Da Cas Cichoski

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Diagramação:  Marcelo Alves 
Capa:  Gabrielle do Carmo 
Revisão:  Ana Luisa Lima Grein 
 
 
 
 
 
 
A Editora Fi segue orientação da política de 
distribuição e compartilhamento da Creative Commons 
Atribuição-CompartilhaIgual 4.0 Internacional 
https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/deed.pt_BR 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) 
 
 
C719 
As colônias de formigas são conscientes?: Mentes coletivas e 
implicações filosóficas [recurso eletrônico] / Anderson 
Fonseca e Luiz Paulo Da Cas Cichoski (org.). – Cachoeirinha : 
Fi, 2025. 
 
335p. 
 
 
Contém textos em inglês. 
 
ISBN 978-65-5272-128-0 
DOI 10.22350/9786552721280 
Disponível em: http://www.editorafi.org 
 
1. Filosofia – Mentes coletivas. I. Fonseca, Anderson. II. Cichoski, 
Luiz Paulo Da Cas. 
CDU 130.2 
Catalogação na publicação: Mônica Ballejo Canto – CRB 10/1023 
O padrão ortográfico e o sistema de citações e referências 
bibliográficas são prerrogativas de cada autor. Da mesma 
forma, o conteúdo de cada capítulo é de inteira e 
exclusiva responsabilidade de seu respectivo autor.

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SUMÁRIO 
 
Prefácio 
7 
João de Fernandes Teixeira  
 
Apresentação 
9 
Anderson Fonseca 
Luiz Paulo Cichoski 
1 
19 
É a colônia de formigas um organismo consciente?  
Anderson Luiz do Vale Fonseca 
2 
53 
What is it like to be an ant colony?  
Luke Roelofs 
3 
87 
Towards a science of consciousness and social complexity … for ants 
Maria Luiza Iennaco 
Daniel Friedman 
4 
115 
A memória imunológica composta por formigas 
Aryel C. Goes 
5 
147 
Memória coletiva e consciência coletiva são fenômenos científicos?  
José Carlos Camillo 
6 
175 
Ontologia social para insetos eussociais 
Valdenor Monteiro Brito Júnior 
7 
211 
Como ser realista sobre mente de grupos?  
Luiz Paulo Da Cas Cichoski

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8 
261 
Mentes de grupos e tipos naturais 
Robert Rupert 
9 
309 
Introspecção em mentes de grupos, desunião da consciência e pessoas indiscretas  
Eric Schwitzgebel 
Sophie R. Nelson

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PREFÁCIO 
João de Fernandes Teixeira 1 
Prefaciar um livro que tem como tema central a existência de 
mentes coletivas é uma tarefa desafiadora. Essa é, contudo, a proposta 
de seus organizadores que conseguiram atrair um punhado de 
pesquisadores altamente qualificados para discutir esse problema nos 
mais variados aspectos. 
A tentação de comparar sociedades humanas a formigueiros é uma 
metáfora recorrente. Tudo se passa como se minúsculos cérebros 
estivessem reunidos num cérebro maior. A metáfora aparece num dos 
livros de Daniel Dennett (Brainstorms, 1978) na qual ele alude à ideia de 
que a inteligência surge a partir de uma multiplicidade de elementos 
que não são inteligentes. É relativamente fácil validar essa metáfora 
para o cérebro humano. Não há neurônios inteligentes, mas sua conexão 
tem como resultado padrões de comportamento inteligente. Mas, para 
pensar dessa maneira, temos de lançar mão da ideia controversa de 
propriedade emergente, que ainda encontra muita resistência na 
filosofia da mente. 
O próprio Dennett parece ter mudado de ideia sobre esse tema. 
Numa discussão com Chalmers ele argumenta que não faz sentido usar 
o termo “saúde” como um conceito suplementar ao fato de que todos os 
órgãos de um ser vivo estão em funcionamento. Quem não reconheceria, 
nessas críticas, a herança de Gilbert Ryle, de quem Dennett foi discípulo. 
Numa passagem clássica da literatura sobre filosofia da mente, Ryle leva 
a passear um amigo na Universidade de Oxford e, depois de avistar 
 
1 Professor aposentado da Universidade Federal de São Carlos

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8  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
vários prédios, esse amigo reclama, para sua surpresa que ele não tinha 
visto nenhuma universidade.  
Ned Block, um filósofo da geração de Dennett afirmou que se para 
cada habitante da China fosse fornecida uma bandeira e eles a 
brandissem simultaneamente a simulação de um cérebro poderia 
surgir. O argumento de Block só tangencia o problema abordado por 
Ryle e Dennett, que visavam desconstruir a ideia de propriedade 
emergente. Block queria atacar o funcionalismo, mas acaba fornecendo 
um ataque oblíquo à ideia de propriedade emergente.  
Esse é apenas o pano de fundo das discussões filosóficas envolvidas 
nos textos dos autores deste livro. Será que a ideia de mente coletiva 
exige a validação do conceito de propriedade emergente? E se esse 
conceito for validado e aplicado, o que aconteceria quando uma mente 
coletiva fosse decomposta? Como localizar, em cada formiga, as 
características que a permitem integrar a mente coletiva à qual ela 
pertence?

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APRESENTAÇÃO 
Anderson Fonseca 
Luiz Paulo Cichoski 
As formigas estão entre as formas de vida animal mais abundantes 
do planeta, alcançando a marca de 2.1016 a 1024 indivíduos, superando em 
número todo o conjunto de seres terrestres, incluindo o homem. 
Entretanto, seu aspecto mais fascinante está em seu comportamento 
social, o qual fundamenta a colônia. Podemos pensar as formigas e sua 
relação com as colônias que formam como a interação de minúsculos 
cérebros interagindo entre si formando um (macro)cérebro, como se 
fossem os neurônios de um cérebro espacialmente distribuído. A relação 
entre as formigas é coerente o suficiente para gerar um ‘corpo’ integrado 
com uma fronteira física definida – ainda que epistemicamente 
indeterminada. Essas características da colônia de formigas motivam um 
estudioso do problema da consciência a se perguntar se não seria ela uma 
entidade consciente. Esse ponto desafia nossa noção de consciência. Ora, 
se um sistema com corpos individuais espalhados, como uma colônia de 
formigas, pode ter algum tipo de mente unificada, então, certos coletivos 
formados por organismos com sistemas nervosos simples ou complexos 
podem produzir conjuntamente uma consciência.  
Este contexto nos leva à questão fulcral deste livro: É possível que 
coletivos tenham uma mente? Mais especificamente, a hipótese de que 
uma colônia de formigas seja uma entidade consciente é razoável? Se a 
resposta for positiva, quais seriam as implicações filosóficas? Talvez, 
uma delas seria a afirmação de que todo organismo formado pela 
reunião de microrganismos e células com um nível mediano de 
integração é um coletivo consciente. Nesse sentido, o ser humano seria

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10  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
um coletivo consciente. Outra implicação seria que grupos humanos, 
cidades, torcidas organizadas, ou, até mesmo certos países como os 
EUA, o Brasil e a China são conscientes. Pode-se a partir daí também 
afirmar que organizações de insetos eussociais, como abelhas e cupins, 
são conscientes, incluindo, quem sabe, bactérias e minúsculos animais 
marinhos coloniais. Até mesmo grupos formados por agentes de 
Inteligência Artificial poderiam compor uma mente coletiva consciente. 
Isso significa que coletivos de seres inteligentes são modelos gradativos 
de consciência e podem teoricamente contribuir para o entendimento 
de como se forma a mente do animal humano. Essa perspectiva mais 
biológica e naturalista se configura como um novo programa de 
pesquisa que expande a proposta das Ciências Cognitivas de que 
sistemas cognitivos são constituídos por estruturas distribuídas.  
A questão sobre a possibilidade de mentes coletivas, é claro, pode 
ser respondida por diferentes perspectivas: a visão reducionista, de que 
a consciência do todo pode ser explicada pela consciência das partes; ou, 
o ponto de vista estruturalista, de que a ordem como estão as partes 
determina a mente do todo; ou, a emergentista, de que a interação dos 
componentes produz uma mente acima e distinta do conjunto de 
membros; no entanto, cada perspectiva se fundamenta em uma 
definição própria de consciência. Há ainda a ideia negativa, de que 
nenhuma mente adicional seja produzida e o que consideramos ser um 
sistema cognitivo complexo, nada mais é do que um punhado de 
relações vazias de informação sofisticada. Mas analisar se uma colônia 
de formigas é um todo consciente nos coloca diante da ideia de que haja 
mentes fracionadas (i.e., que são a fração de um todo mental), mentes 
espalhadas, 
e, 
talvez, 
mentes 
intermediárias. 
Essas 
ideias, 
evidentemente, podem ser estranhas, porém, contribuem para a 
investigação dos mistérios da consciência.

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Anderson Fonseca; Luiz Paulo Cichoski  •  11 
Posto isto, ao olharmos para o minúsculo universo das formigas 
nos maravilhamos com a possibilidade de uma mente emergir de sua 
emaranhada teia de conexões e que estruturas similares possam 
também ser sistemas cognitivos. Por essa razão este livro foi organizado 
com o objetivo de reunir diferentes pontos de vista sobre esse tema, 
apresentando uma visão ampla e robusta das investigações sobre 
Consciência Coletiva. Grande parte das contribuições seguirá a questão 
central do livro, apresentando uma abordagem naturalista, 
biologicamente centrada, sobre Consciência Coletiva. No entanto, 
alguns dos textos trarão perspectivas mais tradicionais, focados mais 
nas experiências humanas, tendo, portanto, uma abordagem mais 
antropológica do que zoológica. O leitor também encontrará uma 
diversidade de posicionamentos sobre nossa questão central. Ainda que 
a maioria dos autores esboce simpatia pela tese da Consciência Coletiva, 
buscamos incluir vozes mais hesitantes e até mesmo contrárias a ela.  
O presente livro também pretende estabelecer a linha de estudo sobre 
a Consciência Coletiva no Brasil, área que investiga a possibilidade de 
grupos de indivíduos inteligentes constituírem mentes adicionais. A partir 
desta obra, esperamos estimular outros pesquisadores a investigarem essa 
linha de estudo. Nela, o leitor encontrará as seguintes contribuições: 
No primeiro artigo, Anderson Fonseca analisa a ideia de uma 
colônia de formigas ser uma entidade consciente, a partir da 
semelhança do comportamento das formigas com o padrão de interação 
dos neurônios do cérebro humano. O autor fundamenta sua tese na 
definição de Thomas Nagel da consciência como algo que é ser para um 
organismo a fim de verificar se a colônia poderia ser um sujeito 
experiencial. Dentro dessa ótica, a colônia de formigas, se considerada 
um organismo, poderia ser um sujeito apto a ter experiências internas. 
Por isso, neste artigo, Fonseca desenvolve com base no Pampsiquismo,

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12  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
critérios de análise da colônia, apresentando quais características ela 
deve atender para ser qualificada como consciente. Entretanto, o autor 
não defende que a colônia de formigas é um organismo genuíno, mas 
que, caso seja, terá algum tipo de experiência consciente. Assim, para 
tratar essa questão, Fonseca examina se a colônia é um indivíduo 
biológico, e, em seguida, se é possível que as mentes das formigas 
embasem a mente da colônia. Ao fim, ele conclui que, a partir do modo 
de interação das partes com o todo, pode haver mais de uma resolução 
para o problema, i.e., a consciência da colônia dependeria do modo como 
seus componentes estão física e fenomenalmente integrados. 
Em seu artigo, Luke Roelofs também examina a possibilidade de 
colônias de formigas serem dotadas de mentes conscientes, mas a partir 
da perspectiva do combinacionismo pampsiquista, a tese de que mentes 
conscientes podem ser constituídas por outras mentes conscientes. 
Dentro dessa linha de pensamento, Roelofs defende tal conjectura como 
uma “premissa”, ou melhor, ele se propõe a investigar se colônias de 
formigas são conscientes, então como são essas mentes?, como é ser uma 
colônia de formigas? Assim, com o objetivo de desenvolver uma noção 
dos contornos fenomenais de uma colônia de formigas, o autor divide o 
capítulo em seis seções correspondentes a seis perguntas abarcando a 
ideia de a colônia de formigas ter um sistema nervoso distribuído, um 
corpo, uma mente, uma percepção, experiências fenomênicas, e certa 
relevância moral. No entanto, as seis questões acabam por fim se 
tornando uma condição para especular quais colônias podem ter mentes 
conscientes. Roelofs, então, mostra um quadro geral do que é a 
experiência de ser uma colônia de formigas e qual tipo de estrutura 
física fundamenta sua subjetividade.  
O texto de Maria Luiza Iennaco e Daniel Friedman analisa como 
diferentes sistemas de medições empíricas e teorias científicas são

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Anderson Fonseca; Luiz Paulo Cichoski  •  13 
empregadas para investigar a consciência, entre as quais, a Teoria do 
Trabalho de Espaço Global e a Teoria da Informação Integrada. No 
entanto, os autores destacam o Princípio de Energia Livre e a Inferência 
Ativa como abordagens capazes de oferecer insights sobre a consciência 
quando aplicados, por exemplo, às colônias de formigas. A colônia de 
formigas é examinada, dentro dessa ótica, como modelo de uma 
perspectiva bottom-up da consciência, em que a relação entre 
comportamento coletivo e interação dinâmica com o ambiente são 
parâmetros para analisar a emergência da cognição em animais 
complexos. Em outras palavras, Iennaco e Friedman examinam como 
estruturas multidimensionais da consciência animal podem ser 
aplicadas a insetos eussociais, considerando colônias de formigas como 
um modelo empírico para complementar ideias teóricas de escalas de 
consciência top-down. 
Em sua contribuição, Aryel C. Goes nos apresenta outra perspectiva 
sobre o tema central desta obra. Ele afirma que uma colônia de formigas 
teria uma consciência externalizada a partir da noção de que o conjunto 
das experiências das formigas individuais fundamentaria uma resposta 
higiênica coletiva contra a presença de patógenos a fim de manter a 
integridade do superorganismo. Isso significa que a colônia possui um 
sistema imunológico coletivo com uma memória interna das interações 
entre seus membros e corpos estranhos. Esse sistema agiria, a partir das 
experiências dos componentes, reconhecendo o que o constitui e 
excluindo o que ameaça a sua unidade. Mas o que seria então a mente 
consciente de tal superorganismo? Para Goes, ela corresponde ao 
conjunto das experiências das partes que sustentam a capacidade do 
grupo de responder como uma unidade às interferências em sua 
dinâmica interna. Por conseguinte, na visão do autor, essa consciência 
está distribuída nas formigas operárias que a compõem.

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14  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
José Carlos Camillo, na mesma linha temática, apresenta uma 
discussão sobre a cientificidade de um fenômeno social particular: a 
memória coletiva. Recentemente, muitas investigações de diversas áreas 
têm se concentrado na temática da memória. Esse esforço coletivo é 
marcadamente 
interdisciplinar 
integrando 
Psicologia, 
Ciências 
Cognitivas e Filosofia. Uma parte desses esforços se direcionou ao 
tratamento da memória coletiva, fenômeno em que a organização e 
interação de pessoas em grupos pode impactar a retenção e retomada 
acurada de itens de testes de memória (listas de palavras, listas de 
desenhos, narrativas longas, etc.). O autor defende que o fenômeno da 
memória coletiva pode ser considerado um fenômeno científico, pois 
satisfaz os critérios de (i) ser um conjunto estável de propriedades 
causais, (ii) são replicáveis e (iii) suscetíveis de investigação por diversas 
metodologias. Além disso, estudos empíricos oferecem evidências para a 
legitimidade do fenômeno de memória coletiva ao mostrar sua 
autonomia com relação aos fenômenos mnemônicos individuais. Por fim, 
Camillo discute a extensão da afirmação de que a memória coletiva é um 
fenômeno científico. Mais especificamente, ele discute a legitimidade de 
uma inferência a partir da memória coletiva para a consciência coletiva. 
O autor argumenta negativamente a respeito dessa extensão. Ainda que 
memória dependa de consciência, o fenômeno da memória coletiva pode 
evidenciar que apenas existam as consciências dos indivíduos envolvidos 
e não, necessariamente, uma consciência coletiva. O fenômeno de uma 
consciência coletiva, ao menos ainda, não pode ser tratado como 
fenômeno científico, pois não satisfaz os critérios de (i) ser um conjunto 
estável de propriedades causais, (ii) ser replicável e (iii) ser suscetível de 
investigação por diversas metodologias. 
No artigo de Valdenor Monteiro Brito Júnior é apresentada uma 
proposta de extensão da área da ontologia social. O autor destaca que as

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Anderson Fonseca; Luiz Paulo Cichoski  •  15 
propostas tradicionais de ontologia social, de teorias que buscam explicar 
a estrutura metafísica do mundo social, são significativamente ancoradas 
em pressupostos antropocêntricos. Mente e linguagem são os elementos 
centrais da construção da realidade social para essas teorias e os 
exemplos paradigmáticos de estados mentais e atos de fala são 
exclusivamente humanos, i.e., não são instanciados por nenhum outro 
ser vivo. Na tentativa de ampliar o quadro de entidades sociais legítimas 
que existem na realidade, Valdenor se utiliza de pesquisas da área da 
biologia para encontrar critérios mais abrangentes para serem aplicados 
nas teorias de ontologia social. A aposta se dá a partir do conceito de 
sociedade, enquanto um grupo de indivíduos pertencentes à mesma 
espécie e organizados de uma maneira cooperativa, e especificações sobre 
as causas e tipos de cooperação observadas em diversas espécies. A tese 
central do texto é baseada no comportamento de animais eussociais 
(formigas, abelhas, vespas, cupins), onde a estrutura social produzida por 
essas espécies não poderia ser descartada ou subestimada enquanto 
instância de entidade pertencente à ontologia social. O autor ainda 
discute uma série de objeções que buscariam descartar ou subestimar 
esses exemplos, argumentando que essas estratégias não são satisfatórias 
para demover a pertença desses casos ao conjunto de entidades sociais 
legítimas. Desta forma, deveríamos tratar igualmente as instâncias de 
entidades sociais produzidas por insetos eussociais e primatas humanos, 
pois ambos satisfazem o critério necessário para a existência de entidades 
sociais: a presença de certos tipos de comportamentos sujeitos aos 
princípios relativos à evolução da cooperação.  
Luiz Paulo Cichoski, por sua vez, discute a tese da mente de grupos. 
O autor apresenta teorias em Filosofia da Mente que são compatíveis 
com uma posição realista sobre mente de grupos, ou seja, uma posição 
que considera legítimas as atribuições de estados mentais a grupos e

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16  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
outras entidades sociais (como universidades, estados nacionais, 
famílias, tribunais de justiça, etc.). São apresentadas as teorias do 
funcionalismo, da mente estendida e da cognição socialmente 
distribuída e discute-se como cada uma delas poderia fundamentar uma 
posição realista neste debate.  
Em “Mentes de Grupos e Tipos Naturais”, tradução do artigo de 
Robert Rupert, é apresentada uma posição crítica sobre mente de 
grupos. Rupert discute dois argumentos a favor da tese de que mentes 
de grupos são do mesmo tipo que as mentes individuais: um argumento 
via compromisso ontológico e outro baseado na similaridade do 
processamento cognitivo de indivíduos e grupos. Para o autor, ambos 
argumentos não são satisfatórios, pois não indicam como poderíamos 
identificar a igualdade de tipo entre os estados mentais de grupo e os 
estados mentais individuais. Propondo um critério para caracterização 
do que pode ser considerado cognição (um critério de integração 
cognitiva chamado de probabilidade condicional de co-contribuição), 
Rupert argumenta que as propostas realistas sobre mente de grupos não 
apresentam elementos que indiquem a satisfação deste critério. 
Portanto, não há igualdade entre os tipos naturais investigados pelas 
Ciências Cognitivas e as entidades discutidas pelos teóricos que 
defendem a existência de mentes de grupos.  
Já em “Introspecção em Mentes de Grupos, Desunião da Consciência e 
Pessoas Indiscretas”, tradução do artigo de Eric Schwitzgebel e Sophie 
Nelson, se discute os limites da noção de introspecção. Essa noção é 
problematizada por meio da exploração de sua aplicação em contextos 
de mentes de grupos. Os autores utilizam uma estrutura ancilar, 
inspirada por uma arquitetura cognitiva sugerida pelo romance “Justiça 
Ancilar” de Ann Leckie. Esse sistema cognitivo é composto por um 
computador central e uma série de robôs conectados a esse computador,

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Anderson Fonseca; Luiz Paulo Cichoski  •  17 
fazendo com que a cognição dessa estrutura seja distribuída. Ao avaliar 
possibilidades de interpretação da relação entre os componentes desse 
sistema cognitivo distribuído, os autores problematizam a identificação 
de introspecção e comunicação em uma estrutura como essa. A 
dificuldade de determinação sobre qual tipo de relação se estabelece 
entre o computador central e os robôs, se de introspecção ou 
comunicação, acarreta em uma indeterminação no que diz respeito à 
fronteira da mente de um indivíduo. A indeterminação sobre a mente 
indica que entidades conscientes podem não ser discretas e contáveis, 
que a consciência possa ser gradativa e grupos concretos possam ter 
mentes indiscretas.  
Por fim, antes de iniciarmos a discussão, gostaríamos de agradecer 
a todos os colegas que contribuiram com os textos que integram a obra. 
Um agradecimento especial ao professor João de Fernandes Teixeira por 
ter aceito escrever o prefácio. É uma enorme satisfação para nós ter a 
participação de uma das principais referências nacionais da Filosofia da 
Mente nesta publicação. Também gostaríamos de registrar e reconhecer 
a cuidadosa revisão realizada por Ana Luisa Lima Grein, cujo trabalho 
contribuiu significativamente para a qualidade final desta publicação. 
Agradecemos ainda a Eric Schwitzgebel, Sophie Nelson e Robert Rupert, 
bem como aos periódicos Journal of Consciousness Studies e AVANT, pela 
autorização para a publicação das duas traduções. Destacamos, ainda, o 
apoio financeiro do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da 
Universidade Federal de Mato Grosso, por meio do Programa de 
Desenvolvimento da Pós-Graduação (processo nº 88881.808937/2023-
01), que tornou possível a concretização desta obra.

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1 
É A COLÔNIA DE FORMIGAS 
UM ORGANISMO CONSCIENTE? 1 
Anderson Luiz do Vale Fonseca 
Neste artigo, eu pretendo, examinar teoricamente se uma colônia 
de organismos invertebrados possui experiência consciente como uma 
unidade. No caso, em específico, uma colônia de formigas. Para isso, me 
embaso na ideia de consciência como “algo que é sentir-se para o 
organismo” (Nagel, 1979, p. 166)2. Esse conceito, se aplicado à colônia de 
formigas, sugere ser possível ela manifestar aspectos subjetivos da 
consciência. No entanto, conforme os critérios ontológicos da 
experiência, estabelecidos pelo filósofo americano Thomas Nagel (Ibid., 
p. 166), a colônia de formigas precisa ser primeiro um organismo, para 
em seguida ter um sentimento de si como um organismo. Sendo assim, 
uma colônia de formigas se for um organismo genuíno teria uma 
consciência fundamentada no conjunto de suas partes conscientes. Isto 
requer, evidentemente, uma análise do conceito de indivíduo biológico 
e sua relação com a experiência subjetiva de um sistema vivo. No caso, 
seria a colônia de formigas um organismo genuíno? Seria ela, pois, um 
sujeito experiencial? Em outras palavras, há algo que é ser como uma 
colônia de formigas? 
A minha análise se embasa no Pampsiquismo, a tese de que os 
constituintes físicos básicos do mundo natural têm propriedades 
mentais. De modo específico, em uma versão desse argumento, 
 
1 Artigo orginalmente publicado em Griot : Revista de Filosofia, [S. l.], v. 23, n. 1, p. 70–86, 2023. DOI: 
10.31977/grirfi.v23i1.3220. 
Disponível 
em: 
https://periodicos.ufrb.edu.br/index.php/griot/article/view/3220  
2 Todas as citações neste texto foram traduzidas do original pelo autor.

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20  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
conhecido como Pampsiquismo Combinacionista, segundo o qual “as 
propriedades experienciais de um sujeito consciente são às vezes meras 
combinações das propriedades experienciais de outros sujeitos que o 
compõem” (Roelofs, 2019, p. 6). A consciência animal, sob esta ótica, 
poderia 
ser 
uma 
subjetividade 
composta 
por 
componentes 
individualmente conscientes. É possível então afirmar que sujeitos 
conscientes podem compor sujeitos conscientes adicionais.  
Deste modo, uma Colônia de formigas poderia ser um sujeito 
consciente. Ou seja, as experiências fenomenais de suas partes se 
combinariam para constituir a experiência fenomenal dela como uma 
entidade viva. Contudo, como já afirmei, é importante analisar se a 
colônia de formigas é um indivíduo. Em seguida, verificar se as formigas 
que constituem a colônia são sujeitos conscientes. A partir daí, 
examinar como combinam suas experiências para fundamentar a 
experiência da colônia.  
Não estou aqui, de antemão, afirmando que a colônia tenha uma 
consciência, nem é meu objetivo seguir uma linha de pensamento que 
leve a esse fim. O que estou abordando é que, se a colônia for um 
organismo, a tese pampsiquista se aplicará a ela também. Isso envolve, 
portanto, a problematização dos conceitos de Composição material e o 
conceito de Consciência, i.e., a conexão entre a forma física do ser vivo 
e a subjetividade.  
Para o Pampsiquismo, desde que as partes físicas se combinem de 
modo adequado temos um indivíduo. Na esteira deste raciocínio, um 
organismo consciente seria um sistema material organizado de forma 
correta, i.e., de modo que as partes estejam conectadas o suficiente para 
constituir um todo unificado. Entretanto, a Composição admite que 
nem todo sistema vivo estaria organizado da forma correta para ser um 
sujeito de experiência. Ou seja, um organismo desprovido de uma rede

## Page 22

Anderson Luiz do Vale Fonseca  •  21 
nervosa centralizada não estaria apto a sentir o meio internamente. 
Mas até esta ideia parece controversa. Ser um organismo é bastante 
para ter uma experiência subjetiva? Se a resposta for positiva, então a 
ideia de associar exclusivamente a consciência a sistemas nervosos pode 
não ser exata. Nesse sentido, uma célula seria um sujeito experiencial? 
O Pampsiquismo, encontra, portanto, o seguinte obstáculo: para definir 
o que é a mente, precisamos entender o que é o corpo. E, se não há um 
conceito preciso de indivíduo biológico, tão pouco haverá um de 
consciência. Nesse caso, qualquer forma de organização material 
concebida como sistema vivo estará adequada para ser vista como 
consciente em algum grau. 
O Problema da Composição envolve, portanto, a inconsistência do 
conceito de organismo. Em linhas gerais, se a noção de indivíduo é vaga, 
por sua vez, a de consciência também será. Ademais, Nagel não 
apresenta um princípio de organização geral que esclareça a 
combinação correta das partes para formar uma entidade subjetiva. Por 
conseguinte, qualquer relação entre parte e todo que atenda ao conceito 
de organismo de uma dada teoria científica, pode ser qualificada como 
um indivíduo genuíno. Contudo, isso significa que talvez não seja 
necessário ter um cérebro para ser um sujeito consciente, mas o tipo de 
conexão entre o sistema e seus subsistemas bastaria, como uma rede de 
comunicação eficaz. Sendo assim, uma colônia de organismos 
unicelulares como a Caravela-Portuguesa, cujo corpo é similar à de uma 
água-viva, teria alguma experiência como unidade. Do mesmo modo, 
uma colônia de insetos sociais. Estou, nesse caso, me baseando em 
sistemas que não têm uma rede neural biológica conectando suas partes 
a um núcleo central.  
Soma-se a isso que, o Pampsiquismo defende uma perspectiva 
irrestrita da composição. Segundo esse ponto de vista, os componentes

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22  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
físicos que constituem um indivíduo, podem ser recombinados para 
compor outro indivíduo. Entretanto, a noção de parte e de todo também 
é vaga. Os átomos que compõem uma pessoa humana são parte dela, e, 
por sua vez, ela é parte de uma nação ou comunidade. Ora, se a 
composição irrestrita for verdadeira para qualquer relação parte-todo, 
um indivíduo pode ser composto por outros indivíduos, desde que exista 
uma interação capaz de produzir uma unidade. Por conseguinte, o 
Pampsiquismo parece aceitar a ideia de que um sistema vivo possa 
compor outro. O importante é que os componentes estejam 
ordenadamente arranjados na composição do indivíduo adicional 
(Nagel, 2004, p. 43-44; Roelofs, 2019, p. 21). Mas como determinar se um 
organismo está estruturado de modo apropriado para ter uma 
consciência? A água-viva que não tem um sistema nervoso centralizado, 
mas distribuído nos tentáculos, teria algum tipo de consciência? A 
formiga, ou a abelha, mesmo sem um córtex neural superior, tem 
experiência subjetiva? Uma colônia, seja ela feita de corpos unicelulares 
ou multicelulares, teria consciência como um indivíduo? 
1. As quatro premissas do Pampsiquismo 
De acordo com o filósofo Thomas Nagel, em seu ensaio 
Panpsychism, publicado no livro Mortal Questions, o Pampsiquismo3 tem 
como fundamento quatro premissas simples (Nagel, 1979, p. 181-182; 
Cleve, 1990, p. 215), a saber:  
 
 
3 Em linhas gerais, “é a tese de que algumas entidades microfísicas são conscientes, isto é, há algo que 
é como ser um quark ou um fóton ou um membro de algum outro tipo físico fundamental” CHALMERS, 
David. Panpsychism and Panprotopsychism. 2013, p. 1.

## Page 24

Anderson Luiz do Vale Fonseca  •  23 
1. Composição material, ou, Antidualismo, segundo a qual qualquer 
organismo vivo é um sistema material complexo, consistindo em 
um grande número de partículas combinadas de modo especial; 
2. Antirreducionismo, no qual assevera que os estados mentais não 
são propriedades físicas do organismo e nem inteligivelmente 
derivadas apenas de suas propriedades físicas; 
3. Realismo ou Antieliminativismo, ou a visão de que estados 
mentais são propriedades genuínas do organismo e não são 
propriedades de nada em absoluto; 
4. Antiemergentismo, ou o entendimento da não existência de 
propriedades verdadeiramente emergentes de sistemas 
complexos, mas que são inteligivelmente derivadas das 
propriedades de seus constituintes e de seus efeitos um sobre 
os outros quando combinados. 
 
Neste sentido, o Pampsiquismo nageliano (iremos chamá-lo 
assim), afirma que alguns constituintes físicos devem ter propriedades 
mentais não-físicas das quais quando combinadas em uma estrutura 
correta fundamentam a emergência de uma mente consciente. A 
experiência subjetiva, contudo, não seria uma propriedade emergente 
no sentido forte do termo, ou melhor, como algo que surge acima da 
estrutura física, e sim, uma característica intrínseca das entidades 
físicas básicas. Contudo, quando essas propriedades são reunidas 
aparece a consciência da entidade biológica. Por isto, Nagel diz que a 
mente é uma propriedade biológica, pois somente a pessoa resultante 
teria uma consciência genuína. Não haveria, portanto, a consciência das 
partes e a consciência do todo. De acordo com Nagel (2004, p. 48), só há 
a consciência do organismo e nada mais. Se somente entidades 
biológicas têm estados mentais conscientes, então o princípio realista

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24  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
implica na existência de uma conexão necessária entre a neurofisiologia 
do sistema vivo e a aparência dos estados mentais. Contudo, para que o 
vínculo seja necessário, as propriedades mentais devem ser não-
emergentes, ou seja, as propriedades mentais do sistema vivo devem 
estar fundadas nas propriedades micromentais das entidades 
microfísicas que o compõem. De modo análogo, as propriedades 
mentais da Colônia como uma unidade biológica estaria embasada nas 
propriedades mentais das formigas.  
Assim, para os propósitos do presente estudo, considero que as 
quatro premissas do Pampsiquismo podem ser interpretadas como 
condições para que uma unidade tenha experiência consciente. Em 
síntese: uma determinada ordem material complexa poderá ser 
consciente se as entidades físicas que a compõem também forem 
conscientes. No entanto, precisam estar dispostas de modo a constituir 
um organismo. Por isso, essas quatro premissas se tomadas como 
critérios, podem ser aplicadas à Colônia de formigas. Se a colônia 
atender a estes parâmetros terá algum tipo de experiência subjetiva. 
Portanto, ela precisa, segundo a (o): 
  
a. Composição Material: Ser uma estrutura cuja ordenamento das 
partes é suficiente para ter uma consciência. Ou seja, a Colônia de 
formigas precisa ser realmente um organismo. 
b. Antirreducionismo: Uma explicação da Mente da Colônia com 
base apenas na descrição do comportamento de suas partes não é 
suficiente. 
c. Realismo: Se a Colônia é um organismo genuíno, segue que ela 
tenha estados mentais conscientes.  
d. Antiemergência: A Mente da Colônia não é uma propriedade 
emergente, mas deriva diretamente da soma das mentes individuais

## Page 26

Anderson Luiz do Vale Fonseca  •  25 
das formigas. Por conseguinte, as formigas têm que ser 
conscientes.  
 
Em suma, a colônia sendo um organismo, terá uma consciência e 
mesmo que sua subjetividade derive diretamente da soma das 
subjetividades individuais, não é redutível a uma explicação unicamente 
comportamentalista. Ainda que a emergência da colônia seja elucidada 
a partir do comportamento cooperativo das partes, não é suficiente. É 
importante, acrescentar a possibilidade de os componentes terem 
estados subjetivos de consciência. O ponto de partida de análise da 
presente pesquisa baseado na teoria pampsiquista, sustenta que 
micromentes podem compor macromentes, quando combinadas em 
uma estrutura integrada. 
No entanto, afirmá-las requer que assumamos dois princípios: o de 
aninhamento e o de combinação. De acordo com o Princípio de 
aninhamento, a consciência contém como parte de si, outros sistemas 
conscientes, ou pode estar contida em outros sistemas conscientes. De 
acordo com o Princípio da Combinação, a consciência é composta de 
partes conscientes reunidas de modo inteligível. Neste âmbito, a 
consciência de uma Colônia de formigas estaria embasada no conjunto 
das consciências individuais que a compõem. 
Na esteira deste raciocínio, para que o argumento combinacionista 
faça algum sentido, acho razoável que, primeiro a colônia seja um 
organismo genuíno e, em segundo, que as formigas sejam sujeitos 
experienciais. Deste modo, sua mente seria estruturalmente aninhada. 
Buscarei, então, examinar cada um destes três pontos.

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26  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
2. A colônia de formigas é um organismo? 
Para responder a esta pergunta, considero a Teoria da 
Organismalidade, defendida por David C. Queller e Joan E. Strassman 
(2009), cuja pesquisa em biologia evolutiva se tornou crucial por 
fornecer uma agenda empírica para entender as razões da 
individualidade biológica, fornece bases para a análise. Sua ideia central 
é de que um organismo é produto de uma alta cooperação associada a 
um forte controle dos conflitos intraorganismais (Queller & Strassman, 
2009, p. 3144; Strassman & Queller, 2010, p. 605). Nesse sentido, colônias 
de insetos sociais ou comunidades multiespécies com alta cooperação 
seriam integrados o suficiente para constituírem organismos genuínos.  
Essa teoria dá continuidade ao pensamento do mirmecólogo norte-
americano William Morton Wheeler (1911), o qual estabelece como 
argumento para a organismalidade da colônia a sociogenia, a ideia de 
que todo organismo manifesta uma forte predileção por buscar outros 
organismos e assimilá-los ou cooperar com eles para compor um 
indivíduo biológico mais abrangente e eficiente, a fim de garantir a 
própria sobrevivência. Na visão de Wheeler (1911, p. 307-308), a Colônia 
de formigas é um organismo genuíno. 
Para ele a colônia de formigas seria um organismo no sentido de 
um indivíduo fisiológico, definido por suas propriedades estruturais – 
como ter partes heterogêneas e especializadas – bem como pelas 
propriedades funcionais – como a capacidade de desenvolvimento, 
reprodução e autorreparação. Isso significa que a colônia como unidade 
é caracterizada pela separação definitiva das operárias, desde a fase 
embrionária, em estéreis que desempenharão papel idêntico ao das 
células somáticas e em reprodutivas, as quais exercem a mesma função

## Page 28

Anderson Luiz do Vale Fonseca  •  27 
que as células germinativas no sistema biológico. Sob este ponto de 
vista, Wheeler escreve (1911, p. 308):  
Um organismo é um sistema complexo, absolutamente coordenado e, 
portanto, individualizado, de atividades dirigidas principalmente a obter e 
assimilar substâncias do ambiente, a produzir outros sistemas similares, 
conhecidos como descendentes, e a autoproteger o sistema e, geralmente, 
também seus descendentes de perturbações que emanam do ambiente. 
Esse conceito implica que uma entidade autônoma é caracterizada 
pela coordenação e integração de seus componentes, os quais produzem 
este indivíduo destacado do meio. A Teoria da Organismalidade segue a 
mesma linha de raciocínio de Wheeler, ao afirmar que seres vivos são 
formados por diferentes níveis de grupos sociais que cooperam entre si, 
enfatiza a adaptação como aspecto central do ser vivo. Ou seja, 
cooperação elevada e conflito controlado ou ausente entre as partes é 
dizer que o organismo é o objetivo da adaptação. Portanto, um sistema 
vivo é uma unidade de adaptação. É possível, então, que exista grupos 
com alta cooperação e alto conflito, constituindo, pois, uma sociedade; 
enquanto, grupos com baixa cooperação e baixo conflito, apenas 
formam grupos simples (Strassman & Queller, 2010, p. 605-607). Porém, 
como dizer quais unidades são organismos verdadeiros?  
Queller e Strassman (2009, p. 3144; 2010, p. 608) afirmam que uma 
distinção adequada se baseia na característica das partes, se elas são 
indivíduos semelhantes ou diferentes. Como resultado, tem-se dois 
tipos de organismos: fraternos e igualitários. Os organismos fraternos 
são aqueles compostos por múltiplos indivíduos de uma mesma espécie 
ou por indivíduos clonais, que se agrupam com o objetivo de transferir 
o pool gênico à geração seguinte. De maneira oposta, os organismos 
igualitários são aqueles compostos por indivíduos biológicos diferentes 
que estabelecem uma relação mutualista. Entretanto, esse modo de

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28  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
agrupamento pode ocorrer em vários níveis, ou seja, uma entidade 
biológica pode ser uma reunião de indivíduos fraternos e igualitários, a 
exemplo do homem que é constituído por células e outros micro-
organismos.  
O conceito de organismos fraternos toma como paradigma 
organismos multicelulares, como gatos e cães. Em linhas gerais, os 
organismos paradigmáticos fraternos são organismos clonais, em que 
cada parte é geneticamente idêntica a todas as outras. Nesse contexto, 
a 
alta 
cooperação 
é 
produto 
do 
estreitamento 
parental. 
Consequentemente, temos uma unidade fisiologicamente coesa, em que 
todas as células que compõe a unidade colaboram para garantir a 
reprodução das células germinativas. Entretanto, em um organismo 
multicelular também há conflitos, é possível mutações em células 
somáticas que as desconectam do grupo convertendo-as em cânceres. 
Assim, uma unidade biológica não apenas é efeito da alta cooperação 
como também do conflito entre componentes, embora, os conflitos 
entre as partes, ou são de menor dimensão, ou controlado.  
Um exemplo de organismo fraternal é o D. discoideum, uma ameba 
que, dependendo das condições do ambiente, pode migrar de uma vida 
solitária para uma social, ao se agregar a outras próximas engendrando, 
assim, um organismo multicelular. Imaginando que durante o período 
multicelular haja níveis de cooperação assim como níveis latentes de 
conflito, porém se o conflito é baixo ou esporádico, segue-se então que D. 
discoideum é um organismo verdadeiro (Queller & Strassman, 2009, p. 3145; 
2010, p. 608; 2011, p. 597-607). Dependendo das condições ambientais, ela 
pode sair de um modo de vida solitário para o gregário/social. 
Além dele, colônias de indivíduos multicelulares como os 
sifonóforos cnidários, de modo específico, a Physalia physalis, também 
podem ser considerados organismos, dado que o baixo conflito e a alta

## Page 30

Anderson Luiz do Vale Fonseca  •  29 
cooperação são resultados da clonalidade de um único indivíduo 
unicelular. Por conseguinte, os grupos clonais se especializam funcional 
e morfologicamente em quatro tipos diferentes de pólipos: a) 
pneumatóforo, uma vesícula cheia de ar para garantir a flutuação; b) 
gastrozooides, que fazem o papel de aparelho digestivo da colônia; c) 
dactilozooides, que funcionam como tentáculos; d) e os gonozooides, 
destinados à reprodução. Estes organismos são partes dependentes entre 
si, além de morfologicamente estarem associados, de modo que se torna 
impossível viverem separados. No entanto, a P. physalis, na ótica 
tradicional, não é conceituada como uma entidade biológica, e sim um 
agregado de pólipos. O argumento de Queller e Strassman (2009, p. 31247; 
2010, p. 609), em oposição a esse ponto de vista, afirma que o sifonóforo é 
genuinamente um organismo, dada a elevada integração das partes. 
Em contrapartida, grupos cooperativos não-clonais podem exibir 
mais cooperatividade e controle de conflitos do que grupos clonais. Uma 
colônia de insetos sociais, por exemplo, em razão do grau de parentesco 
entre irmãs, pode ser qualificada como organismo ou não. Considere a 
hipótese da haplodiploidia, que sustenta a ideia de que em uma colônia 
de formigas, o coeficiente de relação genética entre as irmãs é de 0,75 
enquanto elas em relação aos seus irmãos é de 0,25. Essa proximidade 
genética se torna essencial para a cooperação entre as formigas 
operárias (fêmeas), tendo em vista que os machos pouco colaboram. 
Todavia, como apontado, nem todas as colônias são organismos. À vista 
disso, Strassman e Queller (2010, p. 609) estabelecem quatro critérios 
para analisá-las, se um certo sistema é um organismo:  
 
1.  Quando o conflito é forte o suficiente, colônias não são 
organismos. 
2. Quando o conflito é moderado, são organismos.

## Page 31

30  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
3. Quando o conflito é zero e a cooperação é igualmente zero, não 
são organismos. 
4. Quando o conflito é baixo e a cooperação é alta, são organismos. 
 
Nesse contexto, se um grupo de formigas se torna antissocial, a 
colônia perde a organismalidade. O que importa à organismalidade é a 
cooperação, ou sociabilidade, entre os componentes. Se houver conflito, 
deverá ser em pequenas proporções, ou localmente, e se não, no mínimo 
controlável. Assim, estes aspectos são a medida para determinar quais 
agrupamentos sociais constituem entidades biológicas.  
O conceito de organismos igualitários, por sua vez, toma como 
paradigma a parceria da célula eucariótica, composta pela mitocôndria 
e a célula hospedeira. As células eucarióticas são a base para a 
variabilidade de formas vivas. A partir desse modelo, um organismo 
pode também ser algo constituído de diferentes espécies. Por essa linha 
de raciocínio, a cooperação sexual entre parceiros de diferentes 
espécies é o bastante para defini-los como organismo. O caso mais 
ilustre é o Peixe-diabo (Caulophryne jordani), em que o macho (com cerca 
de 1,5 cm) é “parasita” da fêmea (com aproximadamente 18 cm). O macho 
ao se fixar em definitivo no corpo da fêmea, atrofia todos os órgãos 
exceto as gónadas (onde se produz as células sexuais), alcançando assim 
o estágio “parasitário”. Existe, pois, uma relação mutualista: de um lado, 
o macho se alimenta do sangue da fêmea; do outro, fornece seus 
gametas para a fecundação dos óvulos. Essa parceria demonstra, 
portanto, que os organismos podem ser produzidos pela integração de 
indivíduos não relacionados (Strassman & Queller, 2010, p. 610).  
Por conseguinte, tanto os organismos fraternais quanto os 
igualitários esboçam três tipos de condições para a organismalidade em 
grupos sociais (Strassman & Queller, 2010, p. 611):

## Page 32

Anderson Luiz do Vale Fonseca  •  31 
Em primeiro lugar, deve haver vantagens sinergísticas para a cooperação 
que a tornam mais do que um jogo de soma zero. Em segundo lugar, algumas 
condições devem alinhar largamente os interesses reprodutivos das partes. 
Finalmente, quando os conflitos potenciais permanecem, eles devem ser 
suprimidos por algum mecanismo para que a organismalidade seja 
alcançada.  
Essas condições são visíveis na colônia de insetos sociais dado que 
o altruísmo fornece os benefícios evolutivos para o grupo. A cooperação 
só é ameaçada em situações como a morte da rainha. Em casos assim, se 
não houver operárias que possam assumir o lugar da rainha, a colônia 
também morrerá. Ademais, é possível afirmar que o feromônio de 
agregação liberado pela rainha seja um meio de reduzir o conflito e 
manter a cooperação.  
Em suma, um organismo é uma unidade social definida pela 
elevada cooperação das partes. Esse argumento pode ser estendido aos 
demais animais coloniais produzidos por grupos sociais clonais e não-
clonais, assim como a outros animais incluindo o homem. Nesta 
perspectiva, tendo em conta o nível de cooperação e conflito, haveria a 
possibilidade de agrupamentos que se aproximam da unidade, do 
mesmo modo a existência de agrupamentos que alcançam a unidade 
(Strassman & Queller, 2010, p. 614). Neste sentido, ainda que a Colônia 
de formigas apresente características que atendam as condições 
teóricas para ser um organismo genuíno, tendo em vista o fato de as 
formigas não estarem estruturalmente conectadas como ocorre com o 
P. physalis, na formação de um corpo multicelular, mas espalhadas pelo 
ambiente, favorece a visão da colônia como se encontrando entre a 
agregação e a individualidade. Deste modo, a colônia de formigas seria 
um organismo indeterminado.

## Page 33

32  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
3. As formigas são conscientes?  
Supondo, então, que as formigas são conscientes, em que substrato 
neural ela está fundada? Em que local do cérebro as informações 
sensoriais processadas são integradas na experiência consciente? E, 
qual a relação entre a experiência da formiga e a organização colonial? 
Uma abordagem teórica que defende a existência de consciência em 
animais invertebrados é o argumento de Colin Klein e Andrew B. Barron 
(2016), cuja importância para o estudo da mente está em apresentar uma 
nova maneira de entender as origens neurobiológicas da experiência 
subjetiva. De acordo com estes pesquisadores, a consciência dos insetos 
ocorre em uma região sub-cortical do cérebro, o mesencéfalo. No 
cérebro mediano as informações sensoriais interoceptivas (estímulos 
provenientes do corpo) e exteroceptivas (estímulos externos ao corpo) 
são combinadas em um modelo neural do corpo em movimento no 
ambiente (Klein & Barron, 2016, p. 3). Sendo assim, os insetos teriam um 
sistema neural integrado capaz de suportar uma experiência consciente 
(Merker, 2007, p. 70-74).  
Duas características do mesencéfalo são fundamentais para 
sustentar a experiência subjetiva em insetos. Na primeira, o 
processamento integrado de informações espaciais permite ao animal 
em movimento eliminar a ambiguidade entre a saída motora e a entrada 
sensorial causada por sua ação no ambiente. As diversas informações 
sensoriais incluindo posição, orientação e movimento do corpo (ou 
somato-espacial) são unificadas em um modelo neural permitindo ao 
animal mover-se de maneira organizada no espaço e reagir às 
mudanças locais. A segunda característica é a integração de 
informações sobre as necessidades fisiológicas do animal com a 
localização e disponibilidade de recursos resultar na seleção de ações

## Page 34

Anderson Luiz do Vale Fonseca  •  33 
eficientes a serem executadas pelo animal. Enfim, o mesencéfalo 
embasa a tomada de decisão do indivíduo e o planejamento de ações 
(Klein & Barron, 2016, p. 3-8).  
Seguindo essa linha de raciocínio, Klein e Barron (2016, p. 5) 
argumentam que a representação unificada e centrada do mundo na 
perspectiva do inseto é suficiente para que ele tenha experiência 
consciente. Ou seja, esses animais são sencientes, são aptos a sentir 
(feeling) internamente sua localização no espaço e responder aos 
estímulos externos (Klein & Barron, 2016, p. 10-11; Søvik & Perry, 2016, p. 
2). Ademais, tendo em conta que a consciência envolve a faculdade de 
perceber algo, ou, depende da existência de objetos externos, o fato de os 
insetos terem circuitos de atenção no protocérebro sugere que se tornam 
conscientes do ambiente em torno (Feinberg & Mallat, 2016, p. 4). 
É possível, a partir disso, que se interprete o argumento de Klein e 
Barron (2016) da consciência em insetos como restrito a um senso 
rudimentar do espaço. Na verdade, para que fique ainda mais claro, não 
se trata apenas de se mover no espaço e responder aos estímulos 
ambientais, e sim, a combinação da informação somatoespacial em uma 
representação interna (Søvik & Perry, 2016, p. 2-3). Considerando então 
que a consciência é apoiada por estruturas subcorticais, o número de 
neurônios por mais relevante que seja, não faria muita diferença sem 
uma organização funcional apropriada 
Mas Klein e Barron (2016, p. 10-11) não sugerem que os insetos sejam 
capazes de monitorar seus próprios processos cognitivos, nem que sejam 
autoconscientes. Eles não teriam o mesmo tipo de experiência subjetiva 
que os mamíferos com córtex cerebral têm. Na verdade, teriam uma 
consciência primária, um nível básico de experiência (Søvik & Perry, 2016, 
p. 4; Feinberg & Mallat, 2016, p. 4). A questão envolvendo o conceito de 
“nível” é a imprecisão quanto ao número de neurônios suficiente para se

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34  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
atribuir consciência. Possivelmente, a ocorrência da experiência 
subjetiva não depende da quantidade de células nervosas, mas sim do 
modo como o sistema está organizado. 
Por fim, se existe a possibilidade de as formigas serem capazes de 
ter um aspecto subjetivo da experiência a partir da integração das 
informações sensoriais químicas, visuais e motoras em uma 
representação interna, então a consciência seria uma explicação extra 
não somente para a tomada de decisão, mas também para a organização 
colonial. Como resultado, a experiência consciente forneceria outra 
percepção do comportamento das formigas (Klein & Barron, 2016, p. 7). 
Agora, falta dizer de que modo seria integrada a consciência das partes 
para constituir a experiência unificada do todo 
4. É possível reunir mentes?  
Para fundamentar a ideia de soma de consciências individuais em 
uma consciência conjunta, proponho a seguinte experiência de 
pensamento: Suponha agora que a ameba D. discoideum tem experiência 
consciente. Essa ameba unicelular passa por quatro estágios em sua 
curta vida: vegetação (fase unicelular), agregação (constituição da 
colônia ou do organismo multicelular), migração (o corpo se transporta 
para uma região com mais nutrientes disponíveis) e culminação 
(desagregação)4. Sabendo disso, vamos imaginar que cada estágio 
corresponda a um tipo de consciência resultante do nível de integração 
física e experiencial.  
 
4 Aqui tomei como base a tese de doutorado de Daniel Schardosim Calovi, onde o autor apresenta uma 
análise criteriosa dos estágios do ciclo de vida social da ameba D. discoideum simulados 
computacionalmente. Ver CALOVI, Daniel Schardosim. Simulação do ciclo de vida social da ameba 
Dictyostelium discoideum. 82 f. Tese (Doutorado em Ciências) – Instituto de Física, Universidade Federal 
do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2011. Disponível em: https://lume.ufrgs.br/handle/10183/31612. 
Acesso em 20 de agosto de 2021.

## Page 36

Anderson Luiz do Vale Fonseca  •  35 
No início, a consciência ainda é individual, abrangendo as 
experiências do organismo unicelular como as sensações de detecção de 
nutrientes no ambiente e o prazer de se alimentar dos micro-
organismos disponíveis. Quando, porém, a quantidade de nutrientes se 
torna escassa, cada indivíduo emite um sinal químico convocando os 
demais a agregar-se, produzindo assim uma colônia. Nesse estágio 
inicial cada organismo está cooperando com o outro em um nível fraco 
de integração física (isto é, ainda não estão anatomicamente 
conectados) e fenomenal (isto é, a experiência partilhada é parcial). 
Como resultado, se tem uma espécie de consciência coletiva 
caracterizada por estar entre a consciência do indivíduo unicelular e à 
do grupo. No momento em que se alcança uma forte integração entre as 
partes é gerado um organismo multicelular, ao mesmo tempo a 
consciência da unidade. Aqui, as experiências das partes estão 
combinadas para compor a experiência do organismo multicelular. E 
isso dura até que se encontrar um local com um volume de nutrientes 
suficiente para cada ameba, causando, a seguir, a desagregação.  
Supondo que ideia de uma mente feita da combinação de outras 
mentes seja verdadeira, ela exige que o limite entre a experiência dos 
componentes e a experiência da unidade sejam conceitualmente bem 
definidas. No exemplo do D. discoideum, em que a agregação dos 
organismos unicelulares resulta na constituição de um organismo 
multicelular, se é verdade que as partes da colônia são conscientes, não se 
segue que a unidade biológica tenha consciência. É de pressupor que a 
colônia se resuma a uma agregação de indivíduos por oferecer vantagens 
seletivas, sem disso resultar em uma mente unificada. Cada membro pode 
ter um caráter qualitativo da experiência e jamais compartilhá-lo com os 
outros. De modo algum haveria uma junção das experiências individuais 
para dar existência à experiência da entidade biológica.

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36  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
Aqui estou supondo a seguinte ideia do pampsiquismo 
constitutivo: sujeitos experienciais, podem compor outros sujeitos 
experienciais (não levando em conta detalhes como ter um sistema 
nervoso) (Goff, 2017, p. 297). Neste caso, o D. discoideum nos leva ao 
chamado “problema da combinação”. De que maneira micro-
consciências se combinam para constituir macroconsciências? Este 
problema se trata de entender a unidade da consciência em uma 
estrutura material composta (o cérebro), de como as informações 
sensoriais processadas nos conjuntos de neurônios são unificadas na 
experiência consciente do sujeito.  
Para ilustrar essa questão, vejamos o experimento do cérebro 
dividido (split-brain). Em síntese, um paciente com epilepsia passa por 
uma cirurgia chamada calossotomia, a qual consiste no corte do corpo 
caloso, cuja função é conectar os dois hemisférios cerebrais direito e 
esquerdo permitindo a eles que se comuniquem entre si. Após a cirurgia 
temos um sujeito com os dois hemisférios desconectados. O evento é 
curiosamente interessante, visto que o lado direito e o lado esquerdo do 
cérebro estão separados surge um único indivíduo com uma consciência 
desunificada (Goff, 2019, p. 148-154; Roelofs, 2019, p. 207).  
Nagel (1979, p. 159-164), por exemplo, afirma que a experiência 
unificada da consciência possivelmente é resultado da integração de 
duas mentes diferentes. Fundamentado no experimento do cérebro 
dividido, o filósofo chega à ideia de a consciência do sujeito ser efeito da 
combinação das consciências das entidades físicas que o constitui. Se 
cada hemisfério cerebral tem uma mente, parece racional supor que as 
operações mentais de cada lado podem ser também separadas formando 
mentes distintas.  
A questão que surge no Pampsiquismo, de acordo com Goff (2019, 
p.148), é: “Como se passa de uma consciência desunificada (a consciência

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Anderson Luiz do Vale Fonseca  •  37 
das partes isoladas) para uma estrutura neural com consciência 
unificada?” Possivelmente, pela forma como os constituintes básicos 
foram arranjados (Nagel, 2004, p. 48). Esta forma adequada, conforme a 
premissa da composição, seria o organismo. Mas a possibilidade de 
organismos unicelulares, na hipótese de terem consciência, ao 
constituir um organismo multicelular produzirem a consciência desse 
indivíduo depende de dois fatores: do quão estreita é a relação entre os 
componentes e da experiência das partes ser passível de 
compartilhamento a um certo nível entre elas e não totalmente 
privativa (Roelofs, 2019, p. 63-64; Goff, 2017, p. 292-293; Roelofs & Goff, 
2020, p. 7). Caso contrário, haverá a consciência isolada dos grupos de 
sujeitos sem um sujeito adicional consciente. 
Em sua obra Combining Minds, o filósofo Luke Roelofs (2019, p. 20), 
defende o combinacionismo, a tese de que “as propriedades 
experienciais do todo podem, em alguns casos, serem fundadas e 
explicadas pelas de suas partes”. A consciência humana, sob esta ótica, 
poderia 
ser 
uma 
subjetividade 
composta 
por 
componentes 
individualmente conscientes. Uma colônia de insetos himenópteros 
sociais, em caso positivo, teria sua consciência fundada na consciência 
de seus membros? Seria o “eu” da colônia o mesmo das partes ou algo 
diferente? Ou não seria ela uma entidade subjetiva? A resposta deve se 
apoiar na seguinte conceituação do combinacionismo:  
As propriedades experienciais de um sujeito consciente são às vezes meras 
combinações das propriedades experienciais de outros sujeitos que o 
compõem. Um modo mais intuitivo de colocar a denição de “combinação” 
é dizer que uma característica minha é uma combinação das características 
de minhas partes se essas outras características, e a forma como estão 
conectadas, ambas são sucientes para fundamentar o fato de eu estar 
tendo a característica em questão e podem ser apeladas em uma explicação 
do porquê eu tê-las (Roelofs, 2019, p. 6).

## Page 39

38  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
A princípio, afirmar que as propriedades experienciais de um 
sistema estão fundadas nas propriedades experienciais de seus 
constituintes significa dizer que uma vez tendo B isso é suficiente para 
termos A, ou melhor, as propriedades de um estão fundadas nas 
propriedades do outro. Nessa perspectiva, a consciência de A está ligada 
à consciência de B, de modo que sem B não existe A (Roelofs, 2019, p. 23).  
Em segundo ponto, ao dizer que as propriedades do todo são 
explicadas pelas propriedades das partes significa que ao explicar B 
temos uma compreensão completa de A. Ou seja, a análise dos 
componentes em um determinado momento é suficiente para explicar 
as propriedades do sistema naquele exato momento. Nesse âmbito, 
Roelofs (2019, p. 23) argumenta que “a consciência é uma mera 
combinação das partes se e somente se é tanto fundamentado nelas e 
suas interrelações como também explicado por elas e suas 
interrelações”.  
Mas o que são as experiências das partes? O que é a experiência do 
todo? Ora, retomando mais uma vez o experimento mental do D. 
discoideum, a experiência dos constituintes pode ser entendida como 
uma experiência desunificada (no estágio vegetal), algo que é como ser 
cada indivíduo, enquanto a experiência do todo, evidentemente, 
corresponde a uma experiência unificada (no estágio de agregação), algo 
que é ser como essa entidade (Nagel, 1979, p. 164, 182; 2004, p. 81). Logo, 
temos que supor ser o padrão organizacional instanciado pela 
cooperação das partes, a estrutura em que aparece a consciência. 
Em geral, a análise da consciência é feita pela ótica dela como 
unidade genuína, de tal modo que não é possível vê-la como um 
conjunto de partes. No entanto, o argumento que aqui sustento, tendo 
como base o pampsiquismo, é: o organismo e a consciência são unidades 
compostas por constituintes relativamente integrados. Nessa linha, eu

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Anderson Luiz do Vale Fonseca  •  39 
sustento a visão do combinacionismo, o qual pode ser definido em 
termos de uma relação parte-todo, em que as propriedades 
experienciais das partes, quando combinadas, fundamentam e explicam 
as propriedades experiencias do sujeito consciente (Roelofs, 2019, p. 30). 
Tal doutrina se opõem ao argumento da Mente Chinesa, proposto 
pelo filósofo Ned Block (2002, p. 96-97), que afirma não ser coerente a 
ideia de uma subjetividade composta. Suponha, pois, que o governo da 
China convença seus cidadãos de simularem um cérebro humano 
usando rádios transmissores. Cada cidadão recebe um dispositivo para 
enviar e receber sinais, além de instruções muito específicas como “ao 
receber o sinal I, do dispositivo Si, emita um sinal O para o dispositivo 
Sl” (Block, 2002, p. 97). Suponha ainda que as entradas e saídas dos sinais 
ocorram simultaneamente, compartilhadas com centenas de milhares 
de indivíduos, de modo similar ao sistema neural humano. Em seguida 
um androide é conectado aos aparelhos a fim de ser controlado pelos 
cidadãos de maneira igual às entradas sensoriais e saídas motoras no 
cérebro humano. Consequentemente, os sinais enviados por milhões de 
cidadãos acabam por produzir uma máquina com comportamento 
inteligente. A questão que isto suscita é: o conjunto destes cidadãos está 
consciente como sendo um único indivíduo?  
Para Block (2002, p. 97), é contraintuitivo afirmar que tenham uma 
experiência consciente em grupo. É absurdo. Não existe, neste caso, 
uma integração das experiencias individuais. O que há, é um gap (hiato) 
entre a consciência das partes e o todo. Ademais, uma entidade 
consciente não pode conter outra entidade consciente como parte ou 
estar contida em. Nesse âmbito, ou a consciência existirá no todo, ou 
existirá nas partes, jamais em ambas. Mas não é o que pensa Roelofs. 
Segundo ele (2019, p. 43), a impossibilidade de emergir uma mente

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40  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
unificada deve-se à falta de uma estrutura específica que integre as 
informações produzidas pelo agregado dos componentes.  
Goff aborda essa questão, porque se a consciência unificada é 
resultante da combinação de outras consciências, é racional, então, 
pensar que existe entre os componentes uma espécie de ligação 
fenomenal (phenomenal bonding), isto é, uma relação entre campos 
fenomenais (ou experiências individuadas) que dão origem às 
estruturas conscientes a partir de uma experiência composta. A questão 
do que ele chama de Composição Fenomenal é definida pelo modo como 
os sujeitos com fenomenalidade se conectam para constituir outros 
sujeitos, exige que se determine a forma adequada em que a composição 
é realizada, além de quais partes mantém essa relação fenomenal. Posto 
isto, existem duas maneiras de analisar a composição fenomenal (Goff, 
2017, p. 296):  
 
a. Composição restrita, a perspectiva de que apenas alguns 
conjuntos de objetos são de tal modo organizados que compõem 
outros objetos, enquanto, por outro lado, há conjuntos de 
objetos cuja forma os impede de compor um objeto.  
b. Composição irrestrita, a visão de que quaisquer objetos podem 
ser recombinados em outro objeto.  
 
Para os defensores da Composição Fenomenal Irrestrita, todas as 
partículas que compõem um corpo humano estão ligadas entre si por 
uma relação fenomenal e, portanto, são capazes de produzir outro 
sujeito consciente (Goff, 2017, p. 296-297). Quanto àqueles que defendem 
a Composição Fenomenal Restrita, apenas alguns grupos de sujeitos, 
porém não todos, têm entre si um vínculo fenomenal de tal maneira que 
produz sujeitos conscientes (Cleve, 1990, p. 216-217). Na visão nageliana,

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Anderson Luiz do Vale Fonseca  •  41 
a composição fenomenal pode ser realizada por qualquer sujeito (Nagel, 
2004, p. 43-44). Entretanto, como já apontado, um dado sistema pode 
não estar organizado de modo a produzir um sujeito experiencial. 
Diante desse problema, temos que seguir uma entre duas respostas, 
apresentadas por Goff (2017, p. 298), na linha da Composição fenomenal: 
a resposta niilista, de que sujeitos nunca se combinam para formar 
outros sujeitos experienciais; ou a resposta universalista, na qual os 
sujeitos sempre se combinam para produzir um outro sujeito 
experiencial. Com base na doutrina do combinacionismo, aqui adotada 
para examinar a colônia de formigas, caso a perspectiva universalista 
seja correta, então temos que supor ser a experiência subjetiva 
partilhável, para daí elucidar de que maneira ocorre a ligação 
fenomenal.  
O Pampsiquismo nageliano afirma que a experiência consciente é 
algo exclusivo do sujeito, ou seja, pertence a ele e não simultaneamente 
a outro. A experiência da dor, por exemplo, para um indivíduo, jamais 
seria sentida e compreendida por alguém da mesma espécie. A dor que 
um animal ferido experiencia seria incompartilhável. Goff e Roelofs 
(2020) concordam em parte com esse princípio de exclusividade, no 
sentido de que certas experiências de um dado sujeito não podem 
pertencer ao mesmo tempo a outro, como o sentimento de ser “eu”. 
Neste âmbito, segundo Goff e Roelofs (2020), em sujeitos que estão 
materialmente conectados, certas experiências seriam fracamente 
exclusivas. Assim, a partilha fenomenal se torna possível. Mas, para que 
ela aconteça, o argumento da privacidade fraca precisa ser verdadeiro. 
De acordo com este argumento, um atributo fenomenal é diretamente 
conhecido por um sujeito e conhecido apenas indiretamente por 
qualquer sujeito discreto (Goff & Roelofs, 2020, p. 7; Roelofs, 2019, p. 63).

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42  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
Desse modo, os autores defendem uma partilha fenomenal fraca, 
isto é, uma única experiência que pode pertencer a múltiplos sujeitos. A 
partilha fenomenal ocorreria somente quando estes sujeitos estão 
sobrepostos - um contendo o outro como parte própria, ou ambos 
partilhando uma única parte própria como, por exemplo, gêmeos 
siameses com cérebros conectados por uma ponte neural5; ou insetos, 
como formigas, por meio da comunicação multimodal; ou abelhas, 
através da dança, informando a localização da comida. Em tais 
situações, uma determinada experiência seria partilhada gerando uma 
consciência de grupo. 
Tendo em conta o argumento combinacionista, a ligação 
fenomenal, sugere Goff (2016, p. 181-182), poderia ser idêntica à relação 
espacial; desse modo, um grupo de componentes físicos, estando 
espacialmente conectados poderia formar um sujeito consciente. Ora, 
se imaginarmos diferentes modos de objetos se relacionarem 
espacialmente, teremos tipos distintos de consciência. Supondo que os 
insetos sociais são estes objetos, a ligação fenomenal que se dá entre os 
membros de uma colônia dependerá, do modo como estão conectados 
espacialmente. Nesse último caso, as formigas encontram-se 
geralmente dispersas no ambiente, elas não têm uma relação 
espacialmente estreita como as células somáticas, ou uma ligação 
anatômica como ocorre com o D. discoideum na constituição de um 
corpo multicelular. A integração entre as formigas é basicamente 
química. Se elas estivessem estreitamente conectadas no espaço físico, 
 
5 Estou me referindo ao célebre caso das irmãs siamesas Tatiana e Krista Hogan que compartilham uma 
ponte talâmica entre os cérebros. A ponte neural parecia permitir às duas partilharem não somente 
sinais sensoriais, mas, talvez, pensamentos conscientes. Ver DOMINUS, Susan. Could Conjoined Twins 
Share 
a 
Mind? 
The 
New 
York 
Times 
Magazine, 
2011. 
Disponível 
em: 
https://www.nytimes.com/2011/05/29/magazine/could-conjoined-twins-share-a-
mind.html?pagewanted=all. Acesso em 02 de fevereiro de 2021.

## Page 44

Anderson Luiz do Vale Fonseca  •  43 
teríamos uma forte unidade fenomenal; mas se, por outro lado, estão 
frouxamente 
conectadas, 
a 
unidade 
fenomenal 
será 
fraca. 
Consequentemente, se levarmos em conta o tipo de arranjo dos 
constituintes físicos e a unidade fenomenal, então, é natural supor que 
haja distintas formas de experiência.  
Posto isto, Goff, a partir da premissa da Composição Material, 
propõem que, caso os constituintes básicos estejam dispostos na forma 
de um organismo temos então uma entidade subjetiva. Entretanto, 
como ele mesmo admite (2017, p. 298), existe uma dificuldade implícita 
no argumento da composição, a fronteira entre o orgânico e o não-
orgânico, entre o que é verdadeiramente um organismo e o que não é. 
Tal dificuldade está na imprecisão do arranjo adequado das entidades 
físicas no momento certo para produzir um organismo. Em um ponto 
qualquer do tempo, escreve Goff, se pode dizer que há uma situação 
limite, em que não sabemos determinar o início e o fim de um 
organismo, um intervalo preciso em que temos um zigoto e antes 
somente espermatozoide e óvulo. Como resultado disso, se não há um 
princípio de organização, temos que aceitar a hipótese de casos 
limítrofes na composição material (Ibid., p. 298).  
Neste âmbito, se a colônia de formigas, de acordo com a teoria da 
organismalidade, é um organismo genuíno, tendo em vista que 
apresenta alta cooperação entre os membros (Queller & Strassman, 
2009, p. 3147-3148), na perspectiva da teoria da autopoiese, por sua vez, 
não constitui um organismo devido à ausência de uma membrana 
semipermeável (Thompson, 2013, p. 130). Logo, parece razoável dizer 
que ela se encontra na fronteira da organismalidade. Aqui, 
considerando a experiência consciente em entidades vivas, a colônia 
estaria entre ser um organismo consciente e não-consciente. Mas isso 
depende, é claro, do tipo de acoplamento entre as partes (Varela, 2000,

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44  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
p. 67-68). Supondo que a colônia de insetos forme algo próximo de um 
organismo, do ponto de vista da Composição fenomenal, ela poderia se 
encontrar em uma zona intermediária. A respeito desse problema, Goff 
(2017, p. 298) escreve: “Se a existência de um organismo é necessária e 
suficiente para a existência de um sujeito consciente, e se, às vezes, é 
vago se temos ou não um organismo, segue que às vezes é vago se temos 
ou não um sujeito consciente”.  
5. Respostas? 
Estamos diante, portanto do chamado Problema de Fronteira 
(Boundary Problem) ou Problema de Aninhamento (Nesting Problem) 
(Rosenberg, 2004, p. 81-90; Fekete et al, 2016, p. 1-16; Schwitzgebel, 2014, 
p. 1-21; Roelofs, 2019, p. 59), que se trata do limite existente entre a 
experiência das partes individuadas e a experiência do todo individuado. 
Ou seja, se a mente do sujeito componente desaparece ou não na mente 
do todo. O Problema de Fronteira induz a afirmar que as experiências do 
sujeito compartilhadas com cada um de seus componentes podem 
produzir, ou não, uma combinação genuína. Isso significa dizer que os 
sujeitos componentes tanto podem ter o mesmo conjunto inteiro de 
experiências que o sujeito adicional, como também haver uma lacuna 
entre a experiência das partes e a do todo (Roelofs, 2019, p. 59-60). 
Não sabemos, logo, com base nessa perspectiva, se um dado sistema 
complexo tem uma experiência integrada. A resposta depende mais de 
como se entende essa organização. Daí o problema de fronteira, a 
imprecisão em determinar se a experiência dos sujeitos componentes 
desaparece ou não na experiência de ser o conjunto e também se são 
contínuas ou descontínuas entre si. Como bem apontou Goff (2017, p. 298), 
é possível imaginar estruturas biológicas intermediárias, as quais

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Anderson Luiz do Vale Fonseca  •  45 
corresponde, por sua vez, uma consciência indeterminada. Seguindo esse 
raciocínio, desenvolvemos a resposta à questão título deste trabalho, a 
partir de uma leitura epistêmica da relação parte-todo. Ou seja, precisa 
ter uma composição adequada e não sabemos se realmente está de modo 
a produzir uma unidade fenomenal. Sendo assim, imaginando que ela 
seja, de fato, um organismo, teremos as seguintes respostas embasadas 
no problema de fronteira (Rosenberg, 2004, p. 84-85):  
 
R1.Cada formiga é um sujeito experiencial, mas a colônia não é. Esta 
possibilidade é verdadeira se a partilha fenomenal entre as 
formigas não contém informação com representação 
sofisticada ou se a estrutura resultante da cooperação entre os 
elementos não é capaz de unificação fenomenal.  
R2.Cada formiga é um sujeito experiencial, assim como a colônia. Esta 
possibilidade é verdadeira se o pampsiquismo constitutivo for 
verdadeiro. Nesse âmbito, a experiência do todo estaria 
fundada e seria explicada pela experiência de suas partes 
combinadas em uma forma especial. Precisamente, a colônia 
estaria organizada de maneira a suportar uma consciência. 
R3.A colônia seria um sujeito experiencial, mas nenhuma das formigas 
seria. Esta possibilidade implica que as mentes componentes 
seriam anuladas pela mente do todo, ou que, os componentes 
não são sujeitos experienciais, mas, a partir da relação 
existente entre eles emerge um sistema capaz de ter uma 
fenomenalidade.  
 
A posição com a qual o combinacionismo parece estar 
comprometido é a R2, uma vez que se alinha ao argumento da 
composição fenomenal irrestrita. Entretanto, se pensarmos a respeito

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46  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
da forma como as formigas estão relacionadas no espaço, teremos uma 
explicação diferente. Por exemplo, em um cérebro dividido (split-brain) 
temos uma consciência desunificada (Nagel, 1979, p. 151-159); em dois 
cérebros ligados por um único tálamo cortical teremos duas mentes 
individuadas que, por meio de um canal, compartilham algumas 
experiências, sem resultar em uma unidade fenomenal (Langland-
Hassan, 2013, p. 1737-1756; Roelofs, 2019, p. 11); já na hipótese de uma 
fusão cerebral, as mentes individuadas no processo de fusão perderiam 
sua independência gradualmente até serem anuladas e substituídas pela 
supermente (Fekete et al, 2016, p. 14; Roelofs, 2019, p. 277-288). 
Agora, em comparação a ameba D. discoideum e ao sifonóforo P. 
physalis, as formigas não estão fisicamente conectadas a ponto de gerar 
um corpo multicelular. Na verdade, elas estão dispersas no ambiente. 
Ainda que afirmemos ser o padrão emergente capaz de sustentar uma 
subjetividade coletiva, a falta de uma conexão estreita pode implicar no 
caráter experiencial da unidade. Esse detalhe parece relevante, pois 
põem em dúvida se ela é ou não uma unidade genuína, ou, se está 
próximo de alcançar a unidade. Neste último caso, a colônia de formigas 
se encontraria no ponto limite da organicidade. Analisando, pois, os 
conceitos de ordem espacial das entidades físicas e unidade fenomenal 
(Goff, 2017, p. 300), imagino uma quarta resposta ao problema:  
 
R4. A colônia seria um sujeito experiencial, mas sua experiência é 
relativa ao arranjo espacial dos componentes. Esta possibilidade 
implica que a colônia, mesmo sendo capaz de sustentar uma 
consciência, seria fracamente integrada, se encontrando em 
um grau intermediário, ou, em uma zona cinzenta.

## Page 48

Anderson Luiz do Vale Fonseca  •  47 
Não temos ideia do que é ser uma consciência em uma zona 
cinzenta porque se trata de um estudo em seus estágios iniciais, porém, 
se considerarmos que a colônia não tem uma fronteira material 
(Thompson, 2013, p. 130-131; Varela, 2000, p. 222) e seus elementos estão 
espalhados, ainda que a forma como interagem seja suficiente para uma 
unidade fenomenal, é possível que seja fraca. Não apenas por esta razão, 
mas também porque não temos certeza se o conteúdo informacional 
partilhado é rico. Em comparação, um organismo multicelular 
composto por D. discoideum poderia ter uma unidade fenomenal maior, 
devido à proximidade espacial das partes. 
Por conseguinte, segundo Roelofs (2019, p. 282), afirmar que a 
unidade fenomenal é vaga, é dizer que “há um ponto médio na qual não é 
determinantemente verdadeiro, nem determinantemente falso que a 
experiência dos componentes seja fenomenalmente unificada, porque 
suas relações não são diferentemente ricas o suficiente, nem 
diferentemente não são”. É neste sentido que eu argumento ser impreciso 
dizer que a colônia de formigas tem uma consciência. Ela se parece com a 
água-viva, por não ter um cérebro central que conecte as informações 
sensoriais em uma representação interna. Em outras palavras, é porque 
funciona como uma rede neural distribuída que a colônia de formigas 
estaria na fronteira de um sistema genuinamente consciente. 
Portanto, se uma colônia de insetos himenópteros sociais está 
consciente, isso dependerá da característica de sua composição. A 
resposta, a fim de determinar se um sistema parecido com uma 
sociedade está apto a ser um sujeito experiencial, requer a solução do 
problema da combinação, o que permanece, até o momento, insolúvel. 
Não obstante, o modo como as partes estão conectadas é 
epistemicamente discutível. Em suma, uma resposta “sim” ou “não” é, 
por ora, incerta.

## Page 49

48  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
Conclusão 
Durante o desenvolvimento desse trabalho examinei a hipótese de 
a colônia de formigas ser um sujeito consciente. Considerei, com base 
no conceito de composição que, se ela fosse um organismo genuíno, 
poderia ter algum tipo de consciência. Em vista disso, analisei a colônia 
de formigas sob o ponto de vista da composição material e fenomenal. 
Ou seja, argumentei que as formigas, sendo sujeitos experienciais, 
poderiam reunir suas experiências em um todo unificado. A consciência 
da 
colônia, 
nesse 
caso, 
seria 
contínua 
com 
suas 
partes 
microconscientes. Contudo, tendo em conta que a unidade experiencial 
depende do modo como as partes do indivíduo estão relacionadas 
espacialmente – se próximas ou espalhadas; haveria, pois, um limite na 
composição de uma consciência. Isso significa que organismos 
genuínos, ou próximos de se tornarem organismos, apresentariam 
diferentes tipos de consciência fenomênica.  
No caso da colônia de formigas, a maneira como as formigas estão 
distribuídas no espaço, implicaria no nível de unificação fenomenal. É 
evidente que há objeções, como afirmar que apenas a integração da 
informação, por meio de sinais químicos, por exemplo, seria suficiente, 
não importa se os membros estão estreitamente próximos ou 
espalhados. Porém, o modo como as partes estão dispostas na 
constituição do corpo reflete no nível de consciência do sujeito. Por 
conseguinte, conclui que a colônia de formigas teria uma fraca 
integração das experiencias individuais. A consciência da colônia se 
encontraria em uma região intermediária. Ora, tendo em conta que a 
colônia talvez se encontre em uma linha divisória da organicidade, ela 
também estaria em uma zona cinzenta da fenomenalidade.

## Page 50

Anderson Luiz do Vale Fonseca  •  49 
Posto isto, suponho que a incerteza quanto à experiência 
fortemente unificada em uma colônia de formigas parece coerente. As 
outras três respostas baseadas na relação parte-todo também são 
válidas. 
Tanto 
é 
possível 
uma 
continuidade 
quanto 
uma 
descontinuidade entre a experiência das partes e a do todo. Entretanto, 
acho a quarta resposta, que afirma ser a colônia de formigas um caso de 
consciência limítrofe, mais apropriada. Essa resposta leva em conta os 
dois lados da composição: o físico e o fenomênico. Ambos são conceitos 
imprecisos na teoria pampsiquista. Em função disso, a colônia ter uma 
consciência imprecisa não parece absurdo. Penso, com base nisso, que a 
consciência pode ser uma propriedade indeterminada da organização. 
Enfim, a R1, R2, R3 e R4 podem servir de paradigma para examinar 
outras formas de colônias organismais, considerando a interação, 
comunicação e a disposição das partes. Não é possível garantir que todas 
se encontrem em um contexto análogo ao da colônia de formigas, mas, 
em comparação, afirmar que algumas tenham um grau maior de 
consciência, enquanto outras, ausente.  
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## Page 54

2 
WHAT IS IT LIKE TO BE AN ANT COLONY? 
Luke Roelofs 
If a colony of ants had a mind, what sort of mind might it have? In 
particular, what sort of conscious experience might a colony have - not 
just the individual ants, but the colony itself, as a collective whole? More 
broadly, what can we say about the minds - and particularly the 
conscious experiences - of sophisticated collectives with simple 
members? In this paper I discuss this question with particular focus on 
ants, because ants are the iconic eusocial animal, and the most 
overwhelmingly successful and widespread lineage thereof. But what I 
say likely applies also to other eusocial insect colonies, like those of 
termites and some species of bees and wasps. And it could be at least a 
starting point for thinking about forms of artificial swarm intelligence 
that could arise in the future. What is it like to be a hive mind?  
Of course, it’s possible the answer is: nothing, because hives don’t 
really have minds. You might think this follows from a general principle 
about collectives - that their members can be conscious, but the 
collective itself can’t. Or you might think this is a contingent truth 
about present-day insect colonies: whatever the necessary conditions 
are for consciousness, ant nests, bee hives, and termite swarms don’t 
meet them. You could combine this with a similar thought about 
individual ants and other insects: that they’re just little automata, 
mindlessly going about their work without any of it feeling like 
anything for them. Or you could, alternatively, think that it’s precisely 
the consciousness of individual ants and bees that poses a barrier to

## Page 55

54  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
their colonies being conscious: something about being made up of 
conscious parts is incompatible with being conscious as a whole.  
These objections to hive minds turn on much broader questions 
about what consciousness is, what it takes to be conscious, and how 
consciousness fits into the natural world. Elsewhere I’ve argued against 
all of these sorts of scepticism (Roelofs Ms.), and will summarise those 
arguments only briefly. I note that there are many existing proposals of 
functional criteria for consciousness that are met by individual insects 
like ants (see, e.g., Klein; Barron, 2016; Barron; Klein, 2016; Feinberg; 
Mallatt, 2013, 2016; Bronfmann et al., 2016, Ginsberg; Jablonka, 2019; 
Birch et al., 2020; Malatt et al., 2021). I argue moreover that if we apply 
these functional criteria in an open-minded way, there is a good chance 
that some eusocial insect colonies meet them also (compare arguments 
in Schwitzgebel, 2015, 2020; Friedman, Sovik, 2021; Fonseca, 2022), 
partly in virtue of the functional capacities of their individual members 
and partly in virtue of the way their members interact. I argue 
moreover that we have no good reason to adopt any form of ‘Anti-
Nesting Principle’, to the effect that conscious parts cannot make up a 
conscious whole (cf. Putnam, 1965; Oizumi, et al., 2014; Schwitgebel, 
2015): such principles have implausible results and serve no useful 
theoretical purpose. On the contrary: I have in other work advocated 
‘combinationism’ (Roelofs, 2019), the idea that conscious minds can be 
constituted by other conscious minds interacting in suitable ways. 
Combinationism is obviously congenial to the possibility of hive minds, 
and my hope is that the ensuing discussion of eusocial insects may help 
illustrate the fruitfulness of combinationism as an outlook.  
But my primary question here is not whether ant colonies could 
have conscious minds, but the conditional: if they did, how should we 
think about those minds? Obviously, we cannot hope for much

## Page 56

Luke Roelofs  •  55 
confidence or completeness here: famously, humans struggle to really 
grasp what it’s like even to be a different human, and face major 
obstacles imagining what it’s like to be other animals. So how much less 
can we expect to imagine what it’s like to be a group of many thousands 
of tiny insects? But we can still hope for empirically and theoretically 
informed guesses about the broad outlines and major structures. For 
instance, in a famous discussion of the elusiveness of consciousness, 
Thomas Nagel writes:  
We cannot form more than a schematic conception of what it is like [to be a 
bat]. For example, we may ascribe general types of experience on the basis of 
the animal's structure and behavior. Thus we describe bat sonar as a form 
of three-dimensional forward perception; we believe that bats feel some 
versions of pain, fear, hunger, and lust, and that they have other, more 
familiar types of perception besides sonar. But we believe that these 
experiences also have in each case a specic subjective character, which it 
is beyond our ability to conceive (Nagel 1974, p. 439, emphasis added). 
Here Nagel distinguishes between the unanswerable questions - 
what specifically does bat sonar feel like? - and the more tractable 
project of sketching out the rough contours of a creature’s experience: 
a ‘schematic conception’ of some ‘general types’ of experience and their 
relations. A bat may perceive the world through different senses, but 
we can still reasonably believe that it has perceptual experiences, 
caused by stimuli impacting parts of its body, and that these are distinct 
from but coupled with its other experiences - ‘pain, fear, hunger, and 
lust’, for example, though no doubt human hunger is only an imperfect 
guide to the specific subjective character of bat hunger.  
My goal in asking about ant colony minds is just to get a sense of 
what their rough contours might be, and how they are likely to differ 
from the rough contours of bat minds, human minds, and even 
individual ant minds. In a spirit of empirically-guided speculation, the

## Page 57

56  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
next six sections will consider the following six questions, and suggest 
the following preliminary answers:  
 
1. Does an ant colony have a brain or nervous system? I’ll argue 
that it has a distributed nervous system with no central brain, 
consisting of the nervous systems of all its members and the 
media through which they transmit information to one 
another. 
2. Does an ant colony have a body? I’ll argue that its body consists 
of both the bodies of all its members, together with their nest 
and eggs.  
3. How does the colony’s mind relate to the minds of its 
component ants? I’ll argue that it has a distinct mind that is 
nevertheless nothing over and above theirs, in a way that is best 
understood through the idea of shared token experiences with 
divergent structure.  
4. What does an ant colony perceive? I’ll argue that ant colonies 
likely perceive, consciously or unconsciously, those stimuli 
which their members both perceive and communicate about, 
and that the form of their perceptions is likely dictated by how 
much information about stimuli their members can 
communicate.  
5. What other kinds of experience does an ant colony have? I’ll 
argue that it likely does not have cognitive or imaginative 
experiences, but rather experiences affect, volition, and 
perception in a systematically connected way, without the 
relatively clean differentiations that structure human 
experience.

## Page 58

Luke Roelofs  •  57 
6. What is the moral significance of ant colony consciousness? I’ll 
argue that although the colony may have a degree of moral 
status in virtue of its consciousness, this moral status is best 
viewed not as some extra value added to the value of its 
members, but as simply their value considered collectively. 
1. An Open-Air Brain 
One natural worry about the idea of collective consciousness is 
that collectives don’t seem to have their own brain, or more broadly 
their own nervous system (cf. List 2018, pp.305-308). But is this really 
true? Obviously, there’s no extra brain sitting deep inside the nest, but 
there is plenty of neural tissue in the colony, biologically healthy and 
working to coordinate the system’s behaviour in light of information 
available to it. Isn’t that what a brain is, and what a brain does?  
Let’s try to sharpen up this idea. If we were looking for something 
that functions as an ‘organ of coordination’, we might as a first pass say 
that the ant colony’s brain is simply the totality of its members’ brains. 
After all, the colony's behaviour is coordinated and intelligent partly in 
virtue of the member’s behaviour being so, so let’s look to what 
coordinates the behaviour of each individual ant: its brain, aka cerebral 
ganglia). But this by itself is only part of the story: the ants’ collective 
behaviour depends crucially on the interactions between them, in 
particular on the ways that they transmit information. Just as a brain 
would not be a brain without the synapses that connect neurons with 
each other, so the colony would not be a colony if the ants could not 
communicate (see esp. Gordon, 2010). So, we should think of the colony’s 
brain as the totality of ant brains together with the physical 
connections that transmit signals between them. Some of these

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58  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
connections involve other parts of the ants, like the motor nerves by 
which one ant drums their antennae on another, and the sensory nerves 
by which the other detects the drumming. But some connections 
involve stuff outside any ant’s body, like airborne pheromones, or the 
pheromone trails they lay down to guide each other.  
This ‘brain’ is quite different from a human brain, or indeed an 
ant’s brain, in many ways. For a start, it is not biologically insulated: it 
is not all in one place, surrounded by protective tissue. It is, so to speak, 
an ‘open-air brain’. For another thing, it is not centralised: rather than 
being all in one place, it is distributed throughout the colony’s 
members. In effect, the colony reaches out to hunt for food, fight 
enemies, and gather resources, using its brain. If we did things this way, 
virtually any sort of bodily damage would involve brain damage. Yet the 
colony’s brain differs from ours in other ways that mitigate the 
vulnerability of grabbing things with grey matter. Whereas our 
individual neurones stand fixed in specific relations to each other, the 
colony’s neurones come in little packages (ant brains) which move 
constantly relative to one another1. This likely prevents them from 
developing the sort of exquisitely fine-tuned organisation that our 
brains develop through our years of learning, but with the 
corresponding advantage that it makes them much more robust against 
the destruction of individual ants. Our brains famously have a degree of 
‘neuroplasticity’, such that in response to damage they can re-organise 
themselves and press surviving structures into new use to replace those 
that have been lost. But we can do this only slowly and imperfectly, 
 
1 Of course, if they move too far and become unable to return to the colony, these neurons will cease 
to be a functional part of the colony’s brain, just as the ant containing them ceases to be a functional 
part of the colony, and a piece of brain tissue removed from my head ceases to be a functional part of 
my brain.

## Page 60

Luke Roelofs  •  59 
whereas a colony which routinely loses many of its members must be 
able to do it as a matter of course2. In sum, the colony could be said to 
have a de-centralised, hyper-plastic, open-air brain.  
Based on these differences, of course, we might question if this 
really deserves to be called a brain. If we apply the term ‘brain’ 
narrowly, we might say that it’s not really a brain, just as an ant, or a 
hypothetical android, doesn’t literally have a ‘brain’ (instead they have 
cerebral ganglia, or a central processor, respectively). But we shouldn’t 
get caught up on terminology here: even if an ant or android lacks a 
brain strictly speaking, they have something that plays the same role: a 
physiological structure of coordination that provides a plausible 
physical supervenience base for whatever mental life they might have.  
2. The Body Politic 
A related question about collective consciousness in general is 
whether groups have bodies. Can you consciously feel, sense, or move if 
you have no body? Would hive minds have to be in some sense 
disembodied? At least for ant colonies I would suggest the opposite: 
their minds are hyper-embodied. Because while it’s true that an ant 
colony doesn’t have a body separate from the bodies of its members, 
that doesn’t mean it doesn’t have a body.  
Here we have to step back and ask: what makes a particular part of 
the physical world ‘my body’? It seems to be a cluster of factors:  
 
 
2 The colony is not perfectly plastic: the experiences of older ants seem to be somewhat important, so 
it seems likely that losing enough of them might degrade the colony’s collective intelligence more than 
losing an equal number of younger ants. See discussions of colony-level memory in, e.g. Gordon 2018a, 
2018b; cf. Franks et al., 2007.

## Page 61

60  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
● My direct sensitivity to things happening to it (not based on 
detecting something else that indicates them);  
● My ability to move its organs directly (not by first moving 
something else connected to it);  
● The supervenience of my experiences on states of it3.  
 
So, to identify the body that belongs to the colony’s mind, we might 
look for whatever can be directly felt by, can be directly moved by, and 
contains the physical basis of, its mind. Is there such a candidate body? 
It’s not immediately clear: certainly, the body of an individual ant 
doesn’t seem like the right candidate. So, we must ask a more basic 
question: what makes a certain part of the physical world ‘a body’, of 
the sort that could be mine? What makes all the different parts of my 
body into parts of a single body? Again, it seems natural to point to a 
clustering of many factors, particularly:  
 
● Being tightly coupled, in that each is physically attached to 
another part, and hard to remove (unlike a garment or a 
handheld tool);  
● Having a common origin: each was produced by the growth, 
secretion, division, etc. of another part; and (as a product of this 
fact) sharing a genetic code.  
 
These factors need not be present in every case to the same degree. 
Some cells in my body have no genetic code at all (like my red blood 
cells), and some people are genetic chimeras with multiple genetic 
 
3 For discussion of the forms and grades of embodiment - including cases where these factors come 
apart, see esp. Dainton, 2008, p. 201-235, cf. Dennett, 1978.

## Page 62

Luke Roelofs  •  61 
codes; a foetus growing in my womb is coupled to me and grown from 
me but is genetically distinct, and so might be seen either as a body part 
or as a separate body contained within mine.4 And a prosthetic limb 
might be more or less strongly coupled to the rest of my body - 
potentially being as hard to remove as any other limb - while having a 
fully external origin, making its status as a body part contested5. 
So, let’s take a body to be a system of (at least somewhat) causally 
coupled parts, with (at least somewhat) connected origins, that can be 
controlled by a single mind. I would then say: the totality of individual 
members of an ant colony, together with their eggs and their physical 
nest, can be viewed as a single body in this sense (cf. Friedman et al. 
2020). The various parts of this body are genetically linked due to their 
common origin: they are all offspring of the queen, or products 
produced by the queen’s offspring. The nest might be considered 
somewhat like a mollusc’s shell, or like the casing that a caddisfly larva 
forms around itself from pebbles and other detritus; plausibly these are 
borderline cases of body parts6. Indeed, for leafcutter ants who farm 
fungus deep within their nest, these fungi might be considered as 
genetically-different parts of the same body, rather like the bacteria 
making up human gut flora (cf. Gilbert et al., 2012).  
Of course, the notable thing about this ‘body’ is that the coupling 
of its parts together is much looser than the coupling of my different 
tissues. The ants are physically separated, and move independently, so 
if they form a body, it is a ‘distributed body’. But there is nevertheless 
an important form of coupling here: the ants interact with each other, 
 
4 For discussions of the metaphysics of pregnancy, see Kingma 2018, Finn, 2021. 
5 For discussion of the status of prostheses, see Aas, 2019.  
6 Different sorts of nests might qualify more or less strongly as products of the insects who live in them: 
nests made of wax, paper, etc. qualify more than those which are simply dug into the earth.

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62  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
and with their nest, in ways that help ensure that each tends to 
congregate with the others, return to the others, follow the others, and 
thus form a whole that ‘hangs together’ consistently across time.  
If the distributed mass of ants, eggs, and nest, can be viewed 
collectively as ‘a body’, then it seems well-suited to be ‘the body’ of 
whatever colony mind might be present. For it contains within it what 
I above suggested we could view as the colony’s nervous system: the 
assemblage of individual ants’ nervous systems, together with the 
signals they transmit to each other via pheromones, touch, etc. 
Moreover, it seems natural to think that any action the colony takes 
must involve movement of some part of this body. Likewise, whatever 
the colony senses, it senses only by some individual ants being affected. 
Thus, this distributed body seems to fulfil the conditions to embody the 
colony.  
One interesting result is that ant colony minds are likely to be more 
embodied than ours are. Since our brains are present in only one part 
of our body, we can internally entertain all sorts of thoughts, form all 
sorts of images, even hallucinate all sorts of perceptions and actions, 
regardless of what is going on with the rest of our body. Counting on 
our fingers can help us do maths, but we can also do maths ‘in our heads’ 
- binding our hands does not stop us counting.7 By contrast, an ant 
colony’s brain is spread throughout its body, and the ways that 
information flows among ants will be heavily influenced by their spatial 
distribution. As a result, even if our cognition is to some extent 
embodied, an ant colony’s cognition is likely ‘hyper-embodied’ relative 
 
7 For discussion of the extent to which human cognition is embodied, see e.g. Gallagher, 2005; Shapiro, 
2007; Clark, 2008.

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Luke Roelofs  •  63 
to ours, in that its particular form and content depends a lot on the 
shape and disposition of this body.  
3. Shared Experiences with Divergent Structure 
The last two sections argued that while an ant colony does have a 
brain and body, these largely consist of the interacting brains and bodies 
of its members. This gives some reason to expect that its mind will also, in 
some sense, just consist of the interacting minds of its members. 
Attributing a mind to an ant colony doesn’t mean adding a separate mind 
‘on top of’ the minds of the ants: it’s more like zooming out and seeing that 
their minds, considered together, constitute a single mind. This mind will 
be ‘new’, in the sense that it is genuinely a mind, and isn’t identical to any 
of the ant’s individual minds. (To put it another way, the colony is a 
conscious subject, distinct from any individual ant, and so is a ‘new’ 
subject of consciousness.) But the colony mind is still, as philosophers like 
to say, ‘nothing over and above’ the suitably related ant minds, just as a 
brain is nothing over and above the connected neurones that compose it. 
Every property of the whole derives from the properties of the parts, and 
the way they are put together: nothing appears out of nowhere8.  
But how should we think about this constitutive relationship? In 
Combining Minds, I suggested the following first-pass principle:  
Conditional experience inheritance: If a part of X has an experience which 
plays a certain functional role, then X shares that experience, with the same 
or similar functional role, to the extent that the part in question is connected 
 
8 Strictly speaking, one might point out that the colony’s brain contains some parts that aren’t part of 
any ant’s brain (the signals and media connecting the ants). But insofar as the informational complexity 
of those signals taken in isolation, is vastly less than that of an ant brain, taken in isolation, it still seems 
approximately right to say that the mind of the colony is nothing over and above the coordinated minds 
of its ants.

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64  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
to the rest of X such that its experience has sensitivity to, control over, and 
coordination with other events occurring in X (Roelofs 2019, p. 183). 
This principle is schematic, in that it leaves open how to understand 
sensitivity, control, and coordination in any given case. It is easiest to 
understand in cases like a human being and their brain, where one 
specific part of a whole seems like a candidate for being ascribed all the 
same experiences. My experiences (and thoughts, judgements, and other 
mental states) supervene on events in, and thus might plausibly be 
thought to belong to, my brain. But since they also belong to me, and I am 
not my brain, this has been thought to generate a puzzle of “too many 
thinkers”9. Combinationism, however, suggests there is nothing wrong 
with both me and my brain sharing the very same experiences, because 
as well as being a part of me, there is a systematic sensitivity of events in 
my brain to events in the rest of me (due to my sensory nerves and other 
input channels) and a systematic control by events in my brain of events 
in the rest of me (due to my motor nerves and other output channels). 
Because the experiences of my brain satisfy these functional conditions 
with respect to me as a whole, I inherit them from my brain. We don’t 
need to agonise about whether it is really the whole organism of the brain 
that is conscious: once we recognise this functional relationship, we can 
say “both” and move on.  
Things get more complicated when there are many different parts 
of a whole which it could inherit experiences from. No single ant is like 
my brain: none of them is the ‘leader’, monitoring and directing what the 
rest do (the queen, in particular, is better seen as the colony’s 
reproductive system, not its nervous system - a gonad, not a brain). 
Rather, each ant’s experiences satisfy the functional conditions laid down 
 
9 For discussion see, e.g, Merricks, 2001; Blackmon, 2016, 2021; Roelofs, 2022.

## Page 66

Luke Roelofs  •  65 
by 
Conditional 
Experience 
Inheritance to a small degree: they 
are sensitive to other events going 
on in the colony, though only 
somewhat, 
and 
they 
exercise 
control over other events in the 
colony, though only somewhat. 
This is where the third functional 
condition - coordination - becomes 
important. One ant’s experiences 
are only very imperfectly sensitive 
to broader changes in the colony-body, but as we consider larger subsets 
of ants, their sensitivity increases, both because they are statistically 
more likely to pick up on things happening to the colony, and because 
they effect a valuable form of feedback: one ant detecting a change is 
likely to signal that change to others, who can signal to others, potentially 
amplifying the signal so that the whole colony is alerted. Similarly, one 
ant’s experiences have only a very small influence on what the colony 
body as a whole does, but they can exert greater control if they cause that 
ant to act in ways that alert or recruit enough other ants to join in a given 
activity.  
The implication of these considerations, I would suggest, is that 
ant experiences are inherited by the colony not individually but en 
masse (as schematically indicated in Fig. 1). In the colony’s mind, what 
registers as ‘a single experience’ is the blended experiences of many 
individual ants, so that the colony has no phenomenological sense of 
what is coming from one ant or from another, any more than we have a 
phenomenological sense of how much of a given experience is due to 
one neurone or to another. Individual ant’s experiences are 
A 
B 
A 
B 
C 
 
Figure 1. Each ant’s experience (the 
thought bubbles) comprises a set of 
experiential elements (represented by 
letters). The colony’s experience (the 
large oval) incorporates some of these 
elements, giving it a very different total 
experiential field from any individual ant.

## Page 67

66  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
“phenomenally blended” together for the colony (cf. Roelofs, 2014), so 
that although the colony’s conscious field is entirely constituted by 
experiential elements shared with individual ants, there is a radical 
difference in the overall pattern of relations that organises those 
shared elements. After all, the colony is both a very different beast than 
any of its members, and yet at the same time it largely just is them.  
For example, suppose that many ants all register a dangerous 
shortage of stored food (perhaps in virtue of shifts in the pattern of 
which other ants they interact with at what frequencies, cf. Gordon, 
2010), and release pheromones that have the effect of shifting more ants 
towards foraging roles. From each ant’s perspective, the experience of 
detecting the shortage occurs together with many others, like 
monitoring their own individual location, seeing other ants ahead of 
them, reading local pheromone trails, etc. - and the shortage-detection-
experiences of the other ants do not appear in this perspective. But 
from the colony’s perspective, these individual details fade out, since 
they do not connect to any larger patterns, while the many lack-of-
food-detection-experiences, though they occur in different ants, 
cohere as a single experience because they reinforce each other’s 
common causes and effects - they cohere phenomenally because they 
cohere functionally. But this does not require adding a new experience 
for the colony - its experience of hunger can be assembled from those 
of individual ants. The same experiential raw materials take on 
different overall patterns at different scales, because of the different 
informational and functional structures operative at those scales10.  
 
10 A clarification: talking of the ‘elements’ of a total conscious state always faces a tricky ambiguity, 
between two readings of ‘element’ (the same is sometimes true about talk of ‘experiences’ as countable 
things). There is a constitutive reading, on which an experience has two elements if there are two 
experiences which could have occurred separately but which together add up to it, and there is also a 
phenomenological reading, on which an experience has two elements if it presents its subject with two

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Luke Roelofs  •  67 
4. Seeing Through 100,000 Eyes 
Let’s illustrate how the idea of conditional inheritance works by 
looking at one particular sort of experience: perception. If ant colonies 
are conscious, what external things are they conscious of - what do they 
sense? The principle of Conditional Experience Inheritance, discussed 
above, suggests one way of approaching this question: start with the 
perceptual experiences of individual ants (if any), and then ask which 
of those (if any) fulfil the conditions of sensitivity, control, and 
integration, relative to the whole colony. Fortunately, work on what 
individual ants (and bees, wasps, and termites) can perceive is rich and 
abundant: we are learning a lot about eusocial insect perception, in 
particular of light and odour11. The tricky part is evaluating the 
inheritance conditions: how much of this realises the functional role of 
perceptual experience on the collective level? We can divide this into 
three more specific questions12: 
 
● Of the information collected by ants, how much, if any, is 
available to influence larger-scale colony-level dynamics? 
 
distinguishable things, two contrasting objects or qualities. These senses need not correspond: an 
experience might have two elements in the constitutive sense which blend seamlessly rather than 
appearing contrastively, or might have two elements in the phenomenological sense while being 
metaphysically simple. Indeed, it might have two elements in both senses, without the two lining up: 
constitutive elements A and B might blend seamlessly into an experience as of a contrast between X 
and Y. In this section I am suggesting that constitutive elements are shared between ant and colony, 
potentially yielding very different arrays of phenomenological elements.  
11 See, for instance, Bhagavan and Smith 1997, Alem et al. 2016, Franks et al. 2007, Collett 2010, Galizia et 
al. 2012, and especially Chittka, 2022.  
12 There is a (limited) analogy here with parallel questions about nerve cells and the human body: how 
much information from human distal nerves reaches the brain? What brain processing constitutes 
perception? And which perceptions are conscious rather than unconscious? But of course, there is one 
glaring disanalogy, namely that humans perceive through distal nerves which must relay information to 
the central nervous system. Insofar as the colony is just made up of ants, the ants are simultaneously 
acting like sensory nerve cells (e.g. in the eye or skin) and like nerve cells in the brain.

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68  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
● Of the information made available at the colony level, what 
perceptual states - mental representations of external 
conditions - does it constitute, if any?13  
● Of the colony-level states that represent external conditions, 
which, if any, are phenomenally conscious?  
 
These questions are much more difficult to investigate than the 
question of what individual ants can detect; they are beset with both 
conceptual and empirical challenges. The first, about what information 
is transmitted between ants so as to flow through the colony, requires 
not only identifying the mechanisms by which ants communicate (e.g. 
pheromone trails, antenna-drumming), and identifying what 
information these mechanisms actually transmit (e.g. simple ‘friend-
vs-foe’ identification, a more or less intense ‘follow me’, or spatial 
coordinates14), but then also cataloguing the overall patterns of which 
ant interact with which, what information they transmit, how much of 
that gets passed on, and to whom. The second and third questions then 
require correct theories of perceptual representation and perceptual 
consciousness, respectively, and moreover require a sense of how to 
determinately apply those theories to a very differently-constructed 
organism. These questions are extremely hard, for both practical and 
conceptual reasons, so sheer ignorance looms large here.  
 
13 An interesting related question is: does the colony have sense organs? Arguably it does in a sense: it 
has all the eyes, antennae, etc. of its members. But in another sense, it seems not to: all parts of its body 
serve both sensory and motor functions. 
14 My impression of the current consensus is that bees do exchange relatively rich information through 
their ‘waggle dance’, whereas ants do not: they lay down pheromone trails that say something like 
‘follow me’, and when meeting they can identify each other as colony-mates, as injured or infected, etc. 
but don’t describe food sources beyond this. See Reznikova and Ryanko, 1994, 2011 for disagreement.

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Luke Roelofs  •  69 
However, we do have at least one well-studied example of eusocial 
insect communication where we have a fairly strong grasp of what 
information is represented and how that information flows: the dances 
of honeybees, especially when used to select a new nest location 
(Lindauer, 1985; Seeley, 1992, 1995, 2003; Seeley; Burman, 2001). Bees 
returning from foraging or exploration perform a dance whose 
direction, duration, and intensity encode the direction, distance, and 
value of a food source or potential nest site; other bees who observe the 
dance can follow these ‘instructions’ to find the site and, upon 
returning, perform their own dance. In the process of nest-selection, 
numerous scouts find and report various candidate sites, inducing 
other bees to investigate those sites; eventually, the most attractive 
sites accrue more and more visitors, who dance longer and more 
energetically, until the best site has all or almost-all of the bees dancing 
for it; when this consensus is achieved, the colony departs en masse to 
build a nest there.  
Following Huebner (2014, p. 192-199), I take this to be a compelling 
example of a perceptual representation at the collective level. The dances 
coding for a particular site are, collectively, action-guiding; they have a 
clear evolved function; they have a clear external-world referent; and 
they are unambiguously collective, because the colony can compare 
multiple locations even if each bee only visits one. But are they 
phenomenally conscious? Here I see no particular hope for consensus, so 
let us simply observe that if any perceptual process of a eusocial insect 
colony is conscious, the nest-selection process seems like a promising 
candidate, due to its recurrent, interactive, and global character.  
So far, I’ve characterised the colony’s perceptions in terms of their 
referent - the external properties that they track. But of course, this is 
only half the story; if we are interested in the possibility of colony

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70  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
consciousness, we will wonder how these external properties are 
represented in the colony’s perception. Just as the physical structure of 
wavelengths underdetermines the qualities of colour vision, so the 
physical facts about a nest site underdetermine the qualitative 
character of the honeybee colony’s perceptual experience of it. And 
while the exact quality of that perceptual experience is presumably 
unimaginable to us, we might reasonably think that the dimensions of 
its quality space will be shaped by the way that information is 
transmitted between bees. For instance, an individual scout bee might 
perceive a nest site in detail, getting a sense of its temperature, height 
above the ground, colour, size, shape, etc. But to the extent that all of 
this is summarised into a single dimension of ‘nest site quality’ that 
determines the duration of its dance, the colony’s perception of that site 
might be expected to be phenomenologically much simpler, 
characterised only by a degree of quality, a distance, and a direction15. 
Suppose that we postulate consciousness in the nest-selection 
process: how do other processes look by comparison? If we associate 
consciousness with being sufficiently global, as on ‘global workspace’ 
theories (see, e.g., Baars, 2017; Dehaene et al., 2017), then most other 
processes will seem less promising than nest-selection - even the 
everyday use of the waggle-dance to allocate foragers to nectar and 
pollen sources. Here the same representational code (direction, 
duration, intensity, etc.) is used, but since each nectar site becomes 
depleted by a few visitors there is not the ‘winner-takes-all’ feedback 
structure of nest-selection (it would be bad for every bee to end up at 
the same flower). Insofar as each dance transmits information from one 
 
15 Things might get more complicated than this - the perception of the best site might be phenomenally 
different when all returning scouts have the same quality estimate than when they vary, for instance, if 
that makes a functional difference. Everything depends on the structure of information processing.

## Page 72

Luke Roelofs  •  71 
bee to some small number of others, it might be closer to unconscious 
processing, or more like the less-attended visual periphery than focal 
vision. Perhaps the honeybee colony has a mind that spends most of the 
year in what we would view as ‘unconsciousness’, or just a sort of 
inattentive flow of many habitual actions, but rouses itself to focal 
consciousness once a year to make the decision with the highest stakes.  
One significant difference between bees and ants is that bees fly to 
and from their food, while ants walk. Walking allows for the laying 
down and later reading of pheromone trails, and it seems that much of 
the communication among ants depends on such trails. This sort of 
communication seems much less centralised, both spatially and 
temporally, and to that extent seems an even weaker candidate for 
consciousness by global workspace standards. But much depends on 
how we individuate representations: on the smallest scale, the 
information at any particular point on a particular trail is decoded ‘one 
step at a time’, by one ant at a time, but if we consider the distribution 
of pheromones as a whole, as a single ‘map’, then we might say that it is 
globally accessible in that it can be ‘read’, albeit slowly, by the colony, 
using any or all of its ‘consuming systems’ (foraging ants). So, 
evaluating how “globally” anything is processed is hard to do with any 
confidence: this underlines that the global workspace theory (and its 
rivals), becomes less and less determinate as we remove more and more 
of the architectural features that characterise the human brain (as 
argued by Carruthers, 2019; for discussion see Birch, 2020, Michel, 2021). 
But we might at least suggest that if there is phenomenal consciousness 
here, it is likely to be more diffuse than that associated with the 
honeybees’ dances, less a matter of crisp structured images and more a 
matter of slow unguided feelings-out. Perhaps bee swarms are 
perceptually conscious and ant colonies are not; or perhaps bee swarms

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72  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
have experiences closer to vision or hearing, while ant colonies have 
experiences closer to smell or touch.  
We should also remember that perception is not exclusively of the 
outside world; organisms also perceive their own internal state, and in 
the case of ant colonies this means in particular perceiving the 
distribution of members among tasks and locations within the nest. 
Although some progress has been made in identifying the different 
sorts of chemical signals used to mark out areas and coordinate task 
allocation (see e.g. Heyman et al., 2017), it is harder to decode the 
informational structure of such processes or identify their 
representational content, if any. For all we know, there might be 
stronger candidates for conscious colony-level perception here than in 
external foraging behaviour: ant colonies might be more aware of their 
own bodies than of their surroundings. But it is worth stressing that the 
colony’s perception, particular as embodied in its pheromone trail 
network, seem to be capable of presenting many objects and their 
relations within a spatial environment (like individual insects and 
vertebrates do), rather than merely responding to the presence or 
absence of immediate stimuli (like jellyfish and plants do). In that sense, 
they might be thought to have conscious sensory ‘images’ - though 
perhaps more like our body image than like a visual image - particularly 
in how they interweave sensory with motor dimensions, as the next 
section discusses.  
5. Feeling Antsy 
Although perceptual consciousness is arguably the most well-
studied form of consciousness, it is not the only form. We humans 
undergo, at a minimum, emotional/affective and imaginative

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Luke Roelofs  •  73 
experiences, as well as being conscious of desires, decisions, thoughts, 
intentions, memories, and others (though there is room for 
disagreement about which of these states are or are not conscious in 
the phenomenal sense). Which of these might an ant colony have? If we 
take the presence of functional structure at the colony level as our 
guide, we should probably consider it unlikely for colonies to have 
thoughts, imaginings, future intentions, or the active recall of specific 
memories - that is, mental states that internally represent absent 
objects. These would require processes that are apt to guide and direct 
behaviour at a colony-wide level, but do not immediately issue in action 
- representations of specific objects or situations that are held in 
(collective) mind and not outwardly expressed. It seems unlikely that 
we will find structures with this combination of sophistication and 
permanence among the constantly circulating ants.  
A more promising thing to look for is consciousness connected 
with action and motivation - feelings, emotions, desires, and the 
experience of intentional movement itself. Let’s start by asking what 
actions the colony takes - in a sense of ‘action’ broad enough to allow 
for animals generally, including insects, to take various actions like 
walking or biting16. The paradigmatic form of action among most 
animals is locomotion, movement of the whole body from one place to 
another, and there are some instances where ant colonies do this. Army 
ant colonies, most notably, travel across the forest floor every day, and 
the above-mentioned example of honeybees selecting and then flying 
to a new nest site would also qualify. However, for the most part this is 
 
16 I take it as a plausible premise that, as Frankfurt puts it, “The conditions for attributing the guidance 
of bodily movements to a whole creature, rather than only to some local mechanism within a creature, 
evidently obtain outside of human life”, since they are met “when a spider moves its legs in making its 
way along the ground” (1978, p. 162).

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74  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
not how eusocial insect colonies operate: to put it figuratively, they tend 
to remain in one location while extending their members, like tentacles, 
out to explore the environment and gather food, like a housebound 
octopus. In this sense, we should not require whole-body locomotion as 
a necessary condition of action. But of course, we do not want to count 
anything that any ant does as an action of the colony, any more than 
anything one of my cells does is my action. As a first pass, we might 
attribute a given ant-behaviour to the colony in proportion to both 1) 
how many of the colony’s ants are involved, and 2) how far their 
behaviour is best explained collectively, by the functioning of 
communication systems that work to coordinate ant behaviour towards 
colony goals. By this, admittedly rough, standard we would say that 
when a single ant is separated from the colony, what it does is not 
meaningfully attributable to the colony, whereas what a single ant does 
because of a mechanism allocates ants to tasks (e.g. cleans the larvae, 
sets off to explore) is somewhat attributable to the colony. When many 
ants successively navigate to and harvest from a food source by 
following each other’s pheromone trails, that is substantially 
attributable to the colony, and when all of the ants drop what they were 
doing and shift to evacuation or defence duties because alarm 
pheromones are flooding the nest in response to invasion, that is very 
strongly attributable to the colony.  
So perhaps we can make sense of ‘what the colony does’, but how far 
does any of this make it into consciousness? Is there, for instance, an 
experience of desire, leading to an experience of volition, leading to an 
experience of performing a certain action? I think the most likely answer 
is ‘no’ - not because there is no experience at all, but because the steps 
are likely not differentiated in this way. For us, desire exists earlier than, 
and need not lead to volition, which exists earlier than, and need not lead

## Page 76

Luke Roelofs  •  75 
to, action, and even the experience of action is potentially distinct from 
the actual execution of action. But this is because distinguishable brain 
areas are dedicated to these different functions. Insofar as the colony’s 
brain is made up of ant brains and the signals they exchange, such a 
differentiation seems unlikely: there are no boss ants with the job of 
deciding what other ants should do. So, if there is any consciousness 
associated with what the colony does, our best human model might be 
cases where desire, willing, and action all occur together in a seamless 
succession - perhaps when the impulse to stretch an uncomfortable limb 
arises in unbroken tandem with the process of stretching.  
This point can be pushed further: the colony likely does not have a 
sharp differentiation between states that purely direct action and states 
that purely describe reality. It might rely entirely on what Millikan (1995) 
calls ‘pushmi-pullyu representations’. After all, the colony’s distributed 
nervous system mingles motor and sensory nerves, since each ant has 
both: hence its perceptions might generally also be actions, and vice 
versa. In our brains we have whole areas devoted to largely ‘receptive’ 
processing: taking in information to detect how the world is. And we also 
have whole areas devoted to largely ‘active’ processing: identifying goals, 
planning actions, and coordinating the physical implementation of an 
action plan. Hence, we are used to having some mental states 
(perceptions, beliefs, etc.) that are focused on telling us how things 
actually are, and others (desires, intentions, etc.) that are focused on how 
we want to change them. But the ant colony only has ants, and each ant 
has both sensory and motor systems. So, we might conjecture that its

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76  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
mental states will often have a fused sensorimotor character, 
simultaneously detecting the world and directing responses at it17.  
This applies to the type of action that I above noted as perhaps the 
most fully attributable to the colony itself: the rapid shift to defensive 
behaviour in response to attack. As Millikan notes, alarm signals are 
plausible examples of pushmi-pullyu representations: they at once 
convey descriptive information (“danger! We’re under attack!”) and 
prompt actions (fleeing, fighting, evacuating eggs or young, blocking 
nest entrances, etc.). But they also show a striking resemblance to 
emotional responses in individual organisms like us: a systematic shift 
in how resources are distributed, what sorts of stimuli are salient, and 
what actions are prepared for. Perhaps it is useful to think of colonies 
as experiencing things like the ‘fear’ of being attacked and scrambling 
defences, the ‘contentment’ of being full of food and shifting more 
workers away from foraging towards nest maintenance, the ‘hunger’ of 
finding little food and extending more scouts in more new directions, 
as long as we remember that these feelings are not distinct from the 
perceptions that prompt them and the actions that they prompt.  
This leads to the following suggestion: ant colonies might 
experience affective states in a more vivid and centralised way than 
they experience anything else, including sensory images (if they 
experience those at all). Their consciousness may thus be heavily 
dominated by feelings over images, by comparison with the 
consciousness of animals like us (and ants) that is more dominated by 
large, dedicated, sense organs.  
 
17 Millikan (1995, p. 190) cites the waggle dance of the honeybee as a prime example of a pushmi-pullyu 
representation, though of course having this character relative to the bees who produce and receive 
the representation does not automatically entail that it has this character relative to the colony.

## Page 78

Luke Roelofs  •  77 
6. Non-Additive Moral Status 
Consciousness is often thought to be a sufficient condition for 
moral status: if a being can experience, then it seems natural to think it 
has interests that we should give at least some weight to in our moral 
deliberations. Does ant colony consciousness imply something like this 
for the ant colony? Does it matter, morally?  
On the assumption that consciousness grants moral status, ant 
colony consciousness would indeed imply ant colony moral status. But 
there is an important caveat; its value may not be something to add to 
whatever value its component ants have (for recent discussions of the 
moral status of arthropods, see esp. Birch et al., 2020; Sebo, 2023). Just 
as its consciousness is nothing over and above theirs, the moral 
consideration it demands may turn out to be just another way of 
viewing the moral consideration that they demand. That doesn’t mean 
that the colony doesn’t matter: it means that if it matters and its 
members matter, these might be two sides of the same coin.  
Whether this is true depends on both how exactly we understand 
the relation between consciousness and value link, and how exactly we 
understand the relation between ant-consciousness and colony-
consciousness. In particular, it’s common to think that the most 
morally important sorts of consciousness are valanced states, which 
present something as good or bad. Examples include suffering, joy, 
distress, contentment, and perhaps desire and frustration. Certainly, 
these are the forms of consciousness that most directly relate to the 
content of a conscious being’s interests. Above, I argued that the 
consciousnesses of the colony and its ants exhibit shared elements with 
divergent structure. This raises the question whether the sort of 
valence that matters for moral status has more to do with the elements

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78  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
of consciousness (that are shared) or with the structure (which 
diverges). When my experience is pleasant, is that because it contains a 
specific pleasant element (e.g. a pleasant taste in my mouth), or because 
of how that pleasure affects my attention, efforts, or the overall 
organisation of my consciousness?18  
On one way of thinking, valence is atomistic: the valence of a 
complex experience is a linear sum of the amount of positive valence in 
the ingredients that went into it (e.g. particular pleasant sensations), 
minus all the negative (e.g. particular unpleasant sensations). On this way 
of thinking, it might make sense to associate valence with the shared 
elements, and therefore to attribute completely non-additive moral 
status to the colony, since whatever valence is present in its experiences 
can only be recycled from what is present in the ants’ experiences.  
Alternatively, we might think that valence is to a greater or lesser 
degree holistic, depending on how one’s total conscious field is 
organised. In Combining Minds (p. 4 ff), I argue that holistic properties 
like this are division-relative, and can differ between a whole and its 
parts even if the whole is nothing over and above the parts. This opens 
up the possibility that the valence in the colony’s consciousness could 
diverge from that in the ants’ - e.g. that it might feel good in virtue of 
them feeling bad. There would then be genuinely different moral 
interests, that would have to be balanced against each other.  
However, even if valence is holistic and such divergence is possible 
in principle, there is little reason to think that it is actual. There are few 
circumstances where a colony benefits from things that distress most 
of its ants - there may be many cases where a single ant’s painful self-
 
18 For a fuller discussion of this issue as it arises across various forms of experiential sharing, see Roelofs 
and Sebo, Ms.

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Luke Roelofs  •  79 
sacrifice serves the colony, but only because it serves the interests of 
the many other ants. The colony just doesn’t seem organised enough to 
systematically pursue interests that conflict with the drives of its 
members. So, it appears likely that even if the colony is conscious, and 
even if consciousness is sufficient for moral status, we do not need to 
add the colony to our moral calculations as a new entry: any calculation 
that factors in the welfare of insects, including ants, will have thereby 
already included that of their societies19.  
Conclusion 
In an interview in 2005, Daniel Dennett said “What is it like to be 
an ant colony? Nothing, I submit, and I think most would agree 
intuitively”. Perhaps so, but in other work I have defended the idea of 
ant colony consciousness, and in this discussion, I’ve taken it as a 
starting conjecture. Specifically, I maintain that the ant colony might 
well have a conscious mind which, although it is distinct from that of 
any individual ant, and has its own characteristic structure and 
phenomenology, reflecting the functional structure of information 
processing at the collective level, nevertheless is nothing over and 
above the interacting minds of the ants, just as the colony is nothing 
over and above the interacting ants.  
My aim here hasn’t been to suggest final answers, but to organise 
and connect questions. The question of what an ant colony consciously 
 
19 Might something like this apply also to human brains and either the social groups they form or the 
neurones that compose them, if either of the latter were to be or become conscious? This is an 
interesting question, considered more fully in Roelofs and Sebo Ms., but one obvious fact is that the 
difference in cognitive sophistication and integration between a human brain and either a society or a 
neuron is enormous, especially compared to the difference between an ant and an ant colony (where it 
is, in fact, hard to say confidently which is more sophisticated). Consequently, on a holistic view of 
valence it is much more likely that the human brain’s mental life would involve valuable states with no 
counterpart in either the minds of either its parts or its groups.

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80  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
perceives depends partly on what ants can perceive, partly on what 
information ants communicate to each other and in what patterns, and 
partly on what the right theory is of the structural requirements for 
conscious perception. And the question of what other sorts of 
experiences an ant colony might have will likewise depend on difficult 
questions both myrmecological (how does information flow within the 
colony, and how does that coordinate ant behaviour?) and philosophical 
(what is it to feel emotions, or desires, or to consciously act?). As a first 
pass, I’ve suggested that ant colonies probably sense their 
surroundings, and the quality of food sources laid out in them, but do 
so in a slow and decentralised way, while they probably experience 
assaults on or disturbances in their next much more immediately and 
rapidly, though still on a slower timescale than is typical for individual 
conscious animals - simply because it takes more time for information 
to travel between ants than between neurones. I’ve also suggested that 
an ant colony’s awareness of its world is more like our body image than 
like visual images: extended, and complex, but dynamic and embodied, 
with a systematic interweaving of sensation, affect, and action. But all 
of these are just attempts at educated guesses, and my aim is just to 
convey what sort of guesses, educated by what sort of scientific 
investigations, we should be attempting. It is extremely hard to know 
what it’s like being either an ant colony or an ant, but we can work 
towards at least a schematic conception.  
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TOWARDS A SCIENCE OF CONSCIOUSNESS 
AND SOCIAL COMPLEXITY … FOR ANTS 
Maria Luiza Iennaco 
Daniel Friedman 
1. Systems, Measurements, and Theories in Consciousness Science  
Understanding and measuring consciousness is a perennial 
challenge for scientists, theorists, and practitioners (such as doctors 
and social workers) alike. This quest to develop a better understanding 
of the correlates and causative factors of consciousness is motivated by 
various significant implications for multiple fields (Ledoux; Michel; 
Lau, 2020; Seth, 2021).  
In this article, we set some context for consciousness studies, in 
terms of scientific pluralism (Longino, 2000), specifically regarding the 
target System, empirical Measurements, and utilized Theories. After 
reviewing several leading formal theories of consciousness, we 
highlight recent work that uses Active Inference to consider the 
material, cognitive, and experiential aspects of conscious awareness in 
diverse systems. Then, with an Active Inference lens in place, we 
consider how recent multidimensional frameworks on animal 
consciousness (Birch; Schnell; Clayton, 2020) can be operationalized to 
apply to the eusocial Hymenoptera (all ants, some bees, and wasps) as 
global systems of interest. 
In pursuit of expanding this human-centered approach to 
consciousness studies, without falling into the trap of a “view from 
nowhere” (Nagel, 1989), broadly we see the challenge is to find an 
approach to measure and model conscious systems in a bottom-up

## Page 89

88  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
fashion, describing and predicting heterogeneity among systems (in 
practice) using a common principle to enable comparability. With that in 
mind, here we focus on how emerging physics-based approaches such as 
Active Inference and the Free Energy Principle may help us understand 
and model such heterogeneity. To provide an empirical grounding for 
this work and point towards specific examples of available measures and 
experiments, we highlight the ant colony system.  
1.1 Systems 
Ants are a globally distributed clade of insects that obligately live 
in multi-nestmate colony system (Kass et al., 2022). Beyond their 
fascinating and economically important biology, ants have also 
stimulated inquiry into diverse areas such as distributed systems 
design (Mullen; Monekosso; Barman; Remagnino, 2009; Heylighen, 
2016) and philosophy (Hofstadter, 1999; Gordon, 1992; Costa, 2002; King, 
2006). The thousands of ant species around the world vary widely in 
almost every conceivable nestmate and colony-level trait (Linksvayer, 
2015), summarized by a variety of measures (Holland; Bloch, 2020; 
Traniello; Linksvayer; Coto, 2022). 
The collective behavior of ant colonies, represented by their niche 
modifications and interaction patterns (Gordon, 2010), has long been 
compared to the human brain (Hofstadter, 1999, Chapter 11, Prelude... Ant 
Fugue). Analogous to various measures of cognitive complexity in human 
brains and societies, insect researchers have proposed “social complexity” 
measures in ants, encompassing “many individual and colony-level traits 
and characteristics such as colony size, polymorphism, and foraging 
strategy” (Anderson; McShea, 2001). As we will develop here, we believe 
that ant colonies are appropriate systems for considering a plurality of

## Page 90

Maria Luiza Iennaco; Daniel Friedman  •  89 
bottom-up and multi-measurement methods for studying consciousness, 
amidst the plural theoretical avenues, as scaffolded and scoped by Active 
Inference and the Free Energy Principle.  
To extend consciousness studies beyond humans, here focusing on 
the ant colony system, we approach this inquiry from the perspective of 
Measurements & Theories – which is to say in terms of the data collected 
in the empirical process (measurements) as it relates with the cognitive 
frame of the investigator as it guides their analysis (theories). Specifically 
through applied Active Inference, we sketch a mapping and relationship 
between the phenotype of social complexity in ants and the phenotype of 
consciousness across systems. We will suggest that insights from the 
study of social complexity in ants may shine some pragmatic as well as 
epistemic light on current debates in consciousness studies. 
1.2 Measurements 
The concept of consciousness is highly ambiguous and 
multifaceted (Barúss, 1987; Tassi; Muzet, 2001; Velmans, 2009; 
Rosenthal, 2009; Friedman; Søvik, 2019). Philosophers and researchers 
have developed a range of measurement and modeling techniques for 
consciousness based on the idea that consciousness itself (among other 
cognitive features) has measurable and quantifiable types and degrees, 
both regarding its states (arousal) and its content (awareness). Some of 
the 
literature 
on 
consciousness 
in 
humans, 
for 
instance, 
operationalizes the idea that conscious awareness has linear, 
hierarchical levels or degrees (e.g. Glasgow coma scale, the Richmond 
Agitation-Sedation scale, Coma Recovery Scale-Revised [Tindall, 1990; 
Bayne; Hohwy; Owen, 2016]). However, it is worth noting that these

## Page 91

90  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
medical heuristics are designed for clinical utility in limited settings, 
not as generalized epistemic instruments.  
Even though these forms of measuring consciousness are useful in 
their respective niches, there are conceptual problems in application, 
generalization, and transfer among the various expressions of 
consciousness. This non-integration of perspectives within and across 
approaches exacerbates, and fails to leverage, gaps among the 
disciplines that propose to study it. 
Subjective aspects of consciousness are commonly measured by 
phenomenology, for example relying on verbal reports from subjects 
describing their experiences in experiments. These reports are analyzed 
in conjunction with other data, including neural correlates of 
consciousness (NCCs), which are brain regions or bodily processes 
potentially correlated with specific conscious experiences. In this regard, 
there are some neuroscientific tools used to measure brain activity, 
neural correlation, and connectivity associated with different levels and 
aspects of consciousness, such as neuroimaging and eye tracking. 
In philosophy, phenomenal consciousness is described as the 
sensation of being an organism – an intrinsic, ineffable, and private 
sensation to each one. Such a description places the phenomenon in a 
fundamentally intellectualist category, dependent on interior 
experience and limited to human beings since it would be exceedingly 
difficult to study something with such characteristics in another 
species or system (Dennett, 1992; Ji, 2023). Meanwhile in medicine, the 
leading criteria used by scientific and clinical literature, perhaps for 
reasons such as pragmatic utility and simplicity, usually consider the 
healthy neurotypical adult human as the maximally or prototypically 
conscious creature, which can fail to recognize, or even diminish, 
characteristics of neurodivergent consciousnesses, especially if such

## Page 92

Maria Luiza Iennaco; Daniel Friedman  •  91 
measures are applied outside of the clinic. These gaps or mismatches 
open room to misguided presumptions and theories that are different 
in their assessments and precisions, in estimates about the young, 
unhealthy, non-human, and non-biological manifestations of 
consciousness. Amidst this setting, broader explorations of 
consciousness can proxy as or for discussions like “is this system a 
culpable or praiseable adult human?” (Skinner, 1971; Sapolsky, 2023). 
After conditioning a line of inquiry upon the system of interest (e.g. 
a human for a medical clinician, ant for a myrmecologist, bee for 
apidologist, etc.), the space of measurements may be fairly constrained 
by the empirical setting. For example, the human medical researcher 
might only have access to biosensory data, and the myrmecologist might 
only have access to the measures made and experiments possible in the 
field. With that in mind, the following sections briefly review several 
formal frameworks for consciousness that might even be able to 
approach extended non-human systems such as ants, in terms of 
accommodating empirical measurements while grounded in physical 
theoretical first principles. As models are both constrained and embodied 
by their constructs, like maps that only capture some aspects of the 
territory they represent (Cordes; Friedman; Maron, 2020; Andrew, 2021; 
Ramstead; Sakthivadivel; Friston, 2022), it is to be expected and welcomed 
that various models of consciousness differ in their considered 
measurements as well as explanatory and predictive scope. 
1.3 Theories 
Here we explore more carefully several contemporary empirical 
theories (here used in a similar sense to frameworks or models) for 
consciousness. We highlight these theories as examples of how

## Page 93

92  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
researchers are currently approaching the study of consciousness in 
human and non-human systems today. Models of consciousness serve 
as powerful tools for studying consciousness. The utility of having 
different models of consciousness is their ability to address distinct 
functions and processes. When systematically compared, they can 
operate as allies rather than competing models (Graziano et al., 2020; 
Del Pin, 2021; Storm et al., 2024). 
Nevertheless, we argue that these models are often limited by an 
idealized conceptualization of consciousness and multiple biases and 
misguided intuitions. To overcome these limitations, a resolution of 
multiple biases may be achieved through investigating and defining the 
minimum criteria of consciousness, as Crick and Koch did in the 1990s 
(Crick; Koch, 1990), or by identifying common properties that 
organisms possess as criteria for consciousness, as Seth et al. developed 
in 2005 (Seth; Baars; Edelman, 2005). However, we contend that these 
efforts will not meaningfully advance consciousness studies if the 
conceptualization of consciousness continues to rely on intuitive top-
down approaches. 
Cognitive neuroscientific models of consciousness such as the 
Global Workspace Theory (GWT) (Baars, 1988; Baars, 2017) simulate 
neural networks or connections that correspond to or constitute 
essential aspects of consciousness. GWT posits that consciousness 
emerges from the activity of multiple brain networks that integrate and 
disseminate information across the system. These networks function as 
modules that process information unconsciously in parallel and 
interact with each other through a global workspace that serves as a 
gateway to conscious experience. Therefore, consciousness is the 
outcome of global access to selected pieces of information in the system. 
This model and its subsequent versions (Dehaene; Changeux, 2011;

## Page 94

Maria Luiza Iennaco; Daniel Friedman  •  93 
Bressler; Kelso, 2016) are widely accepted in the field of consciousness 
studies and have some empirical support. However, a notable limitation 
of this approach is the reliance on the specific neuroanatomical 
structures of the human brain for the existence of consciousness. 
Although the model was devised and implemented for humans, this 
reliance may pose a challenge to the description of consciousness in 
non-human architectures of consciousness. 
Informational models of consciousness, such as the Integrated 
Information Theory (IIT), attempt to formally specify the informational, 
statistical, mathematical, or otherwise analytical variables that 
constitute the phenomenal experience (Tononi, 2004; Tsuchiya; Taguchi; 
Saigo, 2016; Negro, 2022). Based on axioms (Crick; Koch, 1990), the IIT 
measures the complexity of the phenomenal experience through the 
variable Φ (phi), which indicates the amount of integrated information 
within a system. In this model, informational properties are key intrinsic 
aspects of a system, which will causally influence its state in the past, 
present, and future, affecting the system qualitatively. Therefore, IIT’s 
postulates aim to determine whether a system is conscious and in what 
manner. Although many authors who appreciate and emphasize 
mathematical rigor in theories of consciousness find this approach 
appealing, the IIT faces some difficulties. To name a few, what does it 
exactly imply to equate the phenomenal experience to the level of 
integrated information in the system? Furthermore, given that this 
theory does not restrict Φ to human beings, is the computation of the 
value of integrated information, or any quantitative descriptor for that 
matter, in other systems enough to infer what kind of conscious 
experience they are having? 
This raises the question of whether it is necessary to replace all 
attempts to measure consciousness in degrees, or if it is more effective to

## Page 95

94  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
alter philosophical assumptions and underlying theories, which could 
meaningfully alter the way any given quantitative measure is 
interpreted. There are comprehensive examples of studies that have 
abandoned top-down approaches and embraced a system-agnostic 
approach to studying consciousness. Starting with bottom-up quantum 
models of consciousness, some argue that consciousness emerges from 
the entanglement and superposition of subcellular neural quantum 
structures (Hameroff; Penrose, 2014; Hameroff, 2021). Proponents of this 
approach claim that properties of consciousness cannot be accounted for 
by the paradigm of Newtonian mechanics alone. In some of these models, 
consciousness is distinct from the “mind”, which would have an 
independent role from the neural circuits in shaping conscious 
experience. While these quantum models of consciousness have faced 
criticism from scientists and philosophers alike (Tegmark, 1999; 
Derakhshani et al., 2022; Koch; Hepp, 2006; Bools, 1990; Grush; 
Churchland, 1995; Putnam, 1995) for relying on contentious philosophical 
assumptions (Atmanspacher, 2020), discussion and development on these 
quantum approaches continue to this day. Alternative “top-down” 
quantum cognitive formulations rest not in the material properties of 
microtubules, but rather in terms of the nature of interfaces and discrete 
cognitive states. For example, Ramsted et al. (2023) structured an “inner 
screen” model of consciousness that follows the Free Energy Principle in 
both classical and quantum formulations (Ramstead et al., 2023). 
Specifically for this “inner screen” model in the ant context, it is 
interesting to consider physio-chemical interactions among nestmates 
as holographic screens, passing information throughout the colony 
analogously to communication among neurons (Hofstadter, 1999). 
Besides the quantum world, a variety of other frameworks for 
modeling conscious states have been proposed, such as that of Tsuchiya

## Page 96

Maria Luiza Iennaco; Daniel Friedman  •  95 
et al. (2016 employed Category Theory to assess the relationship 
between consciousness and Integrated Information Theory (IIT) 
(Tsuchiya; Taguchi; Saigo, 2016). Similarly, Safron (2020) combined IIT 
and Global Neuronal Workspace Theory (GNWT) in a bottom-up fashion 
based on the Free Energy Principle and Active Inference (FEP-AI) 
framework (Safron, 2020). Rorot (2021) investigated previous attempts 
to integrate models of consciousness into Bayesian approaches, which 
also operate in a bottom-up fashion, to develop what he called the 
Minimal Unifying Model of consciousness (Rorot, 2021).  
Our intention here has been to review without pre-judging the 
epistemic or pragmatic utility of any of these theories for the ant colony 
system and beyond. Next, we start building our proposal using a 
bottom-up approach, towards a broadened view of consciousness.  
2. Consciousness in Light of Organism-Environment Co-Determination 
Exploring the evolutionary and developmental origins of 
consciousness is an increasingly popular path among researchers 
seeking to understand the plurality of its expression, including e.g. co-
homeostasis (Ciaunica et al., 2021) and basal cognition (Bongard; Levin, 
2023). In this regard, a good starting point may be to discuss what makes 
conscious cognitive agents co-determinant while distinct from their 
environment, as this maintained partition may provide a starting point 
for what we call consciousness, in relationship or as arising from the 
broader field of mortal computing1 (Ororbia; Friston, 2023). 
In order for an organism to maintain its structural and functional 
integrity as a locally thermodynamically delimited entity, it needs to 
 
1 Mortal computing means that “the mathematical calculations/processes that underlie information 
processing in a biological or artificial system are inseparable from the physical substrate that 
implements and executes them” (Ororbia; Friston, 2023, p. 3).

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96  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
fight against global (informational, physical) equilibria, thus remaining 
distinct from its environment (Schrödinger, 1992; Stewart; Gapenne; Di 
Paolo, 2010). This, in turn, requires the limitation of the entropy of a 
thing’s own constituent states, and thus temporarily ensures its local 
thermodynamic equilibrium – this can be viewed as a system “fighting” 
against the Second Law of Thermodynamics (Ramstead; Badcock; Friston, 
2018). In this sense, living beings are defined as thermodynamically open 
and far-from-equilibrium autopoietic systems. That is, systems that 
continuously regenerate themselves through their interactions and 
transformations, producing their own constituent states through 
networks of relational processes to form locally concrete spatial units, 
always struggling to maintain equilibrium (Varela, 1979).  
In maintaining this precarious equilibrium, the organism uses its 
interactions with the environment, guiding itself in a way that allows it 
to revisit homeostatically favorable states over time, even in the face of 
continuous and random environmental fluctuations. And in doing so, it 
modifies its environment and its relationship to it, which also modifies 
the information that the organism will subsequently capture (Friston, 
2005; Friston, 2010). The environment inhabited by an organism would 
therefore be nothing more than the consequences of its actions as 
captured by its sensory inputs, which strictly depend on what is 
afforded by a habitable context. Thus, we could not speak of an 
environment without there being an organism acting within it, as living 
beings bring forth the environment in which they inhabit/exist 
(Thompson, 1987). The distinction between an organism and its 
environment is consequently co-determinant, with the existence of 
both (as delimited entities) depending on their cyclic and dynamic 
interrelationships, over multiple nested scales (e.g. cell, tissue, organ, 
nestmate, colony, population, and ecosystem).

## Page 98

Maria Luiza Iennaco; Daniel Friedman  •  97 
Considered on any scale (e.g. intelligence of nestmates and/or 
colonies [Feinerman; Korman, 2017]), the action of a thing in its 
environment depends first and foremost on its morphological and 
phenotypic constraints, creating inter-relational regularities that attract 
the organism to a specific set of conditions in which it may find itself 
throughout its life (Juarrero, 2015; Ramstead et al., 2023). These inter-
relational regularities that an organism tends to frequent throughout its 
existence can then be understood as a model of its niche (that is, the part 
of the environment that is accessible to it) and its behavior in it. And 
because such models establish something like a probabilistic mapping 
over time of the indirect interaction between the internal and external 
states of a living being, they can be interpreted as sub-personal (or sub-
colony/nestmate, as it were) estimates of things about the environmental 
causes of changes in their constituent states. Such mapping would allow 
investigators to understand the internal dynamics of living beings as 
performing almost-optimal inferences about their niches (Corcoran; 
Pezzulo; Hohwy, 2020). The fundamental observation here is that this 
inferential process would provide organisms' behavior with a predictive 
nature. This allows the organism to respond to potential perturbations 
from their environment or to avoid physiologically stressful and 
homeostatically destabilizing conditions before they even occur – that is, 
allostasis. Corcoran et al. (2020) further specify that cognitive entities can 
accomplish allostasis by being able to “detach from the present and 
engage in counterfactual (active) inference”.  
2.1 Active Inference 
Building on the above considerations about agent-niche co-
determination, Here we review various works that have analyzed

## Page 99

98  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
cognition and consciousness based on the Active Inference and the Free 
Energy Principle (FEP) (Ramstead et al., 2023; Sandved-Smith et al., 2021; 
Albarracin et al., 2022), an approach which in our view integrates many 
of the valid and important points of the sections above.  
So far, we have described an organism or thing that, in order to 
survive, needs to minimize entropy within its environment to 
distinguish itself from it and acquire autonomy over it. To maintain its 
distinction from the environment, the organism needs to act upon it, 
and by doing so repeatedly, it maps the regularities of the environment, 
preferring those that are favorable to its existence. In this context, its 
actions will increasingly be optimized concerning this favorable 
environment, enabling the organism to infer the causes of the effects 
that the environment has generated in its sensory apparatus. This is the 
starting point of the description provided by Active Inference, a recent 
neurocomputational framework that is based on a single organizing 
process: the minimization of prediction error and its role in the action-
perception cycle. 
According to the FEP, systems that minimize the divergence 
between their models and the environment information they sense will 
maintain their low (thermodynamic) entropy structure through 
autopoiesis in the face of random fluctuations in the environment. 
Under the FEP, phenotypes are cast as dynamics of systems (Friston et 
al., 2023a; Friston et al., 2023b), meaning that phenotypes are at least 
persistent enough to be repeatedly measured (e.g. in the scale-free 
quantum interpretation of FEP [Ramstead et al., 2023; Fields; Friston; 
Glazebook; Levin, 2021]), if not self-evidencing enough to drive adaptive 
action in support of homeostasis. It is worth noting that all such 
modeling efforts can be considered as subjectively constructed

## Page 100

Maria Luiza Iennaco; Daniel Friedman  •  99 
relational models (e.g., cognitive models created by a given modeler 
[Ramstead; Sakthivadivel; Friston, 2022; Parr; Pezzulo; Friston, 2022]).  
Active Inference is a framework that describes the Bayesian-
optimized functioning of behavior and cognition in living organisms in 
terms of the FEP (Corcoran; Pezzulo; Hohwy, 2020). This description 
follows only the imperative of minimizing surprise or variational free 
energy in the sensory observations that these organisms constantly 
receive (Parr; Pezzulo; Friston, 2022). Here, a system that possesses a 
physical brain is algorithmically organized in hierarchical layers that 
communicate via top-down and bottom-up information flows, ensuring 
the system's maintenance over time. The upper layers of the hierarchy 
deal with slower and more detailed information, transmitting it in a 
downward flow to anticipate the causes of the effects captured by 
sensors. The lower layers, closer to sensors, deal with faster and less 
detailed information as it arrives at the sensory apparatus and 
transmits it in an upward flow (Ramstead et al., 2023; Clark, 2015). Only 
information that diverges from anticipatory predictions is propagated 
onward, in an ascending manner (e.g. from sensory organs upwards). 
This helps to maintain our active and updated predictive inferences, 
minimizing divergences and bringing our anticipatory dynamics closer 
to the world they aim to anticipate (Rauss; Schwartz; Pourtois, 2011, p. 
1249). This minimization can occur in two ways: by updating organismic 
predictions (perception and learning) or by manipulating the 
environment to bring it closer to what is predicted by the system 
(action). In humans, the first form refers to the direction of attention, 
while the second form refers to embodied action upon the environment, 
altering it so that future sensory observations are more aligned with 
what the organism prefers (Clark, 2013, p. 186).

## Page 101

100  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
Thus, as applied to an empirical setting like an ant colony, the 
Active Inference framework consists of structuring relational, 
historically determined, and dynamic processes (Friedman et al., 2021). 
In this context, systems are limited to capturing the sensory effects of 
causes in the world and depend on occasional regularities in these 
captures for the establishment of priors over time. Nonetheless, we 
need to act skillfully, even in the face of uncertainty in the 
environment, as we operate in the world to perceive it to the same 
extent that we perceive it to act in it. Therefore, in (nested) action-
perception cycles, perceptual content informs the organism of what 
would be interesting to attend to and useful to interact with (i.e., its 
affordances) so that such a process can continue (Seth, 2014; Andersen; 
Miller; Vervaeke, 2022, p. 9).  
3. Towards Physical and Metaphysical Dimensions for Cognitive Systems 
Along with many previous works in this area our aims here are to 
devise and apply models and frameworks that support inquiries into 
consciousness, using assumptions that are more encompassing and at 
the same time operationalizable. Here we base and begin our 
contribution on the work of Birch et al. (2020) “Dimensions of Animal 
Consciousness”, where they proposed a multidimensional model to 
capture the variations of animal consciousness (Table 1). We do not 
claim that their model as presented is the total, complete, or only 
partitioning of the concepts around describing consciousness. Rather 
we see their proposal as, along with many other models in the space, a 
valid and relevant contender which merits consideration and 
juxtaposition, as well as further development and use. These kinds of 
pluralistic phenotypic approaches prevent collapsing down to any

## Page 102

Maria Luiza Iennaco; Daniel Friedman  •  101 
unimodal scale (measurement), let alone one that centers around or 
calibrates to any specific cognitive system.  
We pick up here on some of the closing words of Birch et al. (2020), 
who write: “We are not yet in a position to construct numerical 
measures of all five dimensions.”. Here, we constructively attempt to 
pick up on that challenge, through the application of Active Inference 
to blend the empirical study of (eu)social complexity in insects, with a 
philosophical discussion of What it is like to be an ant?  
3.1 Active Inference, Consciousness, and Social Complexity in Ants  
In the preceding sections, we have laid the foundation to approach 
the quantitative multidimensional study of consciousness in biological 
entities as disparate as humans and ants, reviewing many current 
models and considering some aspects of the connection between 
consciousness and physical principles. By utilizing Active Inference, we 
are able to adopt a phenotype-oriented approach toward measuring 
consciousness, explored here in the context of ant colonies as tractable 
and global model study systems (Friedman; Søvik, 2019). As Table 1 
explores, Active Inference plays an intermediary, or mapping, role 
between aspects of consciousness (on the left) and dimensions of social 
complexity phenotypes (on the right).  
 
Area of Inquiry 
Consciousness  
Active Inference  
Social complexity 
Role played here 
Operationalizing the 
multidimensional 
consciousness model 
of (Birch et al. 2020). 
Bringing two 
measurement 
spaces together to 
support integrated 
inference. 
Describes 
phenotypic aspects 
of insect colonies.  
Epistemic status 
Phenomenological, 
Axiomatic, High Road. 
Frame & Filter – 
Gripped & Gripped. 
Cognitive, Empirical 
Material, Low Road.

## Page 103

102  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
 
Temporality 
“Integration across 
time”. 
“a temporally 
integrated stream, 
rather than a staccato 
series of fragmented 
experiences”. 
Temporal depth or 
thickness. 
Time-
cone/diamond 
historicity. 
 
Variations in Life 
histories among 
species, colonies, 
and nestmates.  
Unity 
 
"integration at a time" 
“a single, unified 
perspective as 
opposed to multiple 
perspectives”. 
 
General synchrony. 
Mutual 
information.  
Time-
cone/diamond 
width  
Deepest finite 
quantum 
holograph 
Functional and 
material aspects of 
the ant colony, in 
terms of coherence, 
or causal / spatio-
temporal extent of 
thing-ness 
 
Selfhood (self-
awareness) 
 
“the conscious 
awareness of oneself 
as distinct from the 
world outside” 
 
“I am therefore I 
think ” (Friston, 
2016) 
Regulative or 
cybernetic features 
of the nested 
colony cognitive 
niche.  
P(erceptual) 
richness 
“the level of detail 
with which [animals] 
consciously perceive 
aspects of their 
environment. ” 
Sensory states 
Perception  
Sensitivity 
Salience 
Colony and 
nestmate 
perceptual 
capacities, directly 
and through 
interactions and 
extended 
cognition. 
E(valuative) 
richness 
 
“the richness of 
[animals’] experiences 
of valence” 
Valence 
Affect 
Basal and Higher-
order (meta-) 
cognitive processes  
Colony descriptive 
and generally 
regulative features, 
perhaps like level of 
alarm or overall 
activity patterns.  
Table 1. Juxtaposition of Consciousness, Active Inference, and Social complexity. Note that 
one could add rows for (any number of) other cognitive phenomena and descriptors. Along 
the 3rd axis (normal to the page) can be the system of interest, here fixed as the ant colony 
so that this table can be printed flat on the classical plane.

## Page 104

Maria Luiza Iennaco; Daniel Friedman  •  103 
Several points can be made about Table 1, considered here: 
 
● As both consciousness and social complexity are potentially 
scale-independent descriptors for complex adaptive systems, 
their scope and study systems (e.g., humans, ant colonies, 
computers) are largely overlapping. Active Inference provides an 
approach and framework that can operationalize consciousness 
and social complexity studies, separately and jointly.  
● Both consciousness and social complexity can be considered in 
terms of composite or complex variables, composed of various 
phenotypic sub-measures. A multidimensional method applied 
to study consciousness or social complexity does not have a 
simple “higher/lower” or “more/less” unless it is collapsed or 
projected down to a single comparable numerical value. 
Discussing insect evolution, Linksvayer and Johnson (2019), 
challenged the concept of a singular hierarchical social ladder 
structure for social complexity. Their critique highlights how 
numerical measurements for social complexity are often 
discussed in a rankable fashion (e.g., more/less socially 
complex, or higher/lower in terms of social complexity). 
However, distinct insect lineages show diverse changes across 
phenotypic measures of social complexity over multiple 
phylogenetic scales. Consequently, they argue against 
oversimplifying the range of ant colony phenotypes into a 
linear or ladder-like measure, arguing that multidimensional 
measures will be useful as more information on insect sociality 
is analyzed through time. We feel a strong analogical resonance 
between their discussion of social complexity in ants, and 
consciousness studies in ants and beyond.

## Page 105

104  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
● Empirically, different axes of social complexity are not 
necessarily correlated with each other (e.g., morphologically 
distinct workers may be found in large or small colonies) 
(Holland; Bloch, 2020), just as different proposed measures for 
cognitive function or consciousness in humans do not always 
correlate. As a corollary to this point, empirical cognitive 
measures (e.g. neuron number or connectivity in brains, 
nestmate number or connectivity in colonies) may have 
complex or unclear correlations to any dimensions of 
consciousness.  
● Certain measures of social complexity in ants are similar or 
even identical to specific aspects of consciousness, for example 
in the domains of information processing capacity, temporal 
depth, and the ability to execute advanced distributed 
strategies. These kinds of network information-processing 
properties are key aspects of the IIT and other neurocognitive 
consciousness 
theories, 
yet 
bear 
little 
metaphysical 
baggage/interpretation in ants – suggesting that mere and 
even total empirical measurement, may not resolve 
philosophical debates.  
4. Discussion  
Here we have reviewed, echoed, and extended the calls of others to 
study consciousness in terms of multi-dimensional spaces. This 
perspective not only paves the way for a more comprehensive 
understanding of consciousness but also has the potential to impact 
various fields, such as medicine, psychology, ethics, artificial 
intelligence, and our daily lives. We proposed here that consciousness

## Page 106

Maria Luiza Iennaco; Daniel Friedman  •  105 
studies should proceed with the understanding that consciousness 
shares many properties, and even overlapping referents, with social 
complexity in ants. 
While it is clear that there is no linear hierarchy, or “Scala 
Naturae”, for insect sociality (Linksvayer; Johnson, 2019), the notion of 
a “Scala Conscientia” — a singular, ascending scale of consciousness in 
which “more” and “less” consciousness could exist — within or across 
species remains implicitly or explicitly entrenched. The philosophical 
and conceptual analysis provided here supports an open and rigorous 
perspective which we believe will be of great epistemic relevance and 
pragmatic utility for the field of consciousness studies.  
Watching ants and speculating about their consciousness and 
cognition is probably a past-time as old as time (Proverbs, 2018). Here 
we’ve argued that Active Inference today can play a catalytic and 
integrative role that bridges the study of consciousness with social 
complexity. As behavioral myrmecology is not traditionally looking for 
consciousness as part of the causal account of a colony, the field offers 
a variety of systems (ants), (extended cognitive) theories, and diverse 
measures that consciousness researchers and philosophers may delight 
in alike for years to come.  
Open & Continuing Questions: 
 
● How can we make comparisons among different complex 
systems, in terms of different criteria for consciousness and 
cognition?  
● How can existing models of consciousness be adapted or 
integrated within broader multidimensional models?  
● How do measures of consciousness in ant colonies relate to 
measures of social complexity?

## Page 107

106  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
● How can recent advances in multiscale systems help us create 
models of consciousness in diverse cognitive systems? 
● What is the role of the action-perception interface and physics 
of information processing in consciousness, and how do 
different types of phenotypic measures help us understand 
this?  
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## Page 116

4 
A MEMÓRIA IMUNOLÓGICA 
COMPOSTA POR FORMIGAS 
Aryel C. Goes 
“A característica mais comum de um organismo em uma colônia de formigas 
é a sua individualidade. Assim como a célula ou uma pessoa, a colônia se 
comporta como uma unidade individual, mantendo sua identidade no 
espaço, resistindo a dissoluções e, como regra geral, qualquer tipo de fusão 
com colônias de mesma ou diferente espécie”. 
(William Morton Wheeler, 1911, tradução livre) 
 
“Parece provável que, em alguns casos, o sistema imune de uma colônia a 
tornará fortemente coesiva de forma que isso a qualicará como um 
“organismo”. Além disso, esses casos podem evidenciar a transição da 
multicelularidade e de transições evolutivas”. 
(Thomas Pradeu, 2012, p. 12, tradução livre) 
Ao longo deste livro, aspectos filosóficos e metafísicos lhe foram 
apresentados para a sugestividade de uma consciência externalizada do 
cérebro, formada por várias unidades individuais de insetos vivendo em 
sociedade. À parte, tal sugestiva consciência também precisa ser 
elucidada na perspectiva biológica. Para tanto, muitos exemplos 
declarados e estudados pela professora Deborah M. Gordon (citados ao 
longo do livro) apresentam a integração de experiencias individuais 
para compor o comportamento geral em colônias de formigas (Gordon, 
2010). Muitos desses exemplos são pautados em forrageio, fundação de 
ninhos, resposta à predações e competição por recursos, alteração no 
comportamento pelas mudanças ambientais, e dentre outros. Embora 
pouco citada, o campo da imunologia também observa a relevância das 
experiências individuais na composição da resposta imune de uma 
colônia contra ameaças externas.

## Page 117

116  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
Pautada em evidências biológicas atuais, a consciência 
externalizada da colônia também pode ser investigada pela perspectiva 
das respostas higiênicas em insetos sociais, conhecida como imunologia 
social (Cremer et al., 2007). Essa é a conhecida imunologia do 
superorganismo, ou melhor definida como “o sistema imune da colônia”. 
Digo isso pela forma com que espécies de formigas e, outros insetos 
sociais, são capazes de modificar o seu padrão de resposta higiênica 
devido à experiência prévia contra patógenos. Em resultado, a 
plasticidade desse comportamento sanitário pode tornar as medidas 
protetoras e defensivas mais eficientes, aumentando a taxa de 
sobrevida dos indivíduos que compõem a colônia. Comparando o nosso 
sistema imunológico com o de uma colônia de formigas, seria o 
equivalente à imunização auxiliar o sistema imune em respostas mais 
rápidas e específicas em futuras infecções ao mesmo patógeno. 
Interessantemente, a isso podemos hipotetizar uma memória imune 
coletiva em formigas. 
Antes de aprofundarmos a hipótese de memória imune coletiva e 
como ela poderia embasar a consciência externalizada se confirmada, 
precisamos entender a relevância da imunologia social para uma 
colônia de formiga. Primeiramente, vamos visualizar um pouco o papel 
do sistema imune para a individualização de um organismo (Pradeu, 
2012); desta forma, teremos mais claro o motivo de podermos tratar 
uma colônia como unidade biológica íntegra, assim dita na epígrafe do 
texto de Wheeler (1911). Em seguida, serão apresentados os princípios 
da imunologia social, utilizando como organismo modelo as formigas 
cortadeiras de folha (e.g. saúvas e quenquéns). Com isso explicado, 
poderei discorrer sobre as sugestividades e indícios de que as respostas 
imunes coletivas de tais formigas (e outras espécies) são plásticas 
devido a experiências, baseada em estudos recentes. Assim, vou

## Page 118

Aryel C. Goes  •  117 
comentar os aspectos ecológicas e evolutivas dessa suposta memória 
imune social e as suas implicações para a teoria da consciência 
expandida. 
1. O sistema imune, o indivíduo e a quimera 
Você consegue definir o que é sistema imune? Provavelmente, 
“defesa contra patógenos ou doenças” é a primeira definição que lhe 
vem à mente. De antemão não está errado, e é uma das terminologias 
que comumente encontrará em livros, sites e aprenderá no ensino 
básico e superior. Porém, tal definição está incompleta. Hoje, muitos 
biólogos e filósofos da ciência reconhecem e apresentam dados 
empíricos que suportam funções mais estritas para o sistema 
imunológico, ampliando, portanto, a sua definição. 
1.1 Imunologia e individualidade 
Além da conhecida função para combater doenças e substâncias 
estranhas, o sistema imune tem um papel crucial na individualidade de 
um organismo, já que ele é capaz de estabelecer limites ao mesmo 
(Pradeu, 2011, 2012). O argumento para isso vem do chamado princípio 
da inclusão, que estabelece o quê o corpo físico de um organismo irá 
rejeitar ou aceitar dentro de sua delimitação física (Pradeu, 2011, 2012). 
Assim, o sistema imune reconhece o quê faz parte do indivíduo e deve 
permanecer nele, e o quê deve ser rejeitado. Observamos parcialmente 
esse princípio quando notamos as dificuldades e cuidados que médicos 
precisam ter para realizar um transplante de tecido ou órgão, pela 
resposta autoime do paciente receptor. Os autores Gould e Lloyde (1999, 
p. 11906) deixam isso claro ao estabelecer que “organismos são 
coerentemente associados no espaço, mantendo-se reconhecíveis por

## Page 119

118  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
uma forma física, delimitada pela pele, que separa a si próprio do que é 
do mundo externo […] o sistema imune é quem possuí os aparatos para 
isso, reconhecendo e desarmando transgressores que adentram esse 
espaço interior”. 
Essa frase de Goyld e Lloyde resume o famoso modelo da 
imunologia, o self e nonself (aquilo que é e não é do indivíduo). De acordo 
com essa teoria, tudo que seja estranho e vem de fora do organismo 
(nonself) incitará uma resposta imunológica, enquanto aquilo que faz 
parte do organismo e que não esteja se comportando da maneira 
‘correta’ (self) também irá ativar resposta imune. Em exemplo, uma 
vírus ou bactéria pode ser considerado como algo estranho que vem de 
fora (nonself). Por outro lado, o câncer é composto de células que, 
embora façam parte do mesmo organismo, não estão se comportando 
corretamente (self) – ou com semelhança ao resto do padrão molecular. 
Fora o sistema imune, há uma hipótese alternativa que auxiliaria 
na delimitação do organismo multicelular: a homogeneidade genética 
(Pradeu, 2012). Ela preza que constituintes do organismo que 
apresentam o mesmo material genético (são iguais, homogeneas) irão 
cooperar melhor do que se fossem heterogeneas (geneticamente 
distintas), já que possuem a mesma função. A separação de células 
somáticas (aquelas que compõem o tecido da pele) das células 
germinativas (as células sexuais; gametas) seria um exemplo deste tipo. 
Não há razões cabíveis para que células da epiderme queiram se 
diferenciar do todo e ter sua independência reprodutiva, aumentando o 
chamado fitness próprio. E mesmo que houvesse tal tentativa de 
corrupção, o sistema imune será capaz de combater tais células que 
queiram se tornar diferentes do todo, ou remover aquelas que sejam tão 
estranhas (i.e., antígenos, patógenos) (Buss, 1987; Michod, 1999). 
Novamente, temos o exemplo do câncer. Células cancerígenas ativam

## Page 120

Aryel C. Goes  •  119 
respostas específicas do sistema imune as quais, na maioria dos casos, 
levam em sua destruição. Desta forma, a capacidade imunológica tem 
papel decisivo na estabilidade e manutenção do organismo. 
1.2 A Quimera 
Embora tais hipóteses sejam conhecidas e defendidas por muitos 
imunologistas e filósofos, a homogeneidade genética é aquela que 
precisa ser repensada. Por não ser uma condição encontrada na maioria 
dos seres vivos, essa não deve ser vista como um contribuidor da 
evolução do indivíduo (Michod, 1999; Strassmann, 2004). A razão para 
isso é que todo organismo multicelular é heterogêneo por si próprio 
(Pradeu, 2010). Invertebrados, vertebrados e plantas abrigam muitas 
bactérias e fungos comensais e simbióticas dentro de si (Garrett et al., 
2010; Triviño, Suárez, 2020). Portanto, qualquer organismo biológico é 
como uma quimera. Muitas bactérias simbiontes que vivem em nosso 
corpo, por exemplo, apresentam funções indispensáveis na digestao, 
imunologia e até no desenvolvimento (Pradeu, 2010 e referências 
associadas). Não estão presentes por mero acaso, mas sim por serem 
parte do que constitui o organismo como um todo, o conhecido: 
holobionte (Triviño, Suárez, 2020). Uma vez que o modelo self/nonself 
apresentado acima prediz a radicalização pelo sistema imune de seres 
diferentes do próprio corpo (nonself), por qual razão o ser humano ou 
outros aniamsi conseguem viver em simbiose com sua microbiota? A 
mesma não passa despercebida pelo nosso corpo e ao sistema imune, do 
contrário: estão continuamente em interação, como hipotetizado pela 
teoria da continuidade de Pradeu (2012).  
Agora, finalmente podemos chegar a uma boa conclusão e 
definição do que é o sistema imune, e prosseguirmos para o tópico

## Page 121

120  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
principal deste capítulo. O que incita a reação imune não é 
necessariamente algo genéticamente estranho ao corpo/organismo, 
mas sim àquilo que apresenta uma aparência incomum do “padrão 
molecular”. A isso designa-se a teoria da continuidade, sugerindo que 
qualquer resposta imunológica decorre da detecção de padrões 
moleculares que sejam diferentes daqueles que o sistema imune 
comumente interage; sejam eles de origem endógena (do próprio 
organismo, como células cancerígenas, microbiota, etc.) ou exógena 
(como bactérias e fungos patogênicos, vírus, etc) (Figura 1). Assim, um 
organismo multicelular é composto de constituintes heterogêneos, sendo 
parte desses originários desde o ‘nascimento’ (células), enquanto outros 
são obtidos ao longo da vida (i.g., bactérias simbiontes), ao qual a sua 
coesividade e integridade serão estabelecidas. E quem a estabelecerá? O 
sistema imunológico. 
Concluindo, a imunidade desempenha um papel além da proteção 
contra doenças. “Ela é um mecanismo crucial na definição de um 
indivíduo e organismo biológico, seja por delimitar seus limites 
espaciais (princípio da inclusão) e policiar contra aquilo que seja anormal 
do padrão interagido (hipótese da continuidade)” (Pradeu, 2012). Veja que 
a definição generalista ‘proteção contra doenças’ que tanto 
disseminamos é apenas uma parcela das várias funções do sistema 
imune para manter a coesividade do organismo. Como ressaltado no 
início, o termo não está errado ou defasado, apenas incompleto.

## Page 122

Aryel C. Goes  •  121 
 
Figura 1. A funcionalidade do sistema imune está além de proteger o indivíduo contra 
doenças e patógenos. Hoje em dia há uma visão mais branda da sua importância para manter 
a integridade do organismo, seja para (i) combater potenciais “trapaceiros” endógenos que 
se diferenciam muito do todo (ex: células cancerígenas), ou (ii) componentes exógenos que 
sejam incomuns (ex: bactérias patogênicas). Ele mantém a delimitação física e coesiva entre 
os componentes do organismo. Desta forma, o organismo é heterogêneo, composto de si e 
de outros simbiontes. 
2. O sistema imune da colônia 
Agora que entendemos melhor a funcionalidade do sistema imune 
e a sua relevância para a integridade de um organismo, podemos passar 
adiante de sua relevância em organismos multicelulares para a de 
superorganismos. Se lembra da epígrafe de William Morton Wheeler? 
Pois bem, finalmente podemos aprofundá-la. 
Um superorganismo é uma reunião de organismos similares que, em 
conjunto, podem ser considerados como uma única unidade individual. 
Isso ocorre por alguns aspectos básicos: (i) integração, (ii) coesividade, 
(iii) divisão de trabalho, e (iv) separação entre castas reprodutivas e não-
reprodutivas (Boomsma e Gawne, 2018; Pull e McMahon, 2020). Quer um 
exemplo no reino animal? Wheeler nos concede: uma colônia de 
formigas. Hoje, aqueles que estudam sobre a evolução da socialidade, 
consideram as formigas como seres altamente socializados (se

## Page 123

122  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
comparados com outros: vespas e cupins eusociais), encaixando 
perfeitamente nos quatro pressupostos acima citados, podendo então 
serem chamadas por superorganismo; algo que em sua natureza e 
conformação age como uma única coisa: uma entidade individual. Assim 
como um organismo multicelular, a colônia de formigas também 
precisa manter sua integridade – seja contra seres externos (i.g., 
patógenos ou invasores de outras espécies) ou aqueles que compõem a 
própria colônia (i.g., operárias irmãs). Considerando isso, aonde se 
encaixa o sistema imune? 
Insetos, no geral, apresentam um sistema imune. Obviamente que 
cada operária da colônia tem o seu próprio sistema imune celular. Além 
dela, sabe-se da existência do sistema imune expressado em um nível 
superior, além do fisiológico das formigas. Este não é composto por 
células, mas sim pelas próprias operárias (Cremer et al., 2007; Cremer, 
Sixt, 2009; Pull, McMahon, 2020). Imunologia social é o termo dado por 
Cremer e colaboradores (2007) para o conjunto de mecanismos 
fisiológicos, comportamentais e organizacionais empregados em 
conjunto ou, individualmente, pelas operárias que compõem uma 
colônia. Da mesma forma que comentei acima, esse sistema imune 
social têm funções relevantes para manter a colônia íntegra e 
individual, assim como bem exemplificado pela fala de Wheeler (1911). 
Quais seriam esses mecanismos? Como essa imunologia sem células é 
expressada pela colônia? 
2.1 A imunologia social em formigas cortadeiras 
Assim como em qualquer organismo, vírus, protozoários, fungos e 
bactérias também são facilmente transmitidos entre companheiras de 
ninho e proles da colônia, afetando o fitness da mesma (Schmid-

## Page 124

Aryel C. Goes  •  123 
Hempel, 1998; Cremer et al., 2007; Meunier, 2015). Embora a imunologia 
social tenha evoluído para proteger os indivíduos do ninho que 
compõem o superorganismo, alguns insetos sociais ao longo de sua 
história evolutiva adquiriram parceiros simbióticos que também 
necessitam de igual proteção (Currie et al., 1999). As formigas e cupins 
que cultivam fungos representam um exemplo notável desse desafio. Seu 
envolvimento no cultivo de fungos como principal fonte nutricional 
permitiu que esses insetos dominassem o Novo e o Velho Mundo 
(Möller, 1893; Weber, 1972; Mueller, 2002; Aanen et al., 2002), 
respectivamente, 
explorando 
novos 
nichos 
ecológicos. 
Como 
desvantagem, eles possuem a tarefa adicional de proteger o 
companheiro fúngico de microrganismos externos que podem ameaçar 
o seu mutualismo (Currie e Stuart, 2001; Otani et al., 2019; Goes et al., 
2020). 
Além de enfrentarem os mesmos obstáculos vistos em outros 
insetos sociais, as formigas e cupins cultivadores de fungos (Attina e 
Macrotermitidae, respectivamente) também precisam proteger o seu 
mutualista. A degradação do substrato vegetal utilizado para adubar o 
jardim de fungo o torna extremamente rico em nutrientes compostos 
por polissacarídeos e açúcares simples (Martin, 1969; Siqueira et al., 
1998; Silva et al., 2006a). Apesar de serem importantes para a nutrição 
das operárias e da ninhada, tais nutrientes oferecem oportunidades 
para vários microrganismos explorarem a colônia. No caso das formigas 
cortadeiras (gêneros Acromyrmex e Atta), muitos fungos externos podem 
ser patógenos generalistas, especializados (Currie et al., 1999; Currie; 
Stuart, 2001; Rodrigues et al., 2008, 2011), ou endofíticos (fungos que 
vivem dentro do tecido vegetal, Van Bael et al., 2009). 
Independentemente, muitos espécimes são conhecidos pela sua 
capacidade em afetar negativamente o fungo das formigas. Assim, a

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124  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
domesticação de Leucoagaricus gongylophorus (Agaricales, Agaricaceae) 
requeriu adaptações adicionais da imunologia social para manter a 
fungicultura viva (Figura 2). 
 
 
Figura 2. A formiga cortadeira de folha, Atta sexdens (saúva-limão) e o seu fungo 
basidiomiceto, Leucoagaricus gongylophorus. a) Operárias de A. sexden junto ao L. 
gongylophorus em sua estrutura de cultivo conhecida por jardim de fungo. b) Colônia 
incipiente (jovem) com aproximadamente 3 meses de idade; note a presença da rainha no 
topo do jardim de fungo (indicado pela seta), junto com algumas operárias e o descarte de 
lixo ao lado. Fotos: o autor. 
 
Em colônias de formigas comuns, a imunidade social é direcionada 
aos indivíduos em si, com ações individuais e grupais que protegem toda 
a colônia (Cremer et al., 2007). No entanto, para as formigas que 
cultivam fungo tais mecanismos também precisam ser aplicados para a 
proteção do seu fungo mutualista. Em formigas cortadeiras, as 
operárias podem aplicar estratégias químicas ou físicas para previnir 
ou conter infecções. Formigas secretam e aplicam compostos de suas 
glândulas metapleurais (com atividade fungistática, fungicida e 
bacteriostática) em seu corpo para prevenir o crescimento de 
microrganismos entomopatogênicos (Hölldobler, 1984; Graystock, 
Hughes, 2011). Além disso, essa ação também é direcionada à superfície 
do jardim do fungo, garantindo o não desenvolvimento de fungos 
antagonistas ou maléficos para o mesmo (Ortius-Lechner et al., 2000;

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Aryel C. Goes  •  125 
Bot et al., 2002; Poulsen et al., 2002; Fernández-Marín et al., 2006; 2015). 
Outro exemplo é com o fungo de gênero Escovopsis, considerado 
prejudicial ao jardim de fungo. Ele pode ser inibido por compostos 
antibióticos produzidos por tais glândulas (Currie et al., 2001; Poulsen 
et al., 2010; Li et al., 2018). Ademais, compostos produzidos por uma 
pletora de microrganismos simbióticos, como as Actinobactérias 
presentes no tegumento das formigas (encontradas em várias espécies 
da subtribo Attina), podem atuar contra o crescimento de patógenos 
especializados (Sen et al., 2009). Em relação aos mecanismos físicos, são 
conhecidos dois comportamentos defensivos: (a) lambedura do fungo 
(grooming), que remove esporos da superfície do jardim do fungo e os 
armazena na cavidade oral das formigas, onde também estão presentes 
actinobactérias (Currie e Stuart, 2001; Little et al., 2006), e (b) capina de 
fungos (weeding), que consiste na remoção de pedaços do jardim que 
estão infectados (Currie, Stuart, 2001; Little et al., 2006; Nilsson-Moller 
et al., 2018). Não obstante, essas estratégias usualmente ocorrem após a 
entrada do patógeno dentro da colônia; e quanto à etapa anterior, de 
aquisição? 
Para reduzir a contaminação por patógenos, formigas cortadeiras 
(e notavelmente semelhante a outros insetos sociais) usam 
comportamentos profiláticos para higienizar companheiras de ninho 
(Cremer et al., 2007; Morelos-Juárez et al., 2010; Reber et al., 2011; de 
Roode, Lefèvre, 2012; Meunier, 2015). Comportamentos de limpeza de 
operárias (allo e selfgrooming) podem ser mais frequentes para aquelas 
que retornam do forrageamento (Morelos-Juárez et al., 2010; Richard, 
Errard, 2009). Segundo Richard e Errard (2009), forrageadoras de 
Acromyrmex subterraneus gastam mais tempo fazendo autolimpeza do 
que operárias não-forrageadoras, provavelmente devido ao seu contato 
recorrenteà contaminantes externos. Além disso, evitar espacialmente

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126  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
ambientes ou operárias contaminadas podem reduzir o risco de 
infecções (Tranter et al., 2015). 
Caso nenhuma forrageadora ou visitante externo trouxer 
contaminação, a outra porta de acesso à colônia será pela matéria 
vegetal. Flores e folhas frescas cortadas e coletadas por formigas podem 
ser potenciais centros de transmissão horizontal de patógenos (Schmid-
Hempel, 1998; Griffiths e Hughes, 2010; Van Bael et al., 2009, 2012; Rocha 
et al., 2017). Devido à dependência do jardim de fungo por tais recursos, 
há um alto risco de microrganismos antagonistas serem carregados 
para dentro da colônia junto com esse material (Rocha et al., 2014). Como 
contra-medida, há um conjunto de comportamentos de preparação e 
higiêne do substrato antes da sua incorporação no jardim de fungo 
(Quinlan e Cherrett, 1977; Mangone, Currie, 2007). Quinlan e Cherrett 
(1977) notaram que Acromyrmex octospinosus processam o substrato 
vegetal pela remoção de contaminantes fúngicos da superfície. Além 
disso, durante o transporte de folhas por uma forrageadora, uma 
formiga da casta ‘mínima’ é encontrada sendo carregada junto com o 
substrato (caroneira), possivelmente (a) removendo contaminantes 
fúngicos da folha antes da sua entrada no formigueiro, e (b) protegendo 
a forrageadora de forídeos parasitóides (Vieira-Neto et al., 2006; 
Kitayama et al., 2012).  
Vários estudos exploraram as interações entre formigas 
cortadeiras e fungos endofíticos, comumente encontrados dentro do 
material foliar que elas cortam. Van Bael e colaboradores (2009) 
observaram que tais formigas (a) gastam mais tempo processando 
folhas com altas cargas de endófitos do que aquelas com baixa 
abundância, e (b) que tal processamento reduz a carga de endófitos 
antes da inoculação do substrato no jardim do fungo. Além desse 
controle higiênico, formigas cortadeiras preferem coletar material

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Aryel C. Goes  •  127 
foliar contendo baixa abundância de endofíticos, o que pode influenciar 
em suas preferências de forrageamento (Cobletz; Bael, 2013). Por 
exemplo, operárias evitam substratos vegetais enriquecidos com 
Trichoderma, um fungo endofítico com potencial antagonista para o 
fungo mutualista (Rocha et al., 2014, 2017). Desta forma, fica claro a 
capacidade da imunologia social dessas formigas em policiar os 
caminhos de entrada e aquisição de microrganismos estranhos, 
independentemente dos contextos onde essas ameaças são encontradas 
(i.e., ambiente, alimento, prole ou jardim de fungo, etc.). 
3. A memória composta por indivíduos 
Assim como o sistema imune composto por células, a imunologia 
composta por formigas lidará contra ameaças que podem colocar em 
risco a individualidade do superorganismo. Em formigas cortadeiras 
essa ameaça é duplicada, uma vez que as proteções pela imunologia 
social implicam duas dimensões: as das formigas e a de seu fungo 
mutualista. Na seção anterior foi explanado brevemente algumas das 
estratégias e profilaxias conhecidas nessas formigas. Portanto, 
finalmente podemos questionar: como essas defesas se integram a uma 
memória? E como a mesma sugere uma consciência? 
3.1 O que é memória imunológica? 
Considerada um fenômeno exclusivo do sistema imune adaptativo 
de vertebrados, a memória imunológica é agora identificada em uma 
ampla gama de táxons (i.e., microrganismos, plantas, invertebrados e 
vertebrados) (Pradeu, 2010; Netea et al., 2009). Também é visualizada no 
sistema imune inato, responsável por respostas rápidas e inespecíficas 
a antígenos e patógenos, não necessitando de contato prévio (Netea et

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128  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
al., 2009; Pradeu e Pasquier, 2018). Nessa ampla perspectiva, a memória 
imunológica parece ocorrer por diferentes mecanismos, sejam pelas 
células e moléculas documentadas na imunidade inata ou pelo sistema 
CRISPR-Cas (i.e., primming; Datsenko et al., 2012).  
Os aspectos da memória podem ser entendidos como um fenômeno 
gradual e multidimensional, variando ao longo de sistemas 
imunológicos em vários táxons (Pradeu e Pasquier, 2018). As cinco 
dimensões-chave que compõem uma memória imune são: (i) força, que 
resulta no aumento da resposta imune em contatos secundários contra 
o mesmo antígeno/patógeno; (ii) duração, que resulta o tempo máximo 
que o sistema imune é capaz de elicitar essa resposta aumentada no 
organismo; (iii) velocidade, compondo o tempo de resposta em 
encontros secundários; (iv) especificidade, que dita se a resposta 
intensificada é específica a um determinado antígeno/patógeno; e (v) 
extinção, ao qual a resposta aumentada deve se dissipar após a 
eliminação do patógeno e não persistir no organismo. Cada uma dessas 
dimensões possui gradientes, do mais fraco ao mais forte, do menor ao 
mais durável, dependendo do sistema imune de cada táxon (Pradeu e 
Pasquier, 2018). Portanto, é entendível que o fenômeno da memória 
imune não é estática e semelhante em todos organismos, mas sim 
varíavel e composta por diferentes formas. 
Sabendo dessa multidimensionalidade e de que colônias de 
formigas cortadeiras possuem um sistema imune coletivo, podemos 
hipotetizar que ele carrega uma memória imune? Sim, podemos. E não 
suporto essa resposta apenas no viés apresentado por Pradeu e Pasquier 
(2018) para definir memória imune, mas também pelo contexto 
ecológico que essas formigas e outros insetos sociais estão inseridos. 
Vamos discutir eles a seguir.

## Page 130

Aryel C. Goes  •  129 
3.2 Indícios de memória imune coletiva 
Por que podemos hipotetizar traços de memória imunológica na 
imunologia social? Estudos ecológicos e evolutivos sugerem que a 
evolução da memória imune está intrinsecamente relacionada a 
ambientes ricos em patógenos (Schmid-Hempel, 2003; Graw et al., 2010). 
A frequência de reinfecção ao longo da vida do hospedeiro ou a 
diversidade de patógenos encontrados no ambiente, são determinantes 
evolutivos para optimizar a retenção de informações pelo sistema 
imune. Como discorrido acima, as formigas cortadeiras são passíveis de 
entrar em contato com uma alta gama de fungos ao longo da história de 
vida da colônia. Esse potencial de infecção é alto se considerarmos a 
coleta de substrato vegetal e a inúmera quantidade de formigas 
forrageadoras entrando e saindo do ninho. Com base em tais aspectos 
ecológicos, pode-se esperar que traços de memória imune tenham 
evoluído para garantir respostas plásticas contra patógenos. 
Apresentado o ponto de vista teórico, podemos seguir para o 
empírico. Existem algumas evidências em insetos sociais que sugerem o 
fenômeno de memória imune coletiva. Deixo claro que irei apontar 
exemplos inerentes as formigas cortadeiras e outros que não são 
provenientes de insetos que cultivam fungos. O primeiro caso é reportado 
na formiga cortadeira Acromyrmex echinattior, ao qual operárias expostas 
previamente ao fungo entomopatogênico Metarhizium anisopliae 
aumentam o comportamento higiênico em si mesmas e em operárias 
irmãs quando apresentadas ao mesmo patógeno dias depois (Walker; 
Hughes, 2009). Algo semelhante foi visto uma década depois por Goes e 
colaboradores (2022); colônias de Atta sexdens intensificaram suas 
respostas higiênicas contra cinco fungos após serem expostas três vezes 
a cada um deles, com intervalos de 14 dias entre exposições. Ambos

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130  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
estudos nos revelam algumas das dimensões que configuram memória 
imune pela imunologia social (Pradeu; Pasquier, 2018)1: 
 
• Força: em ambos estudos, de forma coletiva ou individual, as 
formigas aumentaram o número de comportamentos 
higiênicos contra o mesmo fungo patógeno previamente 
exposto. Interessantemente, esse fator foi evidente em dois 
gêneros diferentes e contra diferentes fungos ascomicetos. 
• Extinção: após a limpeza realizada pelas formigas, a resposta 
imune social declinou (i.e., foi extinta). Ela só foi reativada na 
exposição futura ao mesmo patógeno. 
 
À parte das formigas que cultivam fungo, temos exemplos na 
Europa que também sugerem traços de memória imune em formigas. 
Formica selysi quando apresentada a consecutivas exposições aumenta 
o comportamento de lambedura (Reber et al., 2011). Já a formiga clonal 
Platythyrea punctata tende a aumentar os cuidados para com a sua prole 
quando expostas previamente a um fungo entomopatógeno, além de 
passarem mais tempo realizando tal atividade após experiência prévia 
(Westhus et al., 2014). Por fim, Konrad e colaboradores (2018) notaram 
que Lasius neglectus tende a evitar contato com operárias contaminadas 
em situações de superinfecções; nessa situação, a colônia sofreu 
exposição a um patógeno A e dias depois foi infectada novamente, mas 
com um patógeno B. Nesses exemplos, notamos as dimensões de força 
(todos os estudos), sugestão de especificidade (em Konrad et al., 2018), 
extinção, e sugestão de velocidade (em Westhus et al., 2014). 
 
1 As dimensões de memória imonológica propostas por Pradeu e Pasquier (2018) que não foram citadas, 
sugerem que ainda faltam estudos que as tenham checado empiricamente em formigas cortadeiras.

## Page 132

Aryel C. Goes  •  131 
Note que, em todos os indícios empíricos citados acima, a 
imunologia social é sugestiva de plasticidade. Em outras palavras, a 
dinâmica com que a resposta imune da colônia ocorre a um respectivo 
patógeno pode ser modificada de acordo com experiências prévias. É 
similar ou análogo ao sistema imune fisiológico, em que a vacina leva ao 
desenvolvimento de respostas intensas, específicas e rápidas contra o 
corpo imunizado (memória imunológica ou conhecida também por 
imunologia adaptativa); mas na imunologia social isso é realizado pelas 
formigas. Portanto, podemos hipotetizar que há uma correlação entre a 
experiência das formigas frente ao patógeno e a resposta higiênica da 
colônia como um todo. Como resultado, temos a sugestão de memória 
imune coletiva. 
3.3 Como essa memória imune seria suportada? 
Apresentados os exemplos empíricos que sugerem traços de 
memória imune coletiva em formigas cortadeiras, preciso hipotetizar 
como ela seria formada e mantida considerando premissas biológicas já 
estabelecidas. Assim, ressalto que as possibilidades discutidas a seguir 
são de viés hipotético, necessitanto de abordagens teórico-empírico para 
validá-las ou não sob a óptica da comunidade científica. Com isso claro, 
vou basear este tópico sob a seguinte pergunta: como a memória imune 
coletiva ocorreria? Irei citar outros fenômenos já reportados em 
formigas cultivadoras de fungos que podem fomentar a capacidade da 
colônia em reter informações sobre infecções prévias. 
Iniciaremos com a formação desta suposta ‘memória coletiva’. O 
primeiro passo para uma formiga aprender (ou se lembrar) sobre uma 
experiência com um fungo maléfico pode depender da sua interação com 
o jardim de fungo. Essa circunstância seria análoga a do contato entre um

## Page 133

132  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
antígeno e células imunológicas. Por meio de uma interação negativa, as 
formigas poderiam receber sinais dessa ameaça potencial e aonde ela está 
ocorrendo em sua fungicultura. Esse tipo de comunicação química ocorre 
por semioquímicos. Operárias podem detectar tais produtos químicos 
liberados pelo jardim de fungo, talvez capazes de informar sobre seu 
estado de saúde (Green; Kooij, 2018). Além disso, receptores químicos em 
suas antenas podem detectar compostos orgânicos voláteis liberados por 
micróbios, principalmente fungos (Yanagawa et al., 2009; Morath et al., 
2012). Até agora, como as formigas percebem a saúde de seus jardins de 
fungos ainda é uma questão sem resposta clara. Uma sugestão pode 
envolver a transmissão de informações de áreas infectadas da 
fungicultura, por sinais químicos, até as formigas (Howard et al., 1996; 
Green; Kooij, 2018; Goes et al., 2020). North e colaboradores (1999) 
argumentaram duas possíveis formas de comunicação: (i) um sinal volátil 
liberado pelo jardim de fungo, que se difundiria entre a colônia, ou (ii) um 
semioquímico liberado em partes danificadas do jardim. Sua 
configuração experimental mostrou que a primeira hipótese era 
improvável de acontecer, enquanto a segunda mais plausível de 
ocorrência. Até o momento, o sinal químico ou a hipótese de informação 
transmitida pelo próprio jardim de fungo carece de mais evidências 
experimentais. Embora a comunicação fosse relevante para as formigas 
captarem informações sobre a situação, eles precisariam a vincular com 
o ‘nível de dano’ ou ‘ameaça’ que o fungo patógeno causou. Durante esse 
contato, informações sobre o patógeno (quantidade, virulência, pistas 
químicas; Cremer et al., 2007) e os danos causados por ele seriam 
adquiridos pelas formigas experientes, unindo ambas em feedback 
negativo por aprendizagem associativa (Goes et al., 2020). 
Esse aprendizado por interações sociais mostra notavelmente 
como experiências podem influenciar no comportamento, pela mera

## Page 134

Aryel C. Goes  •  133 
associação a estímulos ambientais (Leadbeater, Chittka, 2007). No 
entanto, qualquer aprendizagem associativa exige o armazenamento de 
informações adquiridas em situações anteriores e sua vinculação aos 
respectivos estímulos (Josens et al., 2009). As abelhas podem aprender 
sobre quais espécies de flores são mais gratificantes para forragear, 
utilizando pistas visuais (cores) em associação com a quantidade de 
recompensa recebida (Menzel, 1985, 2001; Kevan et al., 1996; Chittka, 
1997). No contexto das formigas cortadeiras, é sugerível que uma 
‘operária de memória’2 utilize a informação armazenada e a utilize para 
tomada de decisões em uma futura situação semelhante. Para que 
ocorra o processo de reconhecimento, é necessária a aquisição e 
retenção de informações pelo indivíduo (Beecher, 1990; Bradbury, 
Vehrencamp, 1998). Se isso não ocorrer, então a hipótese da memória 
imune coletiva não será justificada pela união de experiências 
individuais. Até o momento, algumas pesquisas evidenciaram que 
formigas cortadeiras são capazes de aprender com feedbacks negativos. 
Abaixo irei comentar em detalhes esses exemplos. 
Ridley e colaboradores (1996) demonstraram que Atta e 
Acromyrmex aprendem a rejeitar substratos vegetais que contenham 
compostos nocivos à sua fungicultura. Aparentemente, as formigas 
podem perceber mudanças químicas no cultivo de fungos causadas por 
toxinas de plantas (Knapp et al., 1990; Herz et al., 2008) e param de 
colhê-las em seguida. Para checar essa capacidade associativa nessas 
formigas, experimentos em colônias foram feitos com o fungicida 
cicloheximida, que representaria um composto maléfico ao jardim de 
fungo (Ridley et al., 1996; North et al., 1999). Após o primeiro 
oferecimento de iscas com odor de laranja contendo cicloheximida, 
 
2 Aquele indivíduo que obteve uma experiência prévia contra um patógeno em potencial.

## Page 135

134  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
operárias deixaram de coletar essas iscas após algum tempo. Em 
seguida, para certificarem que as formigas associaram o dano da 
ciclohemixida com o odor, os autores ofereceram iscas contendo apenas 
o cheiro de laranja. Surpreendentemente, elas evitaram carregá-los 
para o jardim de fungo, mesmo sem conter a toxina. Os autores 
levantam a hipótese de que as formigas associaram o dano causado pela 
ciclohemixida com o odor de laranja (ver mais em North et al., 1997; 
1999). Contribuindo, Herz e colegas (2008) aplicaram cicloheximida 
(com concentrações não detectáveis pelas formigas) em plantas 
inofensívas ao seu fungo e acompanharam a resposta da colônia. Após 
dez horas, operárias ingênuas e experientes pararam de carregar as 
folhas. Em ofertas subsequentes de folhas não tratadas, os formigueiros 
evitaram colher essa espécie de planta (Herz et al., 2008). Novamente, 
isso sugere a capacidade do indivíduo em associar o dano em seu 
cultivar a um determinado espécime, atribuindo a ele um dano 
potencial. No entanto, 
a 
ocorrência 
dessa 
plasticidade no 
comportamento colonial precisa ser testada para com esporos de fungos 
ou bactérias. Assim, poderemos ter mais certeza se o aprendizado 
associativo pode explicar o aumento de respostas higiênicas em 
infecções secundárias ao mesmo patógeno. 
A aquisição de informação por indivíduos será relevante para 
desencadear ações conjuntas rápidas e intensas em infecções futuras. 
Considere isso como um armazenamento do histórico de infecções desta 
colônia. Prevemos que uma operária de memória poderia utilizar a 
infecção prévia para detectar, reconhecer e incitar alertas para o 
restante da colônia. Como em outros insetos sociais (Cremer et al., 2007), 
as formigas podem usar feromônios para recrutar companheiras de 
ninho na aplicação das respostas higiênicas conhecidas (Hölldobler; 
Wilson, 1990; Gerstner et al., 2011). Assim, tanto operárias experientes

## Page 136

Aryel C. Goes  •  135 
quanto inexperientes seriam recrutadas, aumentando, portanto, a 
resposta defensiva coletiva em infecções secundárias ao mesmo 
patógeno. Note que se esse for o caminho mais parsimonioso para 
explicar a plasticidade na imunologia social, então essa memória 
coletiva deverá ser cíclica durante a história de vida da colônia, pois: 
 
• O tempo com que o aprendizado associativo é capaz de 
durar/ser retido no cérebro dessas formigas, sob a ausência de 
reforço ao mesmo estímulo após um tempo. Segundo estudos 
neurobiológicos realizados por Falibene e colaboradores (2015), 
informações entre odor da planta e a sua viabilidade para o 
fungo mutualista duram em torno de 14 dias, enfraquecendo a 
associação se o estímulo não for ofertado novamente. 
• O período de vida de uma operária. Isso poderá variar entre 
espécies. Lembre-se que uma das principais características de 
insetos sociais é a sobreposição de gerações. Se o 
patógeno/estímulo não continuar oferecendo uma ameaça para 
a colônia por um breve período de tempo, as operárias de 
memória já terão sido substituídas (ou terem perdido a 
associação em seu cérebro) quando o patógeno reentrar na 
colônia. 
Considerações finais 
É interessante pensarmos em como a memória imune social 
sustenta a consciência externalizada. A hipótese citada acima é baseada 
na conjunção de várias experiências individuais frente a uma ameaça, 
resultando na resposta uníssona de toda a colônia. Então, é uma 
informação que pode ser acessada pelo todo, afetando assim o

## Page 137

136  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
comportamento geral do superorganismo. Como já comentado pela Dra. 
Gordon (2010), muito do que vemos do comportamento de uma colônia 
está diretamente relacionada com as experiências de todas as operárias 
que a compõem. Assim, não podemos expectar o oposto quando 
analisamos o contexto da memória imune exposto aqui. O que nos falta 
investigar mais no campo empírico é (i) o envolvimento do aprendizado 
associativo nessa formação da experiencia para com patógenos, (ii) a 
integração dessas formigas para com a resposta plástica evidenciada em 
estudos prévios (Walker e Hughes, 2009; Reber et al., 2010; Westhus et 
al., 2014; Konrad et al., 2018; Goes et al., 2022), e (iii) quanto tempo essa 
informação é armazenada a nível de colônia. Já ressalto que os traços de 
memória coletiva poderão sofrer variações entre espécies de formigas 
cultivadoras de fungos e até mesmo entre insetos sociais. Baseio essa 
fala no que já visualizamos da evolução do sistema imunologócio em 
diversos táxons (i.e., a multidimensionalidade da memória imune; 
Pradeu, Pasquier, 2018), e na ecologia dos diferentes insetos sociais ao 
longo de sua evolução. Não vamos esperar que esse fenômeno possa ser 
generalizado em qualquer formiga. Mesmo assim, não acho que a 
ausência dessa memória imune social em algumas espécies invalide a 
tese da mente extendida. Do contrário, há outros campos da biologia 
(sem ser a da imunologia) nesses insetos que possam justificar a mesma; 
e acredito que outros colegas já fizeram isso com exímio em outros 
capítulos deste livro. Finalizo, portanto, com as principais condições da 
memória imune coletiva hipotetizadas aqui. 
 
• A capacidade de detectar e reconhecer prováveis invasores 
nocivos pode depender de interações negativas entre o jardim 
de fungo e a sinalização deste para as formigas.

## Page 138

Aryel C. Goes  •  137 
• Em hipótese, a 'memória imunológica' da colônia será retida 
pelo número de interações e experiências adquiridas pelas 
formigas durante seu tempo de vida, e (ii) ao tempo hábil que 
essa associação possa ser retida pelo seu sistema nervoso sem 
reforço. Trata-se, portanto, de uma memória reciclável, sempre 
necessitando de novas atualizações ao longo da história de vida 
de uma colônia. 
• Cada colônia de formiga cortadeira teria a sua própria memória 
imunológica, de acordo com a diversidade de microrganismos 
que a mesma encontrará em seu respectivo meio ambiente. 
Assim, colônias distintas podem ter informações distintas 
armazenadas. Também sugiro que essas respostas possam 
variar entre espécies de insetos sociais. 
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5 
MEMÓRIA COLETIVA E CONSCIÊNCIA 
COLETIVA SÃO FENÔMENOS CIENTÍFICOS? 
José Carlos Camillo 
Os estudos cientícos sobre a memória começaram na virada do 
século XIX para o século XX. Enquanto as humanidades desde então se 
focaram em estudar a memória coletiva—lósofos inclusos nesses 
estudos—apenas a partir da década de 1980 que a memória coletiva 
tomou o interesse de cientistas cognitivos. Não é sem críticas, no 
entanto, que tais estudos foram realizados.  
Neste capítulo, tenho um objetivo duplo. Primeiro, defendo que a 
memória coletiva é um fenômeno cientíco e, portanto, tem validade 
enquanto objeto de estudo da ciência. Adoto uma abordagem mais 
neutra quanto à realidade dos fenômenos cientícos neste capítulo. Ou 
seja, apesar de sua validade enquanto objeto de estudo, não defendo que 
ele seja um fenômeno objetivo, pois isso exigiria uma defesa da postura 
realista quanto à prática cientíca, o que foge do escopo deste capítulo. 
Consequentemente, ao defender a validade da memória coletiva 
enquanto fenômeno cientíco, realistas podem concluir que tal 
fenômeno existe de fato, independente da teorização cientíca, e 
antirrealistas podem concluir que sua postulação é importante diante 
das práticas cientícas. De qualquer modo, tal fenômeno não deveria 
ser descartado das investigações cientícas. Uma importante 
claricação é que me focarei em memória de grupos pequenos e não de 
grupos grandes, como países ou etnias inteiras1.  
 
1 A razão de meu foco é simplesmente de familiaridade com a literatura. Alguns estudos já 
demonstraram que elas se comportam de forma diferente (Michaelian; Sutton, 2019; Arango-Muñoz; 
Michaelian, 2020). Portanto, abordar as duas em um único capítulo tornaria o capítulo muito longo e

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148  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
Em segundo lugar, após defender que a memória coletiva é um 
fenômeno cientíco, discuto as possibilidades de inferir de modo 
conável, a partir disso, um fenômeno de consciência coletiva. 
Schwitzgebel (2015), por exemplo, defende que a organização e atividade 
de certos grupos de uma certa forma que favorece a atribuição de 
capacidades cognitivas a eles implica na atribuição de consciência 
coletiva. Argumento que tal inferência conável é improvável e que, 
mesmo que se aceite a conabilidade de tal inferência, no estilo de 
Schwitzgebel, as coisas são muito mais complicadas do que a mera 
atribuição de memória coletiva a grupos.  
Para alcançar meus objetivos, começo apresentando o conceito de 
fenômeno cientíco adotado aqui e sua neutralidade ontológica (Seção 
1). Depois, argumento que a memória coletiva satisfaz o conceito de 
fenômeno cientíco apresentado e, portanto, é um fenômeno válido e 
digno de ser investigado (Seção 2). Dada essa conclusão, considero o 
argumento de que capacidades cognitivas atribuídas a grupos implicam 
na atribuição de consciência coletiva (Seção 3). Apesar de indicar que tal 
inferência ou implicação é improvável, defendo que, mesmo se for, as 
coisas são mais complicadas e a inferência deve levar em conta o tipo de 
memória atribuído à coletividade e a dimensão de consciência que se 
pode inferir de tal tipo de memória.  
1. Sobre fenômenos científicos 
Meu objetivo neste capítulo é abordar uma questão cientíca e não 
ontológica. Isto é, ao invés de defender que existe uma memória coletiva 
independente da teorização humana, defenderei que memória coletiva 
 
complexo. Por isso, foquei-me no tipo de memória coletiva com o qual tenho mais familiaridade com a 
literatura especializada.

## Page 150

José Carlos Camillo  •  149 
é um fenômeno cientíco, tendo importância para a teorização humana 
sobre memória (questão cientíca). Como tal, realistas terão razão para 
acreditar que tal fenômeno é real (questão ontológica). No entanto, não 
adentrarei na defesa do realismo, pois tal debate foge ao escopo de 
minha argumentação. Um exemplo da dissociação entre fenômeno 
cientíco e fenômeno real está nos estudos dos elétrons e outras 
partículas e fenômenos subatômicos. A postulação da existência deles é 
crucial para a teorização da física de partículas. No entanto, há um 
intenso debate a respeito de se tal postulação implica na postulação de 
entidades reais, independentes da teorização, ou apenas entidades 
teóricas, dependentes da teorização. Apesar de pessoalmente favorecer 
propostas realistas, minha argumentação ao longo deste capítulo adota 
uma posição neutra em relação a essa questão.  
Na linguagem corriqueira, fenômeno normalmente se refere a 
eventos. Na prática cientíca, um fenômeno é o objeto de investigação 
cientíca2 e se dene por um conjunto estável de propriedades. Esse 
conjunto aparece sob diversas naturezas—evento, processo, estado ou 
objeto (Bogen & Woodward, 1988, Brechtel, 2007, Craver & Darden, 2013, 
Colaço, 2018). Essas propriedades, em geral, são causais, pois sua 
detecção é realizada através de inferências causais a partir de 
experimentação. Ou seja, propriedades causais são passíveis de serem 
mensuradas e são relevantes para a individuação de fenômenos por 
causa de seu poder causal (Harinen, 2018). Esse conjunto estável de 
propriedades causais tende a coocorrer dadas certas condições. Por isso, 
uma forma muito comum de individuação e caracterização de um 
 
2 A ciência se propõe a estudar vários tópicos (Potochnik, 2017), no entanto a maioria de seus esforços 
se restringem a investigar para explicar fenômenos (Bogen & Woodward, 1988, Woodward, 2003). Por 
isso, ao longo do texto considero como fenômeno científico aquilo que é objeto de investigação 
científica.

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150  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
fenômeno envolve a descoberta das condições nas quais esse conjunto 
emerge e se estabiliza (Craver & Darden, 2013, Colaço, 2018). No entanto, 
a ciência também investiga fenômenos de ocorrência única, como o Big 
Bang. Nesses casos, a descoberta do fenômeno é feita através dos efeitos 
de suas propriedades causais, como o movimento de expansão dos 
corpos celestes e a radiação cósmica de fundo (Brechtel, 2007).  
No caso de fenômenos recorrentes, cientistas notam uma certa 
constância ou estabilidade de propriedades. Por exemplo, estudos 
cientícos da memória começaram quando Hermann Ebbinghaus 
realizou alguns testes consigo mesmo (Baddeley et al, 2020). Para evitar 
a influência de aprendizados prévios, o lósofo e psicólogo alemão criou 
muitas listas de não-palavras, como zis, para decorar. Ele contabilizou 
o tempo e a acurácia de várias tentativas diárias de decorar listas ao 
longo de mais ou menos dois anos. Com isso, ele percebeu que existiam 
formas diferentes de estabilidade da informação sobre listas na mente3. 
Por um lado, se fosse apresentada uma lista curta de não-palavras, 
de menos de cinco itens, e ele fosse testado logo em seguida, ele teria 
uma acurácia boa e o tempo de retomada dos itens seria rápido. No 
entanto, essa lista seria drasticamente esquecida em questão de 
segundos. A mesma coisa não acontecia com listas grandes, de mais de 
cinco itens. Dessa forma, tinha-se um fenômeno: itens eram 
 
3 Os estudos de Ebbinghaus constituem uma exceção na história da ciência (ver Baddeley et al, 2020). 
Ele mesmo foi o criador, aplicador e objeto de estudo dos testes. Ele criou uma série enorme de testes 
diferentes, com diferentes quantidades de palavras e diferentes métodos para memorização. A partir 
disso, ele calculou com precisão não apenas quanto tempo ele levava para esquecer as palavras 
considerando cada método—ou seja, a velocidade do esquecimento—, mas também a quantidade de 
palavras que tendiam a permanecer ou se esvaziar. Esses estudos são uma exceção pois a condição de 
formulador, aplicador e sujeito dos testes tende a criar vieses nos resultados. No entanto, quando 
aplicados em situações mais controladas—duplo cego, por exemplo—os resultados de Ebbinghaus 
foram consistentemente replicados. Além disso, como será apresentado, métodos diferentes também 
conduziram a resultados semelhantes. Isso fortalece a proposta de que Ebbinghaus, de fato, encontrou 
fenômenos científicos.

## Page 152

José Carlos Camillo  •  151 
rapidamente memorizados, com alta acurácia e eram rapidamente 
esquecidos. Esse conjunto de propriedades estáveis ocorria quando era 
apresentada uma lista curta, mas não quando era apresentada uma lista 
grande, o que implicava que o número de itens decorados era pequeno. 
Em suma, o fenômeno descoberto tinha as seguintes propriedades: 
rápida memorização, rápido e abrupto esquecimento, alta acurácia e 
baixo número de itens. Essas propriedades surgiam quando havia uma 
apresentação rápida dos itens, seguida de uma retomada (teste) quase 
imediata, e quando a lista apresentada era pequena. Em outras 
condições, o fenômeno não ocorria.  
Por outro lado, Ebbinghaus notou um fenômeno diferente em seus 
estudos. Se houvesse repetidas apresentações de uma lista (ou seja, se 
ele visse a lista várias vezes e se esforçasse várias vezes para decorá-la) 
e se fosse seguido um padrão de estudo-descanso, listas bem maiores 
poderiam ser memorizadas. Além disso, o tempo de esquecimento, 
nesses casos, era muito maior (de dias a semanas), consistentemente 
relacionado ao número de apresentações/estudos e da prática de 
intervalo/descanso entre elas. Interessantemente, não parecia haver 
limites para o número itens de uma lista, nem para o número de listas, 
já que decorar uma lista não impedia a memorização de outra. Esse 
segundo fenômeno tem como propriedades: memorização lenta e 
esquecimento lento e gradual, relacionado ao número de apresentações 
e aos intervalos, boa acurácia e número indeterminado de itens. As 
condições para a ocorrência de fenômeno eram múltiplas apresentações 
da lista com intervalos de descanso entre essas apresentações.  
Esses dois fenômenos são alvos de investigações cientícas de 
sucesso e são cruciais para a teorização da memória humana. Eles são 
fenômenos individuados e caracterizados de formas diferentes devido a 
suas distintas propriedades estáveis e às distintas condições nas quais

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152  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
emergem. Atualmente, esses fenômenos são conhecidos como memória 
de curto e longo prazo; 
Tomando o exemplo desses fenômenos, entende-se que um 
conjunto de propriedades é um fenômeno cientíco se essas 
propriedades tendem a coocorrer em condições similares—na prática 
cientíca, um fenômeno recorrente deve ser replicável. A replicabilidade 
se dá quando, mantendo as condições típicas do fenômeno inicialmente 
encontrado, testa-se se os resultados encontrados inicialmente se 
repetem (Bogen & Woodward, 1988, Colaço, 2018). Ou seja, ao manterem-
se as condições relevantes (apresentação rápida dos itens, seguida de 
uma retomada (teste) quase imediata, e uma lista pequena de itens), 
encontra-se as propriedades tidas como estáveis que constituem o 
fenômeno (rápida memorização, rápido e abrupto esquecimento, alta 
acurácia e baixo número de itens).  
De fato, fenômenos que falham na replicabilidade são abandonados 
enquanto objeto de investigação cientíca, perdendo o status de objeto 
de investigação cientíca (Colaço, 2018, 2020). Por exemplo, fenômenos 
paranormais não são fenômenos cientícos e, portanto, não são alvo de 
investigação cientíca (Bogen & Woodward, 1988) porque falham na 
replicabilidade. Falhas de replicabilidade indicam que não há um 
conjunto estável de propriedades e, portanto, não há um fenômeno 
válido a ser investigado pela ciência. No entanto, por motivos óbvios, o 
critério da replicabilidade não se aplica a fenômenos de ocorrência 
única. Por isso, outro critério é necessário para a validação de um 
fenômeno enquanto alvo de investigação cientíca. 
Esse segundo critério é a suscetibilidade à investigação sob diversas 
metodologias (Bogen & Woodward, 1988, Brechtel, 2007). Tal critério, 
assim como o da replicabilidade, advém da necessidade da estabilidade das 
propriedades que compõem o fenômeno. Se há uma estabilidade, tais

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José Carlos Camillo  •  153 
propriedades podem ser investigadas de diversas formas. No caso do Big 
Bang, como mencionado, sua investigação é feita de diversas formas, 
incluindo o uso do efeito Doppler para a observação do movimento das 
galáxias e a detecção de ondas de rádio da radiação cósmica de fundo. 
Fenômenos paranormais, em geral, também falham na satisfação desse 
critério e, portanto, não são alvo de investigação científica. Considerando 
as memórias de curto prazo e longo prazo, não só testes de memorização 
com não-palavras ao estilo de Ebbinghaus, mas também testes com 
palavras, com itens não-verbais (desenhos), testes de rememoração livre 
ou de reconhecimento e investigação neurobiológica estabeleceram 
ambos como fenômenos válidos enquanto objeto de investigação 
científica4 (Baddeley et al, 2020, Kandel, 2006). 
De fato, deve-se ter cautela em considerar que fenômenos científicos 
são fenômenos reais. Por exemplo, Colaço (2018, 2020) analisa casos em 
que algo havia sido estabelecido enquanto fenômeno científico a partir dos 
dois critérios apresentados e, após investigações mais aprofundadas, 
notou-se que aquele conjunto de propriedades falhava em satisfazer os 
dois critérios. Por causa disso, deve-se manter cautela em atribuir 
existência a um fenômeno científico pois, posteriormente, ele pode ser 
rejeitado ou recaracterizado (o que os cientistas consideravam ser um 
fenômeno, na verdade, era outro fenômeno). De fato, existem atualmente 
dados que põem em xeque a caracterização das memórias de curto e longo 
prazo conforme feita acima (Gershman, 2023).  
Além disso, muitas coisas (processos, eventos ou objetos) existentes 
não se qualificam enquanto fenômeno científico. Bogen e Woodward 
 
4 Um adendo muito importante que justifica a neutralidade adotada neste capítulo é que a validação de 
um conjunto de propriedades como fenômeno científico não implica em sua existência e o reverso 
também é verdadeiro, a não validação não implica em não existência. Apesar disso, a validação de algo 
enquanto fenômeno científico indica sua importância para a teorização, especialmente porque 
fenômenos são usados para validar, explicar ou criticar teorias científicas (Bogen & Woodward, 1988).

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154  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
(1988) argumentam que a ciência não investiga dados, mas investiga 
fenômenos que são inferidos ou percebidos a partir desses dados. Por 
exemplo, entende-se que a água ferve a cem graus Celsius em condições 
adequadas de temperatura e pressão. O ponto de ebulição da água, é um 
fenômeno a ser investigado pela ciência. No entanto, se um cientista 
utilizar muitos termômetros bastante precisos do mesmo tipo, no mesmo 
ambiente e ao mesmo tempo é provável e esperado que cada um deles 
apresente leves variações (na casa dos centésimos ou milésimos, por 
exemplo) e é possível que nenhum deles de fato indique a ebulição da água 
a exatos 100ºC. Essas diversas variações não são objeto de estudo da 
ciência, pois dependem de inúmeros fatores que fogem do controle dos 
cientistas e mesmo quando se investigam variações, se selecionam 
variações devido a fatores específicos e, portanto, generalizáveis. Em 
outras palavras, ainda assim não se investiga dados, mas fenômenos 
inferidos ou percebidos a partir desses dados. Isso não quer dizer que os 
eventos/processos/objetos individuais que resultam nesses dados 
variáveis não sejam existentes. Ao contrário, ninguém duvidaria da 
existência deles, a não ser idealistas e céticos mais radicais que Berkeley. 
Apesar disso, não se validam enquanto fenômeno científico5.  
Em suma, um fenômeno cientíco é um conjunto estável de 
propriedades que emerge sob condições típicas6. Os critérios para a 
validação de um conjunto de propriedades enquanto fenômeno 
cientíco são sua replicabilidade e suscetibilidade a diversas 
 
5 Como mencionei fenômenos paranormais ao longo dessa seção como exemplo de algo que não se 
constitui como fenômeno científico, vale mencionar que, também eles podem ser existentes apesar de 
não serem válidos para a investigação científica. A questão seria como provar ou argumentar em favor 
de sua existência não utilizando-se da investigação científica.  
6 Kaiser e Krickel (2016) convincentemente argumentam que as propriedades causais de um fenômeno 
devem resultar de interações entre entidades físicas (objeto) e devem ser consideradas como resultado 
da ação desses objetos, quando organizados de determinada forma. No entanto, para não alongar muito 
o capítulo, deixo de lado essa argumentação, reconhecendo-a nesta nota.

## Page 156

José Carlos Camillo  •  155 
metodologias de investigação cientíca. Na próxima seção, argumento 
que a memória coletiva satisfaz esses e outros critérios. 
2. Memória coletiva enquanto fenômeno científico 
Em geral, argumentos a favor da memória coletiva seguem 
percursos duvidosos e dependentes de teorias incertas7. Por exemplo, 
Theiner e colegas (2010) argumentam que não há bons argumentos 
contrários à existência de memória coletiva e que, portanto, tal 
fenômeno deve ser aceito como real—eles simplesmente mudaram o 
ônus da prova. Michaelian e Sutton (2019) precisam considerar que 
memória é uma propriedade disposicional que tende a produzir 
comportamentos que são reconhecidos socialmente como mnêmicos. 
Theiner (2013) adota um princípio de paridade funcional para validar 
seu argumento. Arango-Muñoz e Michaelian (2020) se baseiam em 
critérios essencialistas de mnemicidade para defender a existência de 
memória coletiva. Todas essas teorias/metodologias adotas, no entanto, 
são bastante incertas, especialmente tendo em vista que o objetivo deles 
é defender que memória coletiva é um fenômeno real, não meramente 
um fenômeno cientíco.  
Por ter uma proposta de argumentação mais modesta—defender 
que memória coletiva é um fenômeno cientíco—me valerei apenas 
daquilo que é necessário para tal, ou seja, de critérios que façam sentido 
dentro da prática cientíca. No entanto, memória coletiva não se coloca 
como um fenômeno qualquer. Ela se coloca como um fenômeno coletivo 
e mnêmico. Dessa forma, além de avaliar se memória coletiva é um 
fenômeno cientíco, deve-se avaliar se ela é, de fato, coletiva e 
 
7 Não que tais teorias estejam erradas, mas elas estão longe de serem unanimidade. Dessa forma, se 
alguém discorda da teoria adotada para construir o argumento, automaticamente a conclusão do 
argumento não convencerá esse alguém.

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156  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
mnêmica. Para isso, considerarei, além dos critérios para validação de 
algo enquanto fenômeno cientíco, dois critérios bem simples: 
 
1.  Critério de fenômeno coletivo: o fenômeno deve depender de uma 
coletividade e deve ser distinto de fenômenos de memória 
individual. 
2.  Critério de mnemicidade: o fenômeno deve se associar a uma 
mudança de comportamento/performance devido a experiências 
prévias.  
 
O motivo para adotar o Critério 1 é que a postulação de um 
fenômeno só faz sentido na prática cientíca se ele for distinto de 
fenômenos já estabelecidos, como os fenômenos de memória individual. 
Essa diferença, por ser um fenômeno coletivo, deve se dar, em parte, em 
virtude de acontecer em condições coletivas. Entendo condições 
coletivas aqui como as situações em que mais de um indivíduo 
interagem entre si. A razão para adotar o Critério 2 é que ele se vale de 
uma denição abrangente de mnemicidade—a propriedade que torna 
um fenômeno mnêmico—que facilita e incentiva a investigação 
cientíca (Colaço, 2022a, 2022b). Denições abrangentes como essa 
lançam hipóteses e meios de investigação de associações entre diversos 
fenômenos. No caso da hipótese da memória coletiva, para que ela seja 
considerada como memória, supõe-se que há associações importantes 
entre a memória coletiva e a memória individual apesar de suas 
diferenças. Tal suposição leva à investigação dessas associações. Além 
de incentivar a investigação cientíca, tal denição abrangente de 
mnemicidade, vista no Critério 2, se justica devido ao fato de não haver 
uma denição a priori de memória que seja amplamente aceita e, 
portanto, nenhuma deve ser previamente rejeitada a menos que se

## Page 158

José Carlos Camillo  •  157 
investiguem e se esclareçam as possíveis ou não associações entre os 
fenômenos (Colaço, 2022a). Alguém poderia argumentar que esses 
critérios são muito permissivos e que seria trivial que se encontrem 
fenômenos que os satisfaçam. No entanto, não é trivial que algo 
satisfaça esses critérios, especialmente porque, por se tratar de uma 
hipótese cientíca, a satisfação dos critérios requer evidência empírica.  
Note que, ao seguir Colaço (2022a, 2022b) em considerar memória 
como um conceito abrangente, a estratégia adotada aqui é bem 
diferente da estratégia de outros lósofos, pois busca apenas uma 
pequena semelhança com outros fenômenos mnêmicos (Critério 2) ao 
invés de buscar alta semelhança (Michaelian, 2012, Theiner, 2013, 
Michaelian & Sutton, 2019, Michaelian & Perrin, 2023). Ao contrário 
desses lósofos, entendo que memória coletiva e memória individual 
devem ser fenômenos distintos (Critério 1), caso contrário, não se 
justicaria sua postulação. Michaelian e Perrin (2023) argumentam que, 
dadas as diferenças entre memória coletiva e memória individual, o 
termo “memória” deveria se reservar apenas à memória individual e 
não ser atribuído à coletividade. Diferentemente deles, sustento que 
existem muitos fenômenos mnêmicos distintos. Por exemplo, a 
memória semântica, procedural e episódica e memória de curto e longo 
prazo, apresentam diferenças signicativas. No entanto, apesar de 
serem fenômenos distintos todas elas são consideradas como 
fenômenos mnêmicos. Da mesma forma, memória coletiva também 
deveria ser considerada como mnêmica apesar de ser um fenômeno 
distinto de memórias individuais.  
Além disso, é importante ressaltar que o Critério 1 implica em que 
os fenômenos de memória coletiva e individual não sejam reduzíveis um 
ao outro pois redução implica em identidade (Piccinini, 2020). Outra 
forma de mostrar a não-identidade de dois fenômenos é evidenciar sua

## Page 159

158  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
dissociação. Por exemplo, memórias de curto prazo e longo prazo, 
apesar de frequentemente interdependentes, são dissociáveis. A 
inibição de LTP no hipocampo previne a formação de memória de curto 
prazo, mas não de longo prazo (Gershman, 2023). Mais ainda, a inibição 
de síntese de proteína no hipocampo impede a formação de memória de 
longo prazo, porém não a de curto prazo (Kandel, 2006).  
Em suma, uma memória satisfaz o Critério 1 tornando-se coletiva 
quando: a) não se reduz/não se identica plenamente com a memória 
individual; b) parte dessa impossibilidade de redução se dá porque o 
fenômeno tem entre uma de suas condições ser produzido por mais de 
uma pessoa; e c) essas pessoas devem estar em interação durante o 
processo de rememoração. Os motivos para a) e b) já foram discutidos 
nos parágrafos anteriores: para ser coletiva, a memória não pode se 
reduzir à (ou se identicar com a) memória individual. E para ser 
coletiva o motivo dessa não-redução/não-identicação deve se dar, em 
parte, porque uma das condições para a memória coletiva é que ela é 
produzida por mais de uma pessoa (um grupo, uma coletividade). No 
entanto, se esse grupo não estiver em colaboração, então as interações 
e relações causais que resultarão na memória poderão se reduzir às 
interações e relações causais que ocorrem dentro de cada indivíduo. Por 
isso, uma mera soma de pessoas não constitui uma coletividade. É 
necessária uma interação para que as relações causais que de fato 
produzem a rememoração não se reduzam aos indivíduos. Dadas essas 
três condições para atribuir coletividade a um fenômeno mnêmico, como 
será visto a seguir, cientistas puderam construir testes para evidenciar 
situações em que esses três critérios foram satisfeitos.  
Um adendo nal: memória coletiva vem sendo estudada em grupos 
pequenos e em grupos grandes (países, por exemplo) (Michaelian & 
Sutton, 2019). Neste texto, me atenho ao estudo de grupos pequenos,

## Page 160

José Carlos Camillo  •  159 
embora seja bem possível que grupos grandes também produzam 
fenômenos mnêmicos, embora diferentes de fenômenos de grupos 
pequenos (ver Arango-Muñoz & Michaelian, 2020).  
Tendo discutido os critérios a serem adotados, vamos à 
investigação da memória coletiva enquanto fenômeno. Em primeiro 
lugar, deve-se avaliar se memória coletiva satisfaz aos critérios de 
validação enquanto fenômeno cientíco (Seção 1), a saber, se ele é 
replicável e se é suscetível a diversas metodologias. No caso de grupos 
pequenos, fenômenos de memória coletiva têm sido estudados desde a 
década de 1980. Ren e Argote (2011) zeram uma revisão sistemática dos 
estudos produzidos até então e, de fato, memória coletiva é replicável 
sob suas condições típicas e tem sido estudado por meio de 
metodologias diversas. Apresentarei uma caracterização desses 
fenômenos quando discutir se eles se distinguem da memória 
individual. No entanto, a referência mencionada ca para salientar a 
satisfação tanto da replicabilidade quanto da multiplicidade de 
métodos. Ao longo desses mais de quarenta anos de investigação, o 
fenômeno vem sendo replicado, tanto utilizando-se de listas de 
palavras, listas de desenhos, narrativas longas, testes de rememoração 
livre e de reconhecimento, bem como também de testes em laboratório 
e em contextos mais naturalistas (ver também Harris et al, 2019). Tendo 
satisfeito os critérios para validação enquanto fenômeno cientíco, 
passemos a analisar se eles satisfazem os critérios 1 e 28.  
Para analisar a não-redução da memória coletiva à memória 
individual, psicólogos encabeçados por Wegner (1987) distinguiram dois 
tipos de grupos para os experimentos de memória coletiva: grupos 
 
8 Ficará mais evidente a satisfação dos critérios de validação de um fenômeno científico ao discutir a 
satisfação dos critérios 1 e 2.

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160  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
colaborativos e grupos nominais. Grupos colaborativos são formados 
por indivíduos que realizam as etapas de codicação (aprendizado) e 
retomada (teste) em conjunto, interagindo uns com os outros. Grupos 
nominais realizam essas etapas individualmente e o resultado deles é 
somado. Essa distinção tem como objetivo testar fenômenos em que as 
condições a) – c) se aplicam. Ao se analisar a rememoração de grupos e 
indivíduos, é possível ver se o conteúdo da memória do grupo se reduz 
à memória coletiva (condição a). Além disso, por manter outras coisas 
iguais, sendo uma situação controlada em laboratório, é possível inferir 
que a não redução da memória coletiva à memória individual se deu 
porque uma das condições para o fenômeno é que mais de uma pessoa 
estava rememorando o evento (condição b). Por m, se as pessoas 
estivessem se rememorando isoladamente, então isso implicaria em que 
a memória coletiva se reduziria à memória individual. Por isso, a 
distinção entre grupos colaborativos e grupos nominais foi postulada 
para testar se a memória de várias pessoas se lembrando sozinha era 
igual ou não à memória de várias pessoas se lembrando em colaboração 
(condição c) (Ren & Argote, 2011). Em outras palavras, esse fenômeno 
emergiria apenas quando houvesse coletividade factual (interação real) 
e não apenas nominal.  
De fato, várias pesquisas evidenciaram que, dependendo das 
estratégias adotadas pelo grupo colaborativo, a performance de grupos 
colaborativos ultrapassou signicativamente a performance de grupos 
nominais (Ren & Argote, 2011, Harris et al, 2022). Com isso, psicólogos 
passaram a postular o fenômeno de memória coletiva. Suas 
propriedades estáveis envolvem a retenção e retomada de um número 
alto de itens em poucas (ou até mesmo uma) apresentação; com alta 
acurácia. Nisso já reside uma diferença entre memória coletiva e 
individual: além de não se reduzirem, as propriedades da memória

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José Carlos Camillo  •  161 
coletiva se distinguem das propriedades das memórias de curto e longo 
prazo, vistas na Seção 1. De fato, nenhum tipo de memória individual 
tem esse conjunto estável de propriedades que a memória coletiva exibe 
(Kandel, 2006, Baddeley et al, 2020).  
Além disso, as condições em que as memórias coletivas emergem 
são diferentes das memórias individuais porque dependem da interação 
de vários indivíduos, algo que não ocorre, obviamente, nas memórias 
individuais. Mais ainda, não é qualquer tipo de interação em que as 
propriedades da memória coletiva, conforme vistas no parágrafo 
anterior, emergem. Por exemplo, se todos os membros do grupo usam a 
mesma estratégia para se lembrarem, há uma inibição colaborativa, em 
que o resultado dos grupos colaborativos, embora melhor do que a 
média dos resultados individuais, se torna inferior ao resultado dos 
grupos nominais (Theiner, 2013). Quando indivíduos cam corrigindo 
uns aos outros, o resultado também é inferior (Harris et al, 2019). 
Quando há um líder guiando o processo, os resultados são consistentes 
com as propriedades descritas no parágrafo anterior (Theiner, 2013). 
Além disso, quando os indivíduos utilizam estratégias complementares, 
como cada um focar nos itens ou detalhes da narrativa com os quais têm 
mais familiaridade, o fenômeno emerge (Harris et al, 2022)9.  
Como já mencionado, a estabilidade das propriedades da memória 
coletiva dentro das condições mencionadas se manteve não somente 
diante do critério da replicabilidade como também diante de uma 
multiplicidade de metodologias de investigação. Por isso, a memória 
coletiva satisfaz aos critérios para ser considerada um fenômeno 
 
9 Na nota de rodapé 3, menciono a definição de Kaiser e Krickel (2016) de fenômeno. É interessante notar 
que mesmo nessa definição um pouco mais restrita, a memória coletiva satisfaz a definição, pois exige 
que objetos (indivíduos, nesse caso) interajam entre si de acordo com algum tipo de organização. 
Considerar a definição delas de fenômeno é um argumento a mais de que memória coletiva seja um 
fenômeno coletivo.

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162  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
cientíco. Mais do que isso, dada sua não redução à memória individual 
e suas diferenças de propriedades estáveis e condições nas quais 
emergem, a memória coletiva satisfaz também ao Critério 1. Resta saber 
se esse fenômeno distinto também é mnêmico, isto é, se satisfaz 
também ao Critério 2.  
O fato de serem usados testes de memórias de diversos tipos para 
estudar a memória coletiva evidencia que esse fenômeno também é 
mnêmico. Nesses testes, a performance depende de informações 
adquiridas em experiência prévia, exatamente o que é exigido a partir 
do Critério 2. Ou seja, eles testam se experiências prévias do grupo são 
usadas para modular o comportamento/performance posterior (nos 
testes). Além disso, como vem sendo recentemente argumentado, as 
interações que fazem emergir a memória coletiva e a performance da 
memória coletiva em si são usadas posteriormente para coordenar as 
ações do grupo. Por exemplo, em alguns casos, o conteúdo lembrado é 
usado como base para um teste de tomada de decisões em grupo. De 
fato, quando isso ocorre, a performance da memória coletiva é 
retomada e usada para conduzir a tomada de decisão em grupo (Theiner 
et al, 2010, Michaelian & Sutton, 2019).  
Dessa forma, memória coletiva satisfaz os critérios de validação de 
um fenômeno cientíco, por ser replicável e suscetível de investigação 
sob metodologias diversas. Além disso, memória coletiva se distingue 
das memórias individuais (Critério 1), o que justica sua postulação 
enquanto fenômeno diferente e digno de ser investigado à parte. Mais 
ainda, apesar de ser diferente das memórias individuais, a memória 
coletiva se mantém dentro de um conjunto de fenômenos mnêmicos 
(Critério 2). Por isso, há boas razões para considerar que memória 
coletiva é um fenômeno que deve fazer parte da teorização cientíca

## Page 164

José Carlos Camillo  •  163 
sobre memória. Na próxima seção, discuto o que isso pode ou não 
implicar para discussões sobre consciência de grupo.  
3. Memória coletiva e consciência coletiva: de que tipos? 
Em um artigo provocativo intitulado “If materialism is true, the 
United States is probably conscious”10, Eric Schwitzgebel (2015) faz uma 
argumentação interessante a respeito do conteúdo deste livro e que toca 
neste capítulo, em especial. Basicamente, sem apresentar as minúcias do 
argumento, ele menciona que de acordo com o materialismo, todas as 
explicações têm base física. Dessa forma, a consciência, tal qual a 
cognição, se explica por meio de entidades/objetos reais em suas 
interações umas com as outras dentro de uma organização específica. Em 
geral, tanto a cognição quanto a consciência—ele chama de estados 
psicológicos, em geral—se explicam por esses critérios físicos. Ele, então, 
passa a apresentar diferentes animais que são considerados conscientes 
e têm as mais diversas formas de organização entre si, com diferentes 
componentes internos. O que têm em comum é uma resposta 
comportamental “inteligente”11. Pelo fato de os Estados Unidos, como um 
conjunto, apresentar um comportamento “inteligente”12 e tal 
comportamento ser resultado da interação de entidades organizadas de 
uma certa forma leva à possibilidade de que os Estados Unidos são 
conscientes. Usando alguns exemplos de capacidades cognitivas de grupo 
que não se reduzem à capacidade cognitiva de seus membros, então tal 
comportamento inteligente do grupo não se reduz ao comportamento dos 
 
10 Tradução: “Se o materialismo é verdadeiro, os Estados Unidos são, provavelmente, conscientes”.  
11 Adaptativa talvez seja o termo mais ideal, mas ele usa a palavra “smart” e “dumb” para falar desses 
comportamentos.  
12 Ele reconhece que, na maior parte das vezes esse pode não ser o caso dos Estados Unidos da América.

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164  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
membros do grupo e a consciência atribuída a partir desse 
comportamento também não se reduziria à consciência dos membros.  
Apesar de não estabelecer as coisas dessa forma, Schwitzgebel dá 
exemplos de capacidades cognitivas de grupo para evidenciar o 
comportamento inteligente de grupos e, a partir disso, inferir a 
possibilidade de consciência coletiva. Por isso, simplicarei o 
argumento dele da seguinte forma: se grupos têm capacidades 
cognitivas enquanto grupos, então, é bem provável—ou não tem 
nenhum motivo forte para rejeitar essa possibilidade—de que esses 
grupos também tenham consciência enquanto grupo.  
Pelo fato de memória coletiva ser, como argumentei na seção 
anterior, um fenômeno cientíco, podemos inferir, inspirados pelo 
argumento de Schwitzgebel, que consciência coletiva também o é? Dado 
o conceito de fenômeno apresentado na Seção 1, há duas possibilidades 
de fazer inferências conáveis acerca de consciência coletiva a partir da 
investigação de memória coletiva enquanto fenômeno cientíco: 
 
a)  se consciência for uma das condições de todos os fenômenos 
mnêmicos, então o estabelecimento de memória coletiva 
enquanto fenômeno implicaria na alta probabilidade de 
também o ser. 
b)  se consciência é uma das propriedades estáveis de todos os 
fenômenos mnêmicos, então o estabelecimento de memória 
coletiva enquanto fenômeno implicaria na alta probabilidade 
de consciência coletiva também o ser.  
 
Essas possíveis inferências conáveis levam a conclusões 
probabilísticas (“implica na alta probabilidade”) e não necessárias 
(“implica na certeza”) porque nem sempre as condições de um

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José Carlos Camillo  •  165 
fenômeno são necessárias e quase nunca as propriedades estáveis de um 
fenômeno são necessárias (Boyd, 1991, 2021). Isto é, tanto as condições 
de um fenômeno quanto o fenômeno em si são conjuntos de 
propriedades que tendem a coocorrer, mas isso não signica que em 
todos as instanciações do fenômeno, todas as propriedades estarão 
presentes. A ciência quase nunca trabalha com condições necessárias no 
sentido losóco de que algo seria o fato em todos os mundos possíveis 
(de Brigard, 2023). Por isso, se as premissas das inferências a) e b) 
estiverem certas, então o estabelecimento de memória coletiva apenas 
torna alta a probabilidade de consciência coletiva. 
O problema com essas duas possibilidades é que mesmo que as 
premissas de a) e b) estejam corretas, isso não implica em que a 
consciência que é condição para ou propriedade da memória coletiva seja 
ela mesma coletiva. É possível que consciência individual seja uma 
condição para memória coletiva ou que consciência individual seja uma 
propriedade da memória coletiva e que daí nada implique em uma 
consciência coletiva. Uma possível saída para um schwitzgebeliano é 
postular que consciência da entidade da qual o fenômeno mnêmico é ou uma 
condição para ou uma propriedade de todos os fenômenos mnêmicos. 
Dessa forma, se a entidade da qual emerge a memória coletiva é um grupo 
colaborativo, então a consciência é de um grupo colaborativo.  
Com a mudança dessas premissas surge um outro problema. 
Considere a), em que consciência é uma condição para fenômenos 
mnêmicos. Condição aqui, desde a Seção 1, se refere a condições 
externas ao fenômeno, que permitem que ele emerja a partir de um 
mecanismo (Craver & Darden, 2013, Kaiser & Krickel, 2016). A questão, 
no caso de a), é que condições externas não fazem parte do fenômeno 
em si (Craver & Darden, 2013). Em outras palavras, suas propriedades 
são dissociadas. Por isso, não se pode inferir de modo seguro que a

## Page 167

166  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
propriedade coletiva do fenômeno implique na propriedade coletiva de 
todas as suas condições.  
No caso de b), as propriedades internas de um fenômeno podem ser 
do nível do fenômeno em si ou pode ser do nível dos componentes do 
fenômeno (níveis inferiores) (Craver, 2007, Craver & Darden, 2013). Por 
isso, não se pode estabelecer que, mesmo que a memória seja coletiva, a 
consciência, caso seja uma propriedade da memória, seja ela também 
coletiva, pois ela pode ser uma propriedade dos componentes do 
fenômeno. No caso da memória coletiva, que é composta por indivíduos, 
essa propriedade pode pertencer aos indivíduos e não à coletividade. 
Por isso, não temos nenhuma indicação de que a mudança das 
premissas, de que a consciência deve pertencer à entidade da qual o 
fenômeno mnêmico emerge, está correta. Por isso, não há bons motivos 
para inferir da postulação de memória coletiva enquanto fenômeno 
cientíco a postulação de consciência coletiva enquanto fenômeno 
cientíco também.  
Ainda assim, um schwitzgebeliano pode insistir que consciência 
associada a uma capacidade coletiva sempre vem a nível do fenômeno. 
Por exemplo, a maioria das pessoas não diria que os neurônios estão 
conscientes. A consciência emerge da interação deles em processos 
cognitivos (Schwitzgebel, 2015). Essa analogia, no entanto, perde sua 
força no caso de memória coletiva porque a maioria das pessoas não 
diria que os seres humanos do grupo colaborativo não estão 
conscientes, ao contrário. Por causa da presença da consciência nos 
componentes do grupo, a suspeita quanto à consciência a nível superior, 
do grupo em si, permanece.

## Page 168

José Carlos Camillo  •  167 
Schwitzgebel (2015), no entanto, muda o ônus da prova e argumenta 
que não há nenhum motivo válido para rejeitar essa possibilidade13. Todos 
os mais importantes argumentos apresentados contra a consciência 
coletiva acabariam por negar a atribuição de consciência para alguns 
animais mais distintos do ser humano e para possíveis alienígenas 
completamente diferentes do ser humano. Portanto, retomando a 
simplificação do argumento feita no começo desta seção, não há nenhum 
motivo válido para rejeitar a possibilidade de que, se grupos têm 
capacidades cognitivas enquanto grupos, então, grupos provavelmente 
têm consciência enquanto grupos. Esse argumento também é 
problemático diante da pergunta à qual me detenho—que se refere a 
fenômenos científicos—porque não ter motivos para rejeitar uma 
possibilidade não é motivo para que ela faça parte da teorização científica. 
Ou seja, o fato de que um fenômeno seja uma possibilidade, mas cujo 
argumento em favor dele seja uma mudança do ônus da prova, ou seja, não 
há evidências a favor, só não há evidências contra, não é suficiente para 
estabelecê-lo enquanto fenômeno científico.  
Isso ca claro ao lembrar a denição de fenômeno cientíco 
apresentada na Seção 1. Fenômenos cientícos são conjuntos estáveis 
de propriedades. Quais são as propriedades estáveis da consciência? Não 
há nenhuma teoria sobre consciência que esteja perto de uma 
unanimidade e diferentes teorias cientícas sobre consciência estudam 
diferentes conjuntos de propriedades. Qual seria o conjunto de 
propriedades da consciência coletiva? Além disso, esse conjunto de 
propriedades é replicável? Está sujeito a investigação sob metodologias 
 
13 Interessantemente, Theiner et al (2010) usam do mesmo argumento para defender cognição coletiva, 
mas rejeitam a aplicação desse argumento para defender consciência coletiva, pois o acham muito 
contraintuitivo. No entanto, eles reconhecem que o argumento para defender cognição coletiva 
também não é intuitivo. Por isso, não parece haver por que alguém que se utiliza desse argumento para 
defender a cognição coletiva rejeite o mesmo argumento quanto à consciência coletiva.

## Page 169

168  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
diversas? Apenas entender a consciência coletiva como possibilidade 
não é suciente para validá-la como fenômeno cientíco e, até o 
momento, não parece haver razões para tal validação. Por isso, o 
argumento de Schwitzgebel não se sustenta diante da questão 
levantada, que se refere à postulação e validação da consciência coletiva 
como fenômeno cientíco a partir da validação da memória coletiva 
como fenômeno cientíco. E, ainda que o argumento fosse convincente, 
a relação entre fenômenos mnêmicos e consciência é bem complicada e 
deveria ser levada em conta nesse tipo de inferência.  
É complicada primeiro porque, como mencionado no parágrafo 
anterior, diferentes teorias e projetos de pesquisa investigam conjuntos 
diferentes de propriedades sob a alcunha de “consciência”, que alguns 
chamam de dimensões de consciência. As dimensões de consciência, em 
geral, são inferidas a partir de capacidades cognitivas quando a expressão 
verbal não é uma possibilidade (Andrews, 2024). Birch e colegas (2020) 
apresentam cinco dimensões de consciência tem sido estudada em 
organismos não-linguísticos (tanto animais não-humanos quanto bebês 
humanos). Essas dimensões se apresentam em diferentes graus em cada 
organismo. As dimensões apresentadas são: riqueza perceptual; riqueza 
emocional; unidade sincrônica da consciência; unidade diacrônica da 
consciência; e autoconsciência. Não é difícil notar que certas capacidades 
cognitivas, como a percepção, permitem inferir graus de consciência em 
determinadas dimensões, como a riqueza perceptual. Por isso, validar 
certos fenômenos cognitivos potencialmente14 permite realizar certas 
inferências acerca de certas dimensões de consciência15. Então a primeira 
 
14 “Potencialmente” é usado aqui, pois mesmo Birch et al (2020) argumentando nesse sentido, 
reconhecem que as conclusões de tais inferências devem ser alcançadas com muita cautela, levando 
em conta diversos fatores que fogem do escopo da argumentação deste capítulo. 
15 Mais uma vez, conforme discutido nos parágrafos anteriores, no caso de capacidades cognitivas 
coletivas, há a possibilidade de que a consciência inferida a partir da capacidade coletiva seja

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José Carlos Camillo  •  169 
complicação é que quando se fala de consciência, deve-se esclarecer de que 
dimensões e em que graus se está falando.  
Ao discutir memória aparece a segunda complicação, pois existem 
diferentes tipos de memória a partir das quais podem ser feitas 
diferentes inferências a respeito de diferentes dimensões de 
consciência. É possível, no entanto, que a maioria dos tipos de memória 
tem uma ou outra dimensão de consciência entre suas propriedades 
estáveis. O exemplo mais claro é da memória episódica e da memória 
semântica. Tulving (2005) considerou que na memória semântica está 
presente uma consciência noética e na memória episódica está presente 
uma consciência autonoética. Esses tipos de consciência derivam da 
influência husserliana que Tulving tinha e são pouco operacionalizáveis 
na prática cientíca. Numa tentativa de tradução para as dimensões de 
consciência mencionadas acima, autonoese envolveria autoconsciência 
e unidade diacrônica da consciência em alto grau enquanto a noese 
envolveria apenas a unidade sincrônica da consciência.  
Contudo, alguns pesquisadores consideram que não são a essas 
dimensões de consciência que esses dois tipos de memória estão 
associados (Andonovski, 2023). Addis (2020), por exemplo, defende que 
o que diferencia memória semântica de episódica é o grau de riqueza 
perceptual e, talvez, o grau de riqueza emocional. Outros tipos de 
memória estariam associados a outras dimensões de consciência. 
Inferir consciência a partir de memória, de todo modo, depende tanto 
da dimensão de consciência tratada quanto do tipo de memória.  
No caso da memória coletiva, alguns defendem que ela é uma 
memória episódica (Michaelian & Sutton, 2019, Arango-Muñoz & 
 
consciência individual. A discussão sobre a relação entre memória e consciência coletivas surge, como 
visto, a partir da suposição de que o argumento de Schwitzgebel é convincente.

## Page 171

170  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
Michaelian, 2020). Nesse caso, dependendo do que se entende por 
memória episódica, pode-se inferir consciência coletiva de uma certa 
dimensão (ou autoconsciência ou riqueza perceptual, conforme 
discutido nos dois parágrafos anteriores). No entanto, essa conclusão de 
que memória coletiva é memória episódica desconsidera aspectos 
cruciais da memória episódica que não estão presentes na memória 
coletiva, como as diversas formas de construção, tanto na codicação 
quanto na rememoração, como Michaelian e Perrin (2023) admitem 
posteriormente. De fato, levando em conta que o fenômeno de memória 
coletiva é dissociado da memória individual, como visto na Seção 2, 
então as inferências que ambos sustentam devem ser diferentes. Por 
isso, ainda que se aceite que memória coletiva implica em consciência 
coletiva, ca em aberto que dimensão está sendo inferida.  
Em suma, inferir que consciência coletiva deve ser um fenômeno 
cientíco porque memória coletiva, enquanto capacidade cognitiva, é 
um fenômeno cientíco é uma inferência não conável, pois não aponta 
as propriedades estáveis da consciência coletiva nem implica na 
replicação e na suscetibilidade de investigação sob metodologias 
diversas dessas propriedades estáveis. Além disso, pelo fato de a 
memória coletiva e da memória individual emergirem de componentes 
bem diferentes (os componentes da memória individual em si não são 
conscientes enquanto os componentes da memória coletiva são) 
enfraquece a associação entre consciência e capacidade cognitiva em 
grupos. Apesar disso, caso se aceite que memória coletiva implica em 
consciência coletiva, essa inferência é bastante complicada, pois 
envolve diferentes dimensões de consciência e diferentes tipos de 
memória associadas a essas dimensões.

## Page 172

José Carlos Camillo  •  171 
Conclusão 
Neste capítulo, discuti memória coletiva e consciência coletiva sob 
uma questão mais fraca do que normalmente vem sendo discutida. Digo 
mais fraca, pois não abordo o problema de um ponto de vista metafísico, 
como os demais capítulos se propõem a tratar. Antes, minha abordagem 
à questão da memória e consciência coletiva se reduzem plenamente a 
questões de prática cientíca. Em outras palavras, no lugar de 
questionar se tais fenômenos são fenômenos reais/existentes, 
questionei se tais fenômenos podem se classicar como cientícos. 
Após apresentar a denição de fenômeno cientíco a ser abordada, 
defendi que memória coletiva é um fenômeno cientíco. Também 
argumentei que tal conclusão não permite uma inferência conável de 
que consciência coletiva também é um fenômeno cientíco. Essa 
argumentação, no entanto, depende das evidências disponíveis até o 
momento. Pode ser que achados futuros comprovem a validade das 
conclusões aqui chegadas ou que provem que elas estão erradas. Além 
disso, é importante ressaltar que validar memória coletiva como 
fenômeno cientíco não implica em considerá-la como real e que 
rejeitar consciência coletiva como fenômeno cientíco não implica em 
considerá-la como não existente, como discutido ao m da Seção 1.  
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## Page 176

6 
ONTOLOGIA SOCIAL PARA INSETOS EUSSOCIAIS 
Valdenor Monteiro Brito Júnior 
A ontologia social contemporânea busca investigar a estrutura 
metafísica do mundo social em seus diferentes componentes, bem como 
em suas interrelações a outros componentes da realidade. Investiga a 
natureza de entidades sociais, como os tipos sociais (casamento, 
dinheiro, etc.) e os grupos sociais (clubes, empresas, etc.). 
Dois componentes de grande monta na maneira como a ontologia 
social é articulada diz respeito a um mentalismo e a um 
antropocentrismo: o mundo social depende da mente humana, esta 
entendida em termos de estados intencionais e/ou atitudes 
proposicionais como crença, intenção prévia, intenção em ação, etc. A 
linguagem humana também recebe destaque teórico, por exemplo, na 
maneira como atos de fala declarativos podem criar estados de coisas 
apenas por declará-los como existindo.  
A questão da ontologia social entre os animais não-humanos é 
ainda pouco tratada na literatura. Ainda que se reconheçam certos fatos 
sociais a respeito dos animais não-humanos, a ontologia social 
contemporânea é articulada de maneira a tomar o caso humano por 
paradigma sob a qual entender o social. Dessa forma, o caso dos animais 
não-humanos se torna, na melhor das hipóteses, dependente de seu 
encaixe em requisitos formulados tendo animais humanos em mente, 
ou, na pior das hipóteses, um caso não-genuíno do fenômeno social. 
Abordarei o tratamento de animais não-humanos na obra de John 
Searle como exemplo de como essa questão é tratada por um dos 
pioneiros da área.

## Page 177

176  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
O objetivo do presente artigo é contrapor-se ao cenário atual, 
buscando pensar a ontologia social de forma não-antropocêntrica, mas 
sim biocentrada, entendendo o fenômeno social à luz de sua existência 
ao longo da evolução dos seres vivos em nosso planeta, com especial 
destaque à evolução dos animais.  
Para tanto aqui destacarei o caso dos insetos eussociais, como o de 
várias espécies de formigas e abelhas, defendendo que tais seres 
também possuem ontologia social (específica à espécie pertinente) com 
tipos sociais, em um sentido em par com o dos seres humanos. 
Formulada uma defesa desse ponto para o caso das formigas e abelhas, 
entendo que o caso se generalize para todos os outros insetos eussociais 
e mesmo para todos os outros animais eussociais, vertebrados e 
invertebrados.  
1. Animais Não-Humanos em Ontologia Social 
Para ilustrar a maneira insatisfatória com que a questão da 
sociabilidade dos animais não-humanos é desenvolvida na ontologia 
social contemporânea, tomarei por exemplo a obra de John Searle, tendo 
em vista seu pioneirismo na área. Enquanto o Programa Intencionalista 
Forte (pautado na necessidade de intencionalidade coletiva para todos 
os tipos sociais) esposado por Searle tenha sido muito criticado na 
literatura especializada, e, portanto, esteja longe de ser uma 
unanimidade, a maneira como os animais não-humanos são retratados 
no contexto de sua abordagem de ontologia social não foi objeto de 
contestação significativa, de maneira que ainda se trata de uma 
premissa no background do debate contemporâneo que não tem sido 
criticamente examinada.

## Page 178

Valdenor Monteiro Brito Júnior  •  177 
Em sua primeira abordagem para a Ontologia Social, em “The 
Construction of Social Reality” (1995), Searle chega a abordar a questão de 
fatos sociais em animais não-humanos e mesmo de seu ter 
intencionalidade coletiva. Em um quadro esquemático, Searle descreve 
o seguinte caminho: há fatos físicos brutos e fatos mentais. Entre os 
fatos mentais, alguns são não-intencionais, como o sentir dor, e outros 
são intencionais, como um desejo ou uma crença. Entre esses fatos 
mentais intencionais, há os singulares e os coletivos. Searle aqui 
equaliza fatos mentais intencionais coletivos com fatos sociais, usando 
o exemplo de hienas caçando um leão. Então, Searle entende que – ao 
menos hipoteticamente – certos animais possuam estados mentais de 
intencionalidade coletiva que, para Searle, seriam necessários à 
cooperação/sociabilidade genuína. Contudo, não estamos aqui ainda 
diante do objeto próprio da Ontologia Social, e não há tipos sociais. 
Entre esses fatos mentais intencionais coletivos, há uma categoria 
especial deles que diz respeito à atribuição de função para fatos físicos 
brutos. Essa atribuição pode ser de uma função agentiva ou não-
agentiva. E, na agentiva, pode ser causal ou de status. É apenas nas 
funções de status (como um tipo de função agentiva) atribuídas a fatos 
físicos brutos por intermédio de fatos mentais intencionais coletivos 
que chegamos no objeto próprio da Ontologia Social, a que Searle 
denomina de fatos institucionais. Assim, os animais não-humanos 
ficam excluídos da Ontologia Social, mesmo quando se trate de animais 
sociais, porque não fariam atribuição coletiva de funções de status.

## Page 179

178  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
 
Figura 1. Hierarquia taxonômica de (certos tipos de) fatos. Searle, 1995, p. 121. 
 
Em sua formulação mais recente, na obra “Making the Social World” 
(2010), com mudanças significativas em relação à anterior, a questão dos 
animais sociais não-humanos continua relegada à irrelevância teórica. 
Searle agora dá destaque aos atos de fala. Ele faz uma distinção entre 
estados mentais intencionais e relaciona-os aos atos de fala. Atos de fala 
declarativos, ou Declarações, permitem fazer coisas existirem por meio 
de sua representação como existindo, por declará-las como existentes. 
Nenhum estado mental intencional consegue fazer isso e, portanto, os 
atos de fala declarativos não possuem um atributo que falta no mundo 
mental pré-linguístico, sendo, assim, uma novidade introduzida pela 
linguagem.  
Essa 
nova 
formulação 
acarreta 
problemas 
ainda 
mais 
significativos ao caso dos animais não-humanos em ontologia social: 
nenhum animal não-humano possui linguagem da maneira como a 
possuímos e, mesmo que se tente adaptar o ponto de Searle de atos de 
fala à comunicação animal ou comportamento verbal animal, parece

## Page 180

Valdenor Monteiro Brito Júnior  •  179 
difícil dizer que animais tenham atos de fala declarativos. Então, a 
ontologia social de Searle não contempla ontologia social para seres 
não-linguísticos, mesmo que se trate de seres com estados mentais 
intencionais coletivos.  
Atos de fala declarativos parecem o suprassumo da distintividade 
humana, tornada possível por meio de uma linguagem simbólica 
representacional que emergiu em nossa espécie, o Homo sapiens, 
durante a revolução simbólica cuja ocorrência estima-se ter sido em 
torno de 80.000 anos atrás. Note que antes da revolução simbólica já 
existiam Homo sapiens, então nem mesmo o Homo sapiens tinha 
ontologia social antes desse momento, quanto mais os animais não-
humanos! E nem outros hominídeos ancestrais já extintos do clado em 
que estamos inseridos teriam ontologia social: nem australopitecíneos, 
nem Homo erectus, nem Homo habilis. O critério de Searle para ter 
ontologia social é muito rigoroso. 
Muitas partes da abordagem de Searle foram criticadas. Por 
exemplo, a necessidade da intencionalidade coletiva é criticada na 
literatura1. Também a maneira como a abordagem de Searle parece 
desconsiderar que nem todos os tipos sociais são constituídos da mesma 
maneira. Khalidi (2015) em seu artigo sobre as três categorias de tipos 
sociais defende que a abordagem de Searle apenas é acurada para os 
tipos sociais que dependem de atitudes intencionais tanto para o tipo 
como para suas instâncias concretas. Contudo, se assim desmontarmos 
a abordagem de Searle, podemos chegar a novas conclusões sobre a 
ontologia social dos animais não-humanos. É o que faremos a seguir, 
tomando por exemplo os insetos eussociais, mais especificamente das 
colônias de formigas e abelhas.  
 
1 Para uma revisão da literatura respectiva, veja o 1º capítulo de minha tese de doutorado (Brito Jr., 2021).

## Page 181

180  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
2. Socialidade e Eussocialidade em Zoologia  
Para indagarmos acerca da ontologia social em insetos eussociais, 
algumas distinções precisam ser feitas no que diz respeito à pesquisa 
biológica na seara do comportamento social2.  
Um primeiro conceito seria o de socialidade. Wilson (1975, p. 7) 
define sociedade, em termos da biologia comportamental, como um 
grupo de indivíduos pertencentes à mesma espécie e organizados de 
uma maneira cooperativa. Ele afirma que as definições de sociedade e 
do social em sociobiologia precisam ser as mais abrangentes possíveis, 
não excluindo nenhum fenômeno interessante intuitivamente visto 
como social. De fato, comunicação recíproca de natureza cooperativa, 
transcendendo mera atividade sexual, é o critério intuitivo essencial de 
uma sociedade (Wilson, 1975, p. 7). Note que Wilson explicitamente 
estabelece o caráter intraespecífico do social, em termos de atividade 
cooperativa. Esta é importante porque a formação de grupo3 não é 
suficiente para vida social genuína. A mera agregação de organismos4, 
elicitada por estímulo mutuamente atrativo, não forma sociedades 
animais. Wilson considera que, enquanto agregação, comportamento 
sexual e proximidade física em área territorial compartilhada não são 
suficientes para estabelecer sociedades, esses fenômenos são 
propriedades presentes em sociedades verdadeiras. Isto é, podemos 
 
2 Parte do material a seguir foi aproveitado da minha tese de doutorado “Ontologia Social Não-
Mentalista: uma abordagem biocentrada” (2021; p. 306-308). 
3 “Group: a set of organisms belonging to the same species that remain together for any period of time while 
interacting with one another to a much greater degree than with other conspecific organisms. The word 
group is thus used with the greatest flexibility to designate any aggregation or kind of society or subset of a 
society.” (Wilson, 1975, p. 8) 
4 “Aggregation: a group of individuals of the same species, comprised of more than just a mated pair or a 
family, gathered in the same place but not internally organized or engaged in cooperative behavior. Winter 
congregations of rattlesnakes and ladybird beetles, for example, may provide superior protection for their 
members, but unless they are organized by some behavior other than mutual attraction they are better 
classified as aggregations than as true societies.” (Wilson, 1975, p. 8)

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Valdenor Monteiro Brito Júnior  •  181 
dizer que são derivativamente sociais se forem feitas em grupos sociais 
ou por indivíduos de uma espécie social.  
Eusociabilidade (cunhado por Batra, 1968) é definida por Wilson e 
Hölldobler (2005) como um nível evolutivamente avançado de existência 
colonial onde membros adultos de uma colônia animal pertencem a 
duas ou mais gerações sobrepostas, cuidam cooperativamente dos 
infantes entre eles, e são divididos em castas reprodutivas e não-
reprodutivas (ou menos reprodutivas). Nessa mesma direção, Nowak, 
Wilson e Tarnita (2010, p. 1057) entendem “eussocialidade” como a 
característica de espécies sociais onde membros adultos compõem 
castas reprodutivas e parcialmente não-reprodutivas, sendo as últimas 
ocupadas com o cuidado dos jovens. Isso significa que a eussocialidade 
envolve cuidado cooperativo (inclusive de prole não aparentada 
diretamente), gerações sobrepostas e divisão do trabalho entre essas 
diferentes castas. Em razão disso, a eussocialidade é um fenômeno mais 
estrito e muito raro na natureza. Insetos sociais são o melhor exemplo 
desse conceito, onde a sociedade é dividida entre a rainha e machos 
reprodutivos responsáveis pela reprodução, de um lado, e soldados e 
operárias não-reprodutivos que tornam possível a vida colonial, de 
outro lado5.  
A tabela abaixo apresenta os vários graus de sociabilidade entre 
espécies de insetos, na formulação clássica em Wilson (1975), sendo o 
eusocial o nível mais elevado possível:  
 
 
5 Há algumas espécies e gêneros de formigas nos quais a reprodução não é realizada por uma rainha, 
mas por meio de uma operária com ovários desenvolvidos e espermateca funcional, denominada 
“gamergate” (Peeters & Crewe, 1984; Peeters, 1991). É o caso da Dinoponera lucida, endêmica na Mata 
Atlântica brasileira (Peixoto et al, 2008). Mas por ser um caso raro, sempre falaremos no texto em termos 
da rainha sendo a reprodutora.

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182  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
 
Tabela 1. Graus de Sociabilidade nos Insetos. Wilson, 1975, p. 398.6 
 
Alguns cientistas entendem que os seres humanos poderiam ser 
considerados eussociais, com base na presença universal de avós pós-
menopausa proporcionando suporte à reprodução de sua prole nas 
sociedades humanas. Sob essa visão, a perda da capacidade reprodutiva – 
variável fisiológica – associada ao envelhecimento nas fêmeas da espécie 
humana estaria funcionalmente relacionada ao suporte fornecido – 
variável comportamental – de forma análoga a uma casta não-
reprodutiva (Foster; Ratnieks, 2005; Wilson; Nowak, 2014; veja também 
uma consequência dessa atribuição para a questão da psicologia do 
suicídio em termos de um desarranjo da dimensão de autossacrifício no 
contexto eusocial em Joiner et al, 2016; Chiurliza et al, 2018). Contudo, tal 
atribuição de eussocialidade aos humanos é controvertida e não 
universalmente aceita, em razão da dificuldade de enquadrar a espécie 
humana nos termos mais estritos da eussocialidade, que demandaria uma 
divisão extrema do trabalho reprodutivo, também conhecida como 
 
6 Para uma exposição mais recente acerca desses graus de sociabilidade, consulte Gullan; Cranston, 
2005, p. 299-326.

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Valdenor Monteiro Brito Júnior  •  183 
reproductive skew – e assim remanesce controverso se a questão relativa à 
menopausa anteriormente mencionada seria suficiente para nos 
qualificar sob esse critério.  
Exemplos consensuais de mamíferos eussociais são o Rato-
toupeira-pelado (Heterocephalus glaber) e o Rato-Toupeira de 
Damaraland (Fukomys damarensis), que organizam colônias em termos 
de alguns poucos membros reprodutivos associados a uma maioria não-
reprodutiva. Aqui focaremos a exposição nos insetos eussociais.  
Assim, nesse primeiro momento, observamos que a sociabilidade dos 
insetos eussociais (e de outros animais eussociais de modo geral) se 
desenvolve de forma diferente em relação à sociabilidade humana, uma 
vez que entre os animais humanos não ocorre uma supressão reprodutiva 
da maioria do grupo social. Outra questão é que nas espécies de insetos 
eussociais a relação genética (relatedness) entre os membros cooperativos 
costuma ser muito alta (essa afirmação será qualificada mais adiante), 
enquanto no Homo sapiens há cooperação em larga escala entre estranhos 
não-relacionados. É em razão deste último ponto que alguns autores 
cunharam a expressão “ultrasocialidade” para o caso humano, definida 
por Turchin (2013, p. 62 e 65, mencionando Campbell, 1983) como a 
habilidade dos seres humanos em cooperar em grandes grupos (incluindo 
mesmo milhares e milhões de pessoas) compostos por indivíduos que não 
sejam proximamente relacionados em termos de genética (isto é, que não 
são parentes entre si), circunstâncias estas que seriam prima facie mais 
propícias para a adoção de uma estratégia comportamental egoísta ao 
invés de cooperativa, dado que os indivíduos não-parentes estariam em 
conflito direto pelos recursos.7 Esse conceito enfatiza a capacidade 
 
7 Uma exceção seria a discussão clássica da seleção de grupo, no qual a competição entre grupos 
poderia favorecer a cooperação dentro do grupo caso a pressão seletiva competitiva intergrupal 
conseguisse superar a intragrupal, mas não entrarei nessa complexidade aqui.

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184  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
humana para cooperar com muitos estranhos não-relacionados em 
grupos grandes. 
Contudo, apesar desses diferentes caminhos de sociabilidade, 
tanto a humana com sua ultrasocialidade como a dos insetos eussociais 
com sua eussocialidade se destacam por estarem entre os níveis mais 
complexos conhecidos de organização social encontrados na natureza 
viva. Isso não deve ser entendido numa falsa acepção que associe a 
evolução biológica a uma ideia de “progresso” (muito menos de um 
progresso inevitável). A socialidade enquanto fenômeno biológico não 
precisa tender à eussocialidade nem à ultrasocialidade (e nem mesmo in 
extremis à criação de um novo organismo, como ocorrido na transição 
da unicelularidade para a multicelularidade, a qual pode ser entendida 
como precedida por eussocialidade entre linhagens celulares; Birch, 
2017, cap. 7). Contudo, é nelas que vemos o fenômeno social de maneira 
mais complexa, envolvendo uma escala de cooperação entre seres vivos 
bem rara na natureza. 
3. Ontologia Social para Insetos Eussociais 
A Ontologia Social volta-se ao estudo do mundo social em termos 
de categorias metafísicas e seus inter-relacionamentos ontológicos com 
diferentes dimensões da realidade. Contudo, o paradigma de mundo 
social seria o humano (e quase que exclusivamente o humano, como 
revisado em seção anterior).  
Meu argumento no presente artigo é que, se afirmarmos uma 
ontologia social substantiva para o caso humano, não estamos 
justificados em negar isso para o caso de animais eussociais, inclusive 
por referência aos insetos eussociais. Portanto, aceitar a legitimidade 
da discussão ontológica do mundo social humano, também legitima a

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Valdenor Monteiro Brito Júnior  •  185 
discussão ontológica do mundo social em animais eussociais, inclusive 
invertebrados.8  
Quando consideramos possíveis motivos pelos quais afirmaríamos 
a ontologia social para a espécie humana, enquanto a negaríamos para 
espécies de insetos eussociais (com destaque para formigas, abelhas, 
vespas e cupins), dificilmente encontramos quaisquer bases muito 
claras que motivassem tal tratamento diferenciado.  
Consideremos a característica presente em muitas formigas de 
formar trilhas químicas em sua atividade forrageadora. Também 
poderíamos considerar o caso de trilhas químicas aéreas deixadas por 
certas espécies de abelhas. Parece-me que estamos justificados em 
afirmar, com base no atual estado da arte em zoologia, que “trilhas 
químicas fazem parte da organização social de certas espécies 
eussociais de formigas e abelhas”. Dificilmente encontraríamos razões 
internas à biologia que recusassem fidedignidade a tal afirmativa. Agora 
note a similitude com o caso humano: “rotas de circulação de pessoas e 
bens fazem parte da organização social de sociedades humanas ao redor 
do globo”. Por “rotas de circulação de pessoas e bens” entendemos aqui 
itinerários de via terrestre/marítima/aérea utilizada por uma sociedade 
humana, em deslocamentos de um ponto a outro, onde referida rota 
esteja “sinalizada” para uso compartilhado: isso permite englobar desde 
trilhas num matagal fechado, com pouquíssima alteração do ambiente 
circundante, usadas para caça ou coleta conjuntas em sociedades de 
pequena escala, até os mais complexos sistemas de tráfego rodoviário e 
 
8 De fato, entendo como legítima a abordagem ontológica para o mundo social de todos os animais 
(quiçá organismos) sociais, mesmo daqueles que não são eussociais nem ultrasociais nos sentidos acima 
expostos. Contudo, neste artigo me restringirei a uma defesa dessa tese para o caso dos animais 
eussociais. Consulte Brito Júnior (2021) para apontamentos em torno da ontologia social para quaisquer 
animais (ou organismos) sociais.

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186  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
mesmo aéreo implantados em sociedades industriais modernas de 
grande escala.  
Ao olhar para o caso humano, parece natural em ontologia social 
afirmar que as práticas sociais envolvendo rotas sinalizadas (com 
diferentes características entre diferentes sociedades no tempo e no 
espaço) perfazem entidades sociais, tipos sociais, que podem ser 
analisados por intermédio do instrumental da metafísica analítica 
contemporânea. Esse apontamento funciona mesmo se quisermos dizer 
que as rotas sinalizadas são partes próprias de tipos sociais ou 
participam na sua constituição ao invés de serem os tipos sociais em si 
mesmos, mas, para fins de simplicidade na discussão a seguir, as 
tratarei como entidades sociais completas. Também não deve se 
confundir aqui a noção de “rota de circulação de pessoas e bens” com os 
artefatos usados para percorrer essas rotas (aviões, navios, veículos, e 
até mesmo estradas asfaltadas). 
Dois exemplos mais específicos podem ser fornecidos para ilustrar 
melhor a comparação a ser feita aqui. Primeiro, o leitor pode pensar no 
caso de rotas comerciais. Algumas foram de enorme importância 
histórica, como a Rota da Seda. Tais rotas capacitam a circulação de 
pessoas e bens através de trocas comerciais e seriam impossíveis sem 
algum tipo de comunicação entre vários seres humanos perfazendo a 
Rota. Mas muitas delas surgem de forma espontânea através de uma 
multidão de interações descentralizadas, gerando aquilo que o teórico 
social Hayek (1967) denominou de “ordem espontânea” (Gedeon, 2015). A 
desvantagem desse exemplo é que pode ser objetado que rotas comerciais 
dependem da existência de outro tipo social tal como “dinheiro”, que nem 
sempre existiu nas sociedades humanas. Para não entrar nesse debate por 
não ser o foco aqui, também introduzo um segundo exemplo para ajudar 
a entender o paralelo. Sociedades caçadoras-coletoras são conhecidas por

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Valdenor Monteiro Brito Júnior  •  187 
praticarem forrageamento de local central, que é comparável à prática de 
formigas eussociais em forragearem a partir do ninho da colônia ou e das 
abelhas eussociais a partir da colmeia. Por intermédio desse tipo de 
forrageamento, surgem redes de interação e rotas de circulação que, via 
atividades comunicativas, promovem a transmissão da informação ao 
longo da rede (Garg et al, 2021). A adoção desse sistema de forrageamento 
nos distingue de hominídeos mais ancestrais e dos grandes primatas 
antropoides não-humanos (Garg et al, 2021; Layton; O’hara, 2010; Jang et 
al, 2019). 
Então, meu ponto é: se entendermos que tais rotas sinalizadas de 
circulação de pessoas e bens são tipos sociais no caso humano, teríamos 
alguma justificativa para não entendermos as trilhas químicas 
terrestres de formigas eussociais ou as trilhas químicas aéreas de 
abelhas eussociais como tipos sociais das espécies pertinentes? 
Uma primeira dúvida que poderia surgir é se deveríamos falar das 
trilhas químicas em insetos eussociais como fatos sociais ou como fatos 
meramente biológicos. Afinal, a capacidade para produzir os feromônios 
necessários à constituição dessas trilhas não é simplesmente uma parte da 
morfologia e fisiologia das espécies respectivas? Contudo, é importante 
observar que não estou aduzindo que a produção de feromônios em si seja 
uma marca do social ou perfaça um fato social em si mesmo. Insetos 
solitários também produzem feromônios. Por exemplo, para fins de 
acasalamento (Yan; Liebig, 2021, p. 472; Blomquist; Bagnerès, 2010). De 
fato, os insetos eussociais e os insetos solitários compartilham em grande 
medida os genes essenciais a regular o desenvolvimento e a atividade 
neuronal subjacente ao uso de sinais químicos, mas certos genes foram 
cooptados para regular comunicação social e comportamento social nos 
eussociais (Yan; Liebig, 2021, p. 477; Amdam et al. 2006; Robinson et al. 
2008), explicando assim sua diferença marcante.

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188  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
Daí a escolha pelo exemplo das trilhas químicas nos insetos 
eussociais: as trilhas químicas são produtos de cooperação e 
comunicação entre as formigas/abelhas pertinentes. Vamos usar o 
exemplo das formigas. A trilha química formada no curso das atividades 
forrageadoras é constituída pela emissão de feromônios no sentido de 
atrair mais formigas da mesma colônia na obtenção de recursos, uma 
vez que os semioquímicos (ou infoquímicos) nesse caso são usados como 
“sinais”, uma vez que são produzidos por um emissor que tem sido 
moldado pela evolução para transmitir uma mensagem específica ao 
receptor pretendido (Chapman, 2013, p. 858). Portanto, essas trilhas 
químicas pressupõem comunicação entre os insetos individuais 
pertinentes na satisfação cooperativa de um propósito compartilhado. 
Sem a cooperação social subjacente, tais trilhas químicas não existiriam 
ou não seriam o fenômeno que são. Por exemplo, se uma aparente trilha 
química emergisse simplesmente como subproduto acidental da 
produção de feromônios em espécies solitárias e da movimentação dos 
indivíduos dessas espécies em um espaço comprimido, não estaríamos 
diante do mesmo fenômeno que a trilha química como moldada pela 
seleção natural para fins de cooperação eficiente numa atividade 
forrageadora cujo resultado beneficia a colônia. Note que a questão não 
é terminológica, sobre o uso do termo “trilha química”. E sim que, 
independentemente do nome usado, no primeiro caso estaríamos 
diante de certo fenômeno e no segundo caso estamos diante de outro 
fenômeno, sendo que este último pressupõe sociabilidade e cooperação.  
Uma analogia que pode ser feita aqui para esclarecimento da 
questão seria a capacidade de emitir ruídos sonoros. Várias espécies 
animais solitárias têm capacidade de fazê-lo. Nesse sentido, trata-se de 
fatos a respeito de suas fisiologias e morfologias. Contudo, esse fato 
fisiológico e morfológico (meramente biológico) pode ser cooptado na

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Valdenor Monteiro Brito Júnior  •  189 
evolução de certas espécies para ser utilizado no decurso de atividades 
cooperativas, como no próprio caso dos primatas humanos, onde as 
cordas vocais servem para comunicação simbólica complexa.  
Por outro lado, o objetor ainda poderia tentar insistir nessa 
questão de biológico versus social, arguindo o seguinte: no caso dos 
insetos eussociais, estamos diante de um comportamento sujeito a forte 
controle genético e inato, enquanto, no caso dos primatas humanos, 
estamos diante de comportamentos em grande medida aprendidos e 
mesmo deliberadamente escolhidos. O peso da genética no 
comportamento eusocial das colônias de formigas ou abelhas faria das 
“trilhas químicas” entidades meramente biológicas, enquanto os 
exemplos análogos entre os seres humanos, de “rotas de circulação de 
pessoas e bens”, não estariam submetidos a tal controle genético e assim 
estariam qualificados a serem entidades sociais.  
O problema com essa objeção diz respeito a uma visão simplista da 
relação entre genes e comportamento, e da distinção inato/aprendido. 
Não revisarei aqui essa discussão em toda a sua extensão e 
profundidade, mas me aterei ao seguinte aspecto. O mapa das rotas de 
circulação de pessoas e bens desenvolvidas por uma sociedade humana 
específica não está “prevista” no nosso código genético, afinal, a forma 
que tais trilhas tomarão depende de elementos externos, desde o relevo 
geográfico até as cadeias produtivas de determinada sociedade. 
Ninguém poderia olhar para o Projeto Genoma Humano e daí inferir um 
mapa detalhado das redes de tráfego no Brasil no século XXI. Contudo, 
o mesmo ocorre para os insetos eussociais!  
Formigas eussociais tenderão a produzir trilhas químicas na medida 
em que, por razões genéticas, têm a capacidade fisiológica e a disposição 
comportamental de emitir feromônios para fins comunicativos em 
atividades voltadas à obtenção de alimentos, tal como nós, também por

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190  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
razões genéticas, tenderemos a produzir rotas de circulação de pessoas e 
bens por termos a capacidade fisiológica e a disposição comportamental 
de emitir ondas sonoras vocais no intuito de cooperarmos na obtenção de 
alimento (não só deste, mas o mesmo vale para os insetos eussociais, a 
depender da espécie as trilhas químicas podem ser usadas também para 
fins outros que não a obtenção de alimento, como quando usadas por 
formigas ocupando o papel de “patrulheira”).  
Como serão exatamente essas trilhas químicas? Qual seu tamanho, 
quantos membros da colônia envolverão etc.? Tudo isso vai depender 
das circunstâncias do ambiente e do histórico prévio. Deborah Gordon 
(2014; 2023; Gordon et al, 2011) descreve bem como as trilhas emergem 
a partir de interações locais entre as formigas de uma colônia, não 
estando sujeitas a um controle central (e aqui nem mesmo a um “como 
se controle central” dos genes subjacentes).  
Mesmo a noção de casta na divisão de trabalho colonial não implica 
em um determinismo genético linear, uma vez que, tomando formigas 
como referência: 1) a diferenciação de casta nas formigas é amplamente 
trofogênica – isto é, determinada pela dieta –, envolvendo uma alocação 
enviesada do volume e qualidade da comida dada às larvas, de modo que 
uma larva aleatoriamente selecionada pode se desenvolver para virar 
rainha ou operária a depender da dieta (Gullan; Cranston, 2005, p. 312); 2) 
em determinadas espécies, usando de exemplo estudos relativos à 
Pogonomyrmex barbatus, uma formiga que não atua como forrageadora 
pode mudar de papel para atuar como forrageadora caso haja demanda 
para tal mudança (veja por exemplo Gordon, 1989; Gordon; Rosengren; 
Sundstrom, 1992), inclusive por intermédio da utilização de 
semioquímicos conforme evidência experimental (Greene; Gordon, 2003). 
Portanto, tal como no caso dos seres humanos onde nossa posição 
na escala social não é função linear de uma simples determinação

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genética, embora possa ser influenciada por nossa individualidade 
genética (o que pode ir desde a sermos filhos biológicos de pessoas cuja 
posição social é transmitida hereditariamente – como na realeza de 
muitos países – , até a nossa probabilidade de ocupar uma posição social 
ou outra em contextos de mobilidade social ser afetada por nossos 
traços cognitivos e comportamentais, sendo que as diferenças nesses 
traços entre as pessoas são parcialmente explicáveis pela diferença 
genética entre elas, conforme achados da genética comportamental9), o 
mesmo pode ser dito dos insetos eussociais, ao menos por referência ao 
caso das formigas.  
A diversidade existente entre diferentes espécies de formigas 
eussociais a respeito das características de suas trilhas químicas (por 
exemplo, em algumas tendo um caráter mais fixo, outras tendo um 
caráter mais transiente) demonstra que diferentes soluções foram 
favorecidas pela seleção natural a depender do ambiente.  
Nossos traços cognitivos e comportamentais continuam sujeitos à 
seleção natural (embora em sociedades industriais modernas isso seja 
menos evidente que em sociedades de pequena escala com fertilidade 
natural). Contudo, a vasta diferença estrutural entre nós e os insetos 
eussociais faz com que o impacto dessa seleção natural seja bem 
diferente entre nós e eles, uma vez que a mudança intergeracional dos 
insetos eussociais é mais rápida, seus sistemas nervosos mais simples e 
sua existência evolutiva é muito mais longa que a do gênero Homo (uma 
diferença entre aproximadamente 150 milhões de anos e 2 milhões de 
anos, respectivamente). Portanto, uma comparação entre a nossa 
sociabilidade e a dos insetos eussociais precisa levar em conta essas 
diferenças, não para negar o caráter social genuíno das manifestações 
 
9 Vide Plomin et al (2010).

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desses insetos, mas sim para entender como o caráter social genuíno 
pode se manifestar de maneiras diferentes que na espécie humana e 
ainda assim remanesça possível traçar um paralelo entre organismos 
vivos tão diferentes.10 
Um viés que afeta essa questão diz respeito ao fato de o Homo 
sapiens ter sido o único hominídeo a persistir entre a miríade de outros 
hominídeos que fizeram parte da cadeia evolutiva desse ramo de 
primatas nos últimos milhões de anos. Caso ainda existissem 
hominídeos comparáveis ao Homo erectus por aí, tendo uma aparência 
morfológica e funcionamento fisiológico muito similares aos do Homo 
sapiens, mas com um funcionamento cognitivo que presumivelmente 
veríamos como mais similar a de grandes primatas antropoides não-
humanos ao invés do nosso, teríamos mais evidente diante de nós o 
quanto da nossa organização social é ela mesma determinada 
geneticamente (mas com flexibilidade como já destacado). Porque se 
pudéssemos nos comparar com seres vivos de morfologia e fisiologia 
similares a nossa, mas com outro tipo de comportamento (inclusive 
social) – distinto e ainda assim com várias similaridades ao nosso, 
embora sem nosso mesmo funcionamento cognitivo -, seria mais 
evidente que a diferença de organizações sociais entre nós e eles se 
deveria à evolução por seleção natural sob a base genética subjacente 
das respectivas espécies. Isso é válido mesmo assumindo que haja uma 
variedade de organizações sociais entre os Homo sapiens (como de fato 
há) e uma variedade de organizações sociais nessa hipotética espécie de 
 
10 Compare como podemos traçar um paralelo na evolução de asas em insetos e em morcegos, onde as 
asas não são fruto de descendência comum – homologia -, mas sim de convergência funcional – 
analogia – entre seres vivos distantes filogeneticamente. Lorentz (1981) comenta que um dos princípios 
originais subjacentes à fundação da Etologia como disciplina biológica seria o estudo do 
comportamento em termos de homologia e analogia, tal como já era feito para órgãos e tecidos 
corporais.

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Valdenor Monteiro Brito Júnior  •  193 
hominídeo não-sapiens que poderia ainda existir, já que a questão pode 
ser entendida em termos da diferença entre como variam as 
organizações sociais dessas espécies hominídeas dado os ambientes de 
referência. Com tantas espécies de insetos eussociais, mesmo quando 
comparadas apenas formigas entre si ou apenas abelhas entre si e assim 
por diante, obviamente é muito mais fácil proferirmos esse juízo a 
respeito delas.  
Diante dos pontos acima apresentados, o objetor poderia procurar 
algum argumento biológico – assumindo agora que tanto seres 
humanos como insetos eussociais estão sujeitos aos mesmos princípios 
norteadores da evolução da vida - que pudesse refinar sua diferenciação 
entre esses casos sob bases não-arbitrárias.  
A seguinte objeção mais cientificamente refinada poderia ser 
apresentada. A eussocialidade dos insetos eussociais se originou e 
persiste na evolução por seleção natural em termos de haplodiploidia11 
(válido para ordem Hymenoptera, não se aplica aos isópteros/cupins12), 
sendo caso clássico de seleção de parentesco, onde o comportamento 
altruísta evolui em razão do benefício reprodutivo para indivíduos 
relacionados geneticamente ao agente, na medida de sua relação 
genética, conforme dado na Regra de Hamilton (R > c/b): se o benefício 
reprodutivo que o comportamento de um indivíduo confere para outro 
 
11 Mesmo sendo reconhecido hoje que a haplodiploidia tenha desempenhado apenas um papel menor 
na evolução da eussocialidade (Abbot et al, 2011), uma vez que há animais eussociais diploides e a 
haplodiploidia não tem uma conexão estatisticamente forte com a eussocialidade (Nowak; Tarnita; 
Wilson, 2010, com base em Wilson, 2008; Linksvayer; Wade, 2005; Queller; Strassmann, 1998), ainda se 
segue que a haplodiploidia é uma característica comum nos insetos eussociais da ordem Hymenoptera 
(nosso foco aqui) não compartilhada pelos primatas humanos. Dessa forma, a argumentação feita a 
seguir em termos de ser uma característica dissimilar entre insetos eussociais e primatas humanos ainda 
se segue mesmo admitido papel explanatório reduzido para esse fator.  
12 Os insetos eussociais da ordem Hymenoptera, que engloba formigas, abelhas e vespas, são hadiplóides, 
enquanto os insetos eussociais da subordem Isoptera (ordem Blattodea), que engloba os cupins, são 
diplóides tal como nós.

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multiplicado pelo coeficiente de relação genética (relatedness) entre eles 
supera o custo reprodutivo para o indivíduo que realiza referido 
comportamento, então esse comportamento será selecionado em 
termos de fitness inclusivo (sucesso reprodutivo inclusivo). As operárias 
em muitas espécies eussociais (mas não em todas) compartilham entre 
si mais que metade de sua base genética, sob coeficiente de 0,75. Assim, 
as operárias ainda maximizariam seu sucesso reprodutivo de forma 
indireta, mesmo abdicando da reprodução.13  
Diante desse peso da seleção de parentesco e da haplodiploidia de 
insetos eussociais (especialmente da ordem Hymenoptera como já 
explicado), o objetor hipotético poderia argumentar que isso é uma 
dissimilaridade muito evidente para com o caso dos primatas humanos, 
cuja evolução por seleção natural se dá em termos de diploidia, e 
envolve cooperação entre estranhos não-geneticamente relacionados. 
Na literatura de evolução da cooperação inclusive se destaca o fato de 
que, entre os animais, a reciprocidade é rara ou inexistente, enquanto 
no ser humano a reciprocidade é componente-chave de nossa 
sociabilidade. Note que existem outros animais não-humanos que 
apresentam cooperação entre não-parentes, mas a evolução da 
cooperação com base em benefício mútuo entre não-parentes nos 
animais não-humanos tende a ser produzida por outros mecanismos 
que não a reciprocidade (West; El Mouden; Gardner, 2011). No caso em 
apreço, dos insetos eussociais, entretanto, a questão da relação genética 
entre os membros da colônia seria muito acentuada, com a seleção de 
 
13 Também são necessárias algumas qualificações aqui. Há diversas espécies formigas eussociais nas 
quais as operárias retém a capacidade de pôr ovos. Especificamente em espécies nas quais a relação 
genética entre as operárias é menor (quando a rainha acasala com mais de um macho, reduzindo o 
coeficiente para 0,25), a teoria permite prever e os dados corroboram que há policiamento por parte 
das demais operárias para impedir essa reprodução “desviante” (Ratnieks 1988; Wensellers; Ratnieks 
2006). A harmonia reprodutiva surgiria, contraintuitivamente, de uma relação genética menor, mas 
ainda dentro do escopo preditivo da teoria do fitness inclusivo.

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Valdenor Monteiro Brito Júnior  •  195 
parentesco sendo o carro-chefe de sua organização social colonial, o que 
só aumentaria sua distância em relação ao caso dos primatas humanos, 
marcado pela cooperação de não-parentes com base em reciprocidade 
(para além da seleção de parentesco que, não obstante, também existe 
no caso humano). Assim, concluiria nosso objetor, poderíamos negar o 
status de entidade social às trilhas químicas das formigas ou abelhas 
eussociais, ou negar que haja ontologia social entre os insetos 
eussociais, em razão de seu comportamento aparentemente social não 
ter as mesmas bases genéticas e evolutivas que o do comportamento 
social genuíno, o nosso.  
Contudo, entendo que essa objeção também falha. Primeiro, se 
poderíamos admitir que o comportamento genuinamente social pode 
variar em termos de suas causas próximas (por exemplo, instanciado 
por organismos com sistemas neuronais bem distintos do nosso, talvez 
mesmo por uma química baseada em silício ao invés de carbono), 
também parece que devemos admiti-la no que diz respeito às suas 
causas remotas em termos da evolução da cooperação.  
Comportamento genuinamente social vem a existir se vier a existir 
cooperação entre indivíduos de uma mesma espécie sob uma vida 
grupal com base na evolução por seleção natural (ou outro processo 
seletivo).14 Mas como especificamente foi a base de seleção para essa 
 
14 A condição de seleção aqui diz respeito ao organismo ter o design adaptativo para a cooperação, de 
tal modo que seu sucesso reprodutivo esteja parcialmente entrelaçado ao sucesso reprodutivo de 
outros organismos da mesma espécie. Isso afasta o problema de um comportamento coordenado de 
forma meramente acidental. Em publicação sob análise dos pareceristas, defendo que a função 
biológica em termos de efeitos seletivos consegue satisfazer o mesmo papel teórico que a 
intencionalidade mental na ontologia social padrão, no sentido de distinguir comportamento 
cooperativo genuinamente social subjacente à ontologia social do comportamento coordenado de 
forma meramente acidental. Parte desse argumento já encontrava-se esboçado na minha tese de 
doutorado (Brito Jr., 2021). A função em termos de efeito seletivo como a preconizo também admite 
outros processos seletivos que não a seleção natural, mas entendo que a seleção natural ocupa um 
papel de destaque nesse âmbito. Entretanto, para fins do presente artigo, se alguém discordar de minha 
posição por relativizar o papel da seleção natural ou outros processos seletivos aqui (p. e. argumentando 
que bastaria uma condição mais fraca de função biológica em termos de papel causal que independe

## Page 197

196  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
cooperação vir a existir? A literatura da evolução da cooperação nos 
confere essa resposta, mostrando diferentes caminhos pelos quais isso 
se desenvolve evolutivamente, bem como a partir dela pode-se definir a 
cooperação em termos de comportamentos que evoluíram em razão de 
seu efeito sobre o sucesso reprodutivo de indivíduos outros que não 
aquele que realiza o comportamento (Birch, 2017, p. 34).15 Não haveria 
uma motivação independente para restringir a sociabilidade genuína 
apenas para o caso da evolução da cooperação em mútuo benefício via 
reciprocidade, e excluir a seleção de parentesco.  
Além disso, como demonstrado por Birch (2017, p. 55-58), a evolução 
da cooperação em mútuo benefício ainda segue a Regra de Hamilton como 
um princípio organizador geral, considerados casos de explicações de 
fitness direto onde c torna-se negativo, via reciprocidade, punição, entre 
outros ali discutidos. Portanto, há razões adicionais para entendermos 
que os mesmos princípios subjacentes operam tanto no caso dos insetos 
 
da causação remota por inteiro), não haverá nenhum problema para o mérito deste argumento, ao 
contrário, porque nesse caso o interlocutor estaria adotando uma posição ainda mais plural em relação 
à causação e constituição da cooperação animal (e de outros organismos vivos). Sobre a distinção entre 
função biológica de efeitos seletivos e de papel causal, veja Garson, 2016. 
15 Na definição técnica completa proposta por Birch: “Cooperação biológica: uma ação A, realizada como 
parte de uma estratégia S em uma tarefa T, é cooperativa se e somente se S tiver sido, em sua história 
recente, mantido pela seleção em parte por conta do efeito positivo de realizar A em T sobre o sucesso 
reprodutivo de outros organismos.” Ele também considera que devemos distinguir entre essa noção 
técnica de cooperação e uma noção mais informal de cooperação: “We should take care to distinguish the 
theoretical notion of cooperation, which I define in terms of recent selection history, from the more intuitive 
idea of an action that benefits other organisms. Obviously, the discovery that natural selection can explain 
the maintenance of actions that benefit other organisms, even at a cost to the actor, was a non-trivial 
breakthrough, in this case one properly credited to Hamilton (1964). But, as with adaptation, this discovery 
now provides us with a rationale for introducing a theoretical notion of cooperation in which the role of 
selection is made explicit. This theoretical notion is an explanatory category: to classify a behaviour as 
cooperative is to assign it to a class of behaviours whose maintenance under selection is explained by their 
positive effect on the reproduction of other organisms. It is also helpful to stress again here the distinction 
between a trait’s origin and its recent maintenance. It may be a definitional truth that a behaviour that is 
cooperative has been maintained by selection in recent history, but it remains, for any particular cooperative 
behaviour, a substantive explanatory hypothesis that selection explains the origin of that behaviour. It 
therefore remains a substantive explanatory hypothesis that the behaviour is an adaptation (rather than, say, 
an ‘exaptation’ in the sense of Gould and Vrba, 1982).” (Birch, 2017, p. 24)

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Valdenor Monteiro Brito Júnior  •  197 
eussociais como dos primatas humanos, mesmo que sob diferentes 
trajetórias evolutivas, de forma que em todos esses casos trata-se da 
evolução de sociabilidade genuína. Em decorrência disso, tanto a seleção 
por parentesco atua em humanos, como a evolução da cooperação em 
benefício mútuo também atua em insetos eussociais, apenas que não por 
reciprocidade, como no caso das vespas primitivamente eussociais do 
gênero Polistes, entre as quais as rainhas são regularmente agressivas em 
relação às operárias inativas, e a remoção experimental das rainhas 
diminui a atividade das operárias (Clutton-Brock; Parker, 1995, p. 14, 
citado por Birch, 2017, p. 57-58). De fato, o framework hamiltoniano, como 
incorporado na ecologia comportamental (quando o comportamento 
assim estudado é o humano, falamos em Ecologia Comportamental 
Humana, praticada por bioantropólogos; Nettle et al, 2013; Winterhalder; 
Smith, 
2000), 
é 
um 
dos 
paradigmas 
mais 
proeminentes 
internacionalmente 
para 
estudos 
de 
caçadores-coletores 
em 
antropologia (Bettinger; Garvey; Tushingham, 2015; Kelly, 2013).16 
Segundo, mesmo para os insetos eussociais, há casos em que há 
aparente cooperação entre indivíduos não-aparentados em grupos 
enormes, quando se diz respeito ao fenômeno da supercolonialidade, que 
pode alcançar escalas monumentais, como no caso da supercolônia 
japonesa de Formica yessensis estimada em 306 milhões de operárias para 
1 milhão de rainhas dispersas ao longo de 2,5km2 entre 45.000 ninhos 
interconectados (Higashi; Yamauchi, 1979; Gullan; Cranston, 2005, p. 300). 
 
16 Aqui destaco os caçadores-coletores porque o registro etnográfico a seu respeito perfaz o campo de 
teste mais fundamental para a teoria evolutiva no comportamento humano, visto serem sociedades de 
pequena escala com fertilidade natural, e, nesse sentido, fornecendo a evidência (não-
paleoantropológica) mais próxima do comportamento ancestral do Homo sapiens anteriormente ao 
advento da agricultura. Contudo, afirmo isso sem prejuízo de que não podemos simplesmente equivaler 
os modos de vida dos caçadores-coletores recentes ou atuais – já afetados pelo contato com sociedades 
agrícolas, pastoris e industriais de larga escala – com os caçadores-coletores como existiram 
previamente à invenção da agricultura ou ao contato com sociedades de maior escala, algo que é 
amplamente reconhecido na ecologia comportamental humana (Marlowe, 2005).

## Page 199

198  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
As supercolônias tem como características distintivas a polidomia (com 
múltiplos ninhos socialmente conectados, mas fisicamente separados) e 
a poliginia (com múltiplas rainhas reprodutivas), sendo que as operárias 
circulam livremente entre os ninhos. Isso é marcante na medida em que 
o coeficiente de relação genética cai para zero quando considerado o 
conjunto da obra, bem como pela relação teórica forte entre monogamia 
e eussocialidade (havendo múltiplas evidências de que a monogamia seria 
ao menos o estado ancestral da eussocialidade; Hughes et al, 2008). Vale a 
pena conferir o esquema em Helanterä (2022) sintetizando em quais 
famílias de formigas há evidências do fenômeno da supercolonialidade, 
bem como sua discussão a respeito da definição de supercolonialidade e 
unicolonialidade.  
Enquanto talvez não se trate de cooperação no sentido técnico da 
evolução da cooperação (no caso de a ocorrência da supercolonialidade 
ser subproduto ao invés de efeito seletivo), ainda se trata de cooperação 
no sentido mais amplo de que as colônias agrupadas em supercolônias 
saem favorecidas por compartilharem espaços e operárias, ao invés de se 
confrontarem ou se evitarem mutuamente, bem como pelo fato de 
envolverem seres vivos que em si mesmos já são eussociais, seu 
comportamento cooperativo eusocial sendo então realizado num 
contexto supercolonial. De um lado, Helanterä (2022; cf. também 
Helanterä et al., 2009; Helanterä, 2009) discute como a seleção de 
parentesco ainda pode ser aplicada em escalas espaciais menores no 
contexto supercolonial: a falta de fronteiras territoriais e a mistura de 
indivíduos não significa que há ausência de estrutura de parentesco, por 
exemplo, isolamento por distância devido à viscosidade da população 
pode significar que os indivíduos nos ninhos vizinhos sejam 
geneticamente mais similar uns aos outros do que indivíduos nas pontas 
em extremos opostos da supercolônia. Por outro, também pode ser útil

## Page 200

Valdenor Monteiro Brito Júnior  •  199 
recorrer à construção de nicho social para entender esse fenômeno, na 
medida em que traços sociais coevoluem e modificam o regime seletivo 
uns dos outros, de modo que a estrutura de parentesco que fornece o 
regime seletivo para os traços sociais pode também ela mesma depender 
de outros traços sociais, como decisões de dispersão e acasalamento 
(Helanterä, 2022; Ryan et al, 2016). Modelos de construção de nicho têm 
sido propostos para o entendimento de como a cultura afeta a evolução 
humana (Laland; Odling-Smee; Feldman, 2001; Laland; Matthews; 
Feldman, 2016). Sob modelos de construção de nicho, o ser vivo consegue 
modificar parcialmente suas pressões adaptativas por modificar seu 
ambiente, e, no caso de uma construção de nicho social, essa modificação 
do ambiente opera por intermédio de variáveis sociais (lato sensu). 
De forma interessante para a questão anteriormente discutida 
sobre determinações genéticas da organização social, dentro de uma 
mesma espécie, como Formica exsecta, pode-se encontrar tanto 
populações supercoloniais como populações coloniais no sentido 
padrão. De fato, em muitas espécies, populações monogâmicas e 
poligínicas podem mesmo coexistir no mesmo habitat. Então, nessas 
espécies há variação em organização social entre diferentes colônias.  
O objetor poderia então levantar a questão de algumas 
divergências recentes no ramo da biologia evolutiva teórica. Edward O. 
Wilson junto a Martin Nowak e Corina Tarnita (2010) argumentaram 
contra o framework da seleção de parentesco e da Regra de Hamilton 
como produzindo apenas um trabalho matemático abstrato sem firme 
base na observação de campo e na genômica. Na questão da evolução da 
eussocialidade, eles alegam que uma visão padrão de seleção natural (ao 
invés do modelo do fitness inclusivo) mais algumas considerações sobre 
estrutura populacional seriam suficientes para dar conta do recado. 
Além disso, eles buscaram traçar um passo a passo do processo causal

## Page 201

200  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
de como se chegaria à eussocialidade tomando por referência os insetos 
eussociais. A crítica deles ao modelo do fitness inclusivo levou a uma 
resposta por 137 cientistas teóricos e experimentais do campo da 
biologia evolutiva (Abbot et al, 2011), na qual estes reafirmaram o valor 
preditivo da teoria do fitness inclusivo entre vários campos de pesquisa 
biológica, observacional e experimental.  
Enquanto eu endosse o modelo do fitness inclusivo, vale a pena 
explorar o que aconteceria se adotássemos o modelo proposto por 
Wilson, Nowak e Tarnita. O objetor teria, então, um terreno melhor para 
inserir sua crítica ao que estou propondo aqui? Não vejo sob melhor 
termo. Sob esta visão alternativa, o papel da relação genética se torna 
menos crucial para uma distinção humano versus insetos eussociais, 
uma vez que a relação genética passa a ser vista como consequência ao 
invés de causa da eussocialidade. Também afirmam em seu artigo que 
os diferentes papéis dos membros reprodutivos e dos membros não-
reprodutivos das colônias eussociais não seriam geneticamente 
determinados/fixados, sendo produtos dos mesmos genes ou de 
conjuntos de genes com flexibilidade fenotípica (fenótipos alternativos 
do mesmo genótipo, no que diz respeito à casta e divisão do trabalho, 
conquanto possam diferir livremente em outros genes), o que só 
reforçaria meu ponto anteriormente discutido contra visões simplistas 
da determinação genética subjacente ao comportamento. Por fim, eles 
também abordam a ideia de tratar a colônia eusocial como um 
superorganismo, ideia também explorada por biólogos que aceitam o 
modelo do fitness inclusivo (como Helanterä, 2016). Essa última questão 
precisa de um tratamento um pouco mais detido. 
 Sob a visão de Wilson, Nowak e Tarnita (2010), e como também 
explicado por Wilson em subsequente livro de divulgação científica 
(2012), em certas espécies eussociais mais extremas (presumivelmente:

## Page 202

Valdenor Monteiro Brito Júnior  •  201 
eussocialidade obrigatória, altamente especializada, especialmente 
quando as operárias perdem os ovários17 18), a colônia pode ser entendida 
como um Superorganismo: nesse caso, a seleção natural opera sobre um 
indivíduo genético correspondente à própria colônia, qual seja, o 
genoma da rainha, sendo as operárias uma extensão fenotípica 
extrassomática do genoma da rainha. No linguajar metafórico que 
Wilson adota no livro, seriam como extensões robóticas da rainha. 
Então, tal como as células de um organismo multicelular se diferenciam 
em reprodutivas e não-reprodutivas, ativando ou desativando 
determinadas características para que possam dar forma a tecidos 
diferentes, e assim por diante, a partir de um mesmo programa 
genético, as operárias aqui poderiam ser vistas de maneira similar, 
como satisfazendo um papel dirigido ao todo. Com isso, as operárias não 
cooperariam entre si para maximizar seu fitness inclusivo, mas servem 
como partes operando na maximização do fitness do superorganismo 
colonial, cujo genótipo corresponde ao da rainha, portanto, 
maximização de fitness individual. 
Aqui o objetor poderia alegar que no caso da eussocialidade plena 
não se trata mais de cooperação e, logo, estamos fora do âmbito da 
ontologia social. Não se negaria ontologia social a todos os insetos 
eussociais, mas àqueles que alcançaram o estágio final que leva à 
 
17 Os autores aduzidos deixam um tanto ambíguo sob qual nível de eussocialidade se chega ao 
superorganismo, apenas ficando claro que não enquadrariam espécies primitivamente eussociais nisso. 
Por isso sugeri este cenário “extremo” ou “pleno” como aquele em que mais faria sentido ver as operárias 
como extensões extrassomáticas da rainha. Talvez os autores adotem um critério mais relaxado, em 
razão de não trabalharem no framework do fitness inclusivo (e assim evitam abordar o conflito 
reprodutivo entre operárias e rainhas), contudo, ao menos para fins do propósito do presente artigo, 
entendo que essa restrição seria mais plausível.  
18 Na maioria das espécies de formigas, as operárias retém os ovários, mas sofrem restrições reprodutivas, 
relativos a comportamento ou desenvolvimento. O caso mais extremo de restrição reprodutiva via 
desenvolvimento envolve a perda completa dos órgãos reprodutivos pelas operárias (Khila; Abouheif, 
2010).

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202  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
transição para o superorganismo. O problema que vejo com esta objeção 
é que, como a colônia ainda seria composta por seres vivos 
individualmente autônomos capazes de ação de forma similar ao das 
colônias que não sejam plenamente eussociais (isto é, usando os mesmos 
mecanismos ou muito próximos), então mesmo sob uma visão de 
superorganismo nestes termos ainda entenderíamos a atividade de cada 
indivíduo da colônia como suficientemente distinta (por exemplo, tendo 
uma guidance autônoma ao nível de cada organismo, como na abordagem 
de ação primitiva de Jones, 2016) e, assim, apta à atribuição de ontologia 
social. A metáfora com robôs feita por Wilson (2012) é enganadora, porque 
– mesmo se não fora sua intenção – nos leva a pensar em entidades sem 
propósito biológico autônomo, que simulam comportamentos porque 
foram programados para fazê-lo. As questões levantadas pela robótica 
como construção intencional de artefatos capazes de comportamento ou 
de simulação de comportamento são de outra ordem. Conquanto eu não 
esteja formulando aqui um argumento mais decisivo – a questão do 
superorganismo e da ontologia social mereceria tratamento em artigo 
separado -, me parece que prima facie a objeção não é contundente.  
Considerações finais 
Tendo discutido como os princípios pertinentes de biologia teórica, 
conjugados à evidência empírica pertinente, favorecem que tratemos 
em par os casos de insetos eussociais e primatas humanos, ao objetor 
restaria uma última tentativa: afirmar que apenas seres vivos que 
tenham estados mentais intencionais de cognição superior como os 
nossos poderiam ter ontologia social19. Mesmo que o objetor não 
 
19 Note que a tese da dependência da mente em ontologia social diz respeito a estados mentais 
intencionais, não à questão da experiência fenomênica/qualitativa (e nem à noções sensoriomotoras). 
Consulte o 2º capítulo da minha tese de doutorado para uma discussão desse ponto. Nesse sentido,

## Page 204

Valdenor Monteiro Brito Júnior  •  203 
exigisse intencionalidade coletiva como Searle o faria, ainda exigiria a 
aptidão para ter estados mentais intencionais de maneira geral. 
Voltaríamos à questão da tese da dependência da mente em ontologia 
social, que discuti à exaustão em minha tese de doutorado (Brito Jr., 
2021). A resposta definitiva dependeria de avanços na psicologia animal 
(para uma revisão panorâmica das questões teóricas envolvidas nessa 
empreitada empírica, veja Andrews, 2014).  
Contudo, considero insatisfatória tal atitude teórica, porque: 1) 
considero implausível que uma noção de atitude proposicional/estado 
mental intencional feita sob medida para o caso dos primatas humanos 
possa se aplicar aos insetos eussociais sem trivializar o que se 
entenderia por essa intencionalidade mental e ainda assim estivesse 
apta a satisfazer a motivação subjacente à tese de que tipos sociais 
dependeriam de estados mentais intencionais (a meu ver, a motivação 
residiria na capacidade de ao menos potencialmente gerar 
representações dos tipos sociais, mesmo que não tenhamos 
representações cognitivas de todos os tipos sociais prontamente 
disponíveis20); 2) entendo que é mais correto afirmarmos que já sabemos 
que certos animais são sociais, no caso em apreço, que insetos eussociais 
são animais sociais, não sendo necessário esperar avanços a respeito da 
questão da intencionalidade mental para conseguirmos afirmar isso.  
Falando em termos gerais, para que haja ontologia social o que se 
faz necessário é que haja certo tipo de comportamento, sujeito aos 
princípios relativos à evolução da cooperação, mesmo na ausência de 
 
mesmo a questão de se colônias de formigas ou outros insetos eussociais podem ser ditas ou não como 
possuindo experiência fenômenica coletiva não interfere a princípio na questão da tese da dependência 
da mente como discutida em ontologia social. 
20 Consulte aqui a discussão feita por Thomasson (2003) e Khalidi (2015), ou o 1º e 2º capítulo de minha 
tese de doutorado, nos quais busquei descrever com maior precisão o que seria a tese da dependência 
da mente em ontologia social.

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204  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
uma intencionalidade mental de cognição superior como a nossa. Sob 
esse critério, os insetos eussociais claramente passam. E me parece que, 
depois de tudo que revisei anteriormente a respeito do paralelo entre o 
caso dos primatas humanos e dos insetos eussociais, insistir que insetos 
eussociais só poderiam ter ontologia social se tiverem intencionalidade 
mental em sentido comparável ao nosso seria fechar os olhos para a 
forma como o fenômeno social é explicável por meio de princípios 
relativos a todos os seres vivos do planeta, não apenas àqueles aptos à 
cognição superior. Assim, nossa arregimentação metafísica da realidade 
como um todo faria bem em reconhecer a ontologia social de insetos 
eussociais, com entidades sociais conforme cada espécie e colônia.  
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## Page 211

*[Page 211 appears to be blank or image-only]*

## Page 212

7 
COMO SER REALISTA SOBRE MENTE DE GRUPOS? 
Luiz Paulo Da Cas Cichoski 
Entidades sociais parecem compor a realidade. É difícil negar que 
fazemos parte de Estados Nacionais, que pagamos impostos (com 
dinheiro), que as pessoas se casam, jogam xadrez e que times de futebol 
fazem gols e vencem partidas. Algumas porções dessa realidade social 
são unidades coletivas, ou seja, entidades constituídas por um conjunto 
de indivíduos. Instituições, organizações e grupos parecem figurar 
como agentes da realidade social. Empresas contratam funcionários, 
Universidades emitem diplomas, Estados Nacionais entram em guerras, 
Supremas Cortes julgam a constitucionalidade de leis. Será que essas 
caracterizações sobre a realidade social são precisas? Será que nosso 
discurso sobre entidades sociais são literais? Ou esse discurso é só um 
“modo de falar”, isto é, essas sentenças são metafóricas? 
No presente texto, vou discutir um pressuposto central para a 
legitimidade de sentenças onde entidades sociais figuram como 
sujeitos. Muitas sentenças só podem ser verdadeiras se os seus sujeitos 
possuem estados mentais: “Maria lançou a bola intencionalmente” 
apenas se tinha a intenção de fazer isso; “João sabe que o Brasil está no 
Hemisfério Sul” apenas se acredita nisso. Apesar de menos comum do 
que atribuições de ações como as do parágrafo anterior, também 
fazemos atribuições diretas de estados mentais a entidades sociais: “O 
Google deseja Feliz Natal com Doodle comemorativo”; “A NASA pretende 
enviar o primeiro ser humano a Marte na década de 2030”; “O partido 
teme o crescimento da oposição após denúncia de caso de corrupção”.

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212  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
Apesar do uso cotidiano de sentenças de atribuição com entidades 
sociais figurando como seus sujeitos, quando paramos para refletir um 
pouco sobre esse tipo de sentença, nossa intuição é de que algo não está 
certo. Não parece ser o caso que instituições, organizações, grupos de 
amigos e famílias possuem, literalmente, uma mente capaz de sustentar 
estados mentais. O objetivo desse texto é revisar essa posição intuitiva. 
Nas páginas seguintes vou apresentar teorias contemporâneas sobre a 
natureza da mente que viabilizam a tese da mente de grupos seguindo 
algumas das propostas mais proeminentes de defesa dessa tese que 
encontramos na literatura.  
1. Por que ser realista sobre mente de grupos? 
Antes de nos debruçarmos sobre as questões mais técnicas, sobre 
metafísica da mente, creio que seja importante motivar a discussão 
sobre a tese da mente de grupos. Particularmente, tomo como relevante 
para a defesa de uma posição realista sobre mente de grupos o ponto 
geral apresentado na introdução acerca do uso de sentenças de 
atribuição de estados mentais ou sentenças de atribuição de outras 
propriedades que pressupõem estados mentais para grupos em virtude 
da importância que esse tipo de sentença de atribuição tem para as 
teorias filosóficas. Mais diretamente, realismo sobre mentes de grupos 
é uma condição necessária para se fazer Filosofia Social significativa.  
Grande parte do empreendimento filosófico (em especial nas áreas 
da Epistemologia e da Ética) está centrado na análise de sentenças 
como1: 
 
 
1 Onde “S” é uma variável para sujeitos ou agentes; “p” é uma variável para proposições; “Φ” e “Ψ” são 
variáveis para ações. Ex: “João sabe que o Brasil está no Hemisfério Sul”; “Maria lançou a bola 
intencionalmente”; “Ricardo lançou a bola com a intenção de fazer a cesta”; etc.

## Page 214

Luiz Paulo Da Cas Cichoski  •  213 
“S sabe que p”;  
“S está justificado a crer que p”; 
“S Φ intencionalmente”;  
“S Ψ com a intenção de Φ”. 
“S deve Φ”;  
“S Φ virtuosamente.”;  
“S é culpado por uma ação Φ apenas se S for culpável pela 
ignorância de que Φ é moralmente errado.” 
 
Um subconjunto particular de sentenças de atribuição que 
interessa à Filosofia diz respeito à atribuição de atitudes proposicionais 
(crença, desejo, intenção, dúvida, medo, confiança, surpresa). É óbvio 
que esse subconjunto de atribuições pressupõem uma mente, pois 
atitudes proposicionais são um tipo de propriedade mental.2 
Entretanto, é importante notar que a investigação de atitudes 
proposicionais não é isolada, essa investigação é relevante para a 
explicação, predição e racionalização de nós mesmos e de outros 
(Lindeman, 2024). Desta forma, outro subconjunto de atribuições que se 
mostram 
de 
interesse 
para 
a 
Filosofia 
(ação, 
moralidade, 
responsabilidade, justificação, conhecimento, racionalidade) pressupõe 
atitudes proposicionais e, consequentemente, pressupõe mente.  
 
2 Atitudes proposicionais são os exemplos paradigmáticos de atitudes intencionais. Intencionalidade é 
um termo técnico em Filosofia da Mente que busca expressar a capacidade que estados mentais têm 
de representarem objetos, propriedades ou estados de coisas (em inglês se caracteriza essa capacidade 
como “aboutness”, aproximadamente “ser sobre algo” [Jacob, 2023]). A posição padrão em Filosofia da 
Mente é que a maioria de nossos estados mentais têm essa capacidade: crenças e desejos são sobre; 
imaginações são sobre alguma coisa, podendo ela não existir, ser uma entidade ficcional.  
Atitudes proposicionais formam um conjunto de propriedades mentais que possuem proposições como 
conteúdo. Para que a mente se relacione com algo e, portanto, tenha determinado conteúdo, é preciso 
que ela disponha da capacidade intencional. Assim fica bastante claro como atitudes proposicionais e 
intencionalidade estão relacionadas.

## Page 215

214  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
A tradição filosófica é marcada por um viés antropocêntrico. Os 
exemplos paradigmáticos de entidades que satisfazem o lugar de sujeito 
(S) das sentenças de atribuição que interessam à Filosofia são seres 
humanos, indivíduos da nossa espécie. Podemos derivar uma tese 
bastante restritiva a partir desse viés antropocêntrico:  
Individualismo de Sujeitos3: 
Apenas indivíduos da espécie humana podem ser sujeitos legítimos 
de sentenças de atribuição de estados mentais.  
Um certo antropocentrismo enquanto ferramenta metodológica 
para a investigação me parece bastante razoável. Abordar questões 
sobre mente, consciência e estados mentais a partir da introspecção e, 
portanto, da experiência individual que cada um de nós (seres humanos) 
têm, me parece ser o primeiro passo inevitável para a investigação de 
entidades mentais. Apesar dessa concessão, uma tese como o 
Individualismo de Sujeitos não parece autorizada. O privilégio de acesso 
que temos às nossas próprias experiências conscientes não implica na 
negação da existência de outras mentes. Para começar, o Individualismo 
de Sujeitos já não se acomoda nos limites epistêmicos da introspecção. 
Ele concede legitimidade à atribuição de estados mentais a indivíduos 
cujas mentes não temos acesso privilegiado por introspecção. Eu não sei 
como é ser um astronauta, como é ser uma mãe ou como é ser meu 
colega de Departamento. A minha experiência individual não captura 
evidências diretas sobre aspectos mentais dos seres humanos que estão 
à minha volta e menos ainda de seres humanos com os quais não tenho 
qualquer contato.  
 
3 Tradicionalmente, a literatura se refere a Quinton (1975) como um defensor dessa tese em discussões 
sobre o contexto social. Veja Ruivo (2017) para uma discussão crítica sobre essa interpretação.  
Cichoski e Ruivo (2017) apresentam a tese de modo negativo: “Grupos não são sujeitos legítimos de 
sentença de atribuição de estados cognitivos.” Os autores identificam em Tollefsen (2002) a discussão 
de uma tese semelhante, mas mais localizada, focada exclusivamente em propriedades epistêmicas.

## Page 216

Luiz Paulo Da Cas Cichoski  •  215 
A partir dessa constatação, podemos pensar também que, mesmo 
que não consigamos responder adequadamente à questão de como é ser 
um morcego, uma vaca ou um peixe (i.e. mesmo que não sejamos 
capazes de caracterizar as experiências fenomenológicas da consciência 
de uma outra espécie animal [Nagel, 2005]), o Individualismo de Sujeitos 
não deve ser uma razão para descartarmos que indivíduos dessas outras 
espécies possam figurar como sujeitos legítimos de atribuições de 
estados mentais. A minha incapacidade de caracterizar a sua 
experiência fenomenológica ao ler este texto não deveria invalidar a 
tese do Individualismo de Sujeitos e minha consequente legítima 
atribuição de crença (ou experiência visual) a você. Se este é o caso, isso 
mostra que a tese do Individualismo de Sujeitos é inadequadamente 
enviesada: liberal demais no que diz respeito a evidências de que seres 
humanos sejam sujeitos legítimos de atribuição; enquanto é restritiva 
demais para a extensão dessa legitimidade a outros tipos de entidades.  
Agora, como definir o limite do conjunto dos sujeitos legítimos 
para atribuição de estados mentais? Quais são os critérios que uma 
entidade precisa satisfazer para integrar esse conjunto? Em grande 
medida, o presente texto se destina a apresentar algumas teorias sobre 
a mente que apresentam critérios para a resposta dessas questões que 
são compatíveis com a tese de que grupos tenham mentes. As teorias 
que tratarei a seguir são: funcionalismo (seção 3), mente estendida 
(seção 4), cognição (socialmente) distribuída (seção 5).4 
 
4 Originalmente, o texto também apresentava uma proposta pampsiquista baseada em Roelofs (2019) e 
Fonseca (2022, 2023). Infelizmente a complexidade da teoria e a limitação da extensão do texto 
impediram que essa proposta, com características bastante peculiares, bastante distintas das demais, 
pudesse ser discutida a contento neste momento. No entanto, ficam as indicações de obras sobre o 
pampsiquismo que abordam de que forma essa teoria sobre a natureza da mente também pode ser 
compatível com a tese de que grupos tenham mentes.

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216  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
Entretanto, antes de avançarmos para a apresentação dessas teorias 
e como elas podem ser empregadas na defesa da tese da mente de grupos, 
mais precisa ser dito sobre a necessidade de negar o Individualismo de 
Sujeitos e, particularmente, sobre a concessão de que o sujeito (S) de 
sentenças de atribuição como aquelas apresentadas anteriormente 
possam ser grupos. Gostaria de explorar mais detalhadamente a razão 
apresentada anteriormente: que não é possível desenvolver uma Filosofia 
Social significativa sem esses recursos. A ideia aqui é que a “coletivização” 
de teorias filosóficas (epistêmicas, éticas, estéticas, etc.) depende da 
adoção de uma tese realista sobre mente de grupos. De modo muito direto, 
se grupos não podem ser sujeitos de sentenças como “S está justificado a 
crer que p”, “S deve Φ”, etc., não é possível que esse tipo de entidade seja 
contemplado em teorias epistêmicas, éticas, estéticas, etc., padrão.  
Talvez isso não seja um problema. Talvez grupos não sejam, 
realmente, sujeitos legítimos das atribuições necessárias para se encaixar 
nas teorias filosóficas padrão. Duas opções alternativas à necessidade do 
realismo sobre mente de grupos para a Filosofia Social são possíveis: (i) a 
Filosofia Social deve ser construída sem adesão às teorias filosóficas 
padrão, isto é, propriedades éticas, epistêmicas, estéticas, etc. de grupos 
são sui generis, não são do mesmo tipo que propriedades individuais; ou (ii) 
a Filosofia Social é um empreendimento redutivista, isto é, devemos 
buscar uma explicação detalhada da inter-relação entre indivíduos que 
pertençam a grupos para identificarmos que as propriedades relevantes 
(mentais, morais, epistêmicas) são sempre atribuíveis aos indivíduos, 
assim, a Filosofia Social não é uma investigação sobre grupos, mas sobre 
indivíduos e suas relações.  
Particularmente, não creio que esses sejam os caminhos mais 
adequados para o desenvolvimento da Filosofia Social. Em primeiro lugar, 
se a motivação para essas linhas alternativas de investigação é a

## Page 218

Luiz Paulo Da Cas Cichoski  •  217 
contraintuitividade da tese da mente de grupos, o objetivo deste texto é 
mostrar que essa tese não é tão inadmissível, estando de acordo com 
teorias da Filosofia da Mente atuais. Em segundo lugar, parece muito mais 
custoso (i) partir do zero, desenvolver novas teorias sem considerar as 
bases das teorias filosóficas padrão ou (ii) ignorar atribuições do nível do 
grupo em favor de uma investigação pormenorizada de relações 
individuais.  
Justamente adotando uma posição contrária à estratégia 
reducionista, podemos encontrar um argumento a favor da tese da 
mente de grupos a partir da prática científica no campo das Ciências 
Humanas e Sociais. Áreas como Psicologia Social, Economia, 
Administração, Direito, Sociologia, dentre outras, fazem uso de 
sentenças de atribuição de estados mentais e ações a grupos 
rotineiramente. Uma postura naturalista orientada pelo compromisso 
ontológico pode sustentar um argumento a favor da tese da mente de 
grupos da seguinte forma (adaptado de List, 2016, p. 4):  
 
(1) Nossas melhores teorias científico-sociais de um certo fenômeno 
social - p.e. nossas melhores teorias sobre o comportamento das 
firmas no mercado - atribuem agência baseada em crenças e 
desejos para os coletivos envolvidos, geralmente ao representá-
los como agentes no sentido das Teorias da Decisão e dos Jogos.  
(2) Nós devemos, ao menos falivelmente, adotar os compromissos 
ontológicos de nossas melhores teorias científicas em qualquer 
domínio. 
(C) Nós devemos, ao menos falivelmente, adotar o compromisso 
ontológico das nossas melhores teorias científico-sociais com 
relação a coletivos que possuem agência baseada em crenças e 
desejos.

## Page 219

218  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
 
Percebemos assim que a motivação geral para a defesa da tese da 
mente de grupos está ancorada no compromisso ontológico. As teorias 
científicas das Ciências Humanas e Sociais e as teorias filosóficas da 
Filosofia Social fazem uso de atribuição de estados mentais a grupos.5 
Como o argumento acima indica, nossa posição inicial (falível, 
derrotável) deveria ser pela interpretação literal dessas sentenças de 
atribuição. Uma posição inicial baseada em uma intuição antirrealista 
parece mal motivada.  
2. A intuição antirrealista sobre mente de grupos 
Talvez eu tenha me apressado. Talvez a posição antirrealista seja 
motivada. Nesta seção apresentarei, brevemente, pressupostos 
metafísicos sobre a natureza da mente que seriam contrários à tese da 
mente de grupos. Com certeza as nossas intuições não dão suporte à tese 
de que grupos tenham ou possam ter mentes. Concedo que a tese de que 
exista, literalmente, uma mente de grupos seja contraintuitiva. Há uma 
intuição muito forte de que nossos familiares, amigos, colegas e demais 
seres humanos possuem estados mentais; uma intuição favorável à tese 
de que animais não humanos (pelo menos aqueles com um sistema 
nervoso semelhante ao dos seres humanos) também possuem estados 
mentais. Entretanto, há uma intuição forte contra a tese de que 
sistemas de latinhas de cerveja arranjadas com fios e grupos 
organizados de pessoas possuem estados mentais (Schwitzgebel, 2015). 
Vejamos alguns pressupostos metafísicos sobre a mente que podem 
 
5 Margaret Gilbert (1989; 2002) parte de atribuições cotidianas de estados mentais a grupos para motivar 
sua posição realista. Concordo com Gilbert que esse é um ótimo primeiro passo evidencial e de 
motivação para a investigação do tema. Interpreto que essas atribuições possuem uma função 
metodológica no trabalho da autora. Entretanto, essa função argumentativa que atribuições cotidianas 
poderiam ter me parece um pouco mais delicada, pois um argumento via compromisso ontológico da 
linguagem natural é controverso (Bricker, 2014).

## Page 220

Luiz Paulo Da Cas Cichoski  •  219 
servir de base para essas intuições sobre quais entidades possuem 
estados mentais e quais não possuem estados mentais.  
À primeira vista, o fisicalismo, a tese de que toda a realidade é 
física6, poderia sustentar uma objeção direta à tese da mente de grupo. 
Um fisicalismo mais radical poderia ser uma ameaça a qualquer teoria 
sobre mentes: se mentes (individuais ou coletivas) são um tipo de 
entidade não física, então elas não existem (Ramsey, 2019). Uma tese 
fisicalista um pouco mais fraca poderia defender que entidades mentais 
existem, mas estão relacionadas com entidades físicas. Diferentes 
propostas de dependência ontológica poderiam ser apresentadas para a 
explicação dessa relação. Uma dependência mais rígida poderia ser 
sustentada pela tese da identidade entre certos tipos de entidades 
mentais e físicas (por exemplo, a dor é o estímulo das fibras nervosas 
C); teses de dependência menos reducionistas poderiam ser defendidas 
por meio de relações de superveniência ou realização (propriedades 
mentais são supervenientes a propriedades físicas). 
Essas versões mais fracas de fisicalismo parecem embasar as 
pesquisas das ciências cognitivas. Essas teses de dependência de 
entidades mentais sobre entidades físicas motiva a investigação de 
correlações entre (relatos dos sujeitos experimentais sobre seus) 
estados mentais e (o rastreamento de) atividades em partes do cérebro 
ou do sistema nervoso. E aqui chegamos a um pressuposto metafísico 
sobre a natureza da mente, bastante aceito hoje em dia, que invalidaria 
qualquer tese sobre mente de grupos: a mente depende do cérebro. 
Podemos estruturar essa posição em um argumento da seguinte forma: 
 
 
6 Ou depende de entidades físicas. Para uma discussão mais precisa das variantes do fisicalismo e sua 
relação com aspectos metafísicos da Filosofia da Mente, veja Gouvea (2020).

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220  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
Argumento FISICALISTA contra mente de grupos: 
(1) A mente depende do cérebro. 
(2) Grupos não têm cérebros. 
(C) Grupos não têm mentes.  
 
Além do argumento fisicalista, outro pressuposto metafísico sobre 
a natureza da mente que invalidaria qualquer tese sobre mente de 
grupos diz respeito à fenomenologia. Mais especificamente, a intuição 
de que experiências fenomênicas são um traço fundamental e, portanto, 
necessário de uma mente. “Aspecto qualitativo”, “perspectiva de 
primeira pessoa”, “conteúdo fenomênico” ou o “como é ser (um 
morcego)” são expressões que tentam elucidar essa característica 
peculiar de experienciar a posse ou ocorrência de um estado mental. 
Esse é um aspecto tão relevante para a nossa compreensão da mente 
que, intuitivamente, parece se apresentar como uma condição 
necessária para sua existência. De modo bastante similar à abordagem 
fisicalista, agora teríamos a afirmação de que a mente depende de 
consciência e isso, aparentemente, seria um obstáculo para qualquer 
tese realista sobre mente de grupos. Podemos estruturar essa posição 
em um argumento da seguinte forma:  
 
Argumento da CONSCIÊNCIA contra mente de grupos:7 
(1) A mente depende da consciência. 
(2) Grupos não têm consciência. 
(C) Grupos não têm mentes.  
 
 
7 Szanto (2014, p. 100, tradução nossa) apresenta um argumento muito similar: 
(1) Ter uma mente é ter estados mentais (auto) conscientes com conteúdo fenomênico.  
(2) Grupo não têm estados mentais (auto) conscientes com conteúdo fenomênico.  
(3) Portanto, grupos não têm mentes.

## Page 222

Luiz Paulo Da Cas Cichoski  •  221 
O objetivo desse texto não será de desarmar esses argumentos. 
Minha abordagem sobre respostas a esses desafios será mais indireta. 
Nas próximas seções apresentarei propostas teóricas sobre a natureza 
da mente que tornam plausível a tese da mente de grupos. Ao invés de 
empregar uma abordagem negativa, buscando a refutação das intuições 
apresentadas nessa seção, vou apresentar teorias que parecem ser 
compatíveis com a existência de mentes de grupo.  
Antes de avançar, no entanto, enfatizo que dentre as premissas dos 
argumentos apresentados nessa seção certamente “Grupos não têm 
cérebros” é inquestionável. As demais (“A mente depende do cérebro”; 
“A mente depende da consciência”; “Grupos não têm consciência”) não 
são consensuais na literatura. Ainda que “Grupos não têm consciência” 
tenha um histórico de endosso (Szanto, 2014; Tollefsen, 2015; List, 2016), 
existem propostas que buscam questioná-la (Schwitzgebel, 2015; 
Kramer, 2021). Além disso, se “Grupos não têm cérebros” é uma tese 
consensual, todas as posições que serão apresentadas a seguir deverão 
negar a tese de que “A mente depende do cérebro” para viabilizar a tese 
da mente de grupos. 
3. Funcionalismo 
Estratégias funcionalistas foram largamente empregadas para 
tratar de questões relativas à responsabilidade coletiva desde a década 
de 1960 (May e Hoffman, 1992; Smiley, 2022). Particularmente, a 
proposta de Peter French (1979; 1984; 1995), bastante influente nessa 
temática específica, se concentra na tese de que corporações e outras 
organizações formais possuem estruturas de tomada de decisão que as 
capacitam a serem tomadas como pessoas morais, isto é, como 
entidades capazes de agir intencionalmente e, portanto, serem

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222  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
responsabilizadas moralmente. Essa tese foi significativamente 
aperfeiçoada por List e Pettit (2011).  
Antes de especificar os detalhes dessas propostas que tratam 
diretamente da questão da agência no contexto social, será necessário 
esclarecer um pouco mais a tese funcionalista sobre a mente adotada 
por suas versões mais sofisticadas. A tese funcionalista sobre a mente 
visa renegociar uma de nossas intuições metafísicas sobre a mente. 
Como o nome da abordagem já explicita, a tese funcionalista defende 
que mentes são entidades funcionais. Isso quer dizer que a natureza da 
mente (o que caracteriza o que é ser uma mente, a propriedade 
fundamental de algo que é uma mente) é relativa ao desempenho de uma 
função e não relativa a sua constituição material (Polger, 2024). 
A apresentação de outras entidades funcionais pode elucidar esse 
pressuposto metafísico. Em geral, artefatos são entidades funcionais. 
Cadeiras e ratoeiras são exemplos desse tipo de artefato. Um objeto só é 
uma cadeira se satisfaz o critério funcional de poder sustentar o corpo 
de um ser humano mediano sentado. Um objeto só é uma ratoeira se 
satisfaz o critério funcional de capturar ratos. O ponto importante 
desses exemplos é notar que cadeiras e ratoeiras podem diferir no que 
diz respeito a sua constituição material, mas são cadeiras e ratoeiras 
por serem objetos que satisfazem os critérios funcionais apresentados. 
Cadeiras podem ser compostas de madeira, plástico, pedra, concreto, 
etc. Ratoeiras podem ser físicas ou químicas, podem ser gaiolas que 
aprisionam ratos, compostos químicos (adesivos) que prendem ratos, 
mecanismo com guilhotina; até mesmo mecanismos com ganchos e 
armas de fogo já foram propostos para capturar e eliminar esses 
animais. Esse é o ponto relevante que ilustra a “renegociação 
metafísica” proposta pela tese funcionalista da mente. Se a mente é uma 
entidade funcional, assim como cadeiras e ratoeiras, não é em virtude

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Luiz Paulo Da Cas Cichoski  •  223 
de sua composição material (orgânica, neuronal, silício, éter, 
eletricidade, magnetismo), mas sim em virtude das funções que 
desempenha que ela é aquilo que é. 
Mas quais funções seriam características da mente? As abordagens 
coletivas citadas anteriormente vão propor uma espécie de 
behaviorismo funcionalista. As características funcionais relevantes 
para a identificação de algo operando em virtude de possuir uma mente 
seriam evidenciadas por determinado tipo de comportamento.8 Desta 
forma, a função característica de algo que possui uma mente terá 
entradas (inputs) e saídas (outputs) que descrevem o comportamento 
próprio de um agente. Cabe enfatizar que não é qualquer tipo de 
comportamento ou qualquer tipo de perfil funcional (conjunto de 
entradas e saídas típicas) que caracterizaria um agente. O termo 
“agente” aqui é entendido em um sentido um pouco mais estrito (mas é 
a concepção tradicional em Filosofia da Ação [veja Schlosser, 2019]), pois 
não é qualquer entidade que participa de uma relação causal, mas sim 
 
8 Strohmaier (2020) argumenta que List & Pettit (2011) seriam mais apropriadamente considerados 
interpretativistas do que funcionalistas. Como o autor destaca, a diferença substancial entre essas duas 
perspectivas se dá na especificação da função (conjunto de entradas e saídas) estabelecida pela teoria. 
Interpretativistas são mais behavioristas, destacam comportamentos externos (pegar um guarda-chuva, 
condenar o réu, organizar os livros da biblioteca) como as saídas típicas da função característica de um 
sistema ou criatura que possui uma mente. Por outro lado, funcionalistas destacam papéis funcionais 
de mecanismos internos (os estados mentais específicos: crenças, desejos, intenções) do sistema ou 
criatura (a intenção de pegar o guarda-chuva produz determinados movimentos corpóreos do agente, 
a decisão de que o réu é culpado resulta na condenação, o plano para organização da biblioteca orienta 
essa atividade).  
Uma observação similar pode ser encontrada na crítica de Dahan (2017) a Schwitzgebel (2015). A 
distinção é a mesma. Dahan afirma que Schwitzgebel não apresenta propriamente um funcionalismo 
em sua argumentação, pois as funções ou papéis causais identificados por ele são propriedades do 
sistema ou criatura (ser orientado por objetivos, se autoproteger e autopreservar de modo reflexivo, 
responder inteligentemente a oportunidades e ameaças, ser capaz de se comunicar com outras 
entidades semelhantes). A rigor, para um funcionalista a característica que torna algo um estado mental 
deveria dizer respeito ao papel causal que esse algo (uma parte do sistema) tem no sistema. Assim, uma 
análise funcionalista deveria destacar os itens funcionais das subunidades de um sistema (estados 
mentais específicos como crença, desejo, dor, etc.) ao invés do comportamento externo desse sistema 
(a execução de determinada ação).

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224  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
aquela entidade que é capaz de produzir eventos em virtude de uma 
estrutura funcional específica, caracterizada pela presença de estados 
mentais que tornam essas ações em ações intencionais.9  
French (1979; 1995) busca argumentar que organizações 
estruturadas (paradigmaticamente empresas e corporações) possuem 
três características que evidenciam sua capacidade de executar ações 
intencionais: (1) elas agem intencionalmente, no sentido de que suas 
ações são guiadas por um propósito; (2) elas são racionais, pois 
estabelecem seus propósitos e parecem ser racionalmente responsivas 
a circunstâncias relacionadas a esses propósitos; (3) elas são capazes de 
responder a críticas, elas ajustam seu comportamento ou oferecem 
razões em resposta a argumentos. Esse conjunto de comportamentos é 
típico de um agente intencional (pessoa moral), cumprindo assim a 
satisfação de critérios funcionais para a atribuição de estados mentais 
a esse tipo de entidade.10  
 
9 É essa característica funcional envolvida nas ações intencionais, a capacidade de agência, que é tomada 
como sendo relevante para a atribuição de responsabilidade moral (atribuições de culpa ou elogio): “O 
julgamento de que uma pessoa é moralmente responsável por seus comportamentos envolve - ao 
menos em uma primeira aproximação - a atribuição de certos poderes e capacidades para aquela pessoa 
e a constatação de que seus comportamentos são causados (da maneira correta) a partir do fato de que 
a pessoa possui, e exerceu, esses poderes e capacidades. Seja qual for a teoria correta sobre os poderes 
e capacidades em questão, sua posse qualifica um agente como sendo responsável moralmente em um 
sentido geral: isto é, como alguém que pode ser responsável moralmente por determinados exercícios 
de agência. Seres humanos adultos normais podem possuir os poderes e capacidades em questão e 
animais não humanos, crianças muito pequenas e aqueles que sofrem de deficiências graves de 
desenvolvimento ou demência (para dar alguns exemplos) são geralmente considerados como não os 
possuindo” (Talbert, 2024, tradução nossa).  
10 É importante salientar que French (1995) faz ressalvas sobre a atribuição de estados mentais a 
organizações estruturadas; ele não é tão realista quanto nossa descrição faz parecer. Sua proposta busca 
defender a possibilidade de que um tipo de grupo (organizações estruturadas) pode ser um agente 
intencional (em virtude de satisfazer os critérios funcionais discutidos acima) e, portanto, pode ser uma 
pessoa moral, ou seja, está sujeito a atribuição de responsabilidade. No entanto, não parece muito 
coerente manter uma restrição relativa a estados mentais quando se concede que uma determinada 
entidade é um agente intencional (Tollefsen, 2015). 
Essa seria uma posição bastante heterodoxa em Filosofia da Ação visto que estados mentais são 
tomados como necessários para a execução de uma ação intencional: “[A teoria padrão] diz, muito 
grosseiramente, que algo é uma ação intencional e foi realizado por razões, apenas caso isso seja 
causado pelos estados e eventos mentais corretos e da maneira correta.” (Schlosser, 2019, tradução

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Luiz Paulo Da Cas Cichoski  •  225 
Também explorando critérios para a identificação da capacidade de 
agência, List e Pettit (2011) destacam características básicas que uma 
entidade deve instanciar para ser considerada um agente: (1) ela deve ter 
estados representacionais que retratam como as coisas são no ambiente; 
(2) ela deve ter estados motivacionais que especificam como o agente 
gostaria que as coisas do ambiente fossem; (3) ela deve ter a capacidade de 
processar estados representacionais e motivacionais, conduzindo 
intervenções no ambiente quando esse ambiente não estiver de acordo 
com as especificações motivacionais. Os autores combinam esses critérios 
em uma definição bastante geral de agente: um sistema que apresenta 
estados representacionais, estados motivacionais, a capacidade de 
processar esses estados, bem como de agir com base neles. Note que essa 
abordagem é explicitamente mentalista-cognitivista. As características 
centrais de um agente dizem respeito a estados (mentais) 
representacionais e motivacionais (crenças e desejos, respectivamente), 
seu processamento (raciocínio) e a execução de ações condizentes com eles 
(satisfação de condições funcionalistas). 
Tanto French quanto List & Pettit argumentam que (alguns) grupos 
podem satisfazer os requisitos de agência por eles discutidos em virtude 
do modo como estão organizados, isto é, em virtude de uma estrutura 
organizacional específica que possibilita a ocorrência de processos de 
tomadas de decisão racionais, processos que exibem o nível de 
racionalidade característico de um agente. A argumentação de French 
(1979) é baseada na caracterização de uma estrutura interna de decisão. 
 
nossa). Esse ponto pode, inclusive, suprir a lacuna entre perfis funcionais de agentes ou sistemas e perfis 
funcionais de estados mentais ou subsistemas que motiva a crítica da nota 6. Ainda que a descrição 
funcional esteja no nível do sistema, é em virtude de pressupostos amplamente aceitos pela Filosofia 
da Ação que se deveria supor o exercício de papéis funcionais de estados mentais sendo instanciados 
em circunstâncias nas quais uma ação do sistema esteja sendo executada. List & Pettit (2011) e Tollefsen 
(2015) desenvolvem esse argumento abraçando o interpretativismo baseado na teoria da postura 
intencional de Daniel Dennett (1987).

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226  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
Essa estrutura é organizada por meio de (i) uma hierarquia que ordena 
os setores e níveis da organização determinando as relações de 
comando e poder e (ii) uma diretriz corporativa, um conjunto de regras 
para a tomada de decisão. A estrutura é ativada por indivíduos (seres 
humanos particulares) que ocupam as posições da hierarquia. 
List & Pettit (2011) desenvolvem uma abordagem bastante técnica 
do processo de tomada de decisão em grupos estruturados por meio de 
ferramentas teóricas da teoria da escolha social.11 Esse aparato permite 
aos autores apresentar casos onde a posição do grupo pode diferir da 
posição individual de todos os seus membros. Esse tipo de resultado é 
relevante para uma posição realista sobre mentes de grupos, pois 
exemplifica propriedades mentais coletivas que são irredutíveis às 
propriedades mentais de seus membros individuais.  
A proposta dos autores é desenvolvida a partir de casos de Dilema 
Discursivo. Esses são casos onde “votações majoritárias em proposições 
interconectadas podem levar a julgamentos de grupo inconsistentes, 
mesmo quando os julgamentos individuais são completamente 
consistentes” (List; Pettit, 2011, p. 46, tradução nossa).12 Essa 
caracterização geral do Dilema Discursivo não é muito clara, mas um 
exemplo pode nos auxiliar a identificar uma posição inconsistente por 
parte do grupo, mesmo que todos os seus membros tenham posições 
consistentes. Vejamos um desses exemplos a seguir:  
 
11 List (2022, tradução nossa) define esse campo de investigação da seguinte forma: “A teoria da escolha 
social é o estudo dos procedimentos e mecanismos de decisão coletiva. Ela não é uma única teoria, mas 
um conjunto de modelos e produtos relativos à agregação de entradas (inputs) individuais (e.g. votos, 
preferências, julgamentos, bem-estar) em saídas (outputs) coletivas (e.g. votos, preferências, 
julgamentos, bem-estar).” 
12 Essa definição de Dilema Discursivo é uma generalização de um problema particular da literatura 
jurídica sobre decisões colegiadas que ficou conhecida como Paradoxo Doutrinal (Kornhauser; Sager, 
1986). A generalização está baseada na identificação de que o problema surge por conta de haver um 
conjunto de proposições logicamente interconectadas sendo considerado pelo processo de agregação. 
No Paradoxo Doutrinal essa conexão era estabelecida pela Doutrina Jurídica.

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Luiz Paulo Da Cas Cichoski  •  227 
 
Índex da Democracia (adaptado de Cichoski; Ruivo, 2015) 
Analistas estão interessados em avaliar o nível de democracia dos 
países ao redor do mundo. Para realizar essa avaliação, eles estabelecem 
que para ser uma democracia plena o país deveria satisfazer três 
condições: (i) ter processo eleitoral democrático, (ii) ter funcionamento 
do governo condizente com a democracia e (iii) ter alto nível de 
participação política.  
Podemos identificar um argumento envolvido nessa forma de 
estruturar a análise do nível de democracia de países. Isso revela que a 
análise oferece um conjunto interconectado de proposições da seguinte 
forma: 
 
P - O País X tem um processo eleitoral democrático; 
Q - O governo do País X tem funcionamento condizente com a 
democracia; 
R - O País X tem alto nível de participação política; 
C - O País X é uma democracia plena. 
 
A interconexão lógica nesse argumento pode ser expressa da 
seguinte forma: P ^ Q ^ R → C.  
Agora, suponha que há um grupo de analistas averiguando o caso 
específico do Brasil e eles chegam a essas posições individuais: 
 
Analista 1 - crê que o Brasil não é uma democracia plena, pois 
considera que não há um processo eleitoral democrático no Brasil, 
ainda que considere o funcionamento do governo e a participação 
política condizentes com as de uma democracia plena;

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228  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
Analista 2 - crê que o Brasil não é uma democracia plena, pois 
considera que o funcionamento do governo não é adequado para 
uma democracia plena, ainda que considere o processo eleitoral 
democrático e que há alto nível de participação política; 
Analista 3 - crê que o Brasil não é uma democracia plena, pois não 
considera a participação política suficientemente alta, ainda que 
considere o processo eleitoral e o funcionamento do governo 
adequados para uma democracia plena. 
 
A partir desse posicionamento individual de cada analista, vejamos 
o que aconteceria se a decisão final do grupo a respeito de cada um 
dessas proposições fosse resultado de uma agregação por maioria, i.e. a 
posição do grupo é aquela que for a maioria das posições individuais. A 
tabela a seguir ilustra a distribuição de posições individuais e o 
resultado da agregação: 
 
 
P 
Q 
R 
C 
Analista 1 
Falsa 
Verdadeira 
Verdadeira 
Falsa 
Analista 2 
Verdadeira 
Falsa 
Verdadeira 
Falsa 
Analista 3 
Verdadeira 
Verdadeira 
Falsa 
Falsa 
Grupo 
(Maioria) 
Verdadeira 
Verdadeira 
Verdadeira 
Falsa 
Tabela 1. Agregação por maioria no caso Índex da Democracia. 
 
O caso Índex da Democracia é uma instância do Dilema Discursivo. 
A posição do grupo é inconsistente, enquanto a posição de cada 
indivíduo é consistente. Todos os analistas estão, individualmente, 
seguindo a restrição imposta pela interconexão lógica estabelecida 
pelas proposições sendo consideradas. Como vimos antes, a relação P ^

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Luiz Paulo Da Cas Cichoski  •  229 
Q ^ R → C identifica um conjunto de condições conjuntamente 
necessárias para que a proposição C seja verdadeira. Na perspectiva 
individual, cada um dos analistas julgou que uma dessas condições 
necessárias não foi satisfeita e, portanto, sustentam que a proposição C 
seja falsa. Desta forma, cada um deles sustenta um conjunto consistente 
de posições sobre essas proposições.  
O problema está na última linha da tabela, no resultado da 
agregação por maioria, ou seja, na posição final que o grupo vai assumir. 
Essa linha apresenta um conjunto inconsistente de posições. Foi 
estabelecido pelo caso que haveria uma restrição na interconexão lógica 
expressa por P ^ Q ^ R → C. Essa restrição não está sendo respeitada pela 
posição final do grupo. Como pode ser observado na última linha da 
tabela, o grupo considera que foram satisfeitas as condições 
necessárias, mas nega a conclusão que deveria se seguir disso. A posição 
do grupo seria algo como: “O Brasil atende a todas as condições 
necessárias para ser uma democracia plena, portanto, não 
consideramos que o Brasil seja uma democracia plena”.  
List e Pettit não acreditam que grupos estejam organizados com 
esse tipo de fragilidade em sua racionalidade. Eles discutem que o 
tratamento de conjuntos de proposições interconectadas demandam 
funções de agregação especiais. A agregação por simples maioria gera 
Dilemas Discursivos, então não é esse o meio pelo qual decisões 
coletivas são tomadas quando se trata de conjuntos de proposições 
interconectadas. A interpretação dessa interconexão lógica entre 
proposições enquanto um argumento ilustra as opções disponíveis para 
funções de agregação especiais: podemos agregar pelas premissas ou 
pela conclusão. Voltando ao caso do Índex da Democracia, caso a 
agregação se dê pela conclusão, a maioria dos analistas julgou que o 
Brasil não era uma democracia plena (C é falsa). Portanto, essa seria a

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230  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
posição final do grupo, mas só essa proposição será considerada pelo 
grupo, ele não teria posição sobre as demais proposições. Entretanto, 
caso se adote a agregação pelas premissas, o grupo aceita que o Brasil 
satisfaz as condições necessárias para ser uma democracia plena, visto 
que a maioria dos analistas julga que P, Q e R são verdadeiras, e infere, 
em virtude da interconexão lógica P ^ Q ^ R → C, que o Brasil é uma 
democracia plena.  
Duas consequências importantes podem ser observadas pela 
adoção da agregação pelas premissas. (1) Essa modalidade de agregação, 
de modo geral, exemplificaria um processo literal de raciocínio de 
grupo. É o grupo que deriva a conclusão a partir da agregação das 
premissas e da consideração da restrição expressa pela interconexão 
lógica das proposições envolvidas. Esse resultado permite a defesa da 
plausibilidade de que grupos possuem uma mente autônoma e possam 
ser consideradas pessoas institucionais (Pettit, 2003). (2) Mais particular 
ao tipo de caso do nosso exemplo, essa é uma instância onde o grupo 
tem uma posição que não é sustentada por nenhum de seus membros 
individuais. Ao adotar a agregação pelas premissas no caso Índex da 
Democracia, deveríamos modificar a atribuição final do grupo com 
relação à proposição C. Na tabela você poderá conferir que nenhum dos 
membros individuais considera a proposição C verdadeira, enquanto o 
grupo deveria adotar essa posição se adotasse essa modalidade de 
agregação.13 (1) e (2) configuram evidências em favor da tese da mente 
 
13 Tecnicamente, os autores destacam que há uma superveniência holística quando se adota uma função 
de agregação pelas premissas em conjuntos de proposições logicamente interconectadas. A 
superveniência holística afirma que "o conjunto de atitudes de grupo sobre [o conjunto interconectado 
de] proposições é determinado pelos conjuntos de atitudes individuais sobre essas proposições" (List; 
Pettit, 2011, p. 69, tradução nossa). Esse resultado confere autonomia ao nível coletivo, onde a posição 
do grupo pode diferir das posições individuais de seus membros, mas explica como o nível individual é 
a base de superveniência desse resultado. É a posição dos membros individuais (sobre as premissas) 
que determina a posição do grupo (tanto sobre as premissas, quanto sobre a conclusão). Assim, há uma

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Luiz Paulo Da Cas Cichoski  •  231 
de grupos. (1) identifica processos cognitivos que são próprios do grupo 
e (2) identifica a possibilidade de que o grupo tenha uma posição que não 
seja adotada por nenhum de seus membros individuais.  
4. Mente estendida 
Um segundo caminho que a Filosofia da Mente contemporânea 
oferece para a plausibilidade da tese da mente de grupos é pavimentado 
pela tese da mente estendida. A tese da mente estendida defende que a 
mente não está confinada dentro de nossos cérebros. Mais 
audaciosamente, é a ideia de que a mente se estende para além de nossos 
corpos biológicos acomodando outras entidades do ambiente no qual 
estamos inseridos. As entidades ambientais mais representativas do 
processo de extensão da mente são artefatos como calculadoras, 
computadores e smartphones. Mas simples anotações em cadernos ou 
notas autoadesivas também poderiam ser considerados mecanismos 
para a extensão da mente.  
Pode até ser possível argumentar que a mente estendida não é um 
novo argumento, pois sua fundamentação está amparada em uma tese 
funcionalista: o Princípio da Paridade. O Princípio da Paridade costuma 
ser apresentado a partir da seguinte passagem do texto seminal da 
proposta: 
Se, conforme nós confrontamos alguma tarefa, uma parte do mundo 
funciona como um processo, o qual, fosse ele executado na cabeça, nós não 
hesitaríamos em reconhecê-lo como parte do processo cognitivo, então essa 
parte do mundo é (assim alegamos) parte do processo cognitivo (Clark; 
Chalmers, 1998, p. 814). 
 
explicação metafísica muito parcimoniosa sobre como se dá o resultado de divergência entre níveis, a 
autonomia do nível coletivo e o surgimento de uma realidade social.  
14 Estou utilizando a tradução apresentada por Eros Moreira Carvalho (2020). Veja o artigo do prof. Eros 
para críticas sobre a fundamentação da tese da mente estendida por meio do princípio da paridade.

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232  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
Novamente temos os elementos centrais do funcionalismo: (i) a 
base material (orgânica, neuronal, silício, éter, eletricidade, 
magnetismo) de composição daquilo que faz parte do processo sendo 
analisado não é relevante e (ii) o aspecto relevante para identificar algo 
como sendo parte do processo cognitivo diz respeito à uma 
característica funcional, à sua participação na tarefa que está sendo 
realizada. O ponto adicional que a tese da mente estendida permite 
destacar é que não apenas a base material de composição da mente pode 
ser distinta, mas a localização desse componente material da cognição 
pode estar fora do crânio ou do corpo de uma criatura que possui uma 
mente. Uma parte do mundo, uma entidade do ambiente ou um artefato 
pode desempenhar algum papel funcional no processo cognitivo e, 
portanto, ser parte da mente de um sistema.  
Clark e Chalmers (1998) apresentam alguns exemplos para elucidar 
a tese da mente estendida. Vou analisar um deles, o caso de Otto e seu 
caderno. Suponha que Otto possui algum tipo de condição de perda de 
memória (no caso original ele sofre de Alzheimer) e cria um mecanismo 
para atenuar essa situação: ele passa a anotar informações relevantes em 
um caderno. Com o tempo, o uso do caderno por Otto se torna tão natural 
que não seria um exagero dizer que Otto incorpora esse artefato15, em 
outras palavras: “Otto se torna fluente, habilidoso e confiável na 
 
15 Merleau-Ponty (1999, p. 198-199) oferece uma ótima descrição de incorporação de instrumentos 
quando tenta esclarecer o que é um hábito: “A bengala do cego deixou de ser para ele um objeto, ela 
não mais é percebida por si mesma, sua extremidade transformou-se em zona sensível, ela aumenta a 
amplitude e o raio de ação do tocar, tornou-se o análogo de um olhar. Na exploração dos objetos, o 
comprimento da bengala não intervém expressamente e como meio-termo: o cego o conhece pela 
posição dos objetos, antes que a posição dos objetos por ele. A posição dos objetos está imediatamente 
dada pela amplitude do gesto que a alcança e no qual está compreendido, além da potência de 
extensão do braço, o raio de ação da bengala. (...) Habituar-se a um chapéu, a um automóvel ou a uma 
bengala é instalar-se neles ou, inversamente, fazê-los participar do caráter volumoso de nosso corpo 
próprio. O hábito exprime o poder que temos de dilatar nosso ser no mundo ou de mudar de existência 
anexando a nós novos instrumentos.”

## Page 234

Luiz Paulo Da Cas Cichoski  •  233 
recuperação de informações registradas no caderno” (Carvalho, 2020, p. 
148). Essas características funcionais relacionadas ao resgate de 
informações do caderno por parte de Otto podem ser comparadas com as 
atividades cognitivas de um outro indivíduo, Inga, que utiliza uma 
estrutura exclusivamente biológica hidrocarbonada e neuronal (seu 
cérebro) para resgatar informações previamente registradas. Desta 
forma, pela satisfação do princípio da paridade, podemos concluir que o 
caderno de Otto faz parte do seu processo cognitivo de memória, assim 
como o cérebro de Inga desempenha a mesma função.  
A aplicação desses processos cognitivos em uma instância 
específica de comportamento elucida ainda mais a tese (adaptado de 
Clark e Chalmers, 1998). Considere agora que Inga ouve de sua colega de 
trabalho que está ocorrendo um evento especial para o dia dos 
namorados no Museu de Arte Moderna (MoMA). Ela forma o desejo de 
ir até o museu e resgata a crença de que ele fica na Rua 53. Seu desejo e 
sua crença são estados mentais que motivam e guiam sua ação de ir até 
o museu. Agora considere que Otto também deseje ir ao MoMA ver a 
coleção de “Construções Corporais” (Body Constructs). Seu problema de 
memória impede que ele consiga se lembrar do endereço do museu, mas 
ele vasculha seu caderno em busca dessa informação. Otto encontra o 
registro do endereço do MoMA em seu caderno e se dirige à Rua 53. 
Novamente, o funcionalismo por trás do princípio de paridade parece 
indicar que Inga e Otto realizaram os mesmos processos cognitivos e 
seu comportamento pode ser explicado pelos mesmos estados e 
processos mentais: (i) o desejo de ir ao MoMA; (ii) o processo de resgate 
da informação de onde o MoMA se localiza; (ii) a crença de que o MoMA 
fica na Rua 53.  
Tollefsen (2006, p. 144, tradução nossa) sintetiza bem a ênfase que 
Clark e Chalmers conferem ao papel do funcionalismo na defesa da tese

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234  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
da mente estendida, especificando que os autores apelam para uma 
interpretação de senso comum da dinâmica causal (perfil funcional) do 
comportamento dos sujeitos no caso Otto:  
Da nossa perspectiva, enquanto intérpretes de comportamentos, Otto será 
guiado pela informação contida em seu caderno da mesma forma que ele seria 
guiado se essa informação estivesse em sua memória de curto prazo. Ele fará 
o mesmo tipo de coisas, dirá o mesmo tipo de coisas e formará os mesmos 
tipos de atitudes proposicionais com base na informação resgatada de seu 
caderno. Esse é um sentido frouxo de “dinâmica causal”, mas é, claramente, o 
sentido que incita a nossa prática cotidiana de prever e explicar o 
comportamento das pessoas. Eu posso prever com alguma precisão que, 
depois de olhar para seu caderno, Otto seguirá em direção ao museu.  
Obviamente nem todas as entidades do ambiente em que uma 
criatura está inserida serão incorporadas em processos cognitivos, mesmo 
aquelas que tratam de registro, acesso e processamento de informações 
podem falhar em ser apropriadamente acopladas. Podemos usar a 
calculadora para fazer contas, mas provavelmente o fazemos de forma 
muito esporádica; uma agenda pode registrar todos nossos compromissos, 
mas ela pode ficar exclusivamente no escritório; você pode comprar um 
smartwatch, mas não saber utilizar suas funcionalidades, recorrendo ao 
aparelho apenas para ver as horas; usamos a Internet para acessar 
informações, mas não aceitamos (ao menos não deveríamos) tudo que ali 
encontramos acriticamente; também nos informamos pela imprensa 
(jornal, rádio, televisão), mas nosso contato com esses meios de 
comunicação é passivo (epistemicamente), tomamos testemunhos desses 
meios, não fazemos o trabalho de investigação necessário para justificar 
(em primeira mão) as informações ali registradas.  
Clark e Chalmers (1998) destacam as seguintes características que 
esboçam o que estaria envolvido no devido acoplamento de uma 
criatura biológica com algum recurso externo: (1) constância - a criatura

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Luiz Paulo Da Cas Cichoski  •  235 
recorrentemente utiliza o recurso para realizar o processo cognitivo; (2) 
fluidez - a criatura domina o uso do recurso; (3) endosso automático - 
as informações geradas pelo uso do recurso são tomadas acriticamente; 
(4) endosso prévio - no caso de registros de informações, como no caso 
Otto, as informações registradas no recurso externo foram previamente 
endossadas, sendo essa uma razão para terem sido registradas e 
automaticamente endossadas quando novamente acessadas. 
Tollefsen (2006) utiliza esses quatro critérios para justificar o 
acoplamento de outros indivíduos. Seu argumento é construído a partir 
de uma variação do caso de Otto e seu caderno: Olaf e Olga. Considere 
que Olaf e Olga estejam casados há 30 anos. Olaf não sofre de Alzheimer, 
mas é bastante esquecido, tendo dificuldades em lembrar nomes de 
pessoas, compromissos, números de telefone, endereços etc. Olga, pelo 
contrário, tem uma memória de elefante e consegue se lembrar desses 
pequenos detalhes facilmente. Considere ainda que eles estão quase 
sempre juntos. Diante dessas características, parece que Olaf e Olga 
atendem aos critérios para acoplamento tanto quanto Otto e seu 
caderno: (1) constância - Olaf constantemente pede informações sobre 
compromissos, números de telefone e endereços a Olga; (2) fluidez - 
Olga é bastante responsiva às solicitações de Olaf, a comunicação entre 
eles é adequada e “enquanto uma parceira cognitiva afetuosa e 
comprometida, Olga está sempre disponível - na saúde, na doença e na 
perda de memória” (Tollefsen, 2006, p. 143, tradução nossa); (3) endosso 
automático - Olaf não questiona as informações transmitidas por Olga, 
inclusive a utiliza como fonte de verificação de coisas que ele lembra 
“Olga, é hoje o dia da consulta ao médico?”; (4) endosso prévio - Olga não 
é enxerida, ela respeita a privacidade de Olaf, e não inventa as 
informações que comunica a Olaf. Geralmente, Olaf comunica seus 
compromissos e solicita que Olga o ajude a lembrar.

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236  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
O acoplamento de indivíduos parece autorizado pela tese da mente 
estendida16, mas ele gera alguns questionamentos. Uma questão central 
que surge da possibilidade de aplicação da tese da mente estendida para 
contextos coletivos é: será que Olga agora faz parte da mente de Olaf? Uma 
resposta para essa questão não é muito clara. Julgar os limites da mente 
estendida parece mais fácil nos exemplos usuais tratados pelos 
proponentes da tese, onde a extensão ocorre com o acoplamento de 
componentes materiais não biológicos do ambiente em que uma criatura 
biológica está inserida. Otto e seu caderno, você e seu celular, um 
motorista e seu GPS, etc. são exemplos que parecem acomodar essa noção 
de literal extensão da mente de um indivíduo. Talvez haja um viés 
antropocêntrico na prioridade ontológica da criatura biológica que 
compõe o sistema. A mente se estende, mas seu ponto de partida é a mente 
biológica. Harris (2020, p. 7, tradução nossa) apresenta essa interpretação 
da tese da mente estendida na seguinte proposta de definição: 
Tese da mente estendida: estados mentais estendidos são propriedades de 
sujeitos híbridos compostos de indivíduos puramente biológicos em 
conjunto com componentes materiais não biológicos. Esses sujeitos 
híbridos são numericamente idênticos aos indivíduos puramente biológicos 
que, em conjunto com características de seus ambientes, passam a 
constituir os sujeitos híbridos. 
Essa proposta de definição da tese da mente estendida captura uma 
literal extensão da mente de um indivíduo. A entidade que possui mente 
continua a mesma, mas sua mente passa a ter uma base de superveniência 
 
16 Inclusive é uma hipótese considerada favoravelmente por Clark e Chalmers (1998, p. 17, tradução 
nossa): “E o que dizer sobre uma cognição socialmente estendida? Poderiam meus estados mentais 
serem parcialmente constituídos pelos estados de outros pensadores? Nós não vemos nenhuma razão 
de porquê não, em princípio. Em um casal extraordinariamente interdependente, é completamente 
possível que as crenças de um cônjuge desempenhem algum tipo de papel para o outro cônjuge similar 
àquele desempenhado pelo caderno para Otto. O ponto central é um alto grau de confiança, 
confiabilidade e acessibilidade."

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Luiz Paulo Da Cas Cichoski  •  237 
ampliada. Essa maneira de interpretar a tese reforça sua aproximação 
com o funcionalismo. O funcionalismo acomoda uma flexibilidade no que 
diz respeito à composição material da base de superveniência da mente. 
A tese da mente estendida flexibiliza a extensão (e localização) dessa base: 
a base de superveniência dos estados mentais pode se estender para além 
dos limites corporais de uma criatura, incluindo componentes materiais 
não biológicos (Harris, 2020). 
Mas em casos coletivos, como o de Olaf e Olga, já não fica tão claro 
qual mente biológica é o ponto de partida da extensão. Por que a mente 
de Olaf deveria ter essa prioridade ontológica? Uma resposta possível 
seria negar que há uma extensão da mente nos casos coletivos. Talvez 
há apenas uma interação entre Olaf e Olga. Não há acoplamento e, 
portanto, não haverá extensão; a mente de Olaf continua restrita aos 
seus processos biológicos internos e apenas recebe, recorrentemente, 
testemunhos de Olga. Mas se esse é o caso para Olaf e Olga, por que não 
seria o caso para Otto e o caderno, você e seu celular, etc.? Por que os 
critérios de constância, fluidez e endosso deveriam ser interpretados 
como condições de acoplamento e extensão nesses últimos casos, mas 
não no primeiro? Por que não é o caso que eles apenas descrevem uma 
interação distintiva entre uma criatura biológica e recursos não 
biológicos de seu ambiente semelhante ao que ocorre no caso coletivo? 
Ao invés de tomar esse caminho de negação da tese da mente 
estendida, podemos seguir Harris (2020) e reconsiderar a definição da 
tese oferecida acima. Harris parte da crítica de Miyazono (2017) que 
busca, justamente, disputar essa noção de que a mente de um indivíduo 
possa ser literalmente estendida. Miyazono se inspira no argumento 
anti-funcionalista de Searle (1980) do “Quarto Chinês”. Nesse caso, 
imaginamos um indivíduo que está em um quarto com um manual que 
instrui a produção de certos caracteres em resposta a certos estímulos

## Page 239

238  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
(o indivíduo recebe alguns pedaços de papel) que também contêm esses 
caracteres. Sem saber, o indivíduo que realiza esse processamento 
estaria estabelecendo uma comunicação em chinês com falantes de 
chinês localizados fora do quarto. Searle considera bastante implausível 
que possamos atribuir fluência de chinês para o indivíduo que está 
dentro do quarto seguindo as ordens do manual sem saber nada de 
chinês. Entretanto, uma das respostas desenvolvidas pela literatura 
concede que o indivíduo dentro do quarto não sabe chinês, mas defende 
que o sistema (indivíduo + manual + quarto) sabe.  
Miyazono (2017) argumenta que o mesmo resultado metafísico 
deveria ser aplicado aos casos de mente estendida. A ideia de que 
criaturas biológicas individuais podem estender suas mentes, 
preservando sua identidade numérica ao longo do processo, deveria ser 
abandonada em favor da consideração de que o sujeito que sustenta os 
estados mentais e realiza os processos cognitivos é uma nova entidade: 
o sistema resultante do acoplamento (Otto + caderno; Olaf + Olga). 
Segundo Harris (2020) as vantagens da resposta do sistema sobre a tese 
da literal extensão da mente (e identidade numérica da criatura 
biológica) aparecem na solução do problema do inchaço cognitivo e em 
considerações sobre persistência.17 
O inchaço cognitivo (Allen-Hermanson, 2013; Rupert, 2009) é a 
objeção à tese da mente estendida que destaca o excesso de liberalidade 
nas condições para a extensão da mente. Essa liberalidade acarreta na 
consideração de casos bastante implausíveis de acoplamento. Harris 
(2020) cita o exemplo de Giere (2007) sobre o Telescópio Hubble como 
 
17 De forma bastante similar, o argumento central de Tollefsen (2006) é que o caso de extensão da mente 
coletiva (com outros indivíduos) consegue acomodar melhor um conjunto de críticas que são feitas à 
tese da mente estendida, ou seja, a extensão coletiva parece mais plausível que os casos paradigmáticos 
oferecidos pelas proponentes da tese da mente estendida.

## Page 240

Luiz Paulo Da Cas Cichoski  •  239 
ilustração de um resultado contraintuitivo. Se a tese da mente estendida 
está correta, então há uma mente que compreenderia o telescópio em 
órbita, alguns seres humanos e um conjunto de instrumentos 
localizados na Terra. Novamente, um exemplo que aponta como não fica 
claro qual mente está sendo estendida. Além de composições muito 
contraintuitivas, a tese da mente estendida poderia inchar o estoque de 
crenças de um sujeito de forma inapropriada. Por exemplo, um sujeito 
que mantém uma relação com uma lista telefônica da forma como Otto 
se relaciona com seu caderno teria um conjunto implausivelmente 
grande de crenças sobre números de telefone (Rupert, 2009).  
A primeira versão do inchaço cognitivo é respondida pela recusa da 
literal extensão da mente da criatura biológica envolvida. Justamente pela 
dificuldade em identificar quem está estendendo sua mente em casos 
muito complexos de acoplamento, parece mais razoável identificar o 
surgimento de uma nova entidade, o sistema como um todo, que é o 
sujeito adequado de atribuição. Da mesma forma, no que diz respeito a 
segunda versão de inchaço cognitivo, o sistema deve ser o sujeito que 
mantém o conjunto de crenças e outras propriedades mentais sendo 
atribuídas: “os sistemas híbridos, compreendendo indivíduos biológicos 
em conjunto com características de seus ambientes podem ter um 
número muito mais vasto de crenças do que esses indivíduos biológicos 
isoladamente” (Harris, 2020, p. 8, tradução nossa).  
A resposta do sistema também parece acomodar melhor relações 
de persistência em casos de acoplamento. No caso de Otto, por exemplo, 
se tomarmos a literal extensão da mente de Otto com seu caderno, mas 
mantivermos a identidade de Otto ao longo do processo, isso significaria 
que Otto se curou do problema de memória. Isso parece pouco razoável. 
A criatura biológica Otto continua tendo problemas de memória, mesmo 
quando acoplada a seu caderno, entretanto, essa criatura passa a

## Page 241

240  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
integrar um sistema (Otto + caderno) que não possui esse tipo de 
deficiência. Você continua sem saber qual é o exato número de telefone 
da sua mãe, mas o sistema composto por você e seu celular pode 
informar o contato da sua mãe para alguém.  
Diante dessas constatações, Harris (2020, p. 10, tradução nossa) 
apresenta um refinamento na definição da tese da mente estendida: 
Tese da mente estendida*: estados mentais estendidos são propriedades de 
sujeitos híbridos compostos de indivíduos puramente biológicos em 
conjunto com outros indivíduos puramente biológicos e/ou componentes 
materiais não biológicos. Esses sujeitos híbridos não são numericamente 
idênticos aos indivíduos puramente biológicos que acoplando-se com 
características de seus ambientes, na forma de outros indivíduos 
puramente biológicos ou componentes materiais não biológicos, dão origem 
aos sujeitos híbridos. 
Importante salientar que essa formulação continua concedendo 
que não há uma literal extensão da mente: “(...) nós não podemos nos 
tornar seres estendidos, mas podemos interagir com seres estendidos. 
Nós podemos trazer à existência novos seres com mentes cujas mentes 
sobrevêm de nossos cérebros em conjunto com objetos externos.” 
(Harris, 2020, p. 8, tradução nossa). 
Nesta seção acompanhamos os argumentos de Tollefsen (2006) e 
Harris (2020) relacionados à aplicação da tese da mente estendida para 
casos coletivos, evidenciando de que forma a tese da mente estendida é 
compatível com a tese da mente de grupos. Os autores apresentam a 
possibilidade de que grupos podem se configurar como sistemas 
cognitivos que incorporam diferentes seres humanos individuais por meio 
dos critérios que explicam o acoplamento. No fim de seu artigo, Tollefsen 
critica explicações reducionistas desse tipo de fenômeno cognitivo social 
(oferecidas por Wilson [2004]). Entretanto, ela rejeita um modelo 
emergentista de explicação da relação entre níveis individuais e coletivos,

## Page 242

Luiz Paulo Da Cas Cichoski  •  241 
favorecendo uma explicação em termos de superveniência e realização. Na 
próxima 
seção 
vou 
apresentar 
propostas 
anti-reducionistas 
emergentistas para a defesa da tese da mente de grupos. 
5. Cognição (socialmente) distribuída 
A cognição distribuída é outra abordagem que podemos encontrar 
na literatura que proporciona um caminho de defesa da tese da mente de 
grupos. As origens de uma parte dessa área de investigação já são 
marcadamente sociais. Talvez o exemplo mais representativo seja aquele 
formulado por Edwin Hutchins (1995), um antropólogo cognitivo que, a 
partir de investigações etnográficas em um navio da marinha americana, 
constrói um relato bastante detalhado da navegação do navio.  
A obra Cognition in the wild (Hutchins, 1995) começa com o relato de 
uma situação de crise. Ao começar a operação para atracar o navio no 
Porto de San Diego, o engenheiro relata que o tambor de vapor estava 
perdendo pressão, comprometendo os mecanismos de frenagem da 
embarcação. A solução era ancorar o navio em mar aberto, para não 
congestionar o canal de navegação do porto. Mas o navio estava rápido 
demais para a realização imediata desse procedimento. A fricção da 
água com o casco do navio seria a única maneira de reduzir a velocidade 
da embarcação, mas o controle era difícil. O navegador comparou a 
situação com a perda de motor de uma aeronave ao relatar as 
dificuldades em conduzir a embarcação sem responsividade no leme. 
Apesar das dificuldades, a tripulação conseguiu ancorar o navio em 
lugar apropriado depois de 25 minutos do problema no tambor de vapor 
e mais de duas milhas percorridas. 
Edwin Hutchins (1995, p. 5-6, tradução nossa) destaca o ponto 
relevante deste relato etnográfico para a tese central do livro:

## Page 243

242  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
A ancoragem segura do Palau deveu-se em grande parte à habilidade 
náutica excepcional da tripulação, especialmente do navegador. Mas 
nenhum indivíduo agindo sozinho na ponte de comando, nem o capitão, 
nem o navegador, nem o contramestre que supervisiona a equipe de 
navegação - poderia ter mantido o controle do navio e conduzi-lo com 
segurança para a ancoragem. Muitos tipos de pensamento foram 
necessários para executar esta tarefa. Alguns deles aconteciam em paralelo, 
alguns em coordenação com outros, alguns dentro das cabeças dos 
indivíduos e alguns claramente dentro e fora das cabeças dos participantes. 
A partir desse exemplo, pode-se notar que, em grande medida, a 
noção de cognição distribuída já incorpora elementos sociais e levanta 
a questão de se algumas propriedades, atividades, processos e estados 
cognitivos podem ser atribuídos ao grupo ou sistema sem que sejam 
possuídos por nenhuma de suas partes. 
Georg Theiner (2010, 2017) desenvolve uma argumentação a favor 
da tese da mente de grupos precisamente por meio da identificação de 
propriedades emergentes de sistemas com cognição socialmente 
distribuída. Uma parte significativa da proposta envolve uma discussão 
conceitual de emergência, visto seu usual descrédito em virtude de um 
aparente compromisso ontológico com propriedades misteriosas e não 
explicáveis cientificamente.18 Um elemento central da reabilitação do 
conceito de emergência se dá na tentativa de explicar o slogan “é mais 
que a soma das partes”, ou seja, fornecer uma distinção entre sistemas 
(entidades que têm propriedades emergentes) e meros agregados 
(entidades que não as têm).  
 
18 Theiner (2014) cita que um movimento de defesa da tese da mente de grupos que surgiu na passagem 
do século XIX para o XX tentava explicar as características dos grupos que não podiam ser reduzidas a 
agentes individuais por meio de um vocabulário emergentista vitalista. A adoção dessa estratégia foi 
bastante prejudicial para a tese da mente de grupos: “os vitalistas acreditavam que a vida é produto de 
uma força orgânica misteriosa (vis vitalis) que é fundamentalmente diferente dos princípios físico-
químicos que governam as coisas inanimadas. Por conta dessa estreita associação, o fim do vitalismo 
como resultado da síntese evolucionária moderna na biologia significou que os conceitos de mente de 
grupo ou agência de grupo fossem igualmente banidos do domínio de discurso cientificamente 
respeitável” (Theiner, 2014, p. 301, tradução nossa).

## Page 244

Luiz Paulo Da Cas Cichoski  •  243 
Theiner (2010) busca estabelecer essa distinção com base em Wimsatt 
(1986). Os critérios de Wimsatt capturam a noção geral de emergência (o 
resultado conjunto de duas ou mais partes de um sistema difere do 
resultado agregado dessas partes operando independentemente) e de 
sinergia (o comportamento de partes que tenham interação mútua é 
diferente do comportamento dessas partes em isolamento) (Theiner, 2017). 
Esses critérios são construídos a partir de uma perspectiva negativa, a 
partir de falhas de agregação que revelariam algum tipo de dependência 
que propriedades emergentes teriam com relação à organização do 
sistema. Um sistema seria um mero agregado caso não tivesse 
propriedades emergentes, ou seja, caso suas propriedades se alterassem 
exclusivamente devido à (i) substituição de suas partes; (ii) adição ou 
subtração de partes (que geram apenas alterações quantitativas); (iii) 
reorganização de suas partes; e (iv) inexistência de interações cooperativas 
ou inibitórias entre as partes (Theiner, 2017).  
Podemos sintetizar a ideia central deste modo de caracterizar 
sistemas com propriedades emergentes em virtude de falhas de agregação 
como destacando o fato de que o comportamento do sistema não poderá 
ser entendido por uma análise reducionista que apenas identificaria as 
atividades das unidades componentes operacionais de maneira 
independente. Assim, uma estratégia simples de decomposição funcional 
não será um modelo explicativo adequado para o comportamento de um 
sistema 
que 
possui 
propriedades 
emergentes, 
isto 
é, 
cujos 
comportamentos são resultados da interação de suas unidades 
componentes operacionais. Ainda que essas estratégias reducionistas 
sejam uma ferramenta heurística relevante para a produção de 
explicações simples, elas podem acarretar em falácias como “a mente não 
é nada além da atividade neural” ou “comportamento social não é nada 
além da ação de indivíduos” (Wimsatt, 1997).

## Page 245

244  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
Um dos exemplos de sistemas com cognição socialmente 
distribuída apresentado por Theiner (2010) é o fenômeno da memória 
transativa estudada pela psicologia social (Wegner, 1985; 198719). Em 
alguns casos, certos grupos (famílias, equipes de trabalho) desenvolvem 
uma divisão de trabalho cognitivo para resgatar informações, para se 
lembrar conjuntamente. As tarefas de alocação, codificação, 
recuperação, elaboração e compartilhamento de informações, 
características da memória, são realizadas conjuntamente, fora das 
cabeças dos indivíduos envolvidos.  
O elemento fundamental de uma memória transativa é a divisão do 
trabalho cognitivo que evidencia os aspectos coletivos envolvidos. Os 
processos de codificação e alocação de informações levam em conta as 
especialidades dos membros do grupo. Essas atividades exigem que os 
membros tenham conhecimento de especificidades e especialidades de 
cada indivíduo pertencente ao grupo, promovendo uma distribuição do 
trabalho cognitivo que alivia as responsabilidades individuais. A 
identificação de especialistas também é relevante na operação de resgate 
das informações. Quando uma informação for necessária, espera-se que 
os membros saibam quem detém esse tipo de informação.20 
Tollefsen (2006, p. 145) ilustra o processo, destacando suas 
características coletivas, a partir do exemplo de Olaf e Olga: 
 
19 Essa também foi a fonte central para corroborar o caso Olaf e Olga em Tollefsen (2006), discutido na 
seção anterior.  
20 Liang, Moreland e Argote (1995) apresentam sistemas de memórias transativas de um modo um pouco 
mais formal, mas que pode esclarecer um pouco mais as atividades características desse tipo de sistema. 
Um sistema de memória transativa seria uma propriedade de segunda-ordem ancorada por três 
processos de primeira-ordem, também coletivos: "Diferenciação de memória (M1), a tendência dos 
membros do grupo em se especializarem na recordação do processo coletivo; credibilidade de tarefa 
(M2), quanto um membro confia na expertise de outro (associada a comportamentos tais como menor 
necessidade de afirmar expertise, melhor aceitação de sugestões procedimentais, menos críticas); e 
coordenação de tarefa (M3), a habilidade dos membros do grupo em trabalharem juntos 
coordenadamente (mensurada, p.e., pela menor necessidade de planejamento explícito, menos mal 
entendidos, maior cooperação)." (Theiner, 2010, p. 93, tradução nossa)

## Page 246

Luiz Paulo Da Cas Cichoski  •  245 
[I]magine que o resgate de informações e sua reorganização é feito por 
[Olga] e Olaf conjuntamente. Olaf não se lembra do sobrenome; [Olga] não 
se lembra do primeiro nome. Olaf se lembra onde eles se encontraram. 
[Olga] se lembra do porquê eles se encontraram. Através de um processo de 
deliberação conjunta eles resgatam conjuntamente, por meio de um 
processo de reconstrução conjunta, o nome da pessoa. O processo de 
resgate, então, é ativo e não pode ser encontrado "dentro" da cabeça de 
[Olga] ou Olaf. De fato, ele é feito por meio de uma atividade conjunta de 
discussão e deliberação que ocorre entre [Olga] e Olaf. 
Cabe destacar que Theiner (2010) identifica que sistemas de 
memória transativas são exemplos de falhas de agregação, isto é, são 
exemplos de processos que instanciam sistemas que possuem 
propriedades emergentes. Esse tipo de sistema não acomoda troca entre 
as partes, visto que há uma especialização na alocação de memórias. 
Portanto, se alguém com uma informação crucial for retirado ou 
substituído (critérios (i) e (ii)), o funcionamento do grupo será afetado. 
Além disso, experimentos indicaram que grupos que desenvolvem 
sistemas de memória transativas são mais produtivos que grupos de 
pessoas treinadas separadamente e depois reunidas (Lewis et. al. 2005; 
2007). Essa evidência aponta para uma negação de que os agregados não 
diferem quando suas partes são reorganizadas (critério (iii)). Finalmente, 
como cada membro tem conhecimento de especificidades e 
especialidades de cada indivíduo do grupo, seus processos individuais de 
aquisição, resgate e comunicação de memórias é afetado por fazer parte 
de um sistema de memórias transativas. Portanto, há interações 
cooperativas e inibitórias entre as partes componentes deste tipo de 
sistema (critério (iv)). Desta forma, nenhum dos critérios de agregação de 
Wimsatt são satisfeitos nos casos de sistemas de memórias transativas, 
evidenciando que se trata de um processo com resultados emergentes.  
Outra obra que apresenta uma defesa da tese da mente de grupos 
por meio de aspectos distribuídos da cognição é Macrocognition de Bryce

## Page 247

246  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
Hubner (2014). A base do argumento de Hubner é uma analogia entre 
sistemas de cognição distribuída: entre o funcionamento do sistema de 
cognição humano e o sistema de cognição de grupo. Hubner parte de 
uma noção de cognição distribuída um pouco diferente daquela 
preconizada por Hutchins. A noção de cognição distribuída nas Ciências 
Cognitivas se caracteriza pela adoção de modelos explicativos para a 
cognição humana orientados por uma arquitetura de um sistema 
composta por muitas unidades computacionais de processamento de 
informação altamente especializadas (destinadas a uma tarefa muito 
específica, como, por exemplo, detectar sombras nas representações 
visuais, detectar formas nas representações visuais, etc.). Essas 
unidades altamente especializadas são integradas e coordenadas de 
forma a produzir comportamentos flexíveis, habilidosos e orientados a 
objetivos por parte do sistema como um todo. Hubner (2014, p. 63, 
tradução nossa) sintetiza esses pressupostos das Ciências Cognitivas da 
abordagem conexionista da seguinte forma: 
Para explicar a operação de uma mente individual, devemos adotar uma 
perspectiva 
macrocognitiva. 
Devemos 
postular 
vários 
sistemas 
computacionais, constatar que eles desempenham uma enorme variedade 
de tarefas computacionais, reparar que eles frequentemente fazem isso 
independentemente uns dos outros, avaliar que eles frequentemente 
funcionam paralelamente e perceber que eles frequentemente operam 
baseados em estruturas altamente localizadas de interfaces entre sistemas 
computacionais subpessoais. 
Note que não há um elemento propriamente social nessa noção de 
cognição distribuída. Similar à proposta de Theiner, há um sistema 
composto de unidades que apresenta certas propriedades emergentes, 
mas essas unidades não são indivíduos, mas sim unidades 
computacionais 
de 
processamento 
de 
informação 
altamente 
especializadas. A proposta dessa abordagem em Ciências Cognitivas visa

## Page 248

Luiz Paulo Da Cas Cichoski  •  247 
aproximar o processamento cognitivo do cérebro ao processamento 
paralelo de computadores. O aspecto mais importante dessa proposta é a 
decomposição funcional, ou seja, a concepção de que a mente humana é 
uma espécie de sociedade constituída por muitos agentes organizados em 
uma estrutura. A ideia é que a mente seria formada por muitos agentes 
menores, as unidades computacionais de processamento de informação 
especializadas, sendo que cada um deles não teria uma mente. 
A estratégia geral de Hubner é uma analogia entre dois tipos de 
sistemas de cognição distribuída, defendendo a hipótese de que podem 
haver sistemas de diferentes níveis. Há o sistema da mente humana, 
descrito pelas Ciências Cognitivas e há o sistema da mente de grupo, 
semelhante aos casos de cognição socialmente distribuída descritos por 
Hutchins 
e 
Theiner. 
Para 
ilustrar 
melhor 
essa 
estratégia 
argumentativa, Hubner faz referência a caracterização do sistema 
cognitivo humano proposta por Marvin Minsky (1988), onde: 
(...) explicações psicológicas fornecem uma estrutura hierárquica de 
decomposições mecanicistas, oferecendo explicações psicológicas efetivas e 
ontologicamente inocentes ao postular sucessivos níveis de homúnculos 
mais "estúpidos" até que a hierarquia inevitavelmente chegue ao fundo, em 
homúnculos tão estúpidos que eles poderiam ser implementados por botões 
de liga/desliga (ou seus equivalentes). O funcionalista homuncular trata 
mentes individuais como "sociedades" de agentes, organizados em 
hierarquias corporativas, onde cada homúnculo desempenha apenas um 
conjunto limitado de tarefas computacionais (Hubner, 2014, p. 64-65, 
tradução nossa). 
Hubner propõe inverter a lógica dessa alegoria. Ao invés de uma 
sociedade de agentes originar uma mente individual, ele tenta defender 
que um conjunto de indivíduos (com mentes) pode conferir a uma 
hierarquia corporativa uma mente. Assim, adotando as estratégias 
explicativas das teorias das Ciências Cognitivas, Hubner pretende abrir

## Page 249

248  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
a possibilidade para identificar quando estados e processos mentais 
coletivos emergem: quando são o resultado da interação de indivíduos 
incorporados em arquiteturas computacionais compostas por agentes 
humanos e ferramentas para comunicação. 
Para esclarecer a importância da decomposição funcional no 
argumento geral de Hubner, precisamos voltar aos modelos de explicação 
funcionalista, como aqueles apresentados na seção 3. Novamente, vamos 
partir da aplicação de modelos de explicação funcionalista para casos 
mais simples do que a explicação da mente. Para entendermos um 
sistema como um motor de combustão, devemos identificar seus 
componentes. Um deles é o carburador, um componente responsável pelo 
controle da mistura de combustível e ar dentro do motor. Sem uma teoria 
prévia do que é um carburador, uma noção dessa função desempenhada 
por um carburador em um motor, teríamos muita dificuldade em 
identificar um carburador em um motor específico. Essa teoria prévia (i.e. 
perfil funcional) sobre carburadores deveria ser suficientemente estável 
e projetável para que pudéssemos identificar carburadores em outros 
modelos de motores de combustão que, possivelmente, poderiam ser 
construídos de várias maneiras distintas.  
Hubner acredita que a explicação da mente procede de modo 
análogo a esse exemplo sobre motores de combustão. Psicólogos e 
cientistas cognitivos estão interessados em um tipo de sistema 
específico, tipicamente um indivíduo humano. Mais precisamente, 
esses pesquisadores estão interessados em descobrir os mecanismos 
(componentes) que explicam os padrões de comportamento desse tipo 
de sistema específico. Para isso, eles precisam de teorias sobre os 
componentes do sistema, como crenças, desejos e intenções, para 
identificar onde estão esses componentes dentro do sistema.

## Page 250

Luiz Paulo Da Cas Cichoski  •  249 
Aqui, Hubner segue a tese da postura intencional de Daniel Dennett 
(1987). A postura intencional é a maneira como procedemos para explicar 
e predizer o comportamento de uma entidade que consideramos ser um 
agente racional. Ela se assemelha a nossa prática cotidiana de atribuição 
de crenças, desejos e intenções a outros seres humanos à nossa volta. Seres 
humanos são exemplos paradigmáticos de agentes racionais. Eles agem 
racionalmente em virtude de seguirem um padrão normativo de razões. 
Esse padrão normativo é uma espécie de ponto de vista racional 
constituído de crenças, desejos, intenções, etc., que nos permite identificar 
quais são as razões pelas quais o indivíduo age da maneira como age. 
Somos relativamente bem-sucedidos nessa tarefa, pois também somos 
agentes racionais, ou seja, compartilhamos com outros agentes racionais 
um padrão normativo que guia nossos comportamentos.  
Utilizando a postura intencional e, portanto, caracterizando o que 
são crenças, desejos e intenções (por meio de seus perfis funcionais, pelo 
modo como esses elementos guiam o comportamento do sistema), os 
cientistas cognitivos passam a descobrir os mecanismos que produzem os 
comportamentos flexíveis, habilidosos e orientados a objetivos 
característicos de um sistema como um indivíduo humano, i.e. realizam 
a decomposição funcional desse tipo de componente do sistema. A 
investigação sobre esses mecanismos (seja o carburador em um motor de 
combustão, sejam crenças e desejos em um indivíduo humano) pode 
explicar como um sistema faz aquilo que ele faz. Adotando a perspectiva 
conexionista das Ciências Cognitivas, os componentes de um sistema 
como um indivíduo humano são mecanismos subpessoais que operam 
processos computacionais e algorítmicos organizados em uma 
arquitetura 
característica. 
Esses 
mecanismos 
subpessoais 
computacionais revelam o que está por trás das nossas atribuições de 
crenças, desejos e intenções, das nossas atribuições baseadas na postura

## Page 251

250  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
intencional, identificando quais são os realizadores físicos desses estados 
mentais que explicam, a partir de uma perspectiva mecanicista causal, o 
comportamento padrão do sistema sob investigação.  
Essa descrição do modelo de explicação da Psicologia e das Ciências 
Cognitivas pode dar a entender que a proposta de Hubner é redutiva, 
privilegiando a identificação das estruturas internas causais na 
produção (e explicação) de comportamentos flexíveis, habilidosos e 
orientados a objetivos, isto é, de comportamentos inteligentes de seres 
humanos. Hubner reconhece o papel de destaque que esses mecanismos 
têm em uma explicação naturalista, ancorada em pressupostos das 
Ciências Cognitivas. A ausência de uma descrição dos componentes do 
sistema impede que entendamos como ele se comporta e não teremos 
elementos para defender que esse sistema instancia processos 
cognitivos e, consequentemente, que ele tenha uma mente.  
Entretanto, esses pressupostos não eliminam a possibilidade de 
que a proposta de Hubner incorpore propriedades emergentes. 
Sistemas cognitivos manifestam propriedades que não são instanciadas 
por seus componentes e que emergem por conta da forma como esses 
mecanismos estão organizados no interior do sistema. As propriedades 
emergentes são relevantes na medida em que explicam determinados 
comportamentos do sistema que não podem ser apreendidos pela 
análise isolada da operação dos componentes do sistema, por uma mera 
decomposição funcional que respeita os critérios de Wimsatt, por 
exemplo (Bechtel; Richardson, 1993; Bechtel; Abrahamsen, 2002). Desta 
forma, essa proposta de explicação para fenômenos psicológicos 
envolve uma espécie de equilíbrio reflexivo, onde se faz necessário um 
movimento de vai e vem entre a articulação das funções que os 
componentes do sistema têm (i.e. seus perfis funcionais) e as 
explicações mecanicistas-causais da operação desses componentes.

## Page 252

Luiz Paulo Da Cas Cichoski  •  251 
Assim, há uma importância não negligenciável para o uso da postura 
intencional (nossas teorias sobre crenças, desejos, intenções, etc.) no 
desenvolvimento de uma explicação adequada do comportamento de 
um sistema cognitivo (como também havia uma importância para a 
adoção prévia de uma teoria sobre carburadores para compreender um 
motor de combustão). 
Hubner defende esse modelo explicativo a partir de um argumento 
de Dennett (1987), onde:  
(...) até mesmo um marciano laplaciano, que pode prever o movimento de 
todas as partículas físicas do universo, não perceberia padrões 
perfeitamente objetivos se não adotasse a postura intencional como base 
para explicações psicológicas. [Dennett] arma que tais marcianos não 
seriam capazes de ver o número indenido de padrões únicos de 
movimentos físicos que poderiam ser substituídos sem a perturbação do 
comportamento direcionado a um objetivo. (...) Ao nível físico, esses estados 
são heterogêneos, então eles não poderiam ser classicados como 
pertencendo ao mesmo tipo particular, exceto por meio de uma explicação 
psicológica. (Hubner, 2014, p. 94, tradução nossa) 
Um papel determinante que a postura intencional desempenha no 
desenvolvimento de explicações psicológicas é a acomodação da 
múltipla realizabilidade de estados mentais. A definição do perfil 
funcional desses estados, a descrição do papel que eles desempenham 
no sistema, é importante para a localização dos seus realizadores, dos 
mecanismos físicos específicos que são ativados em uma instanciação 
particular desses estados, que podem ser completamente diferentes em 
entidades diferentes. Hubner (2014, p. 64, tradução nossa) nos apresenta 
outra forma de compreender a relação entre esses dois níveis de 
explicação necessários para a caracterização de um sistema cognitivo: 
Ao adotar a postura intencional, nós tratamos estados mentais como objetos 
abstratos que são individuados por suas propriedades intencionais e 
funcionais. Postular tal abstracta nos permite decompor as capacidades

## Page 253

252  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
cognitivas em complexos de mecanismos intencionalmente especicados, 
os quais podem explicar a presença de uma capacidade comportamental ou 
cognitiva.  
É essa noção geral de que a mente é caracterizada por uma 
arquitetura de um sistema composta por muitas unidades 
computacionais 
de 
processamento 
de 
informação 
altamente 
especializadas capaz de produzir um comportamentos flexíveis, 
habilidosos e orientados a objetivos que abre a possibilidade para a 
existência de mentes de grupos. Grupos poderão se enquadrar enquanto 
sistemas cognitivos se também apresentarem essa arquitetura, isto é, 
se eles exibirem uma variedade de comportamentos que sejam 
apropriadamente caracterizados como intencionais e que sejam 
gerados por um sistema computacional integrado.  
Essa arquitetura pode ser distinta daquela presente em seres 
humanos individuais, isto é, ela não precisa ser, necessariamente, 
composta de neurônios e outras entidades hidrocarbonadas 
características de um sistema cognitivo orgânico. Para ser um sistema 
cognitivo, basta que um grupo exiba um comportamento coletivo 
complexo que seja explicado a partir de propriedades emergentes de um 
sistema computacional integrado. Muito possivelmente, a descrição 
desse tipo de arquitetura dará ênfaze a seres humanos individuais e 
aparatos tecnológicos como seus componentes, esses serão os 
realizadores, os mecanismos físicos específicos ativados na 
instanciação de estados cognitivos de grupos. Sintetizando, Hubner 
(2014, p. 96, tradução nossa) destaca os seguintes itens para a 
identificação de uma mente em um grupo:  
1) Especicação dos tipos de informações aos quais uma coletividade é 
sensível;

## Page 254

Luiz Paulo Da Cas Cichoski  •  253 
2) Decomposição funcional dos estados cognitivos que a coletividade é capaz 
de ter e dos processos cognitivos que ela é capaz de executar; e  
3) Descrição dos procedimentos computacionais que implementam esses 
estados e processos mentais.  
É importante destacar que a proposta de Hubner segue parte do 
caminho funcionalista baseado na postura intencional, de forma muito 
similar às propostas discutidas na seção 3, ou seja, parte da identificação 
de que o comportamento de (alguns) grupos exibe o nível de 
racionalidade característico de um agente. Entretanto, Hubner 
considera as propostas interpretativistas insuficientes. Não podemos 
ficar restritos à postura intencional, é fundamental abrir a caixa preta 
e identificar quais são os mecanismos que operam os processamentos 
computacionais necessários para a atribuição de mente a um sistema, 
isto é, os mecanismos causais que explicam a produção de 
comportamentos flexíveis e habilidosos por parte de um grupo (ver 
também Strohmaier [2020]).  
Conclusão 
Neste texto apresentei uma visão geral de propostas que podem ser 
utilizadas na defesa da tese da mente de grupos. O objetivo central foi 
bastante modesto, apenas mostrar que a tese da mente de grupos é 
compatível com muitas teorias contemporâneas sobre a natureza da 
mente sendo discutidas na Filosofia. Importante notar que o recorte da 
discussão aqui apresentado é bastante positivo. A ausência de posições 
críticas evidencia que essa apresentação é bastante parcial (talvez a 
posição crítica mais direta seja Rupert [2011, 2014, 2019]. Acredito que, 
de modo geral, alguém contrário à tese toma sua negação como 
pressuposto plausível, julgando desnecessária uma argumentação 
contrária e por isso não há tantas obras focadas na refutação da tese).

## Page 255

254  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
Destaco que algumas respostas aos argumentos Fisicalista e da 
Consciência, apresentados na seção 2, aparecem ao longo do texto. O 
elemento central de defesa contra esses dois ataques está ancorado na 
adoção de uma posição funcionalista sobre a natureza da mente. De 
modo muito direto, o funcionalismo rejeita o pressuposto central do 
argumento Fisicalista (“A mente depende do cérebro”) que preserva a 
intuição de que a mente estaria necessariamente relacionada com 
algum tipo específico de constituição material. De modo um pouco mais 
indireto, o funcionalismo também levanta dúvidas sobre o pressuposto 
central do argumento da Consciência (“A mente depende da 
consciência”). Em grande medida por conta do funcionalismo, a 
Filosofia da Mente começa a considerar a distinção entre consciência de 
acesso e consciência fenomênica (Block, 1995). A segunda é nossa noção 
intuitiva de consciência, caracterizada pela rica experiência qualitativa 
tão distintiva do contato que temos com nossas próprias mentes. A 
consciência de acesso contemplaria a disponibilidade de certos estados 
em guiar a fala e a ação, caracterizada, portanto, por um perfil 
funcional. Com certeza, o argumento da Consciência diz respeito à 
consciência fenomênica, entretanto, a possibilidade de que exista outro 
tipo de consciência é o que traz alguma dúvida sobre se o grau de 
restrição imposto pelo pressuposto de que “A mente depende da 
consciência [fenomênica]” é adequado.  
Além do funcionalismo, outra característica muito saliente das 
defesas da tese da mente de grupo é a identificação de propriedades 
próprias do nível coletivo (sejam elas emergentes, supervenientes ou 
realizadas, a relação metafísica entre os níveis não é consensual na 
literatura). A identificação desse tipo de propriedade se configura como 
uma das principais evidências a favor de uma posição realista sobre 
mente de grupos (ou, ao menos, uma legitimidade para o campo de

## Page 256

Luiz Paulo Da Cas Cichoski  •  255 
investigação, seguindo o argumento a favor das ciências especiais de 
Fodor [1974]). Apesar de recorrente, nem todas as estratégias abraçam 
essa visão estratificada da realidade. Um exemplo de alternativa não-
emergentista, que não pôde ser explorado aqui, é o pampsiquismo. Essa 
consideração é relevante, pois evidencia que as diferentes defesas da 
tese da mente de grupos podem não ser compatíveis entre si e que 
diferentes teorias sobre a natureza da mente podem acarretar em 
diferentes teorias sobre a realidade social.21  
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21 Gostaria de agradecer ao Anderson Fonseca pelo convite em participar da obra, inclusive das 
atividades de organização do volume, fico muito contente de compartilhar o feito de trazer a público 
essa relevante produção. 
Também agradeço à Adriana Oliveira Alves pela revisão da versão preliminar deste texto. Suas sugestões 
foram muito importantes para tornar esse difícil texto um pouco mais compreensível.

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256  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
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## Page 262

8 
MENTES DE GRUPOS E TIPOS NATURAIS 1 2 3 
Robert Rupert 
Tradução: Anderson Fonseca, Jeferson 
Diello Huffermann, Luiz Paulo Cichoski 
1. Introdução 
Este ensaio aborda a questão da possibilidade de que grupos de 
humanos individuais - por exemplo, tribunais, corporações e sindicatos 
- tenham estados mentais próprios, para além dos estados mentais de 
seus membros. Minha orientação metodológica será naturalista e, 
portanto, eu tratarei o assunto como uma questão de Filosofia da 
Ciência, especialmente dentro da Filosofia das Ciências Cognitivas.4 
 
1 Tradução do texto: RUPERT, Robert. Group minds and Natural Kinds. AVANT, Bydgoszcz, v. X, n. 3, p. 1-
28, 2019; DOI: 10.26913/avant.2019.03.08. Agradecemos ao autor e aos editores da revista pela 
autorização da publicação desta tradução. (N.T.) 
2 Essa publicação da revista AVANT foi financiada pelo Ministério de Ciência e Educação Superior (da 
Polônia) a partir dos recursos para a disseminação de pesquisa (DUN) no âmbito de atividades de 
publicação, contrato nº 711/P-DUN/2019, período de implementação: 2019-2020. 
3 Este artigo é derivado de um manuscrito que previamente circulou nomeado “Indivíduos como mentes 
de grupos, mentes de grupos como indivíduos”. Porções significativas desse material foram 
apresentadas na Universidade Macquarie, Universidade de Auckland, Universidade de Edimburgo, 
Universidade Bochum Ruhr, Collective Intentionality IX na Universidade de Indiana, Avant: Trends in 
Interdisciplinary Studies III em Lublin, Universidade Johns Hopkins, Universidade Humboldt e no Grupo 
de Discussão em Filosofia da Mente da Universidade de Nova York. Muito obrigado aos vários membros 
da audiência e participantes de grupos por seus comentários. Agradecimentos especiais a Georg 
Theiner.  
4 Uma vasta literatura sobre mente de grupo foi conduzida predominantemente por reflexões sobre 
formas ordinárias de atribuição de estados mentais. Por exemplo, ao descrever seus pressupostos 
metodológicos, Margaret Gilbert (2003) diz, “É suficiente dizer que minhas próprias tendências seguem 
o discurso cotidiano, da forma como eu o entendo. Se tal-e-tal fenômeno é referido como sendo, séria 
e literalmente, uma crença, é difícil argumentar que ele, afinal de contas, não seja uma crença como 
ordinariamente compreendida.” (p. 103). Eu vou deixar essa literatura de lado. Eu gostaria de saber se 
grupos realmente têm estados cognitivos próprios e, para minha mente, isso requer a compreensão do 
trabalho científico sobre cognição, em grande medida desconsiderando aquilo que o leigo tende a 
pensar sobre questões relativas ao mental e ao cognitivo (reconhecendo, no entanto, que os padrões 
de uso ordinários podem, no fim das contas, ajudar a determinar, não exatamente onde as juntas da 
natureza estão, mas como rotular as categorias que forem obtidas - veja Stich, 1996, cap. 1). Por razões 
similares, eu deixo de lado investigações empíricas sobre as tendências ordinárias na atribuição de

## Page 263

262  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
Desta forma, eu me concentrarei em questões como “Em virtude do que 
um estado ou processo é cognitivo?” e “Quais tipos de evidência 
sustentam a afirmação de que grupos têm estados cognitivos ou 
envolvem-se em processamento cognitivo?” A respeito da última 
questão, eu terei interesse particular em casos nos quais o 
processamento do grupo difere significativamente do processamento 
de humanos individuais, perguntando qual igualdade (sameness) de tipo 
- ou, alternativamente, quais tipos de evidências sustentam a afirmação 
de igualdade de tipo - diante de tais diferenças.  
Certas correntes das Ciências Cognitivas e das Ciências Sociais 
enquadram a discussão. Ao longo das últimas três décadas, ficou cada 
vez mais claro que coleções de processos distribuídos produzem uma 
porção substancial dos comportamentos humanos inteligentes 
(Dennett, 1991; Brooks, 1999; Gendler, 2008; Evans; Frankish, 2009; 
Clark, 1997). Durante aproximadamente o mesmo período, um número 
crescente de pesquisadores trabalhando nas Ciências Cognitivas e nas 
Ciências Sociais, assim como na Filosofia da Mente empiricamente 
orientada, têm argumentado que alguns grupos de humanos individuais 
têm estados mentais ou cognitivos próprios (Huebner, 2013; Hutchins, 
1995; Goldstone; Gureckis, 2009; Goldstone; Theiner, 2017; Theiner; 
O’Connor, 2010; Barnier et al., 2008; List; Pettit, 2011; Schwitzgebel, 
2015). Essa não parece ser uma coincidência, o reconhecimento da 
natureza descentralizada do processamento cognitivo humano dá um 
ar de maior plausibilidade para a tese de que tais entidades distribuídas 
 
estados psicológicos a grupos (Knobe; Prinz, 2008; Systma; Machery, 2009, 2010; Arico, 2010, Hubner et 
al., 2010). Note, também, que uma imagem naturalista completa deve levar em consideração resultados 
das Ciências Sociais, pois a questão que temos em mãos se divide em dois componentes centrais: “O 
que é cognição?” e “Grupos têm estados cognitivos ou envolvem-se em processamento cognitivo?” 
Aqui eu me concentrarei na primeira questão e, portanto, minha ênfase será na Filosofia das Ciências 
Cognitivas e não na Filosofia das Ciências Sociais.

## Page 264

Robert Rupert  •  263 
como tribunais, corporações e sociedades possam ter estados cognitivos 
genuínos. De fato, alguns autores discutem as duas questões 
explicitamente em paralelo (Hutchins, 1995; Wilson, 2004; Tollefsen, 
2006; Theiner; Allen; Goldstone, 2010). 
A questão que naturalmente surge diante disso é se essas duas linhas 
de pesquisa - sobre a cognição distribuída nos humanos individuais, de 
um lado, e sobre processos de grupos, de outro lado - investigam os 
mesmos tipos naturais, estados, propriedades ou processos5, como por 
exemplo crenças, memória e cognição. Se grupos parecem ter memórias 
próprias, seriam esses estados do mesmo tipo natural que os estados de 
humanos individuais aos quais nos referimos como “memórias”? O que 
significa haver tanto um tipo abrangente de memória como também uma 
espécie particular dela? Se há cognição de nível do grupo, será ela o 
mesmo tipo de cognição com a qual humanos individuais se envolvem? E, 
alguém poderia se perguntar, o que significaria haver espécies diferentes 
no gênero cognição? Quão profundas são as relações de igualdade de tipo 
entre os casos individuais e de grupo e como alguém deve proceder ao 
tentar determinar essas igualdades?  
Aqui está uma prévia do que vem a seguir. Na Seção 2, eu examino 
dois argumentos a favor do realismo sobre estados de grupos. Eu 
considero ambas linhas de raciocínio inconclusivas, em grande medida 
porque elas se desenvolvem sem uma abordagem sobre igualdade de tipo 
natural e, portanto, deixam a questão central não respondida. Na Seção 3, 
eu articulo uma abordagem do tipo de evidência que poderia sustentar 
afirmações de igualdade (ou diferença) de tipos naturais (incluindo, de 
modo mais significativo, tipos finos (thin), genéricos ou superordenados) 
 
5 Para os presentes propósitos, usarei esses termos intercambiavelmente, todos eles fornecem uma 
maneira de se referir às juntas da natureza que as ciências tentam identificar.

## Page 265

264  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
entre casos. Em outro lugar eu chamei isso de abordagem de “ajuste e 
extensão” (“tweak-and-extend”) (Rupert, 2013). Para aplicar o teste do 
ajuste e extensão, devemos ter em mãos modelos dos dados que devem 
ser explicados pelas instâncias hipotetizadas do tipo em questão. 
Portanto, na Seção 4, eu apresento o que eu acredito que seja o melhor 
modelo do tipo genérico de cognição, ao menos da forma como ela aparece 
em casos humanos. Se essa teoria sobre cognição estiver correta, ela 
remove uma barreira potencial para cognição genuína de nível de grupo; 
pois, essa teoria permite que um indivíduo com estados cognitivos seja 
descentralizado. A seção 5 dá continuidade a essa ideia, a partir do 
material apresentado nas Seções 3 e 4 e desenvolve uma versão mais 
definitiva da proposta de que grupos têm estados cognitivos que são de 
um tipo diferente de cognição daquela dos humanos individuais. A Seção 
6 considera objeções e conclui com uma nota pessimista.  
2. Realismo, redução e similaridade funcional 
Uma teoria é realista com respeito a cognição de grupo se e 
somente se, de acordo com essa teoria, (a) em um número significativo 
de casos, um grupo de humanos, enquanto uma entidade singular, têm 
estados cognitivos próprios e (b) tais estados são do mesmo tipo 
relevante, qua estados cognitivos, que os estados de humanos 
individuais. O tipo de realismo que tenho em mente não repousa em 
equivocação, metáfora, atribuição “como se” ou o uso de homógrafos ou 
termos de tipo “meramente nominais”. O aspecto radical dessa teoria 
surge a partir de seu realismo audacioso sobre muitos grupos concretos: 
quando a sentença “A Inglaterra acredita que sair da União Europeia 
será vantajoso” é verdadeiramente asserida, de acordo com o realista 
essa sentença se torna verdadeira por um estado de uma entidade

## Page 266

Robert Rupert  •  265 
singular, a saber, o Reino Unido ter uma crença particular do mesmo 
tipo natural que as crenças mantidas por humanos individuais (seja a 
favor ou contra o Brexit ou a respeito de qualquer outro assunto).  
Na presente seção, examino dois argumentos a favor do realismo. 
O primeiro tem um sabor de argumento anti-reducionista (no entanto, 
veja a Seção 6 para ressalvas sobre essa caracterização). O segundo foca 
na similaridade (similarity) do processamento cognitivo em grupos com 
o processamento cognitivo em humanos individuais. Nenhum 
argumento é claramente bem sucedido, ou assim argumentarei. 
Discussões sobre os pontos fracos dos argumentos põe em evidência o 
potencial de julgamento de uma abordagem sobre a relação de ser do 
mesmo tipo natural que.  
2.1 Argumentos baseados em princípios naturalistas de compromisso 
ontológico 
O primeiro argumento aparece em um artigo recente de Christian 
List (2018) que se concentra predominantemente na possibilidade de 
uma consciência fenomênica de grupo, um tópico que deixarei de lado 
aqui. Como uma maneira de enquadrar a discussão, List resume aquilo 
que toma como sendo o argumento mais forte a favor do realismo sobre 
cognição de grupo6, um argumento que ele ajudou a desenvolver em 
uma série de publicações anteriores, talvez mais notavelmente em um 
livro escrito em coautoria com Philip Pettit (List; Pettit, 2011): 
Premissa 1: Nossas melhores teorias cientíco-sociais de certos fenômenos 
sociais - por exemplo, nossas melhores teorias sobre o comportamento das 
rmas no mercado - atribuem agência baseada em crenças e desejos do tipo 
funcionalista para (alguns dos) os coletivos envolvidos, frequentemente os 
representando como agentes no sentido das teorias dos jogos e da decisão.  
 
6 List é um realista sobre cognição de grupo, mas não sobre consciência fenomênica de grupo.

## Page 267

266  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
Conclusão intermediária: De acordo com uma denição naturalista do 
compromisso ontológico, essas teorias são, portanto, comprometidas 
ontologicamente com grupos agentes. 
Premissa 2: Nós devemos, ao menos falivelmente, aceitar os compromissos 
ontológicos de nossas melhores teorias cientícas em qualquer domínio. 
Conclusão: Nós devemos, ao menos falivelmente, aceitar o compromisso das 
nossas melhores teorias cientíco-sociais sobre grupos agentes. (List, 2018, 
p. 298). 
Para tornar mais claro, aceitar esses compromissos à primeira 
vista, compromete alguém, ao menos provisoriamente, com a existência 
de grupos agentes genuínos os quais têm suas próprias crenças e desejos 
(ou julgamentos e preferências, como é frequentemente colocado em 
List e Pettit [2011]).7 
Dada a referência de List a teorias científico-sociais e seu apelo ao 
princípio naturalista do compromisso ontológico, o leitor pode assumir 
com segurança que ele tem em mente tipos naturais ou cientificamente 
respeitáveis. Se a Premissa 1 for verdadeira e o sucesso da teoria é genuíno, 
então os tipos em questão são, de fato, cientificamente respeitáveis. (Em 
alguns casos, nossos melhores modelos não são muito bem-sucedidos; 
mas no presente contexto, a caridade exige que entendamos que a melhor 
teoria implica que ela é, pelo menos, moderadamente bem-sucedida - o 
bastante para autorizar o compromisso ontológico).  
 
7 Isso representa apenas um dos dois argumentos realistas desenvolvidos por List e Pettit - o argumento 
da ciência social positiva (List; Pettit, 2011, p. 10). List e Pettit também constroem um caso normativo a 
favor do realismo que se baseia em intuições como a de que toda ação boa ou má requer um rateio 
apropriado de uma quantidade correspondente de elogio ou culpa; da forma como List e Pettit veem 
as coisas, em alguns casos, a culpa ou elogio apropriadamente distribuído entre os membros individuais 
de um grupo não totalizam uma quantidade suficiente dada a natureza do ato em questão e, portanto, 
um grupo agente existe como uma coisa que deve ser responsabilizada e recebe o restante de elogio 
ou da culpa (p. 166). Tais intuições normativas parecem claramente fora de lugar no presente contexto, 
cujo tema é, grosso modo, “o que as Ciências Cognitivas nos dizem sobre o realismo”, pois tais intuições 
não têm força probatória nas Ciências Cognitivas, em vez disso, elas existem apenas como fenômenos, 
isto é, como dados; a produção dos quais deve ser modelada usando as ferramentas padrão das Ciências 
Cognitivas; e não há razão para pensar que os melhores modelos disponíveis nas Ciências Cognitivas 
para a produção de tais intuições incluirão fatos normativos (no sentido filosófico) como elementos.

## Page 268

Robert Rupert  •  267 
Uma preocupação central no presente contexto é a questão de se 
crenças e desejos como caracterizados pelas teorias científico-sociais 
em questão são os mesmos tipos-de-estados cientificamente 
respeitáveis que os tipos-de-estados em que humanos tipicamente 
estão quando eles têm aquilo que é comumente chamado de “crenças” 
ou “desejos”. Não está garantido que todas as aplicações de “crença” e 
“desejo” refiram ao mesmo tipo natural, assim como as aplicações de 
“jade” não estão (Putnam, 1975). Considere que grupos típicos e 
humanos individuais típicos diferem enormemente em aspectos que 
são, ao menos à primeira vista, psicologicamente relevantes. Tome, por 
exemplo, questões que dizem respeito à vida doméstica e interações 
interpessoais. Grupos não postam perfis de namoro em sites da Web e 
não combinam encontros para tomar um café ou um drinque. Grupos 
não colocam seus filhos para dormir, assegurando-se de trocar as 
fraldas de seus grupos-bebês antes disso. Humanos individuais têm 
padrões característicos de desenvolvimento e experiências que grupos 
não têm, por exemplo, a experiência de aprender uma música sobre o 
alfabeto de sua primeira língua ou de passar a entender aspectos de 
dinâmicas de grupo ao participar de atividades esportivas organizadas. 
E assim por diante, ao longo de uma grande variedade de assuntos 
humanos. Não seria surpreendente, portanto, descobrir que os estados 
cognitivos operantes na produção de uma vida distintivamente humana 
sejam de um tipo diferente dos estados do nível de grupo que produzem, 
por exemplo, decisões de tribunais, mesmo que esses estados sejam 
algumas vezes chamados de “crenças” e “desejos” e mesmo que eles 
desempenham um papel explanatório-causal importante nas Ciências 
Sociais, não sendo de forma alguma desinteressantes.8  
 
8 O ponto aqui é que estados de grupo podem ser de enorme interesse científico e filosófico mesmo se 
grupos não tenham estados cognitivos ou psicológicos - ou, sendo mais cauteloso, não tenham estados

## Page 269

268  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
Como essa questão deve ser resolvida? Uma abordagem 
convincente a respeito das igualdades e diferenças dos tipos naturais - 
ou do tipo de evidência que alguém deve ter para a igualdade ou 
diferença de dois membros de um tipo natural - forneceria um caminho 
promissor. Esse será o tema da Seção 3, abaixo.  
Para ser justo, no entanto, List pode considerar que a questão sobre 
a igualdade do tipo tenha sido respondida. Afinal de contas, List e Petit 
se esforçam para afirmar e explicar uma teoria sobre o que é ser um 
agente: uma entidade é um agente se e somente se ela tem estados 
representacionais, estados motivacionais e a habilidade de combiná-los 
de maneiras apropriadas para agir sobre seu ambiente (List; Pettit, 2011, 
p. 20). Essencialmente, isso quer dizer que algo é um agente se e 
somente se ele tem uma psicologia de crenças e desejos, comportando-
se de uma forma que obedece, e pode ser prevista e explicada pela, a 
aplicação do silogismo prático.  
No entanto, isso é muito esquemático para ser satisfatório. Essa 
proposta explora a familiaridade que o leitor tem com a psicologia 
popular, isto é, com nossas valiosas práticas explicativas cotidianas na 
nossa interação com coespecíficos; mas ela não enfrenta as questões 
difíceis sobre a igualdade genuína de tipos naturais. Particularmente, ela 
não estabelece que (a) os tipos da psicologia popular são tipos naturais 
(isto é, se estados representacionais e motivacionais, da forma como são 
concebidos popularmente, aparecem em qualquer teoria científica 
razoavelmente bem-sucedida para autorização de compromisso 
 
do mesmo tipo natural que os estados humanos identificados quando utilizamos termos cognitivos, 
psicológicos ou mentalistas. Eu incluo essa qualificação porque minha preocupação imediata não é a 
de identificar estados cognitivos, mentais ou psicológicos reais, onde ser o item genuíno for pensado 
como que carregando algum tipo de privilégio ou estatuto normativo, somente na afirmação do realista 
é que os estados de interesse são do mesmo tipo entre os casos humanos e de grupo.

## Page 270

Robert Rupert  •  269 
ontológico)9 ou (b) que os estados mencionados na Premissa 1 de List são 
do mesmo tipo que a espécie de estados populares confirmados pelas 
Ciências Cognitivas (ou são do mesmo tipo que os estados que as Ciências 
Cognitivas atribuem no lugar dos tipos-de-estados da psicologia popular). 
As Ciências Cognitivas produziram teorias sobre estados motivacionais e 
representacionais, mas, geralmente, elas caracterizam estados, processos 
e mecanismos que provavelmente não aparecem em grupos e, portanto, 
o sucesso dessas teorias dificilmente mostra que uma propriedade fina 
(thin) como ser um estado motivacional desempenha uma papel 
explanatório-causal robusto.  
Permita-me abordar essa questão por outro ângulo. List e Pettit 
configuram suas discussões sobre tipos-de-estados em um contexto 
teórico, um contexto indicado pela Premissa 1 de List. Eles são 
funcionalistas sobre estados mentais (Putnam, 1967; Lewis, 1980; 
Shoemaker, 1981). List e Pettit não podem ser criticados por isso; a 
abordagem funcionalista para tipos-de-estados mentais é a posição 
predominante na Filosofia da Mente. Entretanto, essa perspectiva 
funcionalista fornece também uma estrutura perspícua dentro da qual 
podemos identificar a lacuna no argumento de List.  
Na teoria funcionalista, ser um dado tipo de estado mental é ser um 
estado que desempenha um papel causal-funcional distintivo na 
economia total de estados de um sujeito fazendo a mediação entre inputs 
e outputs. Para pertencer a espécie de tipos-de-estados que um humano 
instancia é necessário ser um estado que ocupa o mesmo lugar que aquele 
ocupado pelo estado humano correspondente em um construto interno 
massivamente interconectado, envolvendo esperança, percepção, medo, 
 
9 Reconheço (ainda que permaneça cético sobre) as razões de Fodor para pensar que a psicologia 
computacional reivindica uma versão ontologicamente robusta da teorização da psicologia popular 
(Fodor, 1987, cap. 1; cf. Churchland, 1981).

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270  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
memória, sonho, inferência, etc. (ou seus descendentes nas Ciências 
Cognitivas). Quão detalhada deve ser essa rede é uma questão controversa 
(Block, 1978), mas esse tanto é claro: List deve identificar uma concepção 
funcionalista de crença e desejo suficientemente refinada para que os 
estados em questão desempenhem um papel explanatório-causal 
significativo (ou apareçam como elementos não estranhos em nossos 
melhores, razoavelmente bem-sucedidos, modelos de comportamento 
humano), mas não refinada demais, de modo que eles claramente não 
seriam possuídos pelos grupos típicos de interesse.10 
Assuma a posição razoável de que as sentenças Ramsey (Lewis, 
1970) para a psicologia humana, da forma como as Ciências Cognitivas 
(e não a psicologia popular) apresentam, contenham certa quantidade 
modesta de detalhes. Então, qual seria a relação entre elas e modelos 
científico-sociais? É extremamente duvidoso que teorias científico-
sociais Ramsificadas - uma teoria sobre organizações políticas ou uma 
teoria sobre organizações jurídicas - tenham algo remotamente 
parecido com a estrutura de uma sentença Ramsey para a psicologia 
humana. Nesse caso, dada a natureza holística da individuação de 
estados funcionalistas, humanos e os grupos em questão não 
compartilham nenhum dos estados relevantes. No mínimo, deveríamos 
requerer uma abordagem positiva sobre a igualdade dos tipos naturais 
- para além de uma comparação rasa de nossas explicações do 
comportamento de grupos com as explicações da psicologia popular em 
termos de crenças e desejos - para sustentar a afirmação realista de que 
os tipos naturais em questão são os mesmos.11  
 
10 Essa linha argumentativa é paralela ao dilema apresentado em Rupert (2004, seções V-VIII) no contexto 
do debate sobre a extensão da mente e da cognição no nível individual (Clark; Chalmers, 1998). 
11 O processo de Ramsificação fornece uma ferramenta formal de esquematização das teorias 
psicológicas. Uma sentença Ramsey faz isso através da amalgamação ou costura de muitos modelos 
fragmentários bem-sucedidos (isto é, modelos de conjuntos de dados específicos ou modelos de

## Page 272

Robert Rupert  •  271 
O que tende a tornar o problema em questão obscuro é a natureza 
fragmentária de muitos modelos influentes das Ciências Sociais que 
interessam a List, incluindo, por exemplo, as estruturas explanatórias 
típicas das teorias dos jogos e da decisão, aquelas discutidas em conexão 
com o Dilema dos Prisioneiros (List; Pettit, 2011, p. 107-108) ou os 
mecanismos para manutenção da consistência geral em decisões do 
nível do grupo quando confrontadas com o Dilema Discursivo (p. 45-46). 
É claro que muitas das estruturas explanatórias empregadas na 
modelagem cognitiva também são meros fragmentos de uma teoria 
psicológica, mas o Santo Graal das Ciências Cognitivas é a construção de 
uma arquitetura (e.g., SOAR, LEABRA, ACT-R ou GPS), dentro de um 
contexto no qual os vários fragmentos se unem de forma coerente como 
partes de um único agente (idealmente autônomo) - onde o analisador 
semântico de linguagem está funcionalmente entrelaçado com os 
mecanismos de reconhecimento de face, e assim por diante. Considere 
a afirmação de que uma empresa pode agir racionalmente no mercado, 
uma afirmação que se baseia em uma certa concepção do que é optimal 
por meio de uma função que relaciona inputs e outputs. Tomada fora do 
contexto de uma Ramsificação da psicologia humana como um todo, 
isso pode parecer refletir a operação dos mesmos tipos de estados que 
estão em operação quando um ser humano individual otimiza sua 
performance com respeito à, digamos, suas finanças domésticas. 
Entretanto, quando configurada dentro do contexto da Ramsificação 
completa da psicologia individual e a Ramsificação completa de uma 
teoria da estrutura corporativa, parece que não haverá mérito na 
 
famílias de conjuntos de dados relacionados). Tipos-de-estados abrangentes - tais como crença - podem 
ser explicitados nos modelos relevantes e, portanto, na sentença Ramsey construída a partir deles; ou 
tais tipos podem ser apenas implicitamente definidos, digamos, por padrões estruturais comuns 
detectáveis em várias partes da sentença Ramsey em questão. De qualquer modo, a questão permanece 
aberta se os tipos, assim definidos, são compartilhados por grupos e humanos individuais.

## Page 273

272  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
afirmação da igualdade de tipo, dado que a sobreposição entre 
estruturas provavelmente será muito pequena e fragmentária. A 
explicação particular do nível de grupo em questão depende de uma 
coleção de estados em interação; cujo comportamento pode 
corresponder a uma pequena coleção de estados da Ramsificação da 
psicologia humana e, mesmo assim, somente dentro de um faixa 
extremamente limitada. A correspondência de um pequeno fragmento 
ao longo de uma faixa extremamente limitada de casos dificilmente será 
uma base para afirmar a igualdade de tipo natural - ao menos não o será 
se alguém assumir, como List o faz, uma concepção funcionalista dos 
estados mentais. Qualquer um que tente avaliar o argumento de List 
deveria querer, no mínimo, uma abordagem mais explícita do tipo de 
evidência que sustentaria a sua afirmação de igualdade dos tipos 
naturais entre indivíduos e grupos (isto é, do tipo de evidência que 
sustentaria a afirmação de que os vários usos de “crença”, etc. em 
questão referem ao mesmo tipo natural nos casos de humanos e de 
grupos) e uma aplicação desse critério à questão em pauta.12  
 
12 List e Pettit não se concentram exclusivamente em estados individuais de agentes, tais como crenças 
e desejos. Eles frequentemente enfatizam propriedades da psicologia do agente como um todo, tais 
como a consistência e coerência ao longo do tempo. Eles argumentam que para construirmos 
instituições de nível do grupo que sirvam aos nossos interesses, nós devemos estruturar 
cuidadosamente essas instituições - por meio da codificação do uso de certos métodos de agregação 
de julgamentos e preferências de indivíduos humanos - de uma forma a dotar grupos com tais 
propriedades como consistência, coerência, completude (onde ser completo é ser tal que, para qualquer 
proposição relevante, o grupo a endossa ou endossa a sua negação; List; Pettit, 2011, p. 53), a ideia, em 
parte, é que tais propriedades devem ser satisfeitas por grupos para que uma psicologia de crença e 
desejo seja proficuamente aplicável a eles. 
No entanto, List e Pettit fazem muito pouco para sustentar a afirmação de que as propriedades em 
questão são, de fato, possuídas por humanos individuais. Eles apelam para concepções intuitivas dos 
papéis que tais propriedades desempenham na psicologia humana e para afirmações sobre como nós 
gostaríamos que nossas instituições funcionassem, sem argumentar que as propriedades globais que 
poderemos criar nos grupos são do mesmo tipo natural que as propriedades globais dos sistemas 
cognitivos de humanos individuais. Ainda que uma concepção vaga de racionalidade provavelmente 
possa ser aplicada para humanos e para certos grupos, a questão permanece aberta sobre o quão fino 
é o tipo compartilhado em questão e se um tipo tão fino desempenha qualquer trabalho explanatório-
causal.

## Page 274

Robert Rupert  •  273 
2.2 Argumentos baseados na similaridade 
Muitos autores argumentaram a favor do realismo de mente de 
grupos fazendo comparações diretas com casos de humanos 
individuais. Foi afirmado que o processamento de nível de grupo 
envolve a complexa transformação computacional de representações 
(Hutchins, 1995) que amplamente é tida como a base da cognição 
humana ou que esse processamento inclui a operação de algoritmos ou 
mecanismos - tais como inibição lateral (Goldstone; Theiner, 2017) - que 
desempenha um papel significativo em modelos de processamento 
humano. Pareceu a muitos que de tais similaridades se segue que grupos 
têm o mesmo tipo de estados mentais ou cognitivos que humanos. 
(Huebner, 2008, p. 109, 2013; Rovane, 2014, p. 1663; Tollefsen, 2006, p. 
144; Theiner; O’Connor, 2010, p. 89; Theiner et al., 2010, p. 382-383).  
Tais argumentos parecem mais convincentes quando eles apelam 
para similaridades finas entre humanos e grupos, similaridades na 
variedade de propriedades e processos de interesse no estudo científico 
da cognição humana. Se podemos identificar similaridades com respeito 
aos próprios processos, estruturas e tipos que fazem o trabalho 
explanatório-causal nos modelos de dados das Ciências Cognitivas 
envolvendo performance humana inteligente, podemos estar confiantes 
de que encontramos tipos naturais comuns da espécie relevante.  
No entanto, essa é uma tarefa árdua, improvável de ser cumprida. 
Como ilustração, considere a proposta bastante influente de que a 
arquitetura da mente humana contém módulos especializados. Na 
proposta de Fodor (1983), a arquitetura humana consiste em (pelo menos) 
(a) transdutores periféricos, (b) módulos de domínio específico (e.g., 
sistemas sensoriais), (c) uma unidade de processamento central que 
raciocina holisticamente e (d) sistemas de output. Esse é um esquema

## Page 275

274  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
inicial. Mas, certamente, cientistas cognitivos passam a maior parte de 
seu tempo preenchendo detalhes desse esquema arquitetônico. Por 
exemplo, com relação ao sistema de output, foi afirmado que o sistema 
motor humano inclui circuitos emuladores; uma parte de tal circuito 
recebe uma cópia de um comando motor exterior (uma, assim chamada, 
cópia eferente) e executa uma simulação muito rápida que pode, por 
exemplo, predizer se o membro sendo movido pousará onde deve pousar, 
em tempo suficiente para que um comando motor compensatório seja 
enviado, caso o membro pareça não estar na trajetória apropriada (Grush, 
1997). No que diz respeito ao esmiuçamento dos detalhes do 
processamento cognitivo humano, essa é apenas a ponta do iceberg. Na 
medida em que os detalhes aumentam, a ideia de que o processamento de 
grupo possa ter a mesma estrutura do processamento humano - ao 
mesmo nível de refinamento que geralmente interessa ao cientista 
cognitivo - parece inacreditável. Perfis detalhados do funcionamento 
cognitivo humano ocupam milhões de páginas, tomos após tomos, artigo 
após artigo, catalogando os frequentemente excêntricos e altamente 
específicos trabalhos sobre, por exemplo, a memória humana e a visão 
humana. Se alguém se concentrar nessas espécies de estados, processos e 
perfis causais que interessam ao cientista cognitivo, a busca pela 
similaridade parece um beco sem saída.  
Ao mesmo tempo, na medida em que esses detalhes se acumulam, 
começamos a nos incomodar com o chauvinismo de tudo isso; talvez a 
arquitetura humana - com todas as suas formas de processamento 
excêntricas e desajeitadas (kludgy) - seja suficiente para a cognição. Mas, 
será ela necessária? Um grupo precisaria trabalhar exatamente dessa 
forma para ter cognição? Porque não dizer, ao invés disso, que alguns 
grupos têm cognição, mas que ela é de uma espécie diferente da

## Page 276

Robert Rupert  •  275 
cognição humana?13 Para tornar essa ideia convincente, no entanto, será 
requerida uma abordagem sobre quando dois tipos são espécies de um 
mesmo tipo genérico e abrangente de cognição.  
3. A abordagem do ajuste e extensão de compartilhamento de tipo  
O que, então, distingue um tipo genérico, mas natural, de um mero 
tipo nominal? Minimamente, várias espécies de um tipo natural 
genérico mantêm uma semelhança (resemblance) de família entre si 
(Wheeler, 2011), mas não é qualquer semelhança de família que será 
suficiente; deve existir, eu argumento, uma unidade explanatório-
causal para as várias instância de um tipo. Afirmações de igualdade de 
tipo são mais convincentemente legitimadas por certos padrões em 
modelos dos fenômenos de interesse: nossos melhores modelos das 
formas pelas quais as várias espécies produzem instâncias do 
explananda relevante devem ter um número significativo de 
sobreposição de elementos e relações entre esses elementos. Essa 
parece ser a ordem do dia na maioria das ciências; um modelo inicial 
(geralmente 
simples) 
de 
algum 
fenômeno 
paradigmático 
é 
(suficientemente) bem-sucedido e, então, fenômenos relacionados são 
modelados por meio do “ajuste” do modelo inicial - termos e elementos 
do modelo são adicionados, valores de parâmetros são ajustados, etc. - 
e a aplicação da família de modelos em questão é subsequentemente 
estendida e, talvez, aprimorada (isto é, tornam-se mais precisos 
enquanto modelos para sistemas aos quais seus primos anteriores ao 
ajuste foram aplicados). Se um fenômeno que nós pensávamos ser 
 
13 A esse respeito, a presente discussão se encaixa em um longo debate sobre funcionalismo e 
chauvinismo no nível individual (Block, 1978). Sobre o papel que essa questão desempenhou em 
debates sobre cognição distribuída e mente estendida, veja Rupert (2004, 2013), Clark (2008), Sprevak 
(2009) e Wheeler (2011).

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276  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
parecido com outros acaba não sendo sensível a esse tratamento de 
ajuste e extensão, ele é, e deveria ser, tratado como um tipo de 
fenômeno diferente; nós devemos concluir que, enquanto se aguardam 
novos desenvolvimentos, não há um tipo genérico que inclui todos os 
casos relevantes. 
Como poderia a abordagem do ajuste e extensão funcionar na 
prática das Ciências Cognitivas? Considere, por exemplo, a 
apresentação esquemática da ideia de um modelo conexionista em 
Rumelhart, Hinton e McClelland (1986); ele contém, dentre outras 
coisas, unidades com níveis individuais de ativação, dispostas em 
camadas e que podem transmitir a ativação adiante para unidades nas 
camadas adjacentes, cujos níveis de ativação são determinados por uma 
função que considera a ativação (ou inibição) recebida como um input, e 
assim por diante. Os autores apresentam esses elementos básicos e, com 
respeito a cada um deles, descrevem efeitos diferenciais de, por 
exemplo, diferentes configurações de parâmetros possíveis ou escolhas 
de funções de ativação.  
Diferentes formas de preencher o esquema produzem diferentes 
tipos de comportamentos nas redes resultantes, introduzindo a 
possibilidade de que alguém construa uma próspera família de modelos 
inter-relacionados que explique uma variedade cada vez maior de 
formas de comportamento inteligente (p. 46).  
Então, ser um modelo conexionista é ser um modelo que instancia 
a receita de Rumelhart et al. ou ser um modelo que mantém uma relação 
de ajuste e extensão com instanciações do esquema de Rumelhart et al. 
E nossa melhor evidência de que dois tipos de processos são ambos 
instâncias de processamento conexionista - isto é, que eles compartilham 
o tipo natural em questão - é que nossos melhores modelos dos dois 
processos são ambos modelos conexionistas. Essa abordagem elimina

## Page 278

Robert Rupert  •  277 
certas possibilidades: alguém não pode, sem um contorcionismo 
excessivo, começar com um modelo proto-PDP (uma instanciação direta 
do esquema de Rumelhart et al.) e transformá-lo por meio de ajustes em 
uma tabela de consulta (look-up table). 
Eu proponho a abordagem de ajuste e extensão como uma 
explicação da evidência relevante para o julgamento sobre a igualdade 
de tipo, uma abordagem que é condizente com o trabalho realizado em 
todas as ciências. Considere, por exemplo, ser um oscilador harmônico. 
Começamos com uma equação simples que descreve o comportamento 
de um pêndulo idealizado; na tentativa de modelar uma maior variedade 
de sistemas, adicionamos um termo para fricção e, então, uma função 
de força, e assim por diante. O fato de esta família de modelos “ajustados 
e estendidos” ter aplicações frutíferas para uma variedade de sistemas 
físicos é forte evidência de que esses sistemas instanciam um tipo 
comum - são osciladores harmônicos.14  
Uma apresentação e defesa completa da abordagem de ajuste e 
extensão excederia as limitações de espaço. Aqui me contentarei com a 
discussão de uma possível objeção sobre os limites entre modelos que 
são relacionados por ajuste e extensão, de um lado, e aqueles que não 
são assim relacionados, de outro. Alguém poderia se perguntar como 
essa proposta lida com uma série muito longa de ajustes. Seria 
relativamente fácil construir, ao estilo de um argumento incremental 
do tipo sorites, uma família de modelos inter-relacionados por ajustes 
onde dois membros, analisados em comparação, pareceriam 
significativamente não relacionados um com o outro?15 Talvez o passo 
razoável mais simples nesses casos seja o de deferir para a intuição dos 
 
14 Para outro exemplo, veja a discussão de Chemero do modelo Haken-Kelso-Bunz e suas várias 
extensões e refinamentos (2009, p. 85–96). 
15 Agradeço Jackson Kernion por me pressionar neste ponto.

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278  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
especialistas e profissionais, para que nos digam quando uma série de 
ajustes produz um resultado “irreconhecível”.16 
Idealmente, no entanto, deveríamos buscar uma forma mais 
substantiva de separar uma similaridade aparente de uma similaridade 
que genuinamente indica igualdade de tipo. Isso pode envolver a 
identificação de detalhes das variações dos dados que são explicados 
pelos componentes compartilhados dos dois modelos (isto é, qualquer 
coisa que permaneça comum a eles depois do ajuste requerido para 
construir um modelo a partir do outro). O método pode assumir a 
seguinte forma: selecione dois modelos candidatos; identifique seus 
elementos ou estruturas compartilhadas; diversifique os sistemas aos 
quais esses modelos estavam orientados de forma bem-sucedida no 
passado ao longo da dimensão em que os componentes compartilhados 
dos modelos foram mapeados nos casos de aplicações anteriores bem-
sucedidas; veja se variações correspondentes nos componentes 
compartilhados dos modelos explicam a variação em outras 
quantidades mensuráveis do sistema alvo (variações que acompanham 
alterações em parte do sistema alvo que corresponde aos componentes 
compartilhados dos modelos). A ideia é descobrir evidência de que 
aquilo que é compartilhado pelos dois modelos candidatos desempenha 
um papel explanatório-causal ou se isso é, de alguma forma, incidental. 
Se esses elementos desempenham um papel explanatório-causal, então 
nós colocamos os modelos candidatos em uma mesma família, mesmo 
se, prima facie, a proporção dos processos de ajuste e extensão acabe 
tornando os modelos primos distantes.  
 
16 Embora seja possível se perguntar até que ponto tais julgamentos vão variar com o contexto 
específico, com, por exemplo, o propósito que o especialista tem em mente quando lhe é perguntada 
a questão relevante (cf. Block, 1997).

## Page 280

Robert Rupert  •  279 
Note 
que 
mesmo 
quando 
um 
elemento 
compartilhado 
desempenhar trabalho explanatório-causal, permanece a questão de 
como melhor individuar o tipo natural para o qual evidência foi obtida. 
Os aspectos relevantes do sistema alvo (os aspectos que correspondem 
aos componentes compartilhados em questão, bem como as alterações 
que foram explicadas pelas mudanças nos valores dos componentes 
compartilhados) devem guiar nossa caracterização do tipo. Por 
exemplo, se nós tratarmos os componentes compartilhados dos 
modelos como indicativos da presença de um tipo genérico de cognição, 
então os dados em questão devem ser relevantes para aquilo que nós 
consideramos como fenômeno cognitivo, e não, digamos, para a massa 
ou tamanho do sistema alvo.  
O que apresentei é, por necessidade, um esboço incompleto. Tenha 
em mente, no entanto, que meu propósito não é apresentar uma teoria 
do que é ser um tipo genérico, mas articular um quadro mais 
estruturado dentro do qual se pode tentar construir um argumento 
naturalista a favor do realismo. 
4. O que é cognição? 
Se grupos têm estados cognitivos - isto é, possuem estados do 
mesmo tipo natural que os estados cognitivos humanos - depende 
parcialmente de fatos empíricos sobre a própria cognição. Cognição é 
um tipo científico, hipotetizado pelos cientistas relevantes para 
explicar (o que nós consideramos ser) um domínio particular de 
fenômenos que dizem respeito, em um primeiro momento, ao 
comportamento de humanos individuais: conversas em tempo real, 
padrões de similaridade no tratamento de objetos (reidentificação), a 
produção de obras de arte, a formulação e testagem de teorias

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280  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
científicas, jogar xadrez, desempenho em exames de compreensão de 
leitura de texto, etc.17 
O que é, então, cognição? Em outros trabalhos (Rupert, 2004, 2009, 
2010), eu argumentei que virtualmente todas as formas bem-sucedidas 
de modelagem cognitiva - computacional, biologicamente pura, baseada 
em robótica, conexionista e dinamicista - distinguem, de um lado, 
arquiteturas relativamente integradas e persistentes e, de outro lado, 
contribuintes causais transientes que, junto com características da 
arquitetura, produzem comportamento inteligente (cf. distinção de 
Wilson [2002] entre sistemas obrigatórios e facultativos) e que, além 
disso, tais elementos nos fornecem as melhores pistas para a distinção 
entre causas genuinamente cognitivas para a produção de 
comportamento inteligente e outras causas contribuintes. Pense nisso 
como uma inferência a melhor explicação (disponível) realizada duas 
vezes. Primeiro, que alguns aspectos centrais e distintivos do 
processamento cognitivo são normalmente instanciados dentro dos 
limites de organismos individuais explica porque vários modelos que 
focam em indivíduos têm sido bem-sucedidos. Segundo, que a 
arquitetura persistente ser a coisa distintivamente cognitiva melhor 
explica por que ela perpassa as várias formas de modelagem de nível 
individual bem-sucedidas.  
Podemos dizer algo mais preciso sobre a natureza integrada do 
sistema que aparece dentro da pele, qualquer coisa que ilumine seu 
papel como um sistema cognitivo, isto é, um sistema que flexivelmente 
produz uma ampla gama de formas de comportamento inteligente? Em 
 
17 Essa abordagem pode parecer uma petição de princípio no presente contexto, mas ela representa 
uma metodologia padrão nas ciências. Se o processo de investigação funcionar apropriadamente, 
então, no curso normal da pesquisa científica, quais dos vários fenômenos se revelam do mesmo tipo - 
isto é, quais são, de fato, produzidos por processos do mesmo tipo - emergirão, independentemente 
das inclinações iniciais dos pesquisadores para agrupar os fenômenos de uma forma ou de outra.

## Page 282

Robert Rupert  •  281 
trabalhos anteriores sobre o tema (Rupert, 2009, 2010, 2011, 2013), eu 
propus que um sistema cognitivo consiste em um coleção de 
mecanismos que co-contribuem em subconjuntos sobrepostos para a 
produção de uma ampla gama de formas de comportamento inteligente, 
como também propus um critério matemático que explicaria a condição 
“em subconjuntos sobrepostos” (Rupert, 2009, 2010). Esse critério 
matemático é, em essência, uma teoria da integração. Apesar de ter sido 
motivada por uma tentativa de caracterizar o sistema cognitivo interno, 
o critério é neutro quanto à localização; ela diferencia dois tipos de 
contribuintes causais, onde quer que eles apareçam, para a produção de 
comportamento inteligente. 
Aqui está o que eu agora chamarei de teoria da “probabilidade 
condicional de co-contribuição” para a integração cognitiva, ou PCC, 
refinada de modo a clarificar sua estrutura. Tenha em mente que, 
embora a descrição a seguir soe procedural - como se ela fosse uma 
receita para levar a cabo uma construção - ela objetiva caracterizar a 
propriedade de integração cognitiva: 
 
1. Para qualquer sujeito, em qualquer tempo, modele cada 
subconjunto não unitário dos mecanismos que possuem 
contribuição causal distintiva para a produção de qualquer 
forma de comportamento inteligente.  
2. Para cada subconjunto desses, relativo a cada forma de 
comportamento inteligente, há, para cada um de seus 
subconjuntos, uma probabilidade de que ele seja um 
contribuinte causal para a produção daquela forma de 
comportamento condicional a cada um dos membros do 
complemento do conjunto de contribuintes causais.

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282  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
3. Faça um ordenamento de todas essas probabilidades 
condicionais.  
4.  Faça o recorte natural entre probabilidades altas e baixas. (Se 
ser um sistema integrado é um tipo natural, e a proposta sendo 
oferecida está no caminho certo, deveríamos esperar que 
apareça uma lacuna estatisticamente significante como essa.) 
5.  Para cada mecanismo que aparece na lista de conjuntos com 
probabilidades condicionais altas (isto é, os conjuntos acima da 
lacuna referido no Passo 4), conte o número de vezes que esse 
mecanismo aparece e ordene os mecanismos de acordo com 
isso (isto é, de acordo com o número de vezes que eles aparecem 
acima da lacuna da lista produzida pelo Passo 4).  
6.  Uma lacuna estatisticamente significante separará os 
mecanismos que aparecem frequentemente nessa segunda lista 
daqueles que não aparecem frequentemente. 
7.  O sistema cognitivo integrado abrange todos e somente aqueles 
mecanismos que aparecem acima da lacuna da segunda lista.  
 
Apresentada dessa maneira puramente formal, as implicações da 
PCC podem permanecer obscuras. Portanto, considere um exemplo. O 
sujeito típico é frequentemente habilidoso em desviar de obstáculos na 
medida em que se move e um mecanismo de detecção de bordas quase 
certamente contribuiu causalmente para tal comportamento. Um 
mecanismo que computa a distância a partir de disparidades da retina 
também terá contribuído para o desvio dos obstáculos pelo sujeito típico, 
assim como um mecanismo que calcula o formato a partir da detecção de 
sombras (Marr, 1982). Com respeito ao desvio de obstáculos, muitos 
mecanismos adicionais contribuíram, por exemplo, vários mecanismos 
de controle motor. Para manter as coisas relativamente simples, vamos

## Page 284

Robert Rupert  •  283 
adicionar apenas um desses mecanismos de controle motor para o 
conjunto de mecanismos sendo considerados. O conjunto resultante de 
quatro mecanismos permite a possibilidade de seis conjuntos de dois 
membros, quatro conjuntos de três membros e um conjunto de quatro 
membros. Para cada conjunto de dois membros, duas probabilidades 
condicionais são relevantes: a contribuição condicional do primeiro 
mecanismo sobre o segundo e vice-versa; isso resulta em um total de doze 
itens na lista ordenada construída no Passo 3 da PCC. Para cada conjunto 
de três membros, há seis probabilidades condicionais relevantes: a 
contribuição condicional de cada mecanismo individual sobre os outros 
dois e cada combinação da contribuição de dois mecanismos sobre o 
terceiro; isso resulta em um total de vinte e quatro itens adicionais na 
lista ordenada construída no Passo 3 da PCC. Para conjuntos de quatro 
membros, há quatorze probabilidades condicionais relevantes (as quais 
representarão mais quatorze itens na lista ordenada em questão). Para 
qualquer um dos quatro, devemos incluir a probabilidade de sua 
contribuição condicional sobre a contribuição dos três restantes, e vice-
versa, o que resulta em oito itens. Os subconjuntos restantes dos 
conjuntos de quatro membros são pares, assim como os complementos 
em todos esses casos. Então, escolha qualquer um dos seis pares possíveis 
e há uma probabilidade condicional de sua contribuição dado que seu 
complemento esteja contribuindo. Isso resulta em seis itens, os quais, 
junto com os oito das divisões desiguais do conjunto de quatro membros, 
equivalem a um total de quatorze itens com contribuição do conjunto de 
quatro membros. Relativo a apenas esse tipo de comportamento e apenas 
esses quatro elementos, nós já temos cinquenta itens na lista ordenada 
associada ao Passo 3 da PCC. Agora siga esse procedimento - em princípio! 
- para cada agrupamento de todos os mecanismo que contribuem 
causalmente relativo a cada forma de comportamento inteligente que foi

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284  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
exibida pelo sujeito em questão (desde que o sujeito tenha exibido uma 
razoavelmente ampla gama de formas de comportamento inteligente - se 
não, tudo fica em aberto, pois a riqueza de repertório é uma das 
características centrais do explananda das Ciências Cognitivas). 
Com respeito ao exemplo sendo tratado, cada um dos quatro 
mecanismos presumivelmente aparecerá em muitos subconjuntos com 
probabilidades condicionais altas (no sentido de que a probabilidade de 
um subconjunto de um conjunto de contribuintes será alta dado que o 
complemento do conjunto tem contribuição causal). Essa é uma 
característica dos mecanismos e da forma de comportamento escolhida. 
Por exemplo, alguém pode razoavelmente pensar que a probabilidade de 
que o mecanismo de detecção de bordas contribua dado que o mecanismo 
que calcula o formato a partir da detecção de sombras está contribuindo 
seja perto de um; assim, pareceria que todas as vezes que o mecanismo de 
formato a partir da sombra contribui para o desvio de obstáculos, o 
mecanismo de detecção de bordas também contribui, ao menos para o 
sujeito típico, parcialmente porque, como podemos dizer informalmente, 
eles são ambos mecanismos fundamentais do processamento visual. 
Similarmente para P(detecção de bordas| formato a partir da sombras & 
distância a partir de disparidade da retina) e para P(distância a partir de 
disparidade da retina & detecção de bordas | formato a partir da sombras). 
Note, no entanto, que conjuntos que somente incluem os três 
mecanismos visuais podem apresentar probabilidades condicionais mais 
altas que conjuntos que integram o mecanismo de controle motor com os 
mecanismos visuais, particularmente quando o mecanismo de controle 
motor estiver sendo condicionado. Parece altamente provável que se os 
mecanismos visuais estão guiando o desvio do obstáculo, então o 
mecanismo de controle motor também está. Mas, talvez, o mecanismo de 
controle motor também contribua para o desvio de obstáculos em casos

## Page 286

Robert Rupert  •  285 
nos quais, por exemplo, alguém atravessa com sucesso um cômodo 
familiar no escuro, com pouca orientação visual. Portanto, P(formato a 
partir da sombras | controle motor) pode ser significativamente mais 
baixo que as probabilidades condicionais antes consideradas. 
Provavelmente não será esse o caso quando o mecanismo de controle 
motor for condicionado em conjunto com um mecanismo visual. Por 
exemplo, P(formato a partir da sombras | controle motor & detecção de 
bordas) provavelmente não será menor que as probabilidades 
condicionais que envolvem apenas os três mecanismos visuais; pois, se o 
mecanismo de controle motor em questão contribui em conjunto com o 
mecanismo de detecção de bordas para desviar do obstáculo, então 
estaremos quase certamente falando sobre um desvio de obstáculo 
orientado visualmente, caso no qual é quase certo que o mecanismo de 
formato a partir da sombras esteja contribuindo também. Como 
resultado, a consideração dos quatro mecanismos em conexão com 
desvios de obstáculos presumivelmente resulta em muitos subconjuntos 
com probabilidades condicionais altas (aquelas que aparecem acima do 
ponto de corte do Passo 4 da PCC), mesmo se os mecanismos de controle 
motor apareçam em menos deles do que os outros três.  
A PCC foi inicialmente formulada na tentativa de avaliar afirmações 
sobre cognição estendida, em particular, a afirmação de que as Ciências 
Cognitivas contemporâneas revelaram que a cognição humana é 
estendida de uma forma profunda e teoricamente importante (Clark; 
Chalmers, 1998). Se a cognição deve ocorrer dentro de um sistema 
cognitivo, como definido pela PCC, então pareceria que, para muitos 
sujeitos humanos individuais, na maior parte do tempo, o processamento 
cognitivo ocorre dentro dos limites do corpo do sujeito; pois, em geral, a 
caracterização do sistema cognitivo que acabamos de dar se opõe a 
inclusão de ferramentas com finalidades específicas e de uso esporádico,

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286  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
que tende a ser a condição dos contribuintes causais que estão além dos 
limites do corpo. (Uma ferramenta com finalidade específica 
provavelmente aparecerá em muitos conjuntos com probabilidades 
condicionais altas relativas a uma única forma de comportamento 
inteligente, mas não aparecerá nos conjuntos relativos a outras formas 
de comportamento inteligente, colocando esse mecanismo de finalidade 
específica em uma significativa desvantagem no Passo 5 em comparação 
com mecanismos que contribuem para uma variedade de formas de 
comportamento inteligente). No entanto, a localização da cognição 
humana individual é, em grande medida, uma questão empírica. A 
proposta baseada em sistemas da PCC deixa aberta a possibilidade de que 
uma ferramenta - talvez um iPhone (Chalmers, 2008) - que contribui 
consistentemente para a produção de uma variedade de formas de 
comportamentos inteligentes através de uma variedade de contextos ao 
lado de um conjunto variável de co-colaboradores que tenham 
características similares seja parte do sistema cognitivo de um humano.  
Mas, por que pensar que a PCC está correta? Flexibilidade é o centro 
da cognição e da inteligência - flexibilidade no aprendizado, na aquisição 
de conceitos e competências, na resolução de problemas e utilização de 
uma variedade de recursos na perseguição e revisão de objetivos em um 
ambiente em constante mudança. É essa flexibilidade que atrai a atenção 
para certas formas de comportamento e performance humanos e motiva 
o desenvolvimento de uma ciência distintiva (Ciências Cognitivas) para 
estudá-las, em contraste com tropos ou outras formas de comportamento 
estereotipadas. É a falta dessa flexibilidade que impulsiona as críticas 
constantes sobre as formas existentes de Inteligência Artificial. “Não é 
inteligência de forma alguma” alguém estaria tentado a dizer sobre tais 
sistemas, “ele não teria qualquer ideia do que fazer se uma situação 
inesperada surgisse! Ele faz apenas uma coisa!” - seja essa única coisa

## Page 288

Robert Rupert  •  287 
jogar xadrez, responder questões de programas de perguntas (quiz-show) 
ou controlar um automóvel.  
A PCC está baseada na ideia de que flexibilidade é alcançada em 
humanos somente pela presença de muitas unidades dispostas de modo a 
trabalharem juntas em várias combinações. Há abundante evidência de 
que esse tipo de coisa acontece no cérebro humano (Anderson, 2010, 2014; 
Cole et al., 2013; Botvinick; Cohen, 2014). Em algumas explicações deste 
tipo de processo, sub-redes com sobreposição de membros lutam umas 
com as outras pelo controle por meio de processamentos competitivos. 
Quando duas sub-redes funcionais têm membros sobrepostos, pode ser 
necessário apenas um pouco de estímulo diferencial para mudar a 
atividade do agente da execução de uma tarefa para a execução de outra. 
Nessa perspectiva, uma mudança de tarefa não requer que uma rede 
completamente nova assuma o controle de outra rede previamente 
dominante; mudanças mais sutis na co-ativação de elementos, alguns dos 
quais já ativos, podem realizar essa transição de modo mais suave. A 
proposta baseada em sistemas da PCC enfatiza aquilo que parece ser 
provavelmente a marca central de tal sistema - que qualquer mecanismo 
seja capaz de cooperar com vários outros subconjuntos de mecanismos 
para concluir uma variedade de tarefas. 
5. Estados cognitivos de grupo? 
Agora temos em mãos uma caracterização abstrata do sistema 
cognitivo que apresenta de forma esquemática um sujeito de estados 
cognitivos. Dado o quão pouco detalhado é esse sujeito, os proponentes 
da cognição de grupo podem se sentir confiantes. Parece que o sistema 
cognitivo de um humano individual - independente de se ele é 
completamente interno - é pouco mais do que uma coleção

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288  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
conjuntamente empacotada de “demônios”, todos eles fazendo suas 
partes individuais para produzir comportamento flexível na ausência 
de um teatro cartesiano e com pouca coisa em termos de um 
controlador central (Dennett, 1991). Certamente, em muitos grupos, nós 
encontramos algo parecido como isto, talvez até mesmo uma coleção de 
mecanismos 
relativamente 
persistentes 
que 
contribuem 
em 
subconjuntos sobrepostos para a produção de uma ampla variedade de 
formas de comportamento! Portanto, alguns, talvez muitos, grupos 
parecem satisfazer as condições baseadas em sistemas necessárias para 
a posse de estados cognitivos.  
Entretanto, dadas as grandes diferenças nos detalhes entre os 
casos de grupo e individual, devemos saber exatamente o que procurar, 
se quisermos encontrar cognição no nível do grupo. O material das 
Seções 3 e 4 sugere o seguinte cenário. Imagine que cientistas sociais 
completaram estudos muito cuidadosos de estruturas organizacionais, 
dinâmicas de grupo, etc. De fato, recursos suficientes foram destinados 
para tais estudos para proporcionar intervenções experimentais. E, 
imagine que nossos melhores modelos dos dados coletados mostram 
uma distinção consistente, no nível da arquitetura ou organização de 
grupo, entre recursos relativamente persistentes e o desfile passageiro 
de outros recursos que contribuem causalmente para a produção dos 
fenômenos de interesse. Mas, imagine que quando alguém modele as 
relações de co-contribuição entre os componentes do pacote 
persistente, a relação que emerge não é bem capturada pelas 
probabilidades condicionais das co-contribuições da forma como foi 
construído na Seção 4. A medida probabilística, cuja adequação melhor 
captura as relações entre aquilo que aparenta ser as partes obrigatórias 
do sistema de grupo é, em vez disso, baseada na relação que altera a 
probabilidade de co-contribuição de outras duas (cf. Klein, 2010): tome

## Page 290

Robert Rupert  •  289 
quaisquer três mecanismos que contribuem causalmente e pergunte em 
que medida a contribuição de qualquer um dos três altera a 
probabilidade da contribuição dos outros dois; então, agrupe os valores 
resultantes de maneira análoga àquela na qual as probabilidades 
condicionais das co-contribuições foram agrupadas acima.  
Um modelo desse tipo mantém uma relação de ajuste e extensão 
com o modelo de um sistema cognitivo da Seção 4. Por exemplo, “1. Para 
qualquer sujeito, em qualquer tempo, modele cada subconjunto não 
unitário dos mecanismos que possuem contribuição causal distintiva 
para a produção de qualquer forma de comportamento inteligente…” se 
tornaria “1. Para qualquer sujeito, em qualquer tempo, modele cada trio 
de mecanismos que possuem contribuição causal distintiva para a 
produção de qualquer forma de comportamento inteligente…”, o que 
claramente constitui um ajuste. Esses modelos compartilham alguma 
relação probabilística de co-contribuição que liga alguns dos 
mecanismos que contribuem causalmente em um sistema único, em 
contraste com a condição dos outros mecanismos contribuintes. Isso 
fornece um sentido concreto do que seria para um grupo se envolver em 
um tipo diferente de cognição daquela de um humano individual, mas, 
ainda assim, cognição.  
6. Complicações 
Alguns leitores podem se perguntar se eu facilitei demais as coisas 
para o defensor da cognição de grupo. Em virtualmente qualquer caso no 
qual um sistema persistente contribui para a produção de algum 
fenômeno de interesse (em conjunto com vários outros contribuintes 
causais), é quase certo que alguma medida probabilística ou outra faça a 
partição das causas em dois grupos, onde os membros de um grupo são

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290  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
componentes do sistema persistente em questão e os membros do outro 
grupo são as causas restantes. E, pareceria que uma expressão de 
praticamente qualquer medida probabilística deste tipo pode ser 
construída pelo ajuste da PCC. Mas, o que torna um modelo substantivo e 
interessante, alguém poderia pensar, são as interrelações entre os 
elementos especificados pelo modelo, não meramente por tal fato tão 
insignificante como o de que os elementos causalmente contribuintes do 
modelo se dividem em dois grupos.18 Um modelo conexionista deve 
incluir unidades de processamento que têm valores de ativação e que 
podem passar a ativação para outras unidades com as quais elas estão 
diretamente conectadas. Isso coloca uma limitação significativa na 
relação “ser o mesmo tipo genérico que” no caso de ser uma rede 
conexionista. Mas, um modelo que meramente aplica medidas 
probabilísticas para agrupar algumas das causas contribuintes faz poucas 
demandas sobre um sistema - muito poucas, alguém poderia pensar, para 
se tomar seriamente como uma teoria da cognição, do tipo explanatório-
causal.19 O restante desta seção explora esse problema potencial e outros 
 
18 Compare a busca por uma concepção genérica de cognição com a busca por uma relação genérica 
de fundação (grounding). Em particular, considere a resposta de Jonathan Schaffer à crítica de Jessica 
Wilson sobre a tese de que há uma concepção genérica e interessante de fundação (Wilson, 2016). 
Schaffer argumenta que o que há de comum em várias relações específicas de dependências (as quais 
são, para Wilson, objetos de interesse genuínos) é que elas podem todas ser representadas usando 
modelos de equações estruturais (Schaffer, 2016) e que isso produz um entendimento geral útil da 
relação de fundação. No entanto, alguém poderia razoavelmente questionar se essa propriedade fina 
de ser representado por um modelo de equações estruturais desempenha trabalho explanatório 
significativo, sem o complemento das dinâmicas relativas a uma relação, domínio ou classe de sistemas 
particulares. Não está claro, por exemplo, qual conjunto de inferências contrafactuais interessantes 
estão licenciadas apenas pelo fato de uma relação instanciar a propriedade de ser representada por um 
modelo de equações estruturais.  
19 Considere um ponto correspondente sobre sentenças Ramsey: alguém poderia ficar preocupado que 
uma sentença Ramsey poderia ser usada para representar uma teoria de qualquer domínio que 
contenha propriedades interrelacionadas, sem violar a teoria. Seria, portanto, imprudente para um 
funcionalista em Filosofia da Mente asserir que qualquer sistema que possa ser modelado com o uso de 
sentenças Ramsey tenha uma mente! (A flexibilidade do formalismo das sentenças Ramsey não deveria 
ser surpreendente. Considere o uso que Lewis faz dele como uma ferramenta geral para a caracterização 
de termos teóricos - Lewis, 1970).

## Page 292

Robert Rupert  •  291 
dois, concluindo com uma avaliação pessimista a respeito das 
perspectivas para um realismo sobre estados cognitivos de grupo.  
6.1 O problema das condições ausentes 
Algo está claramente ausente na caracterização de um sistema 
cognitivo da Seção 4, ao menos se ela está tentando capturar o tipo ser 
cognitivo. Pense no problema dessa forma: minha caracterização requer, 
dos mecanismos em questão, que eles contribuam causalmente para a 
produção de comportamento inteligente; entretanto, a integridade 
sistêmica em questão parece não ter nada a ver especificamente com 
cognição. A medida probabilística dos agrupamentos de mecanismos 
contribuintes poderia ser usada para capturar, por exemplo, sistemas 
biológicos ou químicos. É em parte por conta dessa preocupação que eu 
estou inclinado a tratar a PCC como uma articulação de apenas uma 
condição necessária para que um estado seja cognitivo.20  
O que deve ser acrescentado? Uma sugestão óbvia é que o sistema 
trabalha representacionalmente (Rupert, 2005), talvez representações 
que são governadas por um tipo específico de algoritmo ou processo 
(Rupert, 2018b). Ou, alguém pode plausivelmente requerer que para que 
algo seja um sistema cognitivo, ele deva ter estados cognitivos de tipos 
específicos - isto é, deve, por exemplo, ter algumas memórias, crenças 
ou estados perceptuais genuínos. Mas, seja lá o que for demandado de 
uma família de modelos que capturam cognição, nós deveríamos nos 
preocupar de que a inclusão de tais condições adicionais eleva o nível de 
exigência a um patamar que grupos típicos não vão satisfazer.  
 
20 Note que tratar isso como uma condição necessária serve suficientemente bem para certos propósitos 
dialéticos. Se, por exemplo, (a) qualquer lugar em que estados mentais apareçam, deve haver também 
cognição, (b) a ocorrência de um estado dentro de um sistema cognitivo do tipo caracterizado na Seção 
4 é uma condição necessária para que o estado seja cognitivo, e (c) grupos não têm sistemas cognitivos, 
uma conclusão interessante se segue: grupos não têm estados mentais.

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292  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
Eis outra maneira de abordar essa preocupação. Em grande medida, 
uma atitude ecumênica diante da variedade de formas de modelagem 
científico-cognitivas bem sucedidas motivaram a formulação dos critérios 
baseados em sistemas da Seção 4. Parte da ideia era mostrar, sem petição 
de princípio contra, digamos, anti-representacionalistas, que uma 
condição necessária plausível sobre a cognição - uma condição com a qual 
todos deveriam concordar - deveria ser significante no debate sobre 
cognição estendida. Em outros momentos o motivo foi pluralista: talvez 
todas as formas de modelagem nas Ciência Cognitivas moderadamente 
bem sucedidas tiveram acesso a alguma coisa importante e, portanto, o 
que é comum aos programas ilumina a natureza da cognição. O valor dessa 
postura de mente aberta é devidamente reconhecido, é plenamente 
possível que uma certa família de modelos da cognição humana vencerá 
de forma decisiva, na medida em que as Ciências Cognitivas amadureçam; 
caso no qual as motivações ecumenicas e pluralistas parecerão 
excessivamente prudentes. Em vez disso, as Ciências Cognitivas terão 
identificado a cognição, no caso humano, com algum tipo específico de 
arquitetura e processos, deixando poucas razões para se pensar que o 
estudo dos nossos casos paradigmáticos de cognição produzirão uma 
propriedade abrangente de ser um sistema cognitivo que grupos possam 
instanciar - ao invés de considerá-los apenas como sistemas persistentes, 
o que muitos grupos claramente são.  
6.2 O problema do comportamento inteligente e flexível 
Muitos grupos simplesmente não produzem uma ampla gama de 
formas de comportamento inteligente. Aqueles que aparecem 
frequentemente na literatura sobre cognição de grupo exibem um alto 
grau de especificidade de tarefas: a Suprema Corte dos EUA produz

## Page 294

Robert Rupert  •  293 
decisões, o mercado de ações prediz a performance futura de empresas, 
um time de basquete joga basquete, um grupo de marinheiros navega, 
mas em cada caso o grupo não faz muitas outras coisas, enquanto um 
grupo coeso.  
Por outro lado, sistemas cognitivos apropriados produzem uma 
ampla gama de formas de comportamento inteligente; a caracterização 
de qualquer forma de comportamento de um sujeito como sendo 
inteligente depende da produção de uma ampla gama de outras formas 
de comportamento inteligente pelo sujeito. A capacidade de um sujeito 
singular de produzir uma ampla gama de formas de comportamento de 
maneira flexível constitui um dos explananda centrais das Ciências 
Cognitivas. Como notado acima, uma crítica constante sobre a 
inteligência artificial se volta exatamente para esse ponto: as façanhas 
do Deep Blue, MYCIN, carros autônomos, Alpha Go e muitos outros 
sistemas especializados são muito restritas para a manifestação de uma 
inteligência genuína. Inteligência requer a capacidade de resolver todo 
tipo de problema flexivelmente - priorizar tarefas, alternar entre 
tarefas de forma apropriada em um momento apropriado, alternar 
entre estratégias para o cumprimento de uma determinada tarefa 
conforme a situação exigir, e assim por diante (contar uma piada ou 
cantar uma música quando for necessário, estudar para o teste de 
admissão da Faculdade de Medicina, quando isso for necessário, etc.).  
Grupos típicos não parecem ter a estrutura certa para exibir uma 
ampla gama de formas de comportamento inteligente. E, na medida em 
que grupos exibem alguma flexibilidade, uma certa assimetria na 
produção de tais comportamentos parece reveladora. É praticamente 
sempre o caso que onde um grupo exibe algum grau de flexibilidade y, 
cada indivíduo contribuinte no grupo que ajuda na produção do 
comportamento em questão é capaz de flexibilidade cognitiva de grau x,

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294  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
onde x é significativamente maior do que y. Isso parece ser o oposto nas 
situações dos casos de humanos individuais. Humanos individuais podem 
até ter subsistemas especializados responsáveis pela execução de grande 
parte do trabalho que sejam de suas alçadas. Entretanto, o sujeito 
individual como um todo tem uma capacidade muito mais flexível do que 
qualquer módulo individual ou subsistema especializado. Ao contrário, 
ações de grupo são praticamente sempre levadas a cabo, ou 
implementadas, pelos membros individuais (ou representantes) do 
grupo, membros estes que são individualmente muito mais flexíveis do 
que o grupo. Talvez esse fato, por si só, não deponha contra o realismo 
sobre estados de grupo. Mas, essa assimetria - o fato de que os indivíduos 
são mais flexíveis do que o grupo - deveria nos fazer hesitar; em tais 
casos, parece que seres genuinamente inteligentes estão cooperando para 
organizar um grupo que é, como no caso da I.A., somente uma réplica 
relativamente inflexível de uma habilidade especializada.21  
6.3 O problema das restrições na seleção de modelos 
Nós apenas derivamos conclusões substantivas das relações de 
ajuste e extensão quando os modelos em questão são nossos melhores 
modelos para os fenômenos relevantes. Portanto, cânones de seleção de 
modelos - e considerações metodológicas, falando de maneira mais 
geral - incidem no debate sobre cognição de grupo. Isso inclui 
desideratos metodológicos tais como simplicidade, conservadorismo e 
a unidade da ciência, bem como os princípios orientadores da 
modelagem estatística.  
A contribuição dos princípios metodológicos ameaça causar 
problemas para os realistas. Se, por exemplo, uma restrição para que 
 
21 Agradeço a Gabriel Rabin por ter me incentivado a esclarecer minha opinião sobre essas questões.

## Page 296

Robert Rupert  •  295 
estados sejam cognitivos é de que eles sejam representacionais, então 
questões sobre, por exemplo, parcimônia quantitativa (Nolan, 1997) 
mostram as caras. Considere um caso no qual todos os membros de um 
tribunal de apelação votem para manter uma condenação criminal, 
mesmo que nenhum dos membros acredite que a parte em questão seja 
culpada. Isso mostra que o tribunal está em um estado representacional 
- talvez uma crença de que o acusado seja culpado - que difere, e existe 
além, dos estados cognitivos dos membros individuais do tribunal? 
Considerações de parcimônia quantitativa sugerem que não. Postular 
um estado representacional adicional - o estado cognitivo do tribunal - 
é gratuito e, portanto, não se enquadraria no modelo do fenômeno em 
questão (isto é, a emissão de uma decisão por parte do tribunal). Pois, 
presumivelmente, cada membro individual do tribunal tem suas razões 
para votar pela manutenção da condenação, mesmo que não acredite 
que o acusado seja culpado. Tais razões podem variar desde uma adesão 
ao princípio dos precedentes, uma crença de que haverá uma revolta se 
o acusado for libertado, até uma crença de que decisões judiciais devem 
adotar um modelo baseado em premissas. Entretanto, uma vez que 
essas razões tenham sido incluídas no modelo de emissão de decisões 
pelo tribunal, todos os recursos representacionais necessários para 
explicar o evento estão à mão (Rupert, 2005, 2011, 2014; Wilson, 2004). 
Adicionar mais do mesmo, isto é, mais recursos representacionais, é 
gratuito. Ceteris paribus, portanto, cânones de seleção de modelos 
impõem a escolha de um modelo no qual os estados representacionais 
não aparecem como estados do grupo como um todo. Desta forma, nosso 
melhor modelo de processos envolvendo grupos que produzem 
comportamento 
inteligente 
(se 
tal 
comportamento 
existir) 
provavelmente não atribuirá estados representacionais para grupos, 
contra a Premissa 1 de List.

## Page 297

296  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
Essa moral pode ser expressa não tanto em termos de parcimônia, 
mas como uma questão sobre redução e a unidade da ciência. É um 
cânone da seleção de modelos que, outras coisas permanecendo iguais, 
nós devemos preferir modelos do fenômeno que se encaixam com 
modelos bem sucedidos em domínios adjacentes. Ou, atenuando um 
pouco, é um cânone da seleção de modelos que, ceteris paribus, quando 
estivermos tentando derivar conclusões ontológicas a partir de modelos 
bem sucedidos, devemos favorecer as coleções de modelos que 
apresentem uma imagem unificada da natureza sobre as coleções que 
não o fazem. Considere, por um lado, um modelo de acordo com o qual 
instituições políticas e sociais têm estados cognitivos, porque elas 
exibem racionalidade ao longo do tempo, e, por outro lado, um modelo 
de acordo com o qual somente processos cognitivos de humanos 
individuais expliquem fenômenos mensuráveis relacionados às 
instituições políticas e sociais (ignorando todos os outros componentes 
de ambos os tipos de modelos, tais como folhas de papel, bombas de 
gasolina, etc.). A última proposta é mais consistente com a ênfase na 
unidade da ciência. Ou, alguém poderia combinar essas duas questões 
na forma de um dilema: ou o proponente de estados cognitivos de 
grupos opta por processos de grupo misteriosos e independentes, caso 
onde afronta a unidade da ciência, ou faz um esforço genuíno de 
integrar modelos em um único pacote e, portanto, afronta a parcimônia 
quantitativa, se insistir que grupos têm estados cognitivos próprios.22  
 
22 Poderia ser objetado que recorrer aos cânones de seleção de teorias é muito severo, pois o status 
desses cânones é contestado e sua contribuição histórica para o pensamento científico é complexo e 
opaco. Poderia ser pensado que, ao contrário, melhor seria limitar a discussão a considerações de razões 
de primeira ordem a favor ou contra as explicações oferecidas para fenômenos, dados ou efeitos 
específicos. Acato esse ponto. Mas, até onde posso ver, as preocupações expressas aqui podem ser 
traduzidas em argumentos de primeira ordem caso a caso: nós sabemos por que os juízes votaram da 
forma como o fizeram e, portanto, nós sabemos por que a decisão tomada foi aquela, sem qualquer 
referência a estados cognitivos de grupo. E essa maneira de ver a questão dispensa qualquer

## Page 298

Robert Rupert  •  297 
Entretanto, é preciso ter cuidado para não se deixar enganar pela 
conversa sobre redução. Voltando ao argumento realista de List 
apresentado na Seção 2, que sugere vagamente uma linha de 
pensamento anti-reducionista - a ideia sendo que se as Ciências Sociais 
fazem um uso produtivo das atribuições de crenças e desejos de grupo, 
um naturalista de carteirinha não deveria resistir (a menos que os 
estados em questão pudessem ser reduzidos). Essa vaga impressão é 
reforçada por várias passagens em List e Pettit (2011) sobre, por 
exemplo, relações entre níveis (p. 4), competição causal multinível (p. 
161), a realização de atitudes de grupos por atitudes individuais (p. 77), 
superveniência (como uma relação entre níveis; p. 65) e as dificuldades 
em reduzir atitudes de grupo a atitudes individuais (p. 76-77, 194). 
Entretanto, esse enquadramento da questão me parece confuso ou, ao 
menos, enganador. De forma geral, a questão da redução é uma questão 
entre níveis (como são as questões sobre superveniência e realização), 
que surgem em casos de diferentes domínios científicos com diferentes 
conjuntos de propriedades e isso é geralmente colocado em termos de 
relações entre diferentes níveis. No entanto, esse, decididamente, não é 
o tipo de caso que temos em mãos. Os estados cognitivos de grupos e 
individuais são supostamente do mesmo tipo, partes do mesmo 
domínio: o mental, psicológico ou cognitivo. Isso é o que deveria ser 
chocante sobre o realismo em questão. Afinal de contas, não seria 
surpreendente descobrir que algum estado ou outro do nível de grupo 
desempenha um papel explanatório-causal (cf. “o peso do grupo causou 
o colapso do terraço”). List e Pettit parecem perder isso de vista quando 
fazem aquilo que consideram como uma comparação a favor do 
 
necessidade de apelar para um princípio metodológico abrangente. Agradeço Peter Achinstein por me 
pressionar sobre esse ponto.

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298  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
realismo entre (a) a relação entre estados cognitivos de grupos e estados 
cognitivos individuais e (b) a relação entre estados cognitivos 
individuais e “a configuração e funcionamento de subsistemas 
biológicos” (p. 7); eles argumentam que, se é legítimo resistir a redução 
no caso (b), então o caso (a) deveria ser tratado do mesmo modo (p. 78; 
cf. Goldstone; Gureckis, 2009; Huebner, 2008). Entretanto, esse 
argumento por analogia é falho. O caso (b) trata dois conjuntos genuínos 
de propriedades diferentes (propriedades cognitivas, de um lado, e 
propriedades biológicas, de outro), adequadamente levantando 
questões sobre redução e anti-redução. Mas, o caso (a) diz respeito ao 
mesmo tipo de estados e propriedades, em ambos os lados da 
comparação, não um conjunto de propriedades ou estados de um tipo 
realizando ou sobrevindo a propriedades e estados de outro tipo.23 
Portanto, alguém não poderia simplesmente assumir os recursos anti-
reducionistas utilizados no caso (b) para neutralizar argumentos 
baseados em parcimônia dirigidos ao caso (a).24  
Aqui há outra forma de ver esse ponto: no caso (b), redução, no 
sentido inter-teórico, é bloqueada por argumentos anti-reducionistas 
(Fodor, 1974, por exemplo) e, dessa forma, certificamos ontologicamente 
um domínio de propriedades - psicológicas, mentais ou cognitivas. 
 
23 List e Pettit algumas vezes parecem reconhecer esse fato (2011, p. 1, 78), mas não parecem considerar 
o quanto isso compromete sua defesa de grupos agentes. 
24 Em resposta a isso, alguém poderia apelar para a grande aceitação de níveis pessoais e subpessoais 
(ao invés da relação entre os níveis psicológicos e neurais) nas teorias cognitivas (Huebner, 2008). Se, 
desconsiderando a força da parcimônia, recusarmos eliminar o nível pessoal em favor do subpessoal, 
não deveríamos permitir que o nível individual exclua o nível do grupo, segue o raciocínio. Na minha 
opinião, no entanto, a distinção entre níveis pessoais e subpessoais não desempenha qualquer papel 
substantivo nas Ciências Cognitivas (veja Rupert, 2018a, para argumentos nesse sentido); caso no qual, 
o realista não pode encontrar consolo aqui. Além do mais, muitos filósofos que aceitam a existência de 
um nível pessoal consideram que os estados que ali aparecem são de um tipo diferente daqueles que 
aparecem no nível subpessoal. Portanto, a suposta distinção entre níveis pessoais e subpessoais não 
nos fornece um exemplo de um caso no qual as mesmas propriedades psicológicas, mentais ou 
cognitivas apareçam em diferentes níveis.

## Page 300

Robert Rupert  •  299 
Entretanto, o caso (a) envolve uma situação na qual nós já permitimos a 
entrada de tipos mentais ou cognitivos em nossa ontologia e a única 
questão é até onde nós os aplicamos. O caso (b) é uma questão entre 
níveis; o caso (a) é uma questão dentro de um nível. Essa é a razão de 
porque o argumento por analogia de List e Pettit é inadequado e no caso 
(a), no caso que temos em mãos, deveríamos focar na parcimônia 
quantitativa (Nolan, 1997), a questão de quantas instâncias de um dado 
tipo de estado, já aprovado, ou propriedade deveríamos incluir em 
nossos modelos científicos.25  
Considere uma resposta final para a questão sobre parcimônia e 
redução. List e Pettit (2011) afirmam: 
A agência dos grupos se relaciona de uma forma tão complexa com a agência 
de indivíduos que nós temos poucas chances de rastrear as disposições de 
um grupo agente e interagir com ele enquanto um agente para contestar ou 
interrogar, persuadir ou coagir, se nós conceituarmos suas ações no nível 
individual. (p. 76)  
Eu acho esse comentário desconcertante. Ao longo de seu livro, List 
e Pettit desenvolvem análises precisas de como melhor podemos 
construir grupos para que os grupos possam exibir racionalidade (da 
 
25 Em uma discussão de meus trabalhos prévios sobre cognição de grupo (Rupert, 2014), Himmelreich 
(2015) reclamou que, ao oferecer um argumento baseado na parcimônia quantitativa contra o realismo, 
eu não utilizei várias ferramentas conceituais produzidas nos debates sobre exclusão causal. Entretanto, 
dado os comentários no corpo do texto, pode parecer claro porque o caminho proposto por 
Himmelreich é menos promissor do que ele considera. As ferramentas conceituais desenvolvidas nos 
debates sobre exclusão causal são, geralmente, direcionadas para relações entre níveis; no diagrama 
padrão de Kim (e.g., Kim, 1998), as relações verticais são relações de superveniência, as quais são, 
normalmente, tomadas como sendo instanciadas entre famílias de propriedades distintas. Mas, a relação 
entre estados de grupos e estados individuais não é entendida pelo realista como dizendo respeito a 
relações entre conjuntos de propriedades distintas. Afinal de contas, se o conjunto de propriedades for 
distinto, porque o realista usa os mesmos termos - e.g., 'crença' e 'desejo' - para falar sobre estados de 
grupo como são usados para falar sobre estados individuais? Note, também, que quando List e Pettit 
(2011) seguem o caminho proposto por Himmelreich, eles abordam o problema especificamente como 
um problema sobre causação multinível (p. 161), o que não se adequa com o caso de estados cognitivos 
competindo com estados cognitivos; isso não seria uma questão de causação multinível, pelas razões 
dadas acima.

## Page 301

300  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
melhor forma possível, considerando os vários resultados de 
impossibilidade). Além disso, essas formulações nos dizem exatamente 
com quem falar em uma organização, porque elas nos dizem, de forma 
relativamente 
transparente, 
quem 
estará 
votando 
(ou, 
alternativamente, tendo a palavra decisiva) sobre o que. Por exemplo, 
List e Pettit demonstram formalmente que, sob certas condições, um 
procedimento efetivo para a manutenção da racionalidade de grupo é 
dividir questões logicamente interrelacionadas em uma agenda da 
seguinte forma: identifique as premissas, atribua um subgrupo de 
membros com conhecimento especializado relevante para cada uma das 
premissas, adote uma votação baseada na regra da maioria em cada 
subgrupo a respeito da premissa a ele atribuída e, então, chegue a uma 
conclusão com base somente nos resultados desses votos (isto é, siga um 
procedimento baseado nas premissas) (List; Pettit, 2011, p. 95). Neste 
caso, parece claro a quem alguém deveria se dirigir se quisesse 
persuadir o grupo a chegar à sua conclusão preferida ou para forçar um 
determinado resultado: os membros dos subgrupos especializados que 
julgar que tenha mais chances de convencer. (Existe um setor inteiro 
nos Estado Unidos - o setor do lobby - baseado nesse tipo de observação). 
O que List e Pettit tomam como sendo atitudes de grupo sobrevêm de 
atitudes individuais e, como eles enfatizam, algumas vezes isso não se 
dá de uma maneira direta. Isso é razoável. Mas, a maior parte do livro 
deles demonstra exatamente por que e por quais razões o padrão de 
superveniência deveria ser de uma maneira não inteiramente direta 
(less-than-entirely-straightforward). E, ao explicar essas relações não 
inteiramente diretas com decisões individuais que fixam fatos 
supervenientes sobre o grupo, List e Pettit demonstram que uma 
relação de superveniência não inteiramente direta não implica o tipo de 
opacidade que poderia motivar a postulação de estados autônomos de

## Page 302

Robert Rupert  •  301 
grupos. Eles fornecem formulações para a construção de estados de 
grupo por indivíduos e, portanto, fornecem um guia para conceituar 
esses estados como amálgamas de decisões individuais (cf. Rupert, 2005, 
p. 179; Roth, 2014)26 - não enquanto estados genuínos de grupos - o que 
nos diz quais indivíduos deveriam ser influenciados sobre quais 
questões em qual estágio de um determinado processo para conduzir à 
um resultado que gostaríamos.  
Conclusão 
Nas Seções 2-5, eu defendi uma proposta de teoria sobre tipos 
naturais enquanto uma ferramenta para avaliação do realismo sobre 
cognição de grupo; ofereci uma teoria do tipo de evidência pertinente 
para a determinação da igualdade de tipo natural; e apliquei a teoria 
para o caso de um tipo de cognição abrangente, na esperança de oferecer 
ao realista um caminho a seguir. Na seção final, dificuldades proibitivas 
foram apresentadas. Eu concluí, então, que as perspectivas para a 
descoberta de estados cognitivos genuínos em grupos parecem fracas, 
embora muito dependa de trabalho empírico ainda a ser feito.  
Particularmente, ainda que essa seção final tenha sido em grande 
parte pessimista na sua avaliação das perspectivas para o realismo, é 
 
26 Rupert (2005) e Roth (2014) enfatizam o papel de estados individuais de ordem superior nas críticas 
ao realismo baseadas em redução ou parcimônia, tais estados de ordem superior são tidos como 
endossos individuais de regras de agregação ou corroboração a procedimentos canônicos para a 
construção de uma conclusão oficial declarada pelo grupo. Um exemplo desse tipo de procedimento 
canônico no campo jurídico é o de seguir os precedentes. É uma coisa acreditar que a decisão legal 
correta é P, baseado somente na forma como a lei foi escrita. É outra coisa acreditar que o julgamento 
correto é não-P, baseado somente na forma como a lei foi escrita, mas que a melhor coisa para o tribunal 
fazer no balanço final, dados os precedentes relacionados à P, é decidir que P. Um juiz com um 
comprometimento de ordem superior com o papel dos precedentes, pode muito bem estar na última 
situação. Ao defender o realismo contra as críticas baseadas em redução ou parcimônia, List e Pettit, 
assim como Gilbert, argumentam como se o crítico tenha apenas estados de primeira ordem dos 
indivíduos (tais como a crença de que o réu é culpado) para trabalhar. Isso, no entanto, é argumentar 
contra um espantalho do individualismo.

## Page 303

302  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
válido mencionar uma empreitada empírica digna de ser pesquisada. 
Pode ser que, mesmo que a PCC não pareça capturar uma propriedade 
robusta ou interessante - para além de algo ser um sistema coerente - o 
tipo de estrutura caracterizada é, de fato, exatamente o tipo de 
estrutura 
necessária 
para 
sustentar 
comportamento 
flexível 
(alternância 
oportuna 
entre 
tarefas, 
etc.). 
Talvez, 
falando 
nomologicamente, não há outra forma de construir um sistema que 
exiba flexibilidade do tipo certo, exceto dotando-a com uma ampla 
coleção de mecanismos que contribuam em subconjuntos sobrepostos 
para a produção de uma ampla gama de formas de comportamento; 
talvez seja essa estrutura em particular que torne possível a 
flexibilidade. Nesse caso, tal estrutura teria mais a ver com a natureza 
da cognição do que algumas vezes sugerido acima e a busca por tal 
estrutura em grupos pode, no fim das contas, dar frutos relacionados à 
cognição.  
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36, 2002.  
WILSON, R. A. Boundaries of the Mind: The Individual in the Fragile Sciences. Cambridge, 
UK: Cambridge University Press, 2004.

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9 
INTROSPECÇÃO EM MENTES DE GRUPOS, DESUNIÃO 
DA CONSCIÊNCIA E PESSOAS INDISCRETAS 1 
Eric Schwitzgebel 
Sophie R. Nelson 
Tradução: Anderson Fonseca, Luiz Paulo Cichoski 
Ordinariamente, nós pensamos que pessoas são entidades contáveis, 
discretas. Uma sala de conferências contém zero pessoas, ou uma, ou 
duas, ou vinte e três, ou algum outro número inteiro. Se você perguntar 
quantas pessoas estão presentes e alguém responder “duas e três 
quartos”, você provavelmente pensará que ele está brincando. (Talvez ele 
esteja contando um feto como uma pessoa parcial). Se ele responder “é 
indeterminado entre dois e vinte e três”, você provavelmente pensará que 
a indeterminação diga respeito ao critério de presença (será que 
participar por meio de uma chamada de vídeo conta como estando 
“presente”?) ao invés de dizer respeito à discrição2 de pessoas. 
A discrição entre pessoas é um fato contingente sobre (a maioria?) 
os seres humanos existentes na Terra, não um fato fundamental sobre 
a natureza de sistemas cognitivamente sofisticados, como ficará 
evidente quando considerarmos como a introspecção pode funcionar 
em entidades de grupo. Uma consequência da indiscrição de pessoas é a 
indeterminação a respeito da fronteira entre a introspecção dentro de 
uma mente e a comunicação entre mentes, que implica uma dimensão 
 
1 Tradução do texto: SCHWITZGEBEL, E.; NELSON, S. Introspection in Group Minds, Disunities of 
Consciousness, and Indiscrete Persons. Journal of Consciousness Studies, v. 30, n. 9-10, p. 188-203, 2023; 
DOI: https://doi.org/10.53765/20512201.30.9.188. Agradecemos aos autores e editores da revista pela 
autorização da publicação desta tradução. (N.T.) 
2 O termo “discreto” é usado pelo autor no sentido algébrico, isto é, referindo-se, aqui, a grandezas 
descontínuas, isto é, constituída por unidades distintas; enquanto o termo “indiscreto” atribui-se a 
grandezas contínuas, formada por unidades indistintas entre si. (N.T.)

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310  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
de variedade introspectiva além daquelas descritas por Kammerer e 
Frankish (2023). 
1. Mentes Ancilares: Percepção, Ação e Memória 
Vamos considerar um sistema cognitivo com aquilo que vamos 
chamar de estrutura ancilar, inspirada na arquitetura cognitiva 
visionada pelo romance de ficção científica de Ann Leckie (2018) Justiça 
Ancilar. Um computador sofisticado orbita um planeta. Na superfície do 
planeta há dez pelotões de vinte robôs humanoides cada. O computador 
em órbita e os robôs humanoides estão em constante comunicação via 
satélite. Sem pressupor qualquer coisa sobre as fronteiras de pessoas, 
vamos chamar o computador em órbita de Aleph e vamos chamar cada 
robô humanoide pela letra do pelotão e o número de associado, de A1 até 
J20. Para os propósitos deste artigo, vamos assumir que cognição e 
consciência muito parecidas com a humana são possíveis em 
computadores e que processos funcionais e informacionais são aquilo 
que importa para a consciência. (Se consciência requer um cérebro, 
talvez possamos imaginar que os robôs tenham cérebros orgânicos 
modificados com interfaces computacionais, o que estaria muito mais 
próximo da proposta original de Leckie).  
Se todo o processamento cognitivo ocorre em Aleph, enquanto os 
robôs são simplesmente dispositivos para entrada de dados que 
transmitem informações brutas a partir de câmeras e microfones 
diretamente para Aleph, então o sistema ancilar presumivelmente tem 
uma mente com muitos sistemas de entrada de dados distribuídos. Se, 
ao contrário, todo o processamento cognitivo ocorre nos robôs e Aleph 
é apenas um sistema de transmissão, então o sistema ancilar 
presumivelmente tem 200 mentes, cada uma em um local distinto da

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Eric Schwitzgebel; Sophie R. Nelson  •  311 
superfície do planeta. Mais interessantes são os casos intermediários. 
(Se você estiver se perguntando se poderia haver mentes robóticas 
individuais, como também uma mente de grupo, segure esse 
pensamento por enquanto.) 
Suponha, então, que processamentos substanciais ocorram em 
cada robô antes que seu sinal seja transmitido e que processamentos 
substanciais também ocorram em Aleph depois que os sinais são 
recebidos, moldando os sinais que Aleph emite de volta aos robôs. 
Novamente, os casos limites são de interesse secundário. Se os sinais 
têm relativamente pouco conteúdo e cada um deles precisa ser 
substancialmente processado antes de moldar a opinião e 
comportamento do recebedor, haverá 201 mentes (Aleph e os 200 robôs, 
todos seriam indivíduos distintos). Se os sinais são rápidos e robustos, 
com acesso direto aos centros cognitivos e motores - de forma que seja 
arbitrário dizer que alguma parte do processamento ocorre em um robô 
ou em Aleph - então haverá uma única mente distribuída pelas 201 
localizações. Esse caso é intermediário: A conectividade entre os centros 
de cognição dos robôs e Aleph é rápido, robusto e direto, mas não o 
suficiente para que a entidade ancilar constitua um caso claro de uma 
única mente unificada. 
Para melhor vislumbrar essa possibilidade, considere alguns 
processos perceptuais, motores e de memória distribuídos.  
Como poderia a percepção funcionar? Suponha que o pelotão A 
esteja examinando um campo de flores. Dezesseis membros de A, cada 
um empregando seu próprio processamento local, inicialmente 
representam as flores como sendo 50% azuis e 50% vermelhas. Quatro 
membros de A, ao contrário, inicialmente representam a mesma coleção 
de flores como sendo 70% azuis e 30% vermelhas: Aleph recebe esses 
sinais conflitantes. Talvez Aleph adote um procedimento winner-take-

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312  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
all3 e represente as flores como sendo 50% azuis. Talvez Aleph adote um 
procedimento de média ponderada e represente as flores como sendo 
50%*(16/20) + 70%*(4/20) = 54% azuis. Talvez Aleph adote graus de 
crença: um grau de crença 0,8 para a distribuição 50/50 e um grau de 
crença 0,2 para a distribuição 70/30; ou, alternativamente, um grau de 
crença 0,7 para 50/50; um grau de crença 0,2 para 60/40 e um 0,1 para 
70/30. Certamente, há muitas outras alternativas menos simples.  
As representações de Aleph - suponha, para simplificar, que Aleph 
adote um procedimento winner-take-all, representando a proporção 
como sendo 50/50 - é, então, transmitida aos pelotões. Os pelotões de B 
até J recebem essa nova informação, nunca tendo visto o campo. 
Dezesseis membros de A recebem o sinal de Aleph como confirmações 
de suas representações locais de 50/50. Quatro membros de A recebem 
o sinal de Aleph como desconfirmações. Eles podem, então, atualizar 
suas representações locais para 50/50, descartando suas representações 
iniciais. Alternativamente, eles podem adotar um meio termo entre 
suas representações iniciais e a representação recebida de Aleph: talvez 
60/40 ou talvez um grau de crença 0,5 para 70/30 e um grau de crença 
50% para 50/50. Novamente, isso apenas é o início das possibilidades. 
Mais complexidades podem ser introduzidas se as representações de 
alguns robôs merecem um peso maior em virtude de eles terem 
melhores pontos de vista ou melhores equipamentos, ou se os robôs 
podem comunicar diretamente, sem que Aleph seja um intermediário.  
Como as ações poderiam funcionar? Nós podemos imaginar, 
novamente, casos extremos: ações completamente controladas por 
Aleph, onde os robôs seriam membros passivos, ou ações 
 
3 O Winner-take-all é um princípio computacional para modelos de redes neurais, no qual múltiplos 
neurônios competem entre si por ativação; porém, apenas aquele com maior nível de estímulo é 
ativado, inibindo os demais neurônios. (N.T.)

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Eric Schwitzgebel; Sophie R. Nelson  •  313 
completamente controladas pelos robôs, onde Aleph age apenas como 
um consultor confiável. Mas os casos interessantes estão no meio desses 
extremos. Talvez os processos locais do Robô A1 formem um plano de 
ação: Colha Flor 1. Ao mesmo tempo, chega um plano de ação originado 
de Aleph: Colha Flor 2. Ao invés de assumir que o plano local sempre 
será preferível ao plano de Aleph ou vice-versa, cada plano de ação pode 
ter um peso. Se Colha Flor 1 tem peso 3,4 e Colha Flor 2 tenha peso 2,6, 
então Colha Flor 1 é preferível, independentemente de ter sido 
originado em A1 ou em Aleph, e o contrário, se os pesos forem 
invertidos. Um modelo mais complexo pode buscar um meio termo 
entre planos de ações ordenados. A1 ordena Flor 1 acima de Flor 3 acima 
de Flor 4 acima de Flor 2. Aleph ordena Flor 2 acima de Flor 3 acima de 
Flor 4 acima de Flor 1. Colha Flor 3 pode, então, emergir como a melhor 
solução. A seleção de ações pode ser automática e não consciente ou ela 
pode envolver uma ambivalência consciente, tanto em A1, quanto em 
Aleph ou da entidade ancilar como um todo, ou em uma combinação 
dessas localizações. Mais uma vez, nós apenas apontamos para algumas 
formas pelas quais o planejamento de ações pode falhar em ser 
discretamente localizado. Relações mais complicadas são possíveis em 
agentes ancilares flexivelmente construídos.  
Como a memória poderia funcionar? Para uma ação motora rápida, 
cada robô pode possuir uma autonomia substancial para memórias 
processuais básicas (e.g. como abrir frascos com amostras biológicas) e 
memória de curto prazo ou icônica (e.g. da posição exata das flores à 
medida que elas balançam ao vento). Habilidades mais complexas 
podem exigir interações complexas com Aleph, incluindo longos loops 
de retroalimentação e alguma diretriz top-down. Memórias processuais 
coordenadas - Robôs A1 e A2 executando um procedimento específico 
de colheita colaborativa, onde A1 corta as flores e A2 as ensaca -

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314  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
poderiam ser distribuídas de várias formas entre A1, A2 e Aleph. 
Memórias semânticas e episódicas convidam à mesma diversidade de 
procedimentos de resolução de conflitos que a percepção, se os robôs 
estiverem em desacordo. Memórias “externas” podem ser armazenadas 
em um compartimento que ao menos um robô tem acesso rápido e 
confiável; ou elas podem ser escritas sobre a superfície dos corpos dos 
robôs, legíveis para os outros membros do pelotão; e Aleph pode não 
possuir quaisquer meios para saber se a representação memorial do 
Pelotão A foi resgatada de um compartimento, da superfície de um 
corpo ou do armazenamento cognitivo interno de um robô, processando 
essas diferentes representações memoriais da mesma forma, 
independente da sua fonte (compare com Clark e Chalmers, 1998). 
Ao escrever e reler esse material, nós percebemos que facilmente 
acabamos concebendo Aleph e os robôs como mentes distintas em 
comunicação; e quando tentamos resistir a essa maneira de pensar, 
percebemos que facilmente substituímos essa ideia pela posição de que o 
sistema cognitivo de Aleph e dos robôs seriam subsistemas de uma mente 
única. O desafio que nós gostaríamos de propor a você é de conceber o 
sistema em nenhuma dessas duas formas ou, ao menos, não de forma 
determinante em nenhuma dessas duas formas, mas como uma arquitetura 
unificada o suficiente para constituir um caso que seja limítrofe entre 
comunicação dentro de uma mente e comunicação entre mentes.  
Para facilitar a exposição, nós assumimos que, se o número de 
mentes for determinado, ele será um ou 201. Entretanto, outras 
possibilidades incluiriam haver 202 mentes (uma para cada robô, uma 
para Aleph e uma para o sistema ancilar como um todo), ou 10 mentes 
(uma para cada pelotão), ou um grande número de mentes parcialmente 
sobrepostas (talvez uma para cada robô, uma para cada robô mais Aleph, 
uma para cada pelotão e uma para cada pelotão mais Aleph).

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Eric Schwitzgebel; Sophie R. Nelson  •  315 
Certamente, isso complica ainda mais a questão, criando novas 
oportunidades para áreas cinzentas e indeterminações.  
2. A Fronteira vaga entre Introspecção e Comunicação nas Mentes Ancilares 
Nós assumimos que introspecção é um processo por meio do qual 
alguém passa a representar sua própria mente. Necessariamente, se um 
processo tiver como objetivo representar a mente de outra pessoa, ele 
não será introspectivo (Gertler, 2000; Schwitzgebel, 2010, 2019; e, 
provavelmente, Kammerer e Frankish, 2023). Disso decorre que, se é 
indeterminado se os robôs e Aleph são mentes distintas ou subpartes de 
uma mesma mente, será algumas vezes correspondentemente 
indeterminado se as consultas de Aleph junto aos robôs constituem 
introspecção dentro de uma mente ou comunicação entre mentes. Em 
uma mente ancilar algumas atividades mentais podem ocupar uma zona 
cinzenta intermediária entre introspecção e comunicação.  
Como isso poderia funcionar? Para simplificar, nós podemos 
imaginar que Aleph tem um armazenamento local de representações que 
ele pode acessar diretamente e que cada robô, similarmente, têm um 
armazenamento local de representações que eles podem acessar 
diretamente. Nós enfatizamos a qualificação “para simplificar”: 
Autoconhecimento em seres humanos ou em sistemas cognitivos 
sofisticados como a mente ancilar provavelmente tende a envolver 
elementos substanciais “indiretos” que são reconstrutivos e inferenciais 
(Schwitzgebel, 2012; Kammerer e Frankish, 2023). Nós vamos suspender 
essa questão para focar nos possíveis processos semelhantes à 
introspecção que poderiam ocorrer entre Aleph e os robôs.  
Como descrito acima, na percepção, Aleph monitora os julgamentos 
perceptuais dos membros do pelotão (A1 representa as flores como sendo

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316  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
70% azuis, A2 as representa como sendo 70% azuis, A3 as representa como 
sendo 50% azuis, etc.). Pode ser conveniente para Aleph continuar a 
monitorar os estados representacionais dos membros do pelotão A. Por 
exemplo, suponha que A3 receba um sinal corretivo de Aleph que deveria, 
se A3 estiver funcionando adequadamente, mudar a representação que A3 
tem do campo para 60% azuis. Assumindo que as representações locais dos 
robôs contribuem de alguma forma para o seu comportamento, o 
comportamento de A3 será diferente do comportamento dos robôs que 
representam as flores como sendo 70% azuis. Mas talvez haja algum ruído 
no processo de correção, ou talvez Aleph não tenha recolhido todos os 
fatos para possibilitar uma predição, ou talvez as representações de A3 
também sejam corrigidas diretamente pelos sinais dos outros membros do 
pelotão A, ou talvez haja uma possibilidade de mal funcionamento. O 
sistema Aleph pode, então, comparar sua predição sobre as representações 
de A3 com um sinal confirmatório de A3.  
Seguindo o diagrama PID de Kammerer e Frankish (2023), o processo 
pelo qual Aleph rastreia as representações de A3 pode ser relativamente 
direto - um simples acionamento de uma representação A3-representa-
60% quando A3 atualiza sua representação perceptual para 60% - ou a 
representação pode envolver um processo inferencial complexo. Ele pode 
ser bastante conceitualizado - “A3 representa 60% das flores azuis” - ou 
ele pode ser menos conceitual, quase analógico, como um mapa detalhado 
dos estados perceptuais de A3 sem rótulos interpretativos de nível 
superior. Ele pode ser flexível - acionado e implementado quando 
necessário, empregando diferentes tipos de inferências e correções 
dependendo da situação - ou ele pode ser inflexível e automático, surgindo 
sob condições pré-especificadas. Se Aleph e os robôs constituem um 
número indeterminado de mentes, então esses processos são 
indeterminados entre comunicação e introspecção. Kammerer e Frankish

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Eric Schwitzgebel; Sophie R. Nelson  •  317 
podem, portanto, considerar acrescentar outra dimensão para sua 
descrição de variedades de introspecção: uma dimensão correspondente 
ao fato de o processo mirar a própria mente da pessoa (introspectivo) ou a 
mente de outro (não-introspectivo), com uma variedade de casos 
intermediários mais próximos ou distantes dos processos canonicamente 
introspectivos ou não-introspectivos. 
Se nós assumimos que algumas configurações do sistema ancilar 
geram uma existência determinada e genuína tanto de uma mente 
sistêmica e também de mentes individuais para Aleph e cada um dos robôs, 
outra possibilidade se apresenta: introspecção no nível do sistema que é 
implementada pela comunicação entre mentes no nível individual dos 
robôs. Por exemplo, em resposta a uma pesquisa de Aleph (uma mente 
individual), os robôs do pelotão A (também mentes individuais) podem, 
cada um deles, comunicar suas representações das flores e essas repostas 
podem contribuir para a representação sistêmica, não apenas em Aleph, 
mas também na cognição da mente ancilar como um todo, na forma “75% 
da minha cognição do pelotão A representa o campo como 70% azul e 25% 
da minha cognição do pelotão A representa o campo como 60% azul.” 
Então, representar desacordos entre suas mentes constitutivas pode ser 
uma parte importante da tarefa introspectiva do sistema mais amplo. 
(Talvez esse desacordo seja sentido como uma ambivalência.) Portanto, 
uma entidade com uma mente que contenha outras mentes como partes 
pode introspectar seus próprios estados mentais por meios de 
comunicações verbais entre as mentes que ela contém.  
3. A Indistinção de Algumas Mentes Ancilares 
Até agora, nós assumimos que o leitor aceite que é possível criar 
um sistema ancilar que tenha um número indeterminado de mentes.

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318  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
Nós acreditamos que essa estipulação tem alguma plausibilidade inicial 
se alguém aceita que interconectividade informacional (de algum tipo 
ou outro) é a base para a individuação de mentes e vem em graus. 
Conecte dois sistemas cognitivos de forma suficientemente estreita (de 
forma correta) e você terá uma única mente. Separe-os o suficiente, e 
você terá duas mentes. Plausivelmente, alguém poderia construir uma 
série sorites de combinações de mentes (Roelofs, 2019): Comece com um 
caso paradigmático de duas mentes distintas. Conecte-as juntas 
vagarosamente, pouco a pouco, até que no fim estejamos diante de um 
caso paradigmático de uma única mente. Em algum momento 
intermediário, parece, devem haver casos limítrofes, indeterminados 
entre uma ou duas mentes. Até que haja um argumento contrário, seria 
surpreendente se existisse uma linha clara em um ponto exato, tal que 
com um pouco mais de conectividade, qualquer sistema ancilar mudaria 
drasticamente, sem casos limítrofes, de um sistema de 201 mentes para 
um sistema com uma mente (ao menos se alguém aceita uma teoria da 
vaguidade não-epistêmica, que aceita a indeterminação).  
Essa questão diz respeito não somente às mentes, mas também às 
pessoas, a partir do princípio de que, em geral, para sistemas 
cognitivamente sofisticados parecidos com o de humanos, o número de 
mentes é igual ao número de pessoas (entretanto, veja Schechter, 2018). 
Uma razão pela qual nos importamos e devemos nos importar com as 
fronteiras entre as mentes é que nos importamos com as fronteiras 
entre pessoas: Quantas pessoas morrerão caso o sistema ancilar seja 
destruído? Se uma promessa for feita pela boca de A3, quem está 
fazendo a promessa - apenas A3 ou o sistema ancilar como um todo? Se 
A3 se joga em um vulcão depois de instruções de Aleph, isso seria um 
caso de uma pessoa cometendo suicídio pelo comando de outra ou seria 
mais parecido com o caso de uma única pessoa que decide sacrificar um

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Eric Schwitzgebel; Sophie R. Nelson  •  319 
membro? O que pensamos sobre essas questões a respeito de pessoas 
plausivelmente afeta como nós pensamos sobre a individuação de 
mentes, de forma que indeterminação sobre a individualização da 
mente implica indeterminação sobre a individuação de pessoas. 
Se aceitamos a configuração funcionalista a partir da qual o grau 
de conectividade é a base da individuação de mentes e de pessoas, casos 
sorites parecem possíveis e a indeterminação parece ser uma 
consequência. Além disso, o tipo de indeterminação é curiosamente 
diferente de casos humanos ordinários como, por exemplo, uma pessoa 
morrendo lentamente, se transformando de uma mente ou uma pessoa 
para zero. Em mentes ancilares, o sistema pode ser determinadamente 
pelo menos uma pessoa, embora seja um número indeterminado de 
pessoas.  
Nós vemos três fontes principais de resistência a essa ideia, que 
chamaremos de a Visão do Corpo, a Visão da Transição de Fase (veja 
também Schwitzgebel, 2023) e o Realismo Fenomênico Discreto. De 
acordo com a Visão do Corpo, nós contamos pessoas ao contar corpos. 
Na mente ancilar, cada robô tem um corpo. Aleph tem um corpo 
(provavelmente). Portanto, 201 pessoas existem, independentemente 
das conexões cognitivas entre elas. Note que a Visão do Corpo pode 
admitir pessoas indiscretas, o número de corpos pode ser 
indeterminado. Mas nós não discutiremos a Visão do Corpo mais 
profundamente. Em vez disso, vamos simplesmente assumir sua 
falsidade; nosso interesse é em pessoas enquanto entidades cognitivas. 
Meras lacunas no espaço ou na forma, que possam ser atravessadas sem 
demora significativa por conta da velocidade da luz, são irrelevantes 
para a individuação de pessoas no sentido que nos interessa (veja 
também Dennett, 1978; Parfit, 1984; Schwitzgebel, 2015).

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320  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
A Visão da Transição de Fase observa que, algumas vezes, 
transições de fase repentinas interrompem o que poderia parecer um 
ser contínuo. A água esfria e continua esfriando, sem muitas alterações, 
até que, de repente, a 0,0 ºC, ela se torna gelo. Uma viga vai se 
deformando com o aumento do peso, se deformando um pouco mais a 
cada grama acrescentada, até que, de repente, se quebra. Depois da 
transição, muita coisa é diferente. Você pode colocar uma moeda sobre 
o gelo. Você pode sacudir uma ponta da viga, sem sacudir a outra.  
De modo similar, é possível, ao menos em princípio, que algo 
parecido pudesse acontecer no sistema ancilar. Integre-o lentamente, 
um pouco de cada vez, e, de repente, em algum ponto, com um 
pouquinho mais de integração, ele se altera radicalmente. Processos que 
operavam de uma forma, agora operam de outra maneira. Os processos 
que constituem percepção, memória, ação e introspecção mudam 
radicalmente em um piscar de olhos deixando de seguir um tipo de 
padrão, o padrão de 201 pessoas, para seguir um padrão muito diferente, 
o padrão de uma pessoa. Para contar como uma transição de fase 
apropriada, deve haver uma mudança substancial no funcionamento do 
sistema como um todo, não basta apenas ser uma mudança repentina, 
como a mudança de um tom de verde para um tom ligeiramente 
diferente não tão verde assim. Somente uma mudança repentina e 
substancial cria uma fronteira significativa entre as operações 
funcionais do caso de uma pessoa e do caso de 201 pessoas, em vez de 
uma nomeação diferente arbitrária ou semi-arbitrária de casos muito 
próximos. Com um pouquinho mais de integração, o sistema deve cair 
em um local muito diferente, como o pequeno toque de uma bola de 
basquete no aro faz com que ela caia dentro, ao invés de fora, da cesta, 
com todas as diferentes consequências causais que se seguem.

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Eric Schwitzgebel; Sophie R. Nelson  •  321 
A Visão da Transição de Fase não é estritamente impossível. 
Entretanto, parece não existir razão para supor que sempre haveria tais 
transições de fases funcionais repentinas no curso da integração, muito 
menos que quaisquer transições de fase que existam devem se alinhar 
exatamente com as fronteiras apropriadas entre os casos de uma pessoa 
e de 201 pessoas, e ainda menos que todas as formas possíveis de 
construir o sistema ancilar teriam transições de fase bem definidas 
exatamente nos lugares apropriados. Além disso, se um defensor da 
Visão da Transição de Fase sustenta que não pode haver casos 
indeterminados, mesmo que por um instante, ele enfrenta o problema 
de que transições bem definidas que não admitem quaisquer casos 
limítrofes são raros entre as entidades macroscópicas da natureza. Por 
essas razões, na ausência de argumentos adicionais, a Visão da 
Transição de Fase parece ser empiricamente implausível.  
Alguém poderia se esquivar do risco empírico ao aceitar a 
possibilidade de uma mudança metafísica bem definida sobre uma 
gradação suave em casos funcionalmente similares, de forma que casos 
muito próximos em uma série sorites que diferem somente por um 
único pedacinho de conectividade - sem a derivação de grandes 
diferenças funcionais - pode, ainda assim, ser determinantemente e 
claramente diferente no que diz respeito ao número de pessoas. O caso 
N é determinantemente bem definido como tendo 201 pessoas; o caso 
N+1, empiricamente quase indistinguível, determinantemente tem uma 
pessoa, e não existem casos intermediários.  
Talvez a versão mais atraente dessa posição seja o Realismo 
Fenomenal Discreto, de acordo com a qual, sobre todos os processos 
representacionais, informacionais e cognitivos descritos nas seções 1 e 2, 
existem alguns fatos fenomênicos simples a respeito da pessoalidade ou 
subjetividade. Esses fatos fenomênicos podem ser adicionais, fatos não

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322  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
físicos (como no dualismo de propriedades) ou eles podem ser fatos físicos 
fundados no sistema físico do ancilar. Essa proposta é plausível, ao menos 
em parte, devido à atratividade de tratar a fenomenalidade, a 
subjetividade ou o “como é ser” como necessariamente discreta, sem 
casos indeterminados, fronteiriços (Antony, 2008; Goff, 2013; Simon, 
2017; no entanto, veja Schwitzgebel, 2023 para um contra-argumento). Ou 
há algo como é ser o Robô A1, e o Robô A2, e o Robô A3, e assim por diante, 
gerando um total de 201 sistemas dos quais é correto dizer que há algo 
como é ser cada um deles - caso no qual haverá 201 pessoas, ou, ao menos, 
201 centros subjetivos de experiências - ou não há nada como é ser esses 
sistemas e, ao invés disso, há algo como é ser o sistema ancilar como um 
todo - caso no qual há apenas uma pessoa ou centro subjetivo de 
experiências. Ou há uma coisa que é como é ser o todo, ou há muitas coisas 
que são como é ser as partes. A qualidade de “uma coisa como é ser” não 
pode ocorrer um número indeterminado de vezes. Fenomenalidade ou 
subjetividade deve ter contornos bem definidos, segundo se pensa, 
mesmo se os processos funcionais correspondentes tivessem uma 
gradação suave.  
O Realismo Fenomenal Discreto também se encaixa com a proposta 
da unidade da consciência de Bayne (2010) e com abordagens 
“fenomenalistas” da introspecção descritas por Kammerer e Frankish 
(2023). Imagine um local de consciência no qual os estados experienciais 
α, β, γ, e δ ocorrem, tal que cada estado é introspeccionável pelo mesmo 
sujeito, Sujeito 1. Um segundo local de consciência hospeda os estados 
experienciais ε, ζ, η e θ, todos introspeccionáveis pelo Sujeito 2. Um 
terceiro local hospeda ι, λ, μ e ν, introspeccionáveis pelo Sujeito 3. 
Nenhum sujeito pode introspectar quaisquer dos estados que são 
introspeccionáveis por qualquer outro sujeito e não há estados 
experienciais flutuantes independentes de um sujeito. Relações de

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Eric Schwitzgebel; Sophie R. Nelson  •  323 
“coocorrência” fenomênica são similarmente simples: Há um estado 
unificado no qual α, β, γ e δ ocorrem conjuntamente (da forma que suas 
experiências simultâneas de sons da música, gosto da cerveja e visão da 
banda coocorrem fenomenologicamente em um show); outro estado 
unificado no qual ε, ζ, η e θ coocorrem (assim como as experiências 
similares do seu amigo no show coocorrem em seu amigo, mas não em 
você); um terceiro no qual ι, λ, μ e ν coocorrem; e nenhuma relação de 
coocorrência de qualquer outro tipo (e.g., de α, ε e ι). Conte os sujeitos 
introspectivos ou locais de coocorrência fenomênica mútuas. Esse é o 
número de pessoas. O resultado será sempre um número inteiro.  
O Realismo Fenomenal Discreto não pode estar certo se, como 
Kammerer e Frankish afirmam, ilusionismo sobre consciência 
fenomênica 
é 
verdadeiro. 
O 
Realismo 
Fenomenal 
Discreto 
presumivelmente requer realismo fenomênico. Mas até mesmo para 
não-ilusionistas, essa proposta enfrenta dois problemas.  
Primeiro, ele postula, de forma deselegante, linhas ontológicas 
bem definidas sobre contínuos subjacentes difusos. Se o Realismo 
Fenomenal Discreto rejeita a Visão da Transição de Fase, então sistemas 
ancilares podem ser muito similares uns aos outros em todos os 
aspectos representacionais, informacionais e comportamentais e, ainda 
assim, serem radicalmente diferentes em suas relações de coocorrência 
introspectiva e fenomênica - um sistema abriga 201 fluxos de 
experiência separados, por exemplo, e o outro abriga somente um fluxo. 
Dada 
a 
sua 
similaridade 
representacional, 
informacional 
e 
comportamental, esses sistemas vão parecer virtualmente o mesmo 
quando vistos de fora e os robôs, Aleph e o sistema como um todo vão 
produzir virtualmente as mesmas saídas quando consultados sobre seus 
estados mentais. Não haverá o anúncio de uma experiência, similar à da 
transição de fase, de uma unidade repentina assim como não haverá um

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324  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
“Ah! Eu me dividi em 201 partes! Me ajude, me ajude!” Adicione ou 
subtraia um pouquinho de conectividade e o sistema salta sobre o golfo 
de uma para 201 mentes e retorna novamente sem qualquer mudança 
psicológica significativa. Portanto, essa proposta estranhamente 
desassocia consciência de psicologia (compare com a crítica ao 
pampsiquismo em Frankish, 2021).  
Segundo, o Realista Fenomenal Discreto terá dificuldades para 
acomodar casos de aparente sobreposição experiencial parcial. 
Modificando de alguma maneira a estrutura ancilar, suponha que o robô 
A1 e o robô A2 compartilhem muito de seus circuitos em comum. Entre 
eles paira uma caixa na qual a maior parte de sua cognição acontece. 
Talvez a caixa esteja conectada por cabos de alta-velocidade a cada um 
dos corpos, ou talvez, em vez disso, a informação flua através de conexões 
de rádio de banda larga. De qualquer modo, os processos cognitivos na 
caixa suspensa estão fortemente integrados cognitivamente com os 
corpos de A1 e A2 e os restantes de suas mentes - tão intimamente 
conectados quanto são em casos comuns de mentes unificadas. Embora a 
maior parte de sua cognição aconteça dentro da caixa, alguma cognição 
também ocorre no corpo individual de cada robô e não é partilhada pelo 
outro robô. Suponha, então, que o robô A1 tem uma experiência com um 
caráter qualitativo α (fundada nos processadores locais de A1), além de 
experiências com os caracteres qualitativos β, γ, e δ (fundadas na caixa), 
enquanto A2 tem experiências com caracteres qualitativos β, γ, e δ 
(fundadas na caixa), além de uma experiência com caráter qualitativo ε 
(fundada nos processadores locais de A2). Se a indeterminação relativa ao 
número de mentes é possível, talvez este não seja um sistema com um 
número inteiro de mentes. No entanto, o Realista Fenomenal Discreto, 
deve atribuir um número determinado de mentes e precisará atribuir 
sentido ao caso de um modo diferente.

## Page 326

Eric Schwitzgebel; Sophie R. Nelson  •  325 
Do nosso ponto de vista, os Realistas Fenomenais Discretos têm 
três opções principais: Impossibilidade, Partilha e Similaridade. De 
acordo com a Impossibilidade, a configuração é impossível. No entanto, 
não está claro por que uma configuração desse tipo deveria ser 
impossível, e, na ausência de um argumento mais robusto, essa opção 
pode ser descartada. De acordo com a Partilha, duas mentes 
determinadamente distintas compartilham as mesmas instâncias 
fenomenais das mesmas experiências com propriedades qualitativas, 
como β, γ e δ. De acordo com a Similaridade, duas mentes 
determinadamente distintas têm experiências com caracteres 
qualitativos β, γ e δ, mas essas experiências não são as mesmas 
instâncias fenomenais: as experiências β1, γ1 e δ1 de A1 são 
qualitativamente idênticas, mas não quantitativamente idênticas, às 
experiências β2, γ2 e δ2 de A2. Um desafio inicial para a Partilha é que 
ela parece violar a visão padrão de que as relações de coocorrência 
fenomênicas são transitivas (de maneira que, se α e β coocorrem 
fenomenicamente, e β e ε também coocorrem fenomenicamente, então 
o mesmo acontece a α e ε). Um desafio inicial para a Similaridade é a 
duplicação peculiar de instâncias experienciais. Como a caixa está 
conectada tanto a A1 quanto a A2, os processos que dão origem a β, γ e 
δ resultariam em duas instâncias de cada tipo de experiência, enquanto 
os mesmos processos presumivelmente dariam origem a apenas uma 
instância se a caixa estivesse conectada apenas a A1. 
Para tornar as coisas mais desafiadoras para o Realista Fenomenal 
Discreto que pretende aceitar a Partilha ou à Similaridade, imagine que 
há um interruptor que desligará os processos em A1 e A2 responsáveis por 
gerar as experiências α e ε, resultando nas experiências fenomênicas 
totais de A1 e A2 tendo características qualitativas idênticas. Acionar o

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326  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
interruptor ou colapsará A1 e A2 em uma única mente, ou não. Isso leva a 
um dilema tanto para a Partilha quanto para a Similaridade. 
Se o defensor da Partilha sustenta que as mentes colapsam, então ele 
deve admitir que uma mudança relativamente pequena no campo 
fenomênico pode resultar em uma reconfiguração radical do número de 
mentes. O ponto pode ser tornado ainda mais dramático se aumentar o 
número de experiências na caixa e o número de robôs conectados a ela. 
Suponha que os 200 robôs tenham cada um 999.999 experiências 
originadas da caixa partilhada, e apenas uma experiência que seja 
qualitativamente única e localizada – talvez um círculo quase 
imperceptível na periferia visual esquerda de A1, um quadrado quase 
imperceptível na periferia visual direita de A2, etc. Se um brincalhão 
decidisse alternar o interruptor para frente e para trás repetidamente, na 
versão colapsante da Partilha, o sistema alternaria repetidamente entre 
ser 200 mentes e ser uma única mente, com quase nenhuma diferença na 
fenomenologia. Se, no entanto, o defensor da Partilha sustenta que as 
mentes não colapsam, ele deve admitir que múltiplas mentes distintas 
poderiam ter instancias fenomenais idênticas e fundadas nos mesmos 
processadores cognitivos. Essa visão levanta a questão sobre a base 
ontológica da individuação das mentes; em algumas concepções de 
sujeito, essa visão pode não ser sequer coerente. Parece postular sujeitos 
com diferenças metafísicas, mas não fenomenológicas, o que contraria o 
espírito geral do realismo fenomenal sobre as mentes. 
O defensor da Similaridade enfrenta problemas análogos. Se ele 
sustenta que o número de mentes colapsa para um, então, tal como o 
defensor da Partilha, ele deve permitir que uma mudança relativamente 
pequena no campo fenomênico possa resultar em uma mudança radical 
no número de mentes. Além disso, deve permitir que experiências 
distintas, meramente idênticas em termos de tipo, se tornem, de

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Eric Schwitzgebel; Sophie R. Nelson  •  327 
alguma forma, uma mesma experiência quando se liga um interruptor 
que praticamente não altera a fenomenologia do sistema. Mas se 
sustenta não haver colapso, então depara-se com a possibilidade 
incomoda de existirem múltiplas mentes distintas com experiências 
qualitativamente idênticas, mas numericamente distintas, resultantes 
dos mesmos processadores cognitivos. Isto parece ser uma inflação 
fenomenal ontologicamente não-parcimoniosa. 
Para recapitular: Se aceitarmos que a individuação de mentes e 
pessoas está fundada sobre fatos acerca da interconexão funcional que 
podem, em princípio, ser organizados numa série de sorites com 
indeterminação no meio, então somos forçados a uma de duas opções: 
Ou aceitamos que o número de mentes e pessoas pode ser 
indeterminado, ou insistimos numa linha metafísica clara apesar da 
hipotética possibilidade de construção de uma série de sorites. A 
segunda opção divide-se em duas sub-opções: Se houver uma linha 
metafísica clara, ela pode ou não envolver uma grande diferença 
funcional. Se envolver uma grande diferença funcional (a Visão da 
Transição de Fase), então as configurações intermediárias na série de 
sorites devem ser funcionalmente instáveis, colapsando rapidamente 
em 
configurações 
mente/pessoa 
funcionalmente 
distintas 
e 
discretamente contáveis. Parece haver poucas razões para pensar, 
empiricamente, que isto tem de ser assim. Se não envolver uma grande 
diferença funcional, então parece que a melhor opção é o Realismo 
Fenomenal Discreto. Mas o Realismo Fenomenal Discreto parece exigir 
linhas metafísicas estranhamente claras na ausência de grandes 
diferenças funcionais. Além disso, diferentes variações do Realismo 
Fenomenal Discreto parecem enfrentar sérios problemas para explicar 
a possibilidade de similaridade qualitativa entre mentes.

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328  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
4. De volta à Terra: Países, Personalidade Múltipla, Casos de Cérebro 
Dividido e Gêmeos Craniópagos 
Se estamos dispostos a abandonar a contabilidade discreta e 
aceitar a possibilidade de processos mentais semelhantes à introspeção 
para casos não convencionais da ficção científica, então talvez 
tenhamos que fazê-lo também para alguns casos na Terra. 
Em outro trabalho (Schwitzgebel 2015), um de nós argumentou que 
não é absurdo pensar que os Estados Unidos, concebido como uma 
entidade concreta com pessoas como partes, literalmente possui um 
fluxo de consciência além das experiências dos cidadãos e residentes 
que o constituem. Essa entidade representa, metarrepresenta, envolve-
se em processamento de informações massivas e complexas e responde 
de maneira inteligente ao seu ambiente. Uma preocupação em relação a 
esse ponto de vista é que, se aceitarmos que os Estados Unidos estão 
conscientes, também teremos que aceitar que Luxemburgo e a Microsoft 
Corporation estão conscientes; e se aceitarmos que Luxemburgo e a 
Microsoft Corporation são conscientes, também teremos que aceitar 
que Delaware e a Universidade da Califórnia, Riverside são conscientes; 
e assim por diante, até uma posição ainda mais aparentemente absurda 
do que a ideia de que os Estados Unidos está consciente. Se a consciência 
não é uma questão de tudo ou nada e as entidades conscientes nem 
sempre precisam ser discretas e contáveis, então talvez a consciência 
desapareça gradualmente, em vez de repentinamente, à medida que as 
entidades de grupo se tornam menos parecidas com uma mente única e 
interconectada. Se as mentes conscientes podem estar presentes, mas 
indiscretas, em sistemas auxiliares hipotéticos, então talvez elas 
possam estar presentes, mas indiscretas, em grupos realmente 
existentes na Terra.

## Page 330

Eric Schwitzgebel; Sophie R. Nelson  •  329 
Alguns casos humanos também podem envolver indeterminação 
em relação ao número de mentes e pessoas, bem como na presença de 
introspecção versus comunicação. Casos problemáticos bem conhecidos 
incluem Transtorno Dissociativo de Identidade ou Personalidade 
Múltipla (Braude 1995; Radden 1996; Maiese 2016), casos de cérebro 
dividido (Schechter 2018), gêmeos craniópagos com regiões cerebrais 
sobrepostas (Cochrane 2021) e talvez alguns animais não humanos, 
como o polvo, com processamento cognitivo substancialmente 
desunificado (Godfrey-Smith 2016). Diante dos gêmeos Hogan, ou de 
Jekyll-Hyde, a resposta correta para o número de mentes ou pessoas 
pode não ser nem um nem dois, mas algo indeterminado entre eles. Os 
gêmeos Hogan e Jekyll-Hyde podem às vezes se envolver em cognição 
que não é nem determinantemente introspeção dentro de uma mente 
nem determinantemente comunicação entre duas mentes. Se 
aceitarmos isto, então talvez até as mentes típicas sejam menos 
discretamente individuadas do que tendemos a pensar. Talvez sejamos 
todos um pouco imprecisamente delimitados, desunidos e plurais.4 
Referências 
ANTONY, Michael. Vagueness and the metaphysics of consciousness. Philosophical 
Studies, 128, 515-538, 2006.  
BAYNE, Tim. The unity of consciousness. Oxford University Press, 2010  
BRAUDE, Stephen. First person plural. Rowman & Littleeld, 1995.  
CLARK, Andy; CHALMERS, David. The extended mind. Analysis, 58, 7-19, 1998.  
 
4 Agradecemos a Rotem Herrmann pelas considerações sobre memória em sistemas ancilares (veja 
também Schwitzgebel e Herrmann, 2016) e a Nichi Yes pelas reflexões sobre identidade pessoal em 
Transtorno Dissociativo de Identidade. Por comentários úteis sobre o manuscrito, agradecemos a Brice 
Bantegnie, Tim Bayne, Rotem Herrmann, François Kammerer e Luke Roelofs.

## Page 331

330  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
COCHRANE, Tom. A case of shared consciousness. Synthese, 199, 1019-1037, 2021.  
DENNETT, Daniel C. Where am I? In D.C. DENNETT, Brainstorms, MIT Press, 1978. 
FRANKISH, Keith. Panpsychism and the depsychologization of consciousness. 
Aristotelian Society Supplementary Volume, 95, 51-70, 2021.  
GERTLER, Brie. The mechanics of self-knowledge. Philosophical Topics, 28 (2), 125-146, 
2000.  
GODFREY-SMITH, Peter. Other minds. Farrar, Straus and Giroux, 2016.  
GOFF, Philip. Orthodox property dualism + the Linguistic Theory of Vagueness = 
Panpsychism. In R. BROWN, ed., Consciousness inside and out. Springer, 2013. 
KAMMERER, François; FRANKISH, Keith. What Forms Could Introspective Systems 
Take? A Research Programme. Journal of Consciousness Studies, v. 30, n. 9-10, p. 13-
48, 2023. 
LECKIE, Ann. Justiça Ancilar. São Paulo: Aleph, 2018. 
MAIESE, Michelle. Embodied selves and divided minds. Oxford University Press, 2016.  
PARFIT, Derek. Reasons and persons. Oxford University Press, 1984.  
RADDEN, Jennifer. Divided minds and successive selves. MIT Press, 1996.  
ROELOFS, Luke. Combining minds. Oxford University Press, 2019.  
SCHECHTER, Elizabeth. Self-consciousness and “split” brains. Oxford University Press, 
2018.  
SCHWITZGEBEL, Eric. Introspection. Stanford Encyclopedia of Philosophy, 2019.  
SCHWITZGEBEL, Eric. Introspection, what? In. D. SMITHIES and D. STOLJAR, eds., 
Introspection and consciousness. Oxford University Press, 2012  
SCHWITZGEBEL, Eric. If materialism is true, the United States is probably 
consciousness. Philosophical Studies, 172, 1697-1721, 2015.

## Page 332

Eric Schwitzgebel; Sophie R. Nelson  •  331 
SCHWITZGEBEL, Eric. Borderline consciousness, when it’s neither determinately true nor 
determinately 
false 
that 
experience 
is 
present, 
2023. 
Disponível 
em: 
http://faculty.ucr.edu/~eschwitz/SchwitzAbs/BorderlineConsciousness.htm.  
SCHWITZGEBEL, Eric; HERRMANN, Rotem. Possible architectures of group minds: 
Memory. Blog post at The Splintered Mind (Jun 14), 2016. https://schwitzsplinters. 
blogspot.com/2016/06/possible-architectures-of-group-minds.html.  
SIMON, Jonathan. Vagueness and zombies: Why ‘phenomenally conscious’ has no 
borderline cases. Philosophical Studies, 174, 2105–2123, 2017.

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RELAÇÃO DE AUTORES 
 
 
Anderson Luiz do Vale Fonseca - Doutorando na Filosofia pela 
Universidade Federal do Ceará. Mestre em Filosofia pela Universidade 
Federal de São João del-Rei.  
 
Aryel C. Goes – Doutorando em Evolução, Ecologia e Biologia Organismal 
na Universidade Estadual de Ohio. Mestre em Biologia Celular, Molecular 
e Microbiologia pela Universidade Estadual Paulista – Rio Claro. 
 
Daniel Friedman – Membro da Diretoria do Instituto de Inferência Ativa. 
Doutor em Biologia pela Universidade Stanford.  
 
Eric Schwitzgebel – Professor de Filosofia na Universidade da Califórnia – 
Riverside. Doutor em Filosofia pela Universidade da Califórnia – Berkeley. 
 
José Carlos Camillo - Doutorando em filosofia na Universidade Federal 
de Goiás e Doutorando Visitante na Ruhr-Universität Bochum. Bolsista 
da FAPEG e do DAAD. Mestre em Filosofia pela Universidade Federal de 
Mato Grosso.  
 
Luiz Paulo Da Cas Cichoski - Professor de Filosofia na Universidade 
Federal de Mato Grosso. Doutor em Filosofia pela Pontifícia 
Universidade Católica do Rio Grande do Sul. 
 
Luke Roelofs – Professor de Filosofia na Universidade do Texas – 
Arlington. Doutor em Filosofia pela Universidade de Toronto.

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334  •  As colônias de formigas são conscientes? Mentes coletivas e implicações filosóficas 
 
Maria Luiza Iennaco – Doutoranda em Filosofia na Universidade de São 
Paulo. Mestre em Filosofia pela Universidade de São Paulo. 
 
Robert Rupert – Professor de Filosofia na Universidade do Colorado – 
Boulder. Doutor em Filosofia pela Universidade de Illinois – Chicago. 
 
Sophie Nelson - Doutoranda em Filosofia na Universidade de Nova York. 
Bacharel em Filosofia e Psicologia pela Universidade Oberlin. 
 
Valdenor Monteiro Brito Júnior - Professor Substituto de Filosofia na 
Universidade Federal do Paraná. Doutor em Filosofia pela Universidade 
Federal de Santa Catarina.

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